






Cruz de Morrigan

(1 Livro da Trilogia do Crculo)
Disponibilizao em esp: arquivo sem crditos
Envio: Mariana Ferri
Traduo: YGMR
Reviso: Adma
Reviso Final e Formatao: Sarah Gomes
Projeto Revisoras Tradues


Cruz de Morrigan
Nora Roberts
Livro I da Trilogia do Crculo


















   ARGUMENTO:
   
   
   Nos ltimos dias do vero irlands do sec. XII, quando o cu se obscureceu e se encheu de relmpagos, o feiticeiro contemplava o turbulento mar em cima do escarpado.
   Elevando seu grito de pena para a tormenta, Hoyt Mac Cionaoith clama contra o ser demonaco que levou seu irmo gmeo, separando-o de sua famlia. Esse cruel 
ser  Lilith. Durante milhares de anos, atraiu com seus enganos incontveis homens condenando-os  imortalidade com seu beijo e lhes roubando a alma. Mas agora, 
esta poderosa vampiresa far o que seja para governar o mundo.
   E nesse dia, embora Hoyt no encontre  escura sereia que procurava, receber a ajuda da deusa Morrigan que lhe outorgar os poderes necessrios para cumprir 
sua ansiada vingana. Em troca, deve encontrar outros cinco companheiros para formar um crculo suficientemente poderoso para destruir Lilith e seu batalho do mal. 
Um crculo com seis membros: ele mesmo, a bruxa, o guerreiro, o sbio, aquele que adota vrias formas, e aquele que perdeu.
   Agora, viajando a Nova Iorque de nossos dias, onde topar com seu gmeo, agora vampiro, Cian, e Glenna, uma bela bruxa. Dois guerreiros mais, Moira e Larkin, 
se uniro em sua luta.
   E enquanto a paixo surge entre Hoyt e Glenna, os inimigos ressurgiro de entre as sombras e o Crculo de Seis, dever preparar-se para o momento decisivo de 
sua confrontao com Lilith.







      Este  um trabalho de fico. Todos os nomes, caracteres, lugares, e incidentes so produto da imaginao do autor ou so usados ficticiamente, e qualquer 
semelhana com pessoas atuais, vivas ou mortas, estabelecimentos comerciais, acontecimentos, ou lugares  completa coincidncia. 



                                      
                                                     
                                                  


A meus irmos,
Jim, Buz, Don e Bill










 S os valentes merecem o justo.
 DRYDEN





Acabemos, Senhora: o luminoso dia terminou,
E estamos destinados  escurido.
Shakespeare

     
      Prlogo
          
      A chuva foi o que lhe fez pensar na histria. Suas rajadas batiam nas janelas, tomavam por assalto os telhados e sopravam seu flego amargo por debaixo das 
portas.
      A umidade lhe doa nos ossos apesar de estar sentado frente ao fogo. A idade se deixava sentir pesadamente sobre seu corpo nas longas e chuvosas noites do 
outono, e sabia que o notaria ainda mais quando chegasse o escuro inverno.
      As crianas estavam ali com ele, aconchegadas no cho, ou apinhadas dois ou trs juntos nas poltronas. Olhavam-no espectadores porque tinha prometido lhes 
contar uma histria que os ajudasse a combater o aborrecimento de um dia tormentoso.
      No tinha tido inteno de lhes contar essa histria, ainda no, porque alguns deles eram muito pequenos, e a histria distava muito de ser tenra. Mas a chuva 
lhe falava ao ouvido, sussurrando as palavras que ainda no tinha pronunciado.
      Inclusive um narrador de contos, sobre tudo possivelmente um narrador de contos, tinha que escutar.
      -Conheo uma histria - comeou a dizer, e vrias das crianas se agitaram ligeiramente, antecipando o que viria a seguir-.  uma histria que fala de coragem 
e covardia, de sangue e morte, e da vida. De amor e de perda.
      -H monstros? -perguntou um dos menores, com seus olhos azuis muito abertos com uma mescla de alegria e temor.
      -Sempre h monstros -Respondeu o homem mais velho -. Do mesmo modo que sempre h homens que se uniro a eles, e homens que lutaro contra eles.
      -E mulheres! -exclamou uma das meninas mais velhas, lhe provocando um sorriso.
      -E mulheres. Valentes e fiis, tortuosas e mortferas. Conheci ambos os tipos em minha poca. Agora bem, esta histria que vou contar ocorreu faz muito tempo. 
Tem muitos comeos, mas um s final.
      Enquanto o vento uivava fora da casa, o velho bebeu um pouco de ch para esclarecer a garganta. As lenhas crepitaram na lareira e o brilho do fogo iluminou 
seu rosto com um resplendor de sangue dourado.
      -Este  um dos comeos. Nos ltimos dias do vero, com os relmpagos arrancando brilhos azuis em um cu negro, o feiticeiro se encontrava no alto de um escarpado, 
contemplando o mar turbulento a seus ps.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 1
      
      Eire, regio do Chiarrai, 1128
      
      Havia uma tormenta em seu interior, to negra e selvagem como a que se abatia nesse momento sobre o mar. Estalava no caudal de seu sangue, no ar que o rodeava, 
lutando dentro e fora enquanto ele permanecia de p sobre aquela rocha banhada pela chuva.
      O nome de sua tormenta era aflio.
      Era esse sentimento que se via em seus olhos, to azuis e intrpidos como os relmpagos que iluminavam o cu, enquanto a raiva escapava das pontas de seus 
dedos, lnguas vermelhas que separavam o ar com troves que ressonavam como os disparos de mil canhes.
      Elevou seu cajado para o cu e pronunciou a gritos as palavras mgicas. Os relmpagos vermelhos de sua fria e o azul amargo da chuva chocaram por cima de 
sua cabea em uma guerra que fez que corressem a refugiar-se em cabanas e cavernas aqueles que podiam v-la, fechando a sete chaves portas e janelas, abraando seus 
filhos, trmulos e aterrados, enquanto elevavam suas preces aos deuses de sua preferncia.
      E, em seus lugares sagrados, at as fadas estremeceram.
      A rocha retumbou e a gua do mar se voltou negra como a boca do inferno, enquanto ele seguia sentindo a mesma fria e a mesma aflio. A chuva que brotava 
torrencialmente do cu ferido caa vermelha como o sangue... e chispava, ardendo sobre a terra, sobre o mar, de modo que o ar cheirava seu fervor.
      Desde aquele momento e para sempre a chamariam "Noite dos Lamentos", e todos aqueles que se atreviam a falar dela se referiam ao feiticeiro que estava de p 
no alto do escarpado, com a chuva sangrenta lhe empapando a capa, deslizando por seu rosto magro, como as lgrimas da morte, enquanto desafiava o cu e o inferno.
          
      
      
      Seu nome era Hoyt, e sua famlia os Mac Cionaoith, de quem se dizia serem descendentes de Morrigan, deusa e rainha das fadas. Seu poder era muito grande, mas 
ainda jovem, como ele mesmo era. E agora o exercia com uma paixo que no deixava lugar  prudncia, a obedincia, a luz. Era sua espada e sua lana.
      O que invocava durante essa terrvel noite era a morte.
      Voltou-se de costas para mar tumultuoso enquanto o vento continuava uivando. O que ele tinha conjurado se encontrava ali, em uma elevao. Ela - porque uma 
vez tinha sido uma mulher- sorriu. Sua beleza era indescritvel e gelada como o inverno. Seus olhos eram azuis e ternos, seus lbios, aveludados como ptalas de 
rosa, sua pele, branca como o leite. Quando falou, sua voz era melodia pura, a voz de uma sereia que j tinha atrado incontveis homens a seu fatal destino.
      - muito temerrio para me buscar. Acaso est impaciente por receber meu beijo, Mac Cionaoith?
      -Foi voc quem matou meu irmo?
      -A morte ... - Indiferente  chuva, jogou seu capuz para trs-... complexa.  muito jovem para entender sua glria. O que lhe dei foi um presente. Precioso 
e poderoso.
      -Condenou-o.
      -OH. -Agitou ligeiramente uma mo no ar-. Um preo muito pequeno pela recompensa da eternidade. Agora o mundo  dele e apanha dele tudo aquilo que gosta. Sabe 
mais coisas das que voc poderia sonhar. Agora me pertence muito mais do que nunca pertenceu a voc.
      -Demnio, seu sangue est em suas mos e juro que a destruirei.
      Ela ps-se a rir alegremente, como uma menina a quem prometeram um presente especial.
      -Em minhas mos, em minha garganta. Igual a meu sangue est na sua. Ele  agora como eu, um filho da noite e das sombras. Tambm tentar destruir seu prprio 
irmo? Seu gmeo? - A nvoa que cobria o cho se tornou negra, afastando-se como seda quando ela a atravessou. -Posso cheirar seu poder, sua aflio e seu assombro. 
Agora, neste lugar, ofereo-lhe este presente. Voltarei a transformar seu irmo gmeo, Hoyt dos Mac Cionaoith. Darei a morte que  a vida eterna.
      Ele baixou seu cajado e a olhou atravs da cortina de chuva.
      -Me diga como se chama.
      Ela deslizou agora atravs da neblina, sua longa capa vermelha ondulando-se a suas costas. Hoyt viu a branca turgidez dos seios que esticavam o rodeado tecido 
de seu vestido. Sentiu uma terrvel excitao ao mesmo tempo em que percebia o aroma de seu poder.
       -Tenho muitos nomes - respondeu lhe tocando o brao com a ponta do dedo. Como tinha conseguido aproximar-se tanto dele? -Quer pronunciar meu nome enquanto 
nos unimos? Prov-lo em seus lbios enquanto eu o saboreio?
      Ele tinha a garganta seca, ardendo. Aqueles olhos, azuis e ternos, atraam-no para ela para afog-lo. 
      -Sim. Quero saber o que sabe meu irmo.
      Ela ps-se a rir outra vez, mas nesta ocasio sua risada era gutural. Um som que proclamava um desejo, o de um animal. Os olhos azuis e ternos comearam a 
bordear-se de vermelho.
      -Est ciumento?
      Roou-lhe os lbios com os seus; estavam amargos e frios. Mas mesmo assim, eram muito tentadores. O corao dele comeou a pulsar depressa e com fora em seu 
peito.
      -Quero ver tudo o que meu irmo pode ver.
      Apoiou a mo sobre aquele encantador seio branco e no sentiu que nada se agitasse debaixo dele.
      -Me diga seu nome.
      Ela sorriu, e agora o branco de suas presas brilhou na horrvel noite.
      - Lilith quem toma.  Lilith quem o faz. O poder de seu sangue se mesclar com o meu e ambos dominaremos este mundo e todos os outros.
      Ela jogou a cabea para trs, preparando-se para atacar. E nesse momento, com toda sua aflio, com toda sua fria, Hoyt lhe cravou o cajado no corao.
      O som que surgiu dela perfurou a noite, penetrou atravs da tormenta e se uniu a ela. No era um som humano, nem sequer o uivo de uma besta. Ali estava o demnio 
que levou seu irmo, que ocultava sua maldade debaixo de uma beleza glida, cujo corao sangrava - pde v-lo enquanto o sangue emanava da ferida - sem um s pulsado.
      Lilith se elevou no ar, girando e lanando alaridos, enquanto um raio rasgava o cu. As palavras que ele devia pronunciar se perderam nesse horror enquanto 
ela se retorcia no ar e o sangue que perdia se evaporava em uma neblina pestilenta.
      -Como se atreve? -Sua voz gotejava ira, dor. -Pretende usar comigo sua magia pattica e insignificante? Faz mil anos que estou percorrendo este mundo. -levou 
a mo  ferida e depois a agitou para ele. Quando as gotas alcanaram o brao de Hoyt, cortaram-no como facas.
      -Lilith! Est exorcizada! Lilith, fica desterrada deste lugar! Por meu sangue. -Tirou uma adaga de debaixo de sua capa e se fez um corte na mo. -Pelo sangue 
dos deuses que corre por minhas veias, pelo poder de meu nascimento, desterro voc daqui... 
      O que chegou at ele pareceu sair voando do cho e o golpeou com a fora de uma fria selvagem. Entrelaados, ambos se precipitaram pela borda do escarpado 
e caram na salincia denteada que havia um pouco mais abaixo. Atravs de onda de medo e dor, ele viu que o rosto daquela coisa refletia fielmente o seu.
      O rosto que alguma vez tinha sido o de seu irmo.
      Hoyt pde cheirar a morte nele, e o sangue, e tambm pde ver naqueles olhos vermelhos o animal em que seu irmo se transformou. Mesmo assim, uma pequena chama 
de esperana tremulava no corao de Hoyt.
      -Cian. Ajude-me a det-la. Ainda temos uma possibilidade.
      -Pode sentir quo forte sou? -Cian fechou a mo ao redor do pescoo de Hoyt e comeou a apertar -E isto  s o princpio. -inclinou-se e lambeu o sangue do 
rosto de Hoyt quase brincalho -Ela o quer para si, mas eu tenho fome. Estou realmente faminto. E, depois de tudo, o sangue que corre por suas veias  o meu.
      Enquanto descobria as presas e os aproximava da garganta de seu irmo, Hoyt lhe cravou a adaga.
      Cian lanou um uivo e se separou dele. Em seu rosto se desenharam a comoo e a dor. Caiu ao cho, aferrando-se a ferida. Por um instante, Hoyt acreditou ver 
seu irmo, seu autntico irmo. Logo no ficou nada mais que os uivos da tormenta e o aoite da chuva.
      Arrastou-se para o topo do escarpado. Suas mos, escorregadias pelo sangue, a chuva e o suor, procuravam desesperadamente um ponto de apoio. Os relmpagos 
iluminavam seu rosto, contrado pelo sofrimento, enquanto ascendia lentamente pelas rochas, rasgando a pele dos dedos no intento. O pescoo, no lugar onde lhe tinham 
arranhado as presas, ardia como se o tivessem marcado com um ferro candente. Chegou acima quase sem flego. Se o estava esperando, era um homem morto. Seu poder 
estava quase esgotado, debilitou-se com os estragos causados pela comoo e a dor. No tinha nada mais que sua adaga, ainda vermelha do sangue de seu irmo.
      Mas quando chegou a borda do topo e rodou sobre suas costas, com a chuva amarga caindo sobre seu rosto, viu que estava sozinho.
      Talvez tivesse sido suficiente, possivelmente tinha conseguido enviar o demnio de volta ao inferno. O mesmo que, certamente, tinha mandado sua prpria carne 
e seu prprio sangue  condenao.
      Girou sobre a terra empapada e se apoiou nas mos e joelhos. Sentia-se terrivelmente doente. A magia era um punhado de cinzas em sua boca.
      Arrastou-se at onde estava seu cajado e o usou para ajudar-se a ficar em p. Respirando de maneira agitada, afastou-se cambaleante dos escarpados ao longo 
de um atalho que teria podido encontrar at estando cego. O poder da tormenta tinha desaparecido do mesmo modo que tinha desaparecido o seu, e agora no era mais 
que uma chuva que impregnava at os ossos.
      Podia cheirar seu lar: cavalos e feno, as ervas que utilizava para proteger-se, a fumaa do fogo que tinha deixado aceso. Mas no sentia nenhuma alegria, nenhum 
triunfo.
      Enquanto avanava coxeando para sua cabana, seu flego escapava em leves assobios, vaias de dor que se perdiam no vento. Ele sabia muito bem que se essa coisa 
que levou seu irmo decidisse vir por ele estaria perdido. Cada sombra, cada forma que projetavam as rvores agitadas pela tormenta podiam significar sua morte. 
Algo pior que a morte. O terror a que isso acontecesse se deslizava por sua pele como uma parte de gelo sujo, de modo que reuniu todas as foras que ficavam para 
sussurrar conjuros, mais parecidos com preces a quem fosse, a qualquer coisa capaz de escut-los.
      Seu cavalo se agitou no abrigo deixando escapar um sopro ao perceber seu cheiro. Mas Hoyt continuou avanando cambaleante para a pequena cabana, arrastando 
os ps at a porta para entrar em sua casa.
      Dentro estava quente e ainda ressonavam os ecos dos conjuros que tinha pronunciado antes de afastar-se para os escarpados. Ato seguido trancou a porta, deixando 
na madeira manchas de seu sangue e de Cian. Seria suficiente para que Lilith no pudesse entrar? Perguntou-se. Se o que tinha lido era certo, ela no podia entrar 
sem um convite. Quo nico Hoyt podia fazer era ter f nisso, e no conjuro protetor que rodeava sua casa.
      Deixou cair sua capa molhada e suja, que ficou empapada no cho, e lhe custou um grande esforo no unir-se a ela. Prepararia umas poes para curar-se, para 
recuperar a fora. E depois se sentaria junto a lareira, olhando o fogo. Esperando o amanhecer.
      Fazia todo o possvel por seus pais, suas irms e suas famlias. Tinha que confiar que tivesse sido suficiente.
      Cian estava morto e essa coisa que tinha retornado com seu rosto e sua forma tinha sido destruda. Seu irmo j no podia lhes fazer dano, mas essa coisa sim 
podia.
      Hoyt encontraria algo mais poderoso para proteg-los. E voltaria a caar o demnio. Sua vida, jurou nesse momento, estaria dedicada a sua destruio.
      Suas mos, de dedos longos e palmas largas, no podiam deixar de tremer enquanto escolhia suas garrafas e potes. Os olhos do homem, de um azul borrascoso, 
brilhavam de dor... a dor de seu corpo, e de seu corao. A culpa pesava sobre ele como uma mortalha de chumbo, e tudo isso se agitava em seu interior.
      No tinha podido salvar seu irmo. Em troca, tinha-o condenado e destrudo, tinha-o exorcizado e banido. Como tinha conseguido essa terrvel vitria? Cian 
sempre tinha sido mais forte que ele. E aquilo no que seu irmo se converteu era algo brutalmente poderoso.
      Sua magia tinha servido para derrotar o que uma vez tinha amado: a metade deles que era brilhante e impulsiva. Freqentemente, Hoyt era aborrecido e judicioso, 
mais interessado em seus estudos e em suas habilidades que na sociedade.
      Cian em troca era o que jogava e freqentava as tabernas, quem gostava dos esportes e as moas.
      -Seu amor pela vida foi o que o matou -murmurou Hoyt enquanto trabalhava em suas beberagens -.Eu s destru a besta que o tinha apanhado.
      Tinha que acreditar nisso.
      Notou a dor intumescendo suas costelas ao tirar a tnica. Os machucados j comeavam a estender-se, arrastando-se negros sobre sua pele do mesmo modo que a 
culpa e a aflio arrastavam-se sobre seu corao. Era hora de dedicar-se s questes prticas, disse-se, enquanto se aplicava o blsamo. Moveu-se torpemente e amaldioou 
com violncia enquanto procedia a enfaixar o torso. Tinha duas costelas quebradas, sabia, do mesmo modo que sabia quo difcil seria cavalgar de retorno a casa  
manh seguinte.
      Agarrou uma poo e se aproximou coxeando do fogo que crepitava na lareira. Acrescentou um pouco de turfa e as chamas arderam com um vermelho intenso. Sobre 
elas, esquentou um recipiente com a infuso. Depois se envolveu em uma manta para sentar-se, beber e meditar.
      Tinha nascido com um dom e, desde tenra idade, tinha procurado enobrec-lo de maneira sbria e meticulosa. Dedicou-se a estudar, freqentemente em completa 
solido, praticando sua arte, aprendendo seu alcance.
      Os poderes de Cian tinham sido menores, mas -Hoyt o recordava muito bem -Cian nunca tinha praticado to conscienciosamente e tampouco tinha estudado com tanto 
afinco. Cian s tinha brincado com a magia, como uma diverso para ele e outros.
      Em ocasies, Cian o havia arrastado em seus jogos, dobrando a resistncia de Hoyt at que ambos faziam alguma coisa estpida juntos. Uma vez tinham convertido 
em um asno de longas orelhas o menino que tinha empurrado sua irm pequena a um charco de barro.
      Como tinha rido Cian naquele momento! A Hoyt tinha levado trs dias de trabalho, suor e pnico inverter o conjuro, mas a Cian o assunto no tinha preocupado 
absolutamente.
      "Depois de tudo, nasceu sendo um burro. Ns no temos feito mais que lhe dar sua verdadeira forma."
      Desde que completaram doze anos, Cian se tinha mostrado muito mais interessado nas espadas que nos conjuros. Dava no mesmo, pensou Hoyt enquanto bebia a amarga 
infuso. Cian tinha sido um irresponsvel quanto  magia e um verdadeiro mago com a espada.
      Mas ao final o ao no tinha servido para salv-lo, nem tampouco a magia.
      Hoyt se apoiou no respaldo da cadeira, gelado at os ossos apesar da turfa que ardia na lareira. Podia ouvir os restos da tormenta soprando fora, caindo sobre 
o teto, uivando atravs do bosque que rodeava a cabana.
      Mas no alcanou ouvir nada mais, nem besta, nem ameaa. De modo que estava sozinho com suas lembranas e seus remorsos.
      Aquela noite devia ter acompanhado Cian ao povoado. Mas estava trabalhando e no gostava de ir a taberna beber cerveja.
      No desejava tampouco a companhia de uma mulher e Cian sempre queria uma.
      Entretanto, se tivesse ido ao povoado, se tivesse deixado a um lado o trabalho por uma maldita noite, agora Cian estaria vivo. O demnio no teria podido contra 
os dois. Seu dom certamente lhe teria permitido perceber o que era aquela criatura, apesar de sua beleza, de sua fascinao.
      Cian jamais teria ido com aquela mulher se seu irmo estivesse com ele. E sua me agora no estaria sofrendo. Aquela tumba jamais teria sido cavada e, pelos 
deuses, o que enterraram jamais teria se levantado dali.
      Se seus poderes pudessem fazer que o tempo retrocedesse, renunciaria a eles, abjuraria deles s para voltar para aquela noite e poder reviver esse nico momento 
quando tinha escolhido o trabalho em lugar da companhia de seu irmo.
      -Que bem me fazem? Que bem representam agora? Ter recebido poderes mgicos e no ser capaz de us-los para salvar aquilo que mais importa. Malditos sejam ento. 
-Lanou a taa contra a parede da pequena habitao. -Malditos sejam todos eles, deuses e fadas. Ele era a luz de todos ns e o arrojaram s trevas.
      Durante toda sua vida, Hoyt fazia aquilo para o que tinha nascido, o que se esperava dele. Tinha dado as costas a centenas de pequenos prazeres para dedicar-se 
por inteiro a sua arte. Agora os que lhe tinham concedido esse dom, esse poder, ficaram  margem enquanto levavam seu irmo.
      No em uma batalha, nem sequer limpamente com a magia, a no ser mediante um mal que superava todo o imaginvel. Era este seu pagamento, era esta sua recompensa 
por tudo o que tinha feito?
      Agitou uma mo para o fogo e as chamas se elevaram e rugiram na lareira. Elevou os braos e fora a tormenta redobrou sua fora e o vento uivou como uma mulher 
a que estivessem torturando. A cabana estremeceu sob sua fria e as peles se esticaram sobre as madeiras das janelas. Rajadas geladas penetraram na cabana, derrubando 
garrafas e agitando as folhas dos livros. E nesse vento pde ouvir a risada abafada da maldade.
      Jamais em toda sua vida se desviou de seu propsito. Nunca tinha utilizado seu dom para fazer o mal, ou tentado sequer por cima a magia negra.
      Agora pensou, possivelmente, pudesse encontrar nela as respostas que necessitava. Encontrar novamente seu irmo. Combater  besta, o mal enfrentado o mal.
      Levantou-se com dificuldade, ignorando a intensa dor no flanco. Voltou-se para sua cama de armar e estendeu ambas as mos ao ba que tinha fechado valendo-se 
de sua magia. Quando este se abriu, caminhou at ele e tirou o livro que tinha guardado fazia anos.
      Ali havia conjuros, feitios escuros e perigosos. Conjuro que utilizavam sangue humano, dor humana. Conjuros de vingana e avareza que falavam de um poder 
que ignorava todos os juramentos, todos os votos.
      Sentiu o livro quente e pesado em suas mos, e a seduo que exercia sobre ele; uns dedos curvados que acariciavam a alma. Acaso no somos mais que o resto? 
Deuses viventes que tomam tudo aquilo que desejam?
      Temos o direito! Estamos alm de regras e razes.
      Sua respirao se agitou porque sabia muito bem o que podia ser dele se o aceitasse, se colhia com ambas as mos aquilo que tinha jurado que jamais tocaria. 
Riquezas indescritveis, mulheres, poderes extraordinrios, a vida eterna. Vingana.
      S tinha que pronunciar as palavras, rechaar o branco e abraar o negro. Viscosas serpentes de suor se deslizaram por suas costas enquanto escutava os sussurros 
de vozes de milhares de anos. "Toma-o. Toma-o. Toma-o."
      Sua viso brilhou tenuamente e, atravs dela, viu seu irmo tal como o tinha encontrado estendido no lodo, a um lado do caminho. O sangue emanava de quo feridas 
tinha no pescoo e manchava seus lbios. "Que plido", pensou Hoyt fracamente. Seu rosto se via to plido em contraste com tudo aquele sangue vermelho e mido!
      Os olhos de Cian -vvidos e azuis -se abriram. Neles se percebia uma terrvel dor, um imenso horror. Seu olhar implorou ao encontrar-se com o de Hoyt.
      -Me salve. S voc pode faz-lo. No   morte ao que estou condenado. Isto est mais  frente do inferno, alm de qualquer tortura. Me leve de volta. Por 
uma vez no pense no preo. Quer que arda por toda a eternidade? Em nome de seu prprio sangue, Hoyt, me ajude.
      Estremeceu. E no pelo frio que soprava atravs das peles abertas, ou da umidade do ar, e sim por causa da borda gelada sobre a qual estava parado.
      -Daria minha vida por voc. Juro por tudo o que sou, por tudo o que fomos. Aceitaria seu destino, Cian, se essa fosse a opo que tivesse ante mim. Mas isto 
no posso faz-lo. Nem sequer por voc.
      A viso ficou de repente envolta em chamas e os gritos de seu irmo no eram humano. Com um alarido de aflio, Hoyt lanou o livro novamente dentro do ba. 
Utilizou a fora que ainda ficava para encantar o ferrolho antes de desabar-se no cho, e ali se encolheu como um menino incapaz de encontrar consolo.
      Talvez dormisse. Talvez sonhasse. Mas ao despertar, a tormenta tinha passado. A luz se filtrava na habitao e ia se voltando mais densa, brilhante e branca, 
ferindo-lhe os olhos. Piscou para proteger-se dela e lanou um gemido quando suas costelas protestaram ao tentar levantar-se.
      Tinha formas de cor rosa e dourado brilhando sobre a luz branca e um calor irradiava daquela luminosidade. Deu-se conta de que cheirava a terra, um aroma rico 
e fecundo, e  fumaa do fogo de turfa que ainda ardia no lar.
      Pde ver uma forma feminina, e intuiu uma assombrosa beleza.
      Esse no era um demnio em busca de sangue.
      Apertando os dentes, conseguiu ajoelhar-se. Embora sua voz ainda estivesse carregada de ira e tristeza, inclinou a cabea.
      -Minha Senhora.
      -Filho.
      A luz parecia surgir dela. Tinha o cabelo vermelho intenso de uma guerreira e caa sobre seus ombros em sedosas ondas. Os olhos eram verdes como o musgo do 
bosque, e suavizados agora pelo que podia ser um olhar compassivo. Ia vestida de branco com cs dourados, como era seu direito por classe. Embora fosse a deusa da 
batalha no usava armadura, e tampouco levava espada.
      Chamava-se Morrigan.
      -Lutaste bem.
      -Perdi. Perdi meu irmo.
      -Perdeste? -Ela avanou e lhe ofereceu a mo para que pudesse levantar-se. -Permaneceu fiel a seu juramento, embora a tentao fosse muito grande.
      -Se no fosse assim possivelmente poderia o ter salvado.
      -No. -Ela tocou o rosto de Hoyt e ele pde sentir seu calor. -O teria perdido igualmente, e tambm a voc. Asseguro-lhe isso. Entregaria sua vida pela sua, 
mas no poderia entregar sua alma, ou as almas de outros. Tem um grande dom, Hoyt.
      -E do que me serve se no puder proteger aos de meu prprio sangue?  que acaso os deuses exigem esse sacrifcio, condenar um inocente a essa tortura?
      -No foram os deuses quem o condenaram. E tampouco correspondia a voc o salvar. Mas h um sacrifcio que fazer e batalhas que liberar. Sangue, inocente ou 
no, que deve derramar-se. Foste eleito para uma importante tarefa.
      -Pedir algo de mim agora, Senhora?
      -Sim. Pediro-lhe muitas coisas, e tambm a outros. H uma batalha que liberar, a maior batalha que jamais se deu. O bem contra o mal. Deve reunir as foras.
      -No sou capaz de faz-lo. No estou disposto a faz-lo. Estou... Deus, estou cansado.
      Deixou-se cair na beira da cama de armar e cobriu a cabea com as mos.
      -Devo ir ver minha me. Devo lhe dizer que fracassei, que no consegui salvar seu filho.
      -Voc no fracassou porque resistiu as foras do mal. Agora deve levar esse estandarte, usar o dom que recebeste para enfrentar e derrotar aquilo que quer 
destruir mundos inteiros. Deixa de se compadecer de si mesmo!
      Ele elevou a cabea para ouvir seu tom cortante.
      -At os deuses sentem pena, Senhora. E eu esta noite matei meu irmo.
      -Seu irmo foi assassinado pela besta faz uma semana. O que caiu por esse escarpado no era Cian. Voc sabe. Mas ele... segue existindo.
      Hoyt ficou de p com esforo.
      -Ele vive.
      -Isso no  vida - replicou ela. - algo sem flego, sem alma, sem corao. Tem um nome que ainda no foi pronunciado neste mundo.  um vampiro e se alimenta 
de sangue. -aproximou-se dele. -Caa seres humanos, tira-lhes a vida, ou pior, muito pior, apodera-se daquilo que caa e o mata dentro de si mesmo. Multiplica-se, 
Hoyt, como uma pestilncia. No tem rosto e deve esconder-se da luz do sol.  contra isso que deve combater; contra isso e outros demnios que comearam a reunir-se. 
Deve enfrentar esta fora em combate durante a celebrao do Samhain. E deve sair vitorioso, ou o mundo que conhece, os mundos que ainda ficam por conhecer, sero 
destrudos.
      -E como farei para encontr-los? Como lutarei contra eles? De ns dois, Cian era o guerreiro.
      -Deve abandonar este lugar e ir a outro, e a outro mais. Alguns viro a voc, e alguns ter que busc-los. A bruxa, o guerreiro, o sbio, aquele que adota 
muitas formas e aquele a quem perdeste.
      -S cinco mais? Seis contra um exrcito de demnios? Minha Senhora...
      -Um crculo de seis, to forte e puro como o brao de um deus. Quando esse crculo se formar, outros tambm se formaro. Mas os seis sero meu exrcito, os 
seis formaro o anel. Ensinaro e aprendero, e sero maiores que a soma de vs. Um ms para reuni-los, um ms para aprender e um para compreender. Voc, filho, 
 meu primeiro.
      -Pedir-me que abandone  famlia que deixei quando essa coisa que levou meu irmo pode vir a busc-los tambm?
      -Essa coisa que levou a seu irmo dirige essa fora.
      -Eu consegui feri-la... a ela. Causei-lhe uma ferida.
      E essa lembrana bulia nele como a vingana.
      -Fez, sim, o fez. E este  s outro passo mais para esse momento e essa batalha. Ela agora leva sua marca e, chegado o momento, vir por ti.
      -E se a persigo e a destruo agora?
      -No pode faz-lo. Est alm de voc neste momento, e voc, meu filho, no est preparado ainda para enfrentar a ela Entre estes tempos e mundos, sua sede 
se voltar insacivel at que s a destruio de toda a humanidade poder satisfaz-la. Ter sua vingana, Hoyt - disse Morrigan enquanto ele ficava de p. -Se conseguir 
derrot-la. Viajar a lugares remotos e sofrer. E eu sofrerei ao conhecer sua dor, porque  meu. Acaso acredita que seu destino, sua felicidade, no significa nada 
para mim?  meu filho tanto como  de sua me.
      -E o que ser de minha me, Senhora? De meu pai, de minhas irms, de suas famlias? Se no estiver ali para proteg-los, eles podem ser os primeiros a morrer 
se travar-se a batalha da que falas.
      -Essa batalha se travar. Mas estaro longe dela. -Estendeu as mos. -Seu amor pelos de seu sangue forma parte de seu poder e no pedirei que renegue isso. 
No poder pensar com claridade at que no esteja seguro de que todos eles esto a salvo.
      Jogou a cabea para trs e levantou os braos com as palmas cavadas. A terra estremeceu ligeiramente sob seus ps e, quando Hoyt elevou a vista, viu umas estrelas 
atravessando o cu noturno. Esses pontos de luz caram nas mos dela e ali arderam como chamas.
      O corao de Hoyt golpeou contra suas costelas machucadas quando ela falou, enquanto sua cabeleira emoldurava seu rosto iluminado.
      -Forjado pelos deuses, pela luz e de noite. Smbolo e escudo, simples e verdadeiro. Por f, por lealdade, estes dons para voc. Sua magia vive atravs do sangue 
derramado, o seu e o meu.
      Uma dor lhe atravessou a palma da mo. Viu que o sangue emanava na sua e na dela enquanto o fogo ardia.
      -E assim viver por toda a eternidade. Benditos sejam aqueles que levem a Cruz de Morrigan.
      O fogo se extinguiu e nas mos da deusa apareceram brilhantes cruzes de prata.
      -Estas cruzes os protegero. Devem as levar postas sempre, noite e dia, do nascimento at a morte. Quando partir, saber que todos eles esto a salvo.
      -Se fizer isto, ter piedade de meu irmo?
      -Pretende negociar com os deuses?
      -Sim.
      Ela sorriu como o faria uma me que se diverte com seu filho pequeno.
      -Foste eleito porque se acredita capaz de algo assim. Abandonar este lugar e reunir todos aqueles que so necessrios para esta tarefa. Prepara-se e depois 
empreender viagem. A batalha que o espera se livrar com lana e espada, com dentes e presas, com engenho e traio. Se conseguir sair vitorioso desta guerra, os 
mundos estaro em equilbrio e voc ter tudo aquilo que deseje.
      -Como farei para lutar contra um vampiro? J fracassei uma vez ao enfrent-la.
      -Estuda e aprende -respondeu Morrigan. -E aprende de um dos seus. De um a quem ela tenha criado. Um que era teu antes que ela o levasse. Deve encontrar seu 
irmo.
      -Onde?
      -No s onde, mas tambm quando. Olhe no fogo.
      Hoyt percebeu que se encontravam novamente em sua cabana e ele estava de p diante da lareira acesa. As chamas se elevaram como torres de fogo convertendo-se 
em uma grande cidade. Ali havia vozes e sons que jamais tinha ouvido. Milhares de pessoas se apressavam atravs de ruas feitas com algum tipo de pedra. E havia mquinas 
que se moviam velozmente entre elas.
      -O que  este lugar? - Mal podia pronunciar as palavras. -Que mundo  este?
      -Este lugar se chama Nova Iorque, e a poca  aproximadamente dentro de mil anos. O mal ainda percorre a Terra, Hoyt, igual fazem a inocncia e o bem. Seu 
irmo leva j muito tempo vagando pelo mundo. Para ele passaram sculos. Faria bem em record-lo.
      - um deus agora?
      -No,  um vampiro. Ele deve te ensinar, e tambm deve lutar a seu lado. A vitria no ser possvel sem sua ajuda.
      Uma cidade de semelhante tamanho, pensou. Edifcios de pedra e prata mais altos que qualquer catedral.
      -A guerra se travar neste lugar, nesta Nova Iorque?
      -Em seu momento te dir onde e como se travar a guerra. J saber. Agora deve partir e levar o que necessitar. V ver sua famlia e lhes entregue sua proteo. 
Deve deix-los em seguida e ir ao Baile dos Deuses. Necessitar sua habilidade e meu poder para poder passar. Encontra seu irmo, Hoyt.  hora de reunir-se.
      Despertou junto ao fogo, envolto na manta. Mas se deu conta de que no tinha sido um sonho. Tinha sangue ainda lquido na palma da mo e as cruzes de prata 
que descansavam sobre seu regao.
      Ainda no tinha amanhecido, mas preparou sua bagagem com livros e poes, tortas de farinha de aveia e mel. E com as preciosas cruzes. Selou seu cavalo e depois, 
a modo de precauo, riscou outro crculo protetor ao redor da cabana.
      Um dia retornaria, prometeu-se. Encontraria seu irmo e, dessa vez, salvaria-o. No importava o que custasse.
      Quando o sol projetou seus primeiros raios, Hoyt empreendeu a longa viajem para o An Clar e a casa familiar.
      
      Captulo 2
      
      Viajou na direo norte atravs de caminhos que a tormenta tinha convertido em autnticos lodaais. Os horrores e os prodgios da noite revoavam em sua mente 
enquanto se encurvava sobre seu cavalo para atenuar a dor de suas costelas.
      Jurou que, se vivesse tempo suficiente, praticaria mais freqentemente a magia da cura, prestando mais ateno.
      Durante a viagem passou junto a campos onde os homens trabalhavam o gado e pastoreavam sob o suave sol da manh. E lagos que refletiam o azul do cu de finais 
do vero. Atravessou espessos bosques nos que rugiam as quebradas e as sombras, e os musgos eram o reino das histrias dos duendes e fadas.
      Ali o conheciam, e os homens tiravam o chapu ao passo de Hoyt o Feiticeiro. Mas no se deteve para aceitar a hospitalidade que lhe ofereciam em cabanas e 
tabernas. Tampouco procurou a comodidade das grandes casas nem distrao nas conversas dos monges que viviam em suas abadias ou torres redondas.
      Nessa viagem estava sozinho e, por cima das batalhas e as ordens dos deuses, o primeiro que faria seria procurar sua famlia. Ofereceria-lhes o mximo possvel 
antes de deix-los para fazer aquilo que lhe tinham encomendado.
       medida que avanava se esforava por erguer-se em sua cavalgadura quando chegava s aldeias ou aos postos de vigilncia. Sua dignidade o conduzia a um considervel 
desconforto, e acabava obrigando-o a descansar  beira de rios onde a gua rumorejava entre as rochas.
      Em uma poca, pensou, tinha desfrutado plenamente desse viaje desde sua cabana at a casa de sua famlia, atravs de campos e colinas, ou ao longo da costa 
do mar. S ou em companhia de seu irmo tinha cavalgado por aqueles mesmos caminhos e atalhos, sentido o mesmo sol lhe esquentando o rosto. Deteve-se a comer e dar 
um descanso a seu cavalo nesse mesmo lugar.
      Mas agora o sol lhe machucava os olhos e o aroma da terra no penetrava em seus sentidos adormecidos.
      O suor da febre suavizava sua pele e os ngulos de seu rosto eram mais agudos sob a incessante dor.
      Embora no tinha fome, decidiu comer um pedao de uma das tortas de aveia e tomar um pouco mais do remdio que levava na bagagem. Apesar da infuso e a comida, 
as costelas seguiam doendo como um dente podre.
      O que podia fazer ele na batalha? -perguntou-se. Se neste momento tivesse que levantar a espada para salvar sua vida, sem dvida morreria sem defender-se.
      "Vampiro", pensou. A palavra era adequada. Era ertica, extica e de algum jeito, horrvel. Quando tivesse tempo e energia para faz-lo, escreveria mais a 
respeito do que sabia. Embora muito longe de estar convencido de que estava a ponto de salvar aquele mundo ou qualquer outro de nenhuma invaso demonaca, sempre 
era melhor em adquirir conhecimentos.
      Fechou os olhos durante um momento, tentando mitigar a dor de cabea que pulsava atrs deles. Uma bruxa, haviam-lhe dito. No gostava de nada tratar com bruxas. 
Sempre estavam revolvendo estranhas beberagens em grandes caldeires e repetindo seus conjuros.
      Depois um sbio. Ao menos esse poderia lhe ser til.
      Era Cian o Guerreiro? Isso esperava. Cian sustentando o escudo e empunhando a espada outra vez, lutando a seu lado. Quase era capaz de acreditar que poderia 
cumprir com a tarefa que lhe tinham encomendado se seu irmo estivesse a seu lado.
      Aquele que adota muitas formas. Que estranho. Uma fada possivelmente, os deuses sabiam quo confiveis eram essas criaturas. E supunha-se que, de algum jeito, 
esta seria a primeira linha na batalha pelos mundos?
      Examinou a mo que enfaixou aquela manh.
      -Seria melhor para todos que s tivesse sido um sonho. Estou doente e cansado e no sou um soldado em sua melhor forma.
      "Retorna." A voz era apenas um sussurro. Hoyt ficou em p e procurou sua adaga.
      No bosque nada se movia, exceto as asas negras de um corvo posado entre as sombras de uma rocha, junto  gua.
      "Retorna a seus livros e ervas, Hoyt o Feiticeiro. Acredita por ventura que pode derrotar  Rainha dos Demnios? Retorna, retorna e vive sua miservel vida, 
e ela ter piedade de voc... Segue adiante e ela se deleitar com sua carne e beber seu sangue."
      -Acaso teme me dizer isso pessoalmente? Pois faz bem, porque penso persegui-la atravs desta vida e da seguinte, se for necessrio. Vingarei meu irmo. E na 
batalha que vir, arrancarei-lhe o corao e depois o queimarei. 
      "Morrer gritando e ela o converter em seu escravo por toda a eternidade."
      - um verdadeiro aborrecimento.
      Hoyt trocou de posio a adaga na mo. Quando o corvo elevou o vo, lanou a faca atravs do ar. Falhou, mas o raio de fogo que despediu com a mo livre sim 
deu no alvo. O animal lanou um chiado, e o que caiu a terra era s um monte de cinzas.
      Hoyt olhou a adaga com uma expresso de desgosto. Tinha-lhe faltado pouco e provavelmente teria podido realizar o trabalho s com a adaga se no estivesse 
ferido. Ao menos Cian lhe tinha ensinado isso.
      Mas agora tinha que ir procurar essa maldita coisa.
      Antes de faz-lo, agarrou um punhado de sal dos alforjes e as pulverizou sobre as cinzas do arauto. Depois recuperou a arma, aproximou-se de seu cavalo e montou 
com os dentes apertados.
      -Escravo para toda a eternidade - murmurou-. Isso veremos, no?
      Reatou a marcha rodeado de campos verdes e as ladeiras das colinas cobertas pelas sombras das nuvens sob a leve luz da alvorada. Sabedor de que o galope o 
faria retorcer-se de dor, manteve o cavalo ao passo. A poucos momento adormeceu, e sonhou que estava de retorno nos escarpados, lutando com Cian. Mas nesta ocasio 
era ele quem se precipitava pelo vazio, caindo em meio a escurido para estalar-se contra as implacveis rochas.
      Despertou sobressaltado e com uma grande aflio. Uma pena grande assim significava sem dvida a morte.
      Seu cavalo fez um alto no caminho para comer a erva que crescia a ambos os lados. Nesse lugar havia um homem que levava a cabea coberta e que estava levantando 
uma parede com uma pilha de pedras cinza. Sua barba era bicuda, amarela como os tojos que cresciam na base da colina, suas mos largas como ramos.
      -Tenha bom dia senhor, agora que despertastes para v-lo. -O homem levou a mo  cabea a modo de saudao e em seguida se agachou para levantar outra pedra.
      -Sim, assim . -Embora no estava completamente seguro de onde se encontrava. A febre seguia presente e podia sentir seu pegajoso calor. -Dirijo-me a An Clar 
e as terras dos Mac Cionaoith. Que lugar  este?
      -O lugar onde esta - respondeu o homem com tom jovial. -No acabar sua viagem at o anoitecer.
      -No. -Hoyt fixou a vista no caminho que parecia estender-se at o infinito. -No, no chegarei antes do anoitecer.
      -Encontrara uma cabana com fogo na lareira alm desses campos, mas no tm tempo para se deter ali. No quando ainda fica tanto caminho por percorrer. E o 
tempo se corta enquanto estamos falando. Esto cansados - prosseguiu o homem compassivamente-, mas ainda o estar mais antes de acabar a viagem.
      -Quem sois?
      -S um guia em seu caminho. Quando chegar  segunda bifurcao deve ir para o oeste. Quando ouvir o rio, siga seu curso. Encontrar um poo sagrado perto de 
um arbusto, o Poo de Briget, a quem alguns chamam Santa. Ali poder dar descanso a seus doloridos ossos durante a noite. Risque no lugar seu crculo, Hoyt o Feiticeiro, 
porque eles sairo  caa. S esperam que o sol se oculte atrs do horizonte. Deve estar no poo, dentro de seu crculo, antes que isso ocorra.
      -Se eles me seguirem, se me caarem, estarei levando-os diretamente onde est minha famlia.
      -Eles no so desconhecidos para os seus. Levam a cruz de Morrigan. As deixar atrs com os de seu sangue. Isso e sua f. -Os olhos do homem eram cinza e claros 
e, por um instante, pareceu que vrios mundos residiam neles. -Se fracassar, no Samhain se perder algo mais que sua estirpe. Agora deve partir. O sol se encontra 
j no oeste.
      Que alternativa tinha? Tudo lhe parecia um sonho, enquanto ardia presa da febre. A morte de seu irmo, depois sua destruio. Aquela coisa dos escarpados que 
chamava a si mesma Lilith. Tinha sido visitado realmente pela deusa ou s estava apanhado em algum sonho?
      Provavelmente j estava morto e aquilo no era mais que uma viagem  outra vida.
      Mas ao chegar  bifurcao tomou a direo para o oeste e, quando ouviu as guas do rio, guiou seu cavalo para ali. Agora sentia calafrios por causa da febre 
e a viso da luz que minguava no cu.
      Mais que desmontar caiu do cavalo, apoiando-se depois sem flego contra o pescoo do animal. A ferida da mo abriu e manchou de vermelho a atadura que a cobria. 
No oeste, o sol se via como uma bola de fogo declinando.
      O poo sagrado era um quadrado de pedras de escassa altura protegido pelo arbusto. Outras pessoas que tinham chegado ali para descansar ou rezar tinham amarrado 
fitas, amuletos e lembranas aos ramos da rvore. Hoyt atou o cavalo, depois se ajoelhou para agarrar a pequena concha de sopa de madeira do poo e beber um gole 
de gua fresca. Derramou umas gotas na terra para o deus e murmurou umas palavras de agradecimento. Deixou um pni de cobre sobre a pedra, manchando-a com o sangue 
que brotava de sua ferida.
      Suas pernas pareciam estar feitas mais de gua que de ossos, mas quando a penumbra se fez mais densa, obrigou-se a concentrar-se e se obrigou a riscar seu 
crculo.
      Era um ato de magia simples, um dos primeiros que se aprendiam. Mas agora o poder escapava a fervuras, convertendo a tarefa em um sofrimento. Seu prprio suor 
lhe gelava a pele enquanto lutava com as palavras, com os pensamentos e com o prprio poder, que parecia uma enguia que escorregasse entre suas mos.
      Ouviu que algo vagava pelo bosque, movendo-se nas sombras mais profundas. Essas sombras se voltaram mais densas quando os ltimos raios de sol se filtraram 
atravs das copas das rvores.
      Eles vinham por ele, esperando que esse ltimo resplendor desaparecesse e o deixasse na mais absoluta escurido. Morreria ali, s, deixando sua famlia desprotegida. 
E tudo pelo capricho dos deuses.
      -Mas isso no acontecer.
      Levantou-se. Tinha uma oportunidade mais, sabia. Uma. De modo que arrancou a atadura da mo e, com seu prprio sangue selou o crculo.
      -dentro deste crculo, a luz permanece. Arde atravs de minha vontade. Esta magia  branca e s aquilo que  puro poder permanecer aqui. O fogo se acende, 
o fogo ascende e queima com um brilho poderoso.
      As chamas brotaram no centro de seu crculo, dbeis, mas ali estavam. O sol desapareceu atrs do horizonte quando o fogo comeou a crescer. E aquilo que tinha 
espreitado nas sombras se fez subitamente presente. Apareceu como um lobo, pele negra e olhos injetados em sangue. Quando a besta saltou no ar, Hoyt tirou sua adaga. 
Mas a besta se chocou contra a fora que emanava do crculo e foi rechaada.
      O lobo uivou, grunhiu, lanou dentadas ao ar. Suas presas brancas refulgiam enquanto ia de um lado a outro, como se procurasse um ponto vulnervel no escudo.
      Outro lobo se uniu ao primeiro, saindo de entre as rvores, logo outro, e outro mais, at que Hoyt pde contar seis deles. As bestas atacavam juntas e retrocediam 
juntas. Percorriam unidas o permetro de fogo, como se fossem soldados em formao.
      Cada vez que atacavam, o cavalo relinchava e retrocedia. Hoyt se aproximou dele sem afastar a vista dos lobos enquanto apoiava as mos sobre o animal. Isso 
era algo que ao menos podia fazer. Tranqilizou ao animal at deix-lo em estado de transe. Logo tirou a espada e a afundou na terra junto ao fogo.
      Agarrou a comida que ficava, extraiu gua do poo sagrado e jogou ervas nela, embora os deuses soubessem que sua automedicao no estava fazendo efeito. Inclinou-se 
junto ao fogo, a adaga a um lado e o cajado sobre as pedras.
      Embrulhou-se em sua capa, tremendo de frio, e depois de ter posto mel em uma torta de farinha de aveia, obrigou-se a trag-la. Os lobos se sentaram sobre seus 
quartos traseiros, jogaram as cabeas para trs e uivaram de uma vez  lua que subia no cu.
      -Esto famintos, no ? -murmurou Hoyt atravs do bater de seus dentes. -Pois aqui no h nada para vs. OH, o que daria neste momento por uma cama e uma xcara 
de ch decente.
      Sentou-se e o fogo danou ante seus olhos at que comearam a fechar-se. Quando o queixo caiu sobre seu peito, nunca se havia sentido to s. Ou to inseguro 
do caminho que devia seguir.
      Pensou que era Morrigan quem se aproximava dele, porque era formosa e seu cabelo to vermelho como o fogo. Caa suave como a chuva, as pontas lhe roando os 
ombros. Levava um vestido negro, estranho, e bastante atrevido para deixar seus braos a descoberto e permitir que a proeminncia de seus peitos se elevasse por 
cima do espartilho. Ao redor do pescoo levava um colar com uma pedra no centro.
      -Isto no servir -disse ela com um tom de voz que era de uma vez estranho e impaciente. Ajoelhando-se a seu lado, apoiou-lhe uma mo na testa, seu contato 
foi to fresco e balsmico como a chuva da primavera. Cheirava a bosque, uma fragrncia terrestre e secreta.
      Por um momento demencial Hoyt s desejou apoiar a cabea sobre seus seios e dormir com esse perfume enchendo seus sentidos.
      -Est ardendo. Bem, vejamos o que leva aqui e o usaremos para cur-lo.
      Ela se tornou momentaneamente imprecisa ante seus olhos, logo voltou a concretizar-se. Seus olhos eram verdes, como os da deusa, mas seu tato era humano.
      -Quem ? Como conseguiste entrar no crculo?
      -Sabugueiro, mil-em-rama. No tem pimenta da Cayena? Bem, disse que o curaria.
      Ele a observou enquanto ela punha mos  obra,  maneira das mulheres, tirando gua do poo e esquentando-a no fogo.
      -Lobos -murmurou e estremeceu levemente. E nesse tremor de seu corpo, ele pde perceber seu medo. -s vezes sonho com lobos negros, ou com corvos. E s vezes 
com a mulher. Ela  a pior de todos. Mas esta  a primeira vez que sonhei contigo. -Fez uma pausa e o olhou durante um momento muito comprido com seus olhos de um 
verde profundo e secreto. -E, entretanto, conheo seu rosto.
      -Este  meu sonho.
      Ela ps-se a rir brevemente e logo arrojou umas ervas na gua quente.
      -Como quer. Vejamos se podemos o ajudar a despertar dele.
      A moa passou a mo por cima da taa.
      -Poder da cura, ervas e gua, cozido esta noite pela filha de Hcate1. Esfria sua febre, mitiga sua dor para que a fora e a viso no se separem dele. Revolve 
a magia nesta simples infuso. Igual farei, que assim seja.
      -Os deuses me salvem. -Conseguiu levantar-se apoiando sobre um cotovelo. - uma bruxa.
      Ela sorriu enquanto se aproximava com a taa na mo. E sentando-se a seu lado, rodeou-lhe as costas com um brao.
      -Em efeito, sou. Acaso voc tambm no ?
      -No, eu no. -Mal tinha energia suficiente para responder. -Eu s sou um maldito feiticeiro. Afasta essa beberagem. At o aroma  repugnante.
      - possvel, mas curar o mal que o aflige. -Ela segurou a cabea de Hoyt contra seu ombro. E, embora ele tentasse livrar-se de seu abrao, apertou-lhe o nariz 
e verteu o lquido atravs de sua garganta. - Os homens so todos umas crianas pequenas quando esto doentes. E olhe sua mo! Suja e coberta de sangue! Tenho algo 
para isso.
      -Se afaste de mim -disse ele fracamente, embora o perfume, o contato dela eram ao mesmo tempo sedutores e reconfortantes. -Deixe-me morrer em paz.
      -No vais morrer. -Entretanto, lanou um olhar cauteloso aos lobos. -Quo forte  seu crculo?
      -O bastante forte.
      -Espero que tenha razo.
              O esgotamento -e as folhas de valeriana que ela tinha misturado na infuso- fez que seu queixo voltasse a cair sobre seu peito. Ela trocou de postura 
para poder apoiar a cabea de Hoyt em seu regao e lhe acariciou o cabelo enquanto contemplava o fogo. -J no est sozinho -disse, com voz suave-. E suponho que 
eu tampouco.
      -O sol... Quanto falta para o amanhecer?
      -Oxal soubesse. Agora deve dormir.
      -Quem ?
      Mas se lhe respondeu, ele no podia ouvi-la.
      Quando despertou, a mulher tinha desaparecido, e tambm a febre. O amanhecer era um brilho brumoso que permitia que finos raios de sol se filtrassem atravs 
da folhagem estival.
      Dos seis lobos s ficava um, e jazia apunhalado em um atoleiro de sangue, fora do crculo. Tinham-no degolado, comprovou Hoyt, e lhe tinham aberto o ventre. 
Quando ficou de p para aproximar-se do animal morto, o sol brilhou com luz branca atravs das folha e iluminou o lobo.
      Nesse momento, a besta ardeu em chamas deixando s um punhado de cinzas sobre a terra enegrecida.
      -Que vo ao inferno contigo todos os que so como voc.
      Hoyt se afastou dali e se dedicou a alimentar seu cavalo e preparar um pouco de infuso. J quase tinha acabado quando notou que a palma de sua mo estava 
curada. S ficava nela uma cicatriz apenas visvel. Flexionou os dedos e elevou a mo para a luz.
      Curioso, levantou a tnica. Ainda tinha os machucados no flanco, mas estavam empalidecendo. E, quando tentou, deu-se conta de que podia mover-se sem sentir 
dor.
      Se o que o tinha visitado durante a noite tinha sido uma viso e no o produto de um sonho febril, supunha que devia sentir-se agradecido.
      Entretanto, jamais tinha tido uma viso to vvida e real. Tampouco nenhuma que tivesse deixado tantas coisas atrs. Juraria que ainda podia cheir-la, e ouvir 
a cadncia e o fluxo de sua voz.
      Havia-lhe dito que conhecia seu rosto. Que estranho era que, em alguma parte de seu interior, tambm ele sentisse que tinha reconhecido aquela mulher.
      Lavou-se e, apesar de seu apetite que tinha retornado com fora, teve que conformar-se com bagos e um pedao de po duro.
      Logo apagou o crculo e orvalhou com sal a terra enegrecida que o rodeava. Uma vez que esteve instalado nos arreios, afastou-se rapidamente.
      Com um pouco de sorte, chegaria a sua casa ao meio dia.
      Durante o resto da viagem no houve mais sinais, nem arautos nem formosas bruxas. S campos que se estendiam ondulados e verdes para as sombras das montanhas 
e as profundidades secretas do bosque. Agora conhecia seu caminho, o teria conhecido ainda que tivessem passado cem anos. De modo que aulou sua montaria para que 
saltasse um pequeno muro de pedra e se lanou a galope atravs do ltimo campo em direo a seu lar.
      Podia ver a fumaa da chamin. Imaginou sua me sentada no salo, possivelmente tecendo uma renda ou trabalhando em uma de suas tapearias. Esperando, desejando 
receber notcias de seus filhos. Desejou poder levar melhores novas.
      Seu pai devia estar com seu capataz, percorrendo suas terras, e suas irms casadas em suas prprias cabanas, com a jovem Nola no estbulo, brincando com os 
cachorrinhos da nova ninhada.
      A casa estava escondida no bosque porque sua av - quem tinha passado o poder a ele e, em menor medida, a Cian- assim o tinha querido. Elevava-se perto de 
um arroio e tinha uma torre de pedra com janelas de autntico cristal. Seus jardins eram o orgulho de sua me, com rosas que floresciam tumultuosamente neles.
      Um dos criados correu para encarregar-se do cavalo. Hoyt se limitou a menear a cabea ante a pergunta nos olhos do homem. Dirigiu-se para a porta da qual ainda 
pendurava a bandeira negra de duelo.
      No interior da casa lhe esperava outro dos criados para recolher sua capa. Ali, no vestbulo, as paredes luziam as tapearias de sua me, e da me de sua me, 
um dos galgos de seu pai correu a lhe dar as boas-vindas.
      No ar podia cheirar a cera de abelha e o aroma das rosas recm cortadas do jardim, assim como do fogo de turfa que ardia na lareira. Subiu a escada que conduzia 
ao salo de sua me.
      Estava-lhe esperando, como sabia que o faria. Sentada em sua poltrona, com as mos entrelaadas sobre o regao, to apertadas que os ndulos se viam brancos. 
Em seu rosto se notava claramente todo o peso de sua aflio, e esse peso se fez mais visvel quando viu a expresso nos olhos de seu filho.
      -Me...
      -Est vivo. Est bem. -levantou-se e estendeu os braos para ele. -Perdi meu filho mais novo, mas aqui est meu primognito, novamente em casa. Querer comer 
e beber depois de sua comprida viajem.
      -Tenho muito que contar.
      -E o far.
      -A todos vs, por favor, me. No posso ficar muito. Sinto muito. -Beijou-a na testa-. Lamento ter que os deixar to logo.
      
      
      Havia comida e havia bebida, e toda a famlia -exceto Cian- estava sentada ao redor da mesa. Mas no era uma comida como tantas outras, com risadas e discusses 
a gritos, com alegria ou insignificantes desacordos. Hoyt estudou seus rostos, sua beleza, sua fora e sua pena enquanto debulhava o relato do que tinha ocorrido.
      -Se tiver que travar uma batalha, eu irei contigo. Lutarei a seu lado.
      Hoyt olhou Fearghus, seu cunhado. Seus ombros eram largos e seus punhos estavam preparados para brigar.
      -Ali aonde vou, no pode me seguir. No o encarregaram que lute. Eoin e voc, junto com meu pai, devem ficar aqui para proteger  famlia e a terra. Partiria 
com um peso maior no corao se no soubesse que ocuparo meu lugar. Devem levar isto.
      Hoyt tirou as pequenas cruzes de prata.
      -Cada um de vs e todos os meninos que nasam depois. Dia e noite, noite e dia. Esta - disse enquanto elevava uma-  a cruz de Morrigan, forjada pelos deuses 
no fogo mgico. Um vampiro no pode transformar ningum que a leve posta. Esta cruz deve passar a aqueles que venham depois de vs, e seu significado deve recolher-se 
em canes e histrias. Devem jurar que no tiraro isso nunca, que a levaro sempre posta at a morte.
      Levantou-se, colocando uma cruz ao redor de cada pescoo, esperando que fizessem o juramento antes de continuar.
      Depois se ajoelhou diante de seu pai. As mos deste eram to velhas, notou Hoyt com um sobressalto. Era mais um granjeiro que um guerreiro e, naquele instante, 
soube que a de seu pai seria a primeira morte, e que aconteceria antes do Natal. Do mesmo modo, soube que jamais voltaria a olhar aos olhos do homem que tinha lhe 
dado a vida.
      E seu corao se rasgou.
      -Me despeo de voc, senhor. E agora lhe suplico sua bno.
      -Venha a morte de seu irmo e retorna a casa conosco.
      -Farei-o. -Hoyt se levantou. -Devo reunir tudo o que necessito.
      Subiu a sua habitao que conservava na torre mais elevada da casa, e uma vez ali, comeou a empacotar ervas e poes sem ter uma idia muito clara do que 
era o que realmente ia necessitar.
      -Onde est sua cruz?
      Hoyt olhou para a porta da habitao e viu Nola, com seu cabelo negro que caa at a cintura. S tinha oito anos e ocupava o lugar mais terno em seu corao. 
      -Ela no fez uma cruz para mim -respondeu. -Eu tenho outro tipo de escudo para me proteger, no deve preocupar-se por nada. Sei o que fao.
      -Quando partir no chorarei.
      -Por que teria que faz-lo? J parti antes e retornei sem problemas. No ?
      -Esta vez tambm retornar.  torre. E ela vir contigo.
      Hoyt acomodou com cuidado as pequenas garrafas em sua caixa e depois fez uma pausa para estudar sua irm.
      -Quem vir comigo?
      -A mulher de cabelo vermelho. No a deusa, e sim uma mulher mortal, uma que leva o sinal das bruxas. No posso ver Cian e tampouco posso ver se conseguir 
a vitria, mas sim posso ver voc aqui, com a bruxa. E tambm vejo que tem medo.
      -Acaso um homem deveria entrar em combate sem sentir medo? No  o medo algo que ajuda a seguir com vida?
      -No sei nada de batalhas. Eu gostaria de ser um homem e um guerreiro. -Sua boca, to jovem, to suave, torceu-se em um gesto sombrio. -Se fosse, no poderia 
impedir que fosse contigo como tem feito com Fearghus.
      -Como poderia me atrever a tal coisa? -Fechou os olhos e se aproximou de sua irm pequena. - verdade, tenho medo. Mas no diga aos outros.
      -No o farei.
      Se, o lugar mais terno de seu corao, pensou, e agarrando a cruz de Nola utilizou sua magia para riscar seu nome no reverso no alfabeto ogham2.
      -Isto faz que a cruz pertena s a voc. -disse-lhe.
      -A mim e a quem receba meu nome depois de mim. -Seus olhos brilhavam, mas no derramou uma s lgrima. -Voltar para ver-me.
      - claro que sim.
      -Quando o fizer, o crculo se completa. No sei como nem por que.
      -Que mais  capaz de ver Nola?
      Ela meneou a cabea.
      -Est escuro. No posso ver nada. Acenderei uma vela por ti todas as noites at que tenha voltado para casa.
      -Cavalgarei de volta seguindo essa luz. -agachou-se para abra-la - sentirei falta de voc. -Beijou-a brandamente na testa e logo a afastou. -Se cuide.
      -Terei filhas - disse ela.
      Essas palavras fizeram que Hoyt se voltasse e sorrisse. To pequena, to leve e to ardente.
      -Sabe?
      - meu destino -respondeu ela com uma resignao que fez que ele torcesse os lbios-. Mas no sero dbeis. Elas no se sentaro e daro voltas  roca e amassaro 
e cozinharo todo o maldito dia.
      Agora ele sorriu mais abertamente e soube que essa era uma lembrana que levaria felizmente em sua memria.
      -OH, no o faro? E ento jovem me, o que faro suas filhas?
      -Sero guerreiras. E esse vampiro que imagina que  uma mulher tremer como uma folha ante elas. -Nola enlaou as mos do modo que sua me estava acostumada 
faz-lo, embora sem nada de sua docilidade nem sua pacincia. -V com os deuses irmo.
      -Que a luz a acompanhe, irm.
      Todos o olharam partir: trs irms, os homens que as amavam, os filhos que j tinham tido. Seus pais, inclusive os criados e os cavalarios. Hoyt deu um ltimo 
e longo olhar  casa que seu av, e o pai deste antes que ele, tinham construdo em pedra naquela clareira do bosque, junto s guas do arroio, naquela terra que 
ele amava com todo seu corao.
      Logo elevou a mo em sinal de adeus e se afastou deles a galope para o Baile dos Deuses.
      Elevava-se em uma elevao de erva spera coberta pelo amarelo brilhante dos rannculos. As nuvens foram se espessando no cu, de modo que a luz abria passagem 
com dificuldade atravs delas em finos raios. O mundo estava to silencioso, to quieto, que teve a sensao de estar viajando atravs de uma pintura. O cinza do 
cu, o verde da erva, as flores amarelas e o antigo crculo de pedras que estava ali desde a noite dos tempos. 
      Hoyt sentiu seu poder, seu murmrio no ar, sobre sua pele. Levou seu cavalo a passagem ao redor delas, fazendo um alto para ler as inscries em ogham gravadas 
na pedra maior.
      -Os mundos esperam -traduziu. - O tempo flui. Os deuses vigiam.
      Tinha comeado a desmontar quando lhe chamou a ateno um reflexo dourado no campo. Ali, no limite do mesmo, havia uma camponesa. O verde de seus olhos brilhava 
como o colar que levava. Caminhou para ele com porte real e mudou  forma feminina da deusa.
      -Partiste cedo, Hoyt.
      -Foi muito doloroso me despedir de minha famlia. Era melhor faz-lo depressa.
      Desceu do cavalo e inclinou a cabea.
      -Minha senhora.
      -Filho. Estiveste doente.
      -Umas febres, mas j passaram. Foi voc quem me enviou  bruxa?
      -No h necessidade de enviar aquilo que vir sozinho. Voltar a encontr-la, e tambm a outros.
      -A meu irmo?
      -Ele  o primeiro. Logo escurecer. Aqui tem a chave do portal. -Abriu a mo e lhe deu uma pequena varinha de cristal. - Deve lev-la contigo, e mant-la inteira 
e a boa cobrana. -Quando ele fez gesto de voltar a montar seu cavalo, ela negou com a cabea e segurou as rdeas. -No, deve ir andando. Seu cavalo retornar a 
casa sem perigo.
      Resignado ao capricho dos deuses, Hoyt agarrou seu alforje e a caixa com suas ervas e beberagens. Ajustou a espada e levantou seu cajado.
      -Como farei para lhe encontrar?
      -Atravs do portal, no mundo que ainda no chegou. No interior do Baile, levanta a chave e pronuncia as palavras. Seu destino se encontra mais  frente. De 
agora em diante, a humanidade est em suas mos. Atravs do portal -repetiu ela- no mundo que ainda no chegou. No interior do Baile, levanta a chave e pronuncia 
as palavras. Atravs do portal...
      Sua voz o seguiu enquanto avanava entre as grandes pedras. Reprimiu o medo em seu interior. Se tinha nascido para aquilo, que assim fosse. A vida era longa, 
sabia. Simplesmente, chegava em breves rajadas.
      Levantou a vara de cristal. Um nico raio de luz se filtrou atravs do espesso manto de nuvens para alcanar sua ponta. O poder percorreu seu brao como uma 
flecha.
      -Os mundos esperam. O tempo flui. Os deuses vigiam.
      -Repita disse Morrigan, e se uniu a ele, de modo que as palavras se converteram em um canto.
      -Os mundos esperam, O tempo flui. Os deuses vigiam.
      O ar se agitou ao redor de Hoyt, converteu-se em vento, em luz, em som. O cristal que sustentava em sua mo erguida brilhava como o sol e cantava como uma 
sereia.
      Ouviu que sua prpria voz surgia em forma de rugido, gritando agora as palavras como se tratasse de um desafio.
      E ps-se a voar. Atravs do vento, a luz e o som. Alm de estrelas, luas e planetas. Sobre extenses de gua que fizeram que seu ventre de feiticeiro se revolvesse 
de nusea. Cada vez mais depressa, at que a luz se tornou cegadora, os sons ensurdecedores e o vento to violento que se perguntou se no estava lhe arrancando 
a pele dos ossos.
      Logo a intensidade da luz se atenuou, o vento desapareceu e o mundo ficou em silncio.
      Apoiou-se no cajado para recuperar o flego, esperando que seus olhos se adaptassem  mudana de luz. Cheirava algo... a couro, pensou, e a rosas. 
      Deu-se conta de que estava em uma habitao de alguma classe, mas no se parecia com nada que tivesse visto nunca. Via-se fantasticamente mobiliada, com poltronas 
largas e baixas de intensas cores, e o cho era de tecido. Havia pinturas penduradas em algumas das paredes e outras estavam cobertas de livros. Dzias de livros 
encadernados em pele.
      Tinha dado dois passos, fascinado, quando um movimento a sua esquerda o freou em seco.
      Seu irmo estava sentado em uma espcie de mesa, onde o abajur que iluminava a habitao brilhava de uma maneira estranha. Levava o cabelo mais curto que antes 
e seus olhos tinham uma expresso que parecia ser de diverso.
      Na mo sustentava algum tipo de ferramenta de metal que o instinto do Hoyt lhe disse que era uma arma.
      Cian apontou com ela o corao de seu irmo e se reclinou na poltrona, apoiando os ps sobre a mesa. Em seus lbios se desenhou um amplo sorriso e disse:
      -Ah, ah, olhe o que trouxe o gato.
      Hoyt franziu o cenho com certa confuso e percorreu a habitao com o olhar em busca do gato.
      -Conhece-me? -Hoyt avanou uns passos para a luz-. Sou Hoyt, seu irmo. Vim para...
      -Me matar? Muito tarde. J estou morto h muito tempo. Por que no fica onde est no momento? Posso ver muito bem quando a luz  escassa. Tem um aspecto... 
bom, bastante ridculo na realidade. Mas no obstante, estou impressionado. Quanto tempo levou para aperfeioar a viagem no tempo?
      -Eu... -O passo atravs do portal devia ter ofuscado seus sentidos, pensou. Ou possivelmente se devesse simplesmente ao feito de que ver que seu irmo morto 
parecia estar muito vivo. -Cian.
      -J no uso esse nome nestes dias. Agora me chamo Can. Tire a capa, Hoyt, e demos uma olhada ao que leva debaixo.
      - um vampiro.
      -Sim, sou, sem dvida. A capa, Hoyt.
      Ele soltou o broche que a segurava e deixou que casse ao cho.
      -Espada e adaga. So muitas armas para um feiticeiro.
      -Haver uma batalha.
      -Isso  o que acredita? -A expresso divertida voltou a desenhar-se em seu rosto com frieza-. Posso prometer que perder. O que tenho na mo se chama pistola. 
 uma arma realmente muito boa. Dispara um projtil mais de pressa do que demora a piscar. Cair morto onde est antes que possa desembainhar a espada.
      -No vim para lutar contigo.
      -Srio? A ltima vez que nos encontramos... deixa que refresque minha memria. Ah, sim, empurrou-me por um escarpado.
      -Voc me empurrou primeiro -disse Hoyt com certa exasperao. -E me rompeu as malditas costelas ao faz-lo. Pensei que tinha morrido. OH, deuses misericordiosos, 
acreditava que estava morto.
      -Pois no estou, como pode ver. Retorna ao lugar de onde veio, Hoyt. Tive mil anos, mais ou menos, para superar meu aborrecimento contigo.
      -Para mim voc morreu faz uma semana. -levantou a tnica. -Fez-me estes machucados.
      Cian percorreu os machucados com o olhar e depois seus olhos voltaram a fixar-se em Hoyt.
      -Curaram muito rpido.
      -Vim com um encargo de Morrigan.
      -Morrigan, verdade? -Nesta ocasio, sua expresso divertida estalou em gargalhadas-. Aqui no h deuses. Nenhum deus. Nem fadas. Sua magia no tem capacidade 
nesta poca, e voc tampouco.
      -Mas voc sim.
      -A adaptao  sobrevivncia. Aqui deus  o dinheiro e o poder  seu scio. E eu tenho ambos. Livrei-me das pessoas como voc faz muito tempo.
      -Este mundo desaparecer, tudo desaparecer, no Samhain, a menos que me ajude a det-la.
      -Deter quem?
      -A quem fez voc. A essa coisa chamada Lilith.
      
      
              
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 3
      
      Lilith. Esse nome trazia para Cian brilhos de lembranas de centenas de vidas passadas. Ainda era capaz de v-la, de cheir-la, de sentir a sbita e horrenda 
excitao experimentada no momento em que ela levou sua vida.
      Ainda era capaz de saborear seu sangue e o que esta tinha incorporado. O escuro, escuro dom.
      Seu mundo tinha mudado. E lhe tinha concedido o privilgio -ou a maldio- de ver como mudavam os sucessivos mundos ao longo de inumerveis dcadas.        
      Acaso no tinha percebido que algo se aproximava? Por que outra razo tinha permanecido sentado, sozinho, em plena noite, esperando?
      Que horrvel giro do destino tinha enviado seu irmo. -ou o irmo do homem que ele tinha sido uma vez- atravs do tempo para que pronunciasse seu nome?
      -Bem, tem toda minha ateno.
      -Deve retornar comigo, se preparar para a batalha.
      -Retornar? Ao sculo doze? -Cian tornou a rir enquanto se reclinava em sua poltrona - Asseguro que nada poderia me tentar a fazer isso. Eu gosto muito das 
comodidades desta poca. Aqui a gua brota quente, Hoyt, e tambm as mulheres. No tenho nenhum interesse em suas polticas e suas guerras e,  claro, tampouco em 
seus deuses.
      -A batalha se travar contigo ou sem voc, Cian.
      -Sem mim soa perfeitamente bem.
      -Nunca deste as costas a uma batalha, nunca se escondeu ante uma briga.
      -"Esconder-se" no seria o termo que eu empregaria -replicou Cian. - E os tempos mudam, me acredite.
      -Se Lilith o derrotar, todos vs estaro perdidos para sempre. A humanidade desaparecer.
      Cian inclinou a cabea.
      -Eu no sou humano.
      - essa sua resposta? -Hoyt avanou uns passos-. Ficar sentado sem fazer nada enquanto ela destri tudo? Ficar  margem enquanto faz a outras pessoas o mesmo 
que fez a voc? Enquanto mata sua me e suas irms? Ficar a, de braos cruzados, enquanto transforma Nola no que voc ?
      -Todos eles esto mortos. Levam mortos muito tempo. So p.
      Acaso no tinha visto ele suas tumbas? No tinha resistido retornar e deter-se ante suas lpides, e as lpides daqueles que tinham vivido depois deles.
      -Ser que esqueceste tudo o que lhe ensinaram? -perguntou Hoyt interrompendo os pensamentos de seu irmo. -Os tempos mudam, disse. Entretanto  algo mais que 
mudana. Poderia estar aqui agora se o tempo estivesse slido? O destino deles no est selado, e o seu tampouco. Neste mesmo momento nosso pai est morrendo e, 
entretanto, deixei-o. Nunca voltarei a lhe ver com vida.
      Cian se levantou lentamente.
      -No tem idia do que ela , pelo que  capaz. J tinha centenas de anos quando me tomou. Acaso pensa det-la com espadas e raios?  mais estpido do que recordava.
      -Penso det-la contigo. Ajude-me. Se no o fizer pela humanidade, faa-o ao menos por voc. Ou acaso se uniria a ela? Se dentro de voc no fica nada daquele 
que foi meu irmo, ento acabemos isto entre ns agora mesmo e de uma vez por todas.
      Hoyt tirou sua espada.
      Durante um comprido momento, Cian estudou a folha, considerou a pistola que sustentava na mo e logo voltou a guard-la no bolso.
      -Afasta essa espada. Por Deus, Hoyt, se no foi capaz de me vencer quando estava vivo.
      O desafio e a pura irritao, brilharam nos olhos de Hoyt.
      -No o fez muito bem a ltima vez que lutamos.
      -Isso  verdade. Levou-me vrias semanas me recuperar. Ocultando-me em cavernas durante o dia, meio morto de fome. Ento a busquei, Lilith, quem me engendrou. 
Busquei-a durante a noite, enquanto me esforava para caar suficientes presas para me alimentar. Entretanto, abandonou-me. De modo que tenho uma dvida pendente 
com ela. Afasta j essa maldita espada.
      Quando Hoyt duvidou, Cian s teve que dar um pequeno salto. Em um abrir e fechar de olhos planou por cima da cabea de Hoyt e aterrissou brandamente a suas 
costas. Um momento depois, desarmou seu irmo com um quase imperceptvel giro de mo.
      Hoyt se voltou lentamente. A ponta da espada apontava sua garganta.
      -Bom trabalho -disse.
      -Somos mais rpidos e mais fortes. No temos uma conscincia que possa nos reprimir. Estamos obrigados a matar, a nos alimentar. A sobreviver.
      -Ento, por que no estou morto?
      Cian deu de ombros.
      -Digamos que por curiosidade, e tambm um pouco pelos velhos tempos. -Lanou a espada ao outro lado da habitao-. Bem, bebamos uma taa.
      Cian se dirigiu a um pequeno armrio e o abriu. Com a extremidade do olho, pde ver como a espada voava atravs da habitao at a mo de Hoyt.
      -Isso esteve muito bem -disse com leveza, e tirou uma garrafa de vinho-. No pode me matar com ao, mas se pudesse, se fosse bastante afortunado, arrancar 
uma parte de mim. No somos capazes de regenerar os membros perdidos.
      -Deixarei minhas armas a um lado e voc faz o mesmo.
      -Parece-me bastante justo. -Cian tirou a pistola do bolso e a deixou em cima da mesa. -Embora um vampiro sempre leve uma arma consigo. -Exibiu suas presas 
brevemente ante Hoyt-. No posso fazer nada a respeito disto. -Serviu duas taas de vinho enquanto Hoyt deixava a espada e a adaga-. Sente-se e me diga por que deveria 
participar da salvao do mundo. Agora sou um homem muito ocupado. Tenho empresas que atender.
      Hoyt agarrou o copo de vinho, estudou-o e cheirou seu contedo.
      -O que  isto?
      -Um vinho tinto italiano muito bom. No tenho nenhuma necessidade de te envenenar. -Para confirmar suas palavras, bebeu de sua taa-. Poderia te romper o pescoo 
como se fosse um ramo. -Cian se sentou e estirou as pernas. Depois agitou uma mo em direo a Hoyt-. No mundo de hoje, o que estamos fazendo aqui se chamaria uma 
reunio, e voc est a ponto de levar a cabo sua interveno. De modo que... me ilustre.
      -Temos que reunir nossas foras, comeando por alguns. Deve haver um sbio, uma bruxa, um que adota numerosas formas, e um guerreiro. Esse deve ser voc.
      -No. Eu no sou nenhum guerreiro. Sou um homem de negcios. -Cian continuou comodamente sentado e sorriu a Hoyt com indolncia-. De modo que os deuses, como 
de costume, deram-lhe muito pouco com o que trabalhar, e lhe encomendaram uma tarefa praticamente impossvel. Com seu punhado de escolhidos, e quem quer que seja 
bastante estpido para unir-se a vs, esperas derrotar um exrcito dirigido por um poderoso vampiro, provavelmente com tropas de sua classe, e outras formas de demnios 
se ela se tomar a molstia de pedir que a ajudem. De outro modo o mundo ser destrudo.
      -Mundos -corrigiu Hoyt-. H mais de um.
      -Nisso tem razo. -Cian bebeu um gole com expresso reflexiva. Em sua encarnao atual praticamente ficou sem provocaes. E aquilo ao menos era interessante.
      -E qual disseram os deuses que era meu papel em tudo isto?
      -Deve vir comigo, me ensinar tudo o que saiba a respeito dela e como podemos derrot-la. Quais so seus pontos dbeis. Quais so seus poderes. Que tipo de 
armas e de magia sero eficazes contra eles. Temos at a celebrao do Samhain para dominar estes conhecimentos e reunir o primeiro crculo.
      -Tanto tempo? -O sarcasmo em sua voz era evidente-. E que ganharei eu com tudo isso? Sou um homem rico, com muitos interesses que proteger aqui e agora.
      -E acredita que se ela governar, o permitir conservar essa riqueza e esses interesses?
      Cian franziu os lbios, reflexivo.
      -Possivelmente no -respondeu. - Mas  mais que provvel que, se o ajudar, esteja arriscando tudo isso, alm de minha prpria existncia. Quando se  jovem 
como voc...
      -Sou o mais velho.
      -No durante os ltimos novecentos anos, e a conta continua. Em qualquer caso, quando se  jovem se acredita que viver para sempre, de modo que corre todo 
tipo de estpidos riscos. Mas quando se viveu tanto tempo como eu, algum se volta muito mais prudente. Porque a existncia  imperativa. Minha prioridade  sobreviver, 
Hoyt. Os seres humanos e os vampiros tm esse trao em comum.
      -Sobrevive sentado sozinho na escurido, nesta pequena casa?
      -No  uma casa -respondeu Cian com expresso ausente-.  um escritrio. Um lugar onde se fazem negcios. D a casualidade de que possuo muitas casas. Isso 
tambm  sobrevivncia. H impostos e documentos e todo tipo de coisas das que devo me ocupar. Como a maioria dos que so como eu, raramente permaneo no mesmo lugar 
muito tempo. Somos nmades por natureza e necessidade.
      Cian se inclinou para frente e apoiou os cotovelos nos joelhos. Havia to pouco aos quais pudesse falar do que era. Tratava-se de sua escolha, essa era a vida 
que tinha construdo.
      -Hoyt, vi guerras, incontveis guerras como nunca poderia imaginar. E nelas ningum ganha. Se fizer o que me explicaste, morrer. Ou se transformar. Transformar 
um feiticeiro de seu poder seria para Lilith o mximo.
      -Acha que temos alguma possibilidade?
      -OH, sim. -Voltou a apoiar-se no respaldo da poltrona-. Sempre h uma possibilidade. Eu tive muitas em minhas vidas. -Fechou os olhos e fez girar morosamente 
o vinho na taa-. Algo se aproxima. Esteve havendo movimento no mundo que h debaixo de este. Nos lugares escuros. Se tratar-se do que diz,  maior do que supunha. 
Deveria prestar mais ateno. Por regra geral, no estou acostumado a me manter em contato com os vampiros.
      Desconcertado, j que Cian sempre tinha sido muito socivel, Hoyt franziu o cenho.
      -Por que no?
      -Porque, em geral, os vampiros so embusteiros e assassinos e chamam muita ateno sobre si mesmos. E os humanos que se relacionam com eles esto habitualmente 
loucos ou condenados. Eu pago meus impostos, arquivo meus documentos e mantenho um perfil baixo. E aproximadamente cada dcada, me mudo, troco o nome e me mantenho 
afastado do radar.
      -No entendo nem a metade do que est dizendo.
      -Imagino que no -respondeu. - Ela foder tudo para todo mundo. Os banhos de sangue sempre conseguem essas coisas, e esses demnios que vo por a pensando 
que querem destruir o mundo so ridiculamente mopes. Temos que viver nele, no  assim?
      Permaneceu sentado em silncio. Era capaz de concentrar-se e ouvir cada batimento do corao de seu irmo, ouvir o suave zumbido eltrico dos controles ambientais 
da habitao, o som do abajur que estava aceso sobre a mesa no outro lado da habitao. Ou podia bloque-los, como fazia freqentemente com os rudos de fundo.
      Tinha aprendido a faz-lo com o correr dos anos.
      Uma alternativa. Voltou a pensar. Por que no?
      -Trata-se de sangue - disse Cian sem abrir os olhos-. Em primeiro e ltimo lugar, trata-se de sangue. Ambos necessitamos o sangue para viver, os de sua classe 
e os da minha.  o que sacrificamos, pelos deuses, pelos pases, pelas mulheres, E o derramamos sempre pelas mesmas razes. Embora os que so como eu, no se preocupam 
com as razes.
      Agora Cian abriu os olhos e Hoyt os viu acesos de uma cor vermelha intensa.
      -Ns simplesmente o agarramos. Temos fome dele, desejamo-lo com veemncia. Sem sangue, deixamos de existir. Est em nossa natureza caar, matar, nos alimentar. 
Alguns de ns desfrutam mais que outros, quo mesmo os seres humanos. A alguns de ns gostam de causar dor, provocar medo, atormentar e torturar sua presa. Igual 
aos seres humanos. No somos todos iguais, Hoyt.
      -Voc assassina.
      -Quando caa o cervo do bosque e lhe tira a vida,  um assassinato? Vs no so mais que isso, inclusive menos, freqentemente menos, para ns.
      -Vi sua morte.
      -A queda do escarpado no foi...
      -No. Vi como ela o matava. A princpio acreditei que no era mais que um sonho. Vi-o sair da taberna e subir com ela a uma carruagem. E copular com ela enquanto 
a carruagem se afastava do povoado. E vi como mudavam seus olhos e como brilhavam suas presas na escurido antes que os cravasse em seu pescoo. Vi seu rosto. A 
dor, a surpresa, e...
      -A excitao -acabou Cian a frase-. O xtase.  um momento de enorme intensidade.
      -Tentou lutar, mas ela era como um animal que se lanou sobre voc. Acreditei que estava morto, mas no estava. No de tudo.
      -No, para se alimentar simplesmente pode deixar seca a sua presa se quiser. Mas para transformar um ser humano, este deve beber o sangue de seu criador.
      -Ela fez um corte no prprio peito e pressionou sua boca contra ele, e ainda assim tratou de resistir at que comeou a chupar como se fosse um beb.
      -A tentao  muito poderosa, como  o impulso de sobreviver. Tratava-se de beber ou morrer.
      -Quando ela acabou, lanou-o ao caminho da carruagem e ali o deixou. Foi onde eu o encontrei. -Hoyt bebeu avidamente, enquanto todo seu interior estremecia-. 
O encontrei coberto de sangue e lodo.  isso o que voc faz tambm para sobreviver? Ao cervo respeita muito mais.
      -Quer me dar um sermo? -perguntou Cian enquanto se levantava para servir-se mais vinho-. Ou quer saber?
      -Preciso saber.
      -Alguns caam em manadas, outros o fazem sozinhos. Ao amanhecer  quando somos mais vulnerveis: desde o comeo, despertamos na tumba cada anoitecer e dormimos 
durante o dia. Somos criaturas noturnas. O sol  a morte.
      -Sua luz vos queima.
      -Vejo que sabe algumas coisas.
      -Vi-o. Perseguiram-me em forma de lobos e tentaram me apanhar quando viajava para nossa casa.
      -S os vampiros de certa idade e poder, ou aqueles que se encontram sob o amparo de um poderoso senhor, so capazes de mudar de forma. A maioria deve conformar-se 
com a que tinham quando morreram. No obstante, no envelhecemos fisicamente. Uma agradvel bonificao.
      -Voc parece ter o mesmo aspecto que ao morrer -disse Hoyt-. Entretanto, no  assim.  algo mais que a roupa que leva, ou o cabelo. Move-se de forma diferente.
      -J no sou o que era e isso  algo que no deveria esquecer. Nossos sentidos esto intensificados, mais quanto mais tempo conseguimos sobreviver. O fogo, 
igual acontece com o sol, pode nos destruir. A gua bendita, se tiver sido fielmente benta, tambm nos queima, quo mesmo o smbolo da cruz se o levar com f. Somos 
repelidos pelos smbolos.
      "Cruzes", pensou Hoyt. Morrigan lhe tinha dado cruzes. Parte do peso se aliviou de seus ombros.
      -O metal  absolutamente intil conosco -continuou explicando Cian-, a menos que consiga nos cortar a cabea. Isso resolveria o problema. Mas se no for assim...
      Cian se levantou novamente de sua poltrona, avanou uns passos e agarrou a adaga de Hoyt. A fez girar no ar, agarrou-a pelo cabo e depois a cravou no peito.
      O sangue brotou da ferida e manchou a camisa branca de Cian enquanto Hoyt ficava em p de um salto.
      -Tinha esquecido quanto di. -Com um desdm, Cian extraiu a folha de seu peito-. Isto me leva a alardear. Faz a mesma coisa com uma estaca de madeira e nos 
converteremos em p. Mas deve perfurar o corao. Nosso final  realmente terrvel, ou ao menos isso  o que me contaram.
      Cian tirou um leno e limpou a folha da adaga. Depois tirou a camisa. A ferida j tinha comeado a fechar-se.
      -J morremos uma vez, e no  fcil desfazer-se de ns uma segunda. Lutaremos ferozmente contra qualquer um que o tente. Lilith  o vampiro mais velho que 
conheci. Ela lutar com maior brutalidade que qualquer outro. -Fez uma pausa, meditando com a taa de vinho na mo-. Como deixou nossa me?
      -Com o corao destroado. Voc foi seu filho favorito. -Hoyt deu de ombros quando Cian o olhou nos olhos-. Ambos sabemos. Ela me pediu que tentasse, que encontrasse 
uma maneira. Em sua dor, no era capaz de pensar em nenhuma outra coisa.
      -Acredito que nem sequer seus poderes como feiticeiro podem ressuscitar os mortos. Ou os que no esto.
      -Aquela noite fui visitar sua tumba, e pedi aos deuses que levassem um pouco de paz ao corao de nossa me. Encontrei-o coberto de terra.
      -Sair de uma tumba cavando com as mos  um assunto muito sujo.
      -Estava devorando um coelho.
      -Provavelmente foi o melhor que pude encontrar. No posso dizer que o recorde. As primeiras horas que seguem ao Despertar so incoerentes. S tem fome.
      -Fugiu de mim. Vi o que foi, j tinha havido rumores a respeito dessas coisas, e ps-se a correr. A noite em que voltei a v-lo fui aos escarpados a pedido 
de nossa me. Ela me implorou que encontrasse algum modo de romper o conjuro.
      -No  um conjuro.
      -Eu pensava, esperava, que se destrusse essa coisa que o tinha convertido no que foi... ou, se a debilitava, mataria isso no que o tinha convertido.
      -E no fez nenhuma das duas coisas -recordou Cian-. O que demonstra o que deve enfrentar. Eu era novato e mal sabia o que podia fazer. Acredite-me, ela ter 
companheiros muito mais experimentados a seu lado.
      -E voc de que lado estar?
      -No tem nenhuma oportunidade de ganhar esta batalha.
      -Subestima-me. Tenho muito mais que isso. J passe um ano ou um milnio, voc segue sendo meu irmo. Meu gmeo. Meu sangue. Voc mesmo o disse: o fundo do 
assunto  o sangue.
      Cian passou um dedo pela borda de sua taa de vinho.
      -Irei contigo. -Logo prosseguiu antes que Hoyt pudesse dizer nada-. Porque sinto curiosidade e estou um pouco aborrecido. J levo dez anos neste lugar, de 
modo que, em qualquer caso, chegou o momento de me mover. No prometo nada. No depende de mim, deve entend-lo, Hoyt. Eu atenderei a minha satisfao em primeiro 
lugar.
      -No pode caar seres humanos. 
      -J est me dando ordens? -Os lbios de Cian se curvaram ligeiramente-. Tpico. Mas como disse, minha satisfao vem primeiro. Entretanto, faz oitocentos anos 
que no me alimentei de sangue humano. Bom, setecentos e cinqenta, j que tive certo deslize.
      -Por que j no o faz?
      -Para demonstrar que sou capaz de resistir. E porque existe outra maneira de sobreviver, e bem, por certo, no mundo dos humanos, com suas leis. Se eles forem 
a presa, resulta impossvel consider-los outra coisa mais que comida, o que complica muito fazer negcios com eles. E por outra parte, a morte tende a deixar pistas. 
Amanhecer dentro de pouco.
      Hoyt olhou com expresso distrada em torno da habitao sem janelas.
      -Como sabe?
      -Sinto muito. E alm disso j estou cansado de perguntas. Por agora dever ficar comigo. No  seguro que v assim pela cidade. Talvez no sejamos idnticos, 
mas se parece muito comigo. Tem que se desfazer dessas roupas.
      -Acaso espera que vista... o que  isso?
      -Chamam-se calas -respondeu Cian secamente, e atravessou a habitao para um elevador privado-. Tenho um apartamento neste edifcio,  mais simples.
      -Recolher o que necessite e partiremos.
      -Eu no viajo de dia, e no aceito ordens. Agora sou eu quem as d, e o farei durante algum tempo. Tenho que me encarregar de algumas coisas antes de poder 
partir. Tem que entrar aqui.
      -O que  isto?
      Hoyt tocou as paredes do elevador com seu cajado.
      -Um meio de transporte. Levar-nos a meu apartamento.
      -Como?
      Cian passou uma mo pelo cabelo.
      -Olhe, tenho livros ali e algum outro material educativo. Pode dedicar as prximas horas a se empapar da cultura, a moda e a tecnologia do sculo vinte e um.
      -O que  tecnologia?
      Cian fez seu irmo entrar no elevador e pulsou o boto do seguinte piso.
      - outro deus.
            
            
      Aquele mundo, aquela poca, estavam cheios de maravilhas. Hoyt desejou ter tempo de aprender tudo, de absorver tudo. A habitao no se iluminava com tochas, 
e sim com algo que Cian chamava eletricidade. A comida se guardava dentro de uma caixa to alta como um homem e que a mantinha fresca e fria, e havia outra caixa 
que usava para esquent-la e cozinh-la. A gua brotava de uma espcie de varinha e caa dentro de uma grande terrina, de onde desaparecia atravs de um buraco.
      A casa onde vivia Cian estava construda a grande altura sobre a cidade... e que cidade! A breve descrio que lhe tinha feito Morrigan no tinha sido nada 
comparada com o que ele podia contemplar atravs de umas paredes de cristal que havia nas habitaes de Cian.
      Hoyt pensou que inclusive os deuses ficariam assombrados ante o tamanho e o alcance daquela Nova Iorque. Quis dar outra olhada  cidade, mas Cian o tinha feito 
prometer que manteria cobertas as paredes de cristal e que no se aventuraria fora de casa.
      Apartamento, corrigiu-se Hoyt. Cian o tinha chamado apartamento.
      Seu irmo tinha livros, uma grande quantidade deles, e uma caixa mgica que Cian tinha chamado televisor. As vises dentro dessa caixa mgica eram inumerveis: 
de pessoas e lugares, de coisas, de animais. Mas embora s estivesse uma hora brincando com ela, acabou por aborrecer-se do incessante bate-papo.
      De modo que se rodeou de livros e leu, e seguiu lendo at que os olhos lhe arderam e teve a cabea muito cheia como para que coubessem mais palavras ou imagens.
      Ficou dormindo no que Cian chamava um sof, rodeado de livros.
      Sonhou com uma bruxa e a viu em meio de um crculo de luz. No vestia mais que o colar e sua pele brilhava com uma palidez leitosa  luz das velas.
      Sua beleza simplesmente refulgia.
      A bruxa elevava uma bola de cristal com ambas as mos. Podia ouvir o sussurro de sua voz, mas no as palavras pronunciadas. Ainda assim, sabia que se tratava 
de um conjuro. Podia sentir todo seu poder, o poder dela atravs do sonho. E soube tambm que ela o estava procurando.
      Inclusive no sonho pde sentir sua atrao, e essa mesma impacincia que tinha percebido nela dentro de seu crculo estando ele ferido, em seu prprio tempo.
            
            
      Por um instante, teve a sensao de que seus olhos se encontravam atravs da nvoa. E era o desejo tanto como o poder o que atravessava seu corpo. Nesse momento, 
os lbios dela se curvaram, abriram-se como se quisesse lhe falar.
      -Que merda  essa roupa?
      Despertou de repente e se encontrou de frente com o rosto de um gigante. A criatura era to alta como uma rvore e quase to grosa. Tinha um rosto que teria 
feito chorar uma me, negra como a noite e com uma cicatriz na face, e a cabea cheia de cilindros de cabelo enredado.
      Tinha um olho negro e o outro cinza. Ambos entrecerrados enquanto exibia uma forte dentadura branca.
      -Voc no  Can.
      Antes que Hoyt tivesse tempo de reagir, foi elevado pelo cangote e sacudido como um camundongo por um gato muito grande e zangado.
      -Desa-o, King, antes que ele o transforme em um pequeno homem branco.
      Cian saiu de seu dormitrio e se dirigiu preguiosamente para a cozinha.
      -Como  que tem sua cara?
      -Ele tem sua prpria cara -replicou Can -. No nos parecemos tanto se reparar bem. Antes era meu irmo.
      - isso certo? Filho de puta! -King deixou cair Hoyt sobre o sof sem nenhum olhar-. Como merda chegou aqui?
      -Magia. -Enquanto falava, Cian tirou uma bolsa de sangue de uma pequena geladeira-. Deuses e batalhas, o fim do mundo, bla, bla, bla.
      King olhou Hoyt com um sorriso.
      -Quem o teria acreditado. Sempre pensei que a maior parte de todo esse lixo que me contou era, bom, lixo. No est muito falador antes de haver-se metido seu 
chute noturno -disse a Hoyt-. Tem algum nome irmo?
      -Sou Hoyt, dos Mac Cionaoith. E voc no voltar a me pr as mos em cima.
      -Muito bem dito.
      -Ele  como voc? -perguntaram Hoyt e King ao mesmo tempo.
      Cian verteu o sangue em um copo alto e grosso e depois o meteu no microondas.
      -No, aos dois. King leva meu clube, que est no andar de baixo.  um amigo.
      Hoyt fez uma careta de desgosto.
      -Seu criado humano.
      -Eu no sou criado de ningum.
      -Vejo que esteve lendo. - Cian tirou o copo do microondas e bebeu-. Alguns vampiros importantes tm criados humanos, mas eu prefiro ter empregados. Hoyt veio 
para me alistar no exrcito que espera formar para lutar contra o grande mal.
      -O IRS? 
      Cian, j de melhor humor, sorriu. Hoyt viu que algo passava entre eles, algo que uma vez s tinha passado entre seu irmo e ele.
      -Oxal fosse isso! No, disse que tinha ouvido movimento, rudos surdos. Evidentemente havia uma razo para isso. Segundo os falatrios dos deuses, Lilith 
dos Vampiros est reunindo seu prprio exrcito e planeja destruir toda a humanidade, conquistar os mundos. Guerra, peste, pragas.
      - capaz de brincar com isso? -perguntou Hoyt com uma fria mal contida.
      -Por Deus, Hoyt, estamos falando de exrcitos de vampiros e de viagens atravs do tempo. Tenho o fodido direito de brincar com isso. Se o acompanho  provvel 
que acabe morto.
      -Aonde pensam ir?
      Cian deu de ombros.
      -Para trs, a meu passado, suponho, para atuar ali como assessor da Sensatez geral.
      -No sei se devemos ir para trs, para frente ou para o lado. -Hoyt empurrou uns livros em cima da mesa-, mas retornaremos a Irlanda. Ali nos diro aonde devemos 
viajar depois.
      -Tem cerveja? -perguntou King.
      Cian abriu a geladeira, tirou uma garrafinha e a lanou a King.
      -Quando vamos? -perguntou este.
      -Voc no vem. J lhe havia dito isso. quando chegasse o momento de partir, cederia-lhe o controle do clube. Aparentemente esse momento chegou.
      King se voltou para Hoyt.
      -Est reunindo um exrcito, general?
      -Hoyt. Sim, assim .
      -Pois acaba de recrutar seu primeiro soldado.
      -Basta -Cian rodeou o balco que separava a cozinha-. Isto no  voc. No sabe absolutamente nada desta histria.
      -Mas sei coisas de voc -replicou King-. Sei que eu gosto de uma boa briga, e faz muito tempo que no tive uma. Esto falando de uma batalha importante, o 
bem contra o mal. Eu gostaria de escolher meu lado desde o comeo.
      -Se ele for um rei? Por que deveria aceitar ordens de voc? -perguntou Hoyt, e o gigante negro ps-se a rir de tal maneira que teve que sentar-se no sof.
      -A lealdade mau entendida far que o matem.
      - minha escolha irmo. -King elevou a garrafa em direo a Cian. Uma vez mais, algo forte e silencioso passou entre eles com apenas um olhar-. E no acredito 
que minha lealdade seja lealdade mal entendida.
      -Hoyt, por favor, v a outra parte. - Cian assinalou seu dormitrio com o polegar-. Entra ali. Quero ter umas palavras em particular com este idiota.
      Cian estava preocupado, pensou Hoyt enquanto obedecia. A seu irmo preocupava aquele homem, um trao humano. Nada do que tinha lido indicava que os vampiros 
pudessem ter autnticos sentimentos para os seres humanos.
      Franziu o cenho enquanto examinava o dormitrio. Onde estava o atade? Os livros diziam que os vampiros dormiam na terra de suas tumbas colocados dentro de 
um atade, durante o dia. Mas ele s via uma enorme cama, uma branda como as nuvens e coberta com um tecido muito suave.
      Ouviu vozes destemperadas do outro lado da porta, mas se dedicou a explorar a habitao pessoal de seu irmo. Decidiu abrir o armrio: havia roupa suficiente 
para vestir dez homens. Bom, Cian sempre tinha sido vaidoso.
      Mas no havia nenhum espelho. Os livros diziam que os vampiros no se refletiam neles.
      Entrou no banheiro e ficou boquiaberto. A ampla privada que Cian lhe tinha mostrado antes de retirar-se era assombrosa, mas nada comparado com aquilo. A banheira 
era bastante grande para que coubessem seis pessoas, e havia tambm uma caixa alta de cristal verde claro.
      As paredes eram de mrmore, igual ao cho.
      Fascinado, entrou na caixa verde e comeou a brincar com os puxadores prateados que se sobressaam da parede de mrmore. Lanou um grito quando um jorro de 
gua fria brotou de um monte de furos de uma coisa achatada.
      -Aqui costumamos tirar a roupa antes de nos colocar na ducha. -Cian tinha entrado no banheiro e fechou o jorro de gua com um enrgico giro de mo. Logo farejou 
o ar-. Embora pensando bem, seja vestido ou nu, no resta dvida de que deveria tomar banho. Est fodidamente sujo. Se lave - ordenou-. Depois ponha a roupa que 
deixei em cima da cama. Vou trabalhar.
      Cian saiu do banheiro e deixou que Hoyt se arrumasse s com a ducha.
      Depois de uns minutos e alguns calafrios, descobriu que podia regular a temperatura da gua. queimou-se, em seguida se congelou e, finalmente, conseguiu o 
afortunado ponto intermedirio.
      Seu irmo devia estar dizendo a verdade quando falou de sua riqueza, j que ali havia um luxo que ele jamais teria imaginado. A fragrncia do sabo lhe pareceu 
um tanto feminina, mas no havia nada mais com o que lavar-se.
      Hoyt adorou sua primeira ducha do sculo vinte e um, e se perguntou se haveria alguma maneira de reproduzi-la por meio da cincia ou da magia uma vez que retornasse 
para casa.
      Quo tecidos penduravam perto da ducha eram to suaves como a cama. Sentiu-se decadente ao usar um deles para secar o corpo.
      A roupa no importava especialmente, mas a sua estava empapada. Duvidou se devia sair e agarrar a tnica de reposto que tinha em seu ba, mas lhe pareceu melhor 
seguir o conselho de Cian quanto ao vesturio.
      Vestir-se levou um monto de tempo. Os estranhos broches estiveram a ponto de derrot-lo. Os sapatos careciam de cordes e simplesmente teria que deslizar 
os ps em seu interior. Teve que reconhecer que eram muito cmodos.
      Entretanto, teria gostado de ter um maldito espelho onde poder olhar-se. Saiu de sua habitao e freou em seco. O rei negro ainda estava no sof, bebendo da 
garrafa de vidro.
      -Isso est melhor -observou King-. Provavelmente poderia passar se mantivesse a boca fechada.
      -O que  este fechamento aqui?
      - um zper. E ser melhor que mantenha isso fechado, amigo. -levantou-se-. Can desceu ao clube. O sol j se ps. Despediu-me.
      -Est queimado? Tenho ungento.
      -No. Merda. Can me deixou sem meu trabalho. J passar. Ele se vai, eu vou. No tem por que gostar.
      -Ele acredita que todos morreremos.
      -Tem razo... mais tarde ou mais cedo. Viu alguma vez o que um vampiro  capaz de fazer a um ser humano?
      -Vi o que um deles fez a meu irmo.
      Os estranhos olhos de King se escureceram.
      -Sim, claro,  verdade. Bem, isso  o que ocorre. E no penso ficar sentado a esperar que um deles faa isso comigo. Cian tem razo se ouviu movimento, rudos 
estranhos. Haver uma luta e eu estarei nela.
      "Um verdadeiro gigante -pensou Hoyt-, com um rosto temvel, e uma enorme fora."
      -Voc  um guerreiro.
      -Pode apostar o que quiser. Pode me acreditar, chutarei o trazeiro desses vampiros. Mas no esta noite. Por que no descemos e vemos como est o ambiente? 
Isso o aborrecer.
      -A seu... -como tinha chamado Cian? -... seu clube?
      -Isso. Chama-o Eternity. Acredito que ele sabe algo a respeito disso.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 4
      
      Encontraria-lhe. Se um homem a arrastava dentro de seus sonhos, o fazia viver experincias extracorpreas e, em geral, rondava seus pensamentos, lhe seguiria 
o rastro e descobriria a razo.
      E fazia vrios dias que sentia como se estivesse de p na borda de um alto escarpado aoitado pelo vento. A um lado havia algo brilhante e formoso e no outro, 
um vazio frio e aterrador. Mas o escarpado em si, embora um tanto instvel, era o conhecido.
      Fosse o que fosse o que estivesse gerando em seu interior, ele formava parte disso, isso sabia sem dvida nenhuma. Embora no pertencia nem  aquele tempo 
nem a aquele lugar. Pelo geral, os homens no se dedicavam a passear a cavalo por Nova Iorque em pleno sculo vinte e um luzindo capas e tnicas.
      Mas ele era real, um homem de carne e osso to real como ela. As mos tinham se manchado com seu sangue, no ? Ela tinha esfriado sua pele e o tinha contemplado 
enquanto dormia e a febre desaparecia. Seu rosto, pensou, tinha-lhe resultado to familiar. Como algo que recordasse ou que tinha alcanado a vislumbrar fugazmente 
em sonhos.
      Bonito, e inclusive em meio de seu sofrimento, refletia ela ao mesmo tempo em que o desenhava. Magro e anguloso, aristocrtico. Nariz longo e fino. Boca forte 
e bem modelada. Mas do rosto marcadas e atrativas.
      Sua imagem se foi fazendo realidade no papel enquanto trabalhava, primeiro com traos amplos, logo com cuidados detalhes. Olhos afundados, recordava, de um 
azul intenso e com um arco de sobrancelhas marcado em cima deles. E o contraste daquele cabelo e sobrancelhas escuros com aqueles olhos azuis s lhe acrescentava 
mais mistrio.
      Sim, pensou, podia v-lo, podia desenh-lo, mas at que no o encontrasse no saberia se devia saltar da borda do escarpado ou afastar-se dele.
      Glenna Ward era uma mulher que gostava do conhecimento.
      De modo que conhecia seu rosto, a forma, e o tato de seu corpo, inclusive o som de sua voz. Ela sabia, fora de toda dvida, que ele tinha poder. E acreditava 
tambm que ele tinha as respostas.
      Fosse o que fosse o que estava se aproximando e todos os augrios a advertiam de que se tratava de algo muito grande, ele tinha que ver com isso. Glenna tinha 
um papel que jogar; tinha-o sabido quase desde seu primeiro flego. Tinha a sensao de que estava a ponto de assumir seu destino, e aquele homem atraente, ferido, 
envolto em magia e problemas, estava destinado a compartilh-lo com ela.
      Ele tinha falado em galico, galico e irlands. Glenna conhecia um pouco dessa lngua, tinha-a utilizado ocasionalmente nos conjuros, e inclusive era capaz 
de l-lo de uma maneira bastante rudimentar.
      Mas estranhamente, no sonho -experincia, viso, o que fosse-, ela no s tinha podido entender tudo o que ele havia dito, mas tambm tinha sido capaz de falar 
seu idioma como se fosse uma nativa.
      De modo que, em algum lugar do passado... o bom e comprido passado, resolveu. E, possivelmente, em algum lugar da Irlanda.
      Ao despertar, Glenna tinha realizado conjuros com cristais e conjuros de localizao diante de um espelho, usando para isso a atadura coberta de sangue que 
havia trazido com ela daquela estranha e intensiva visita... em qualquer lugar que tivesse estado. Aquele sangue e seu prprio talento a guiariam novamente para 
ele.
      Ela tinha esperado que essa tarefa se supusesse um trabalho e um esforo muito grande. Acrescentados ao trabalho e o esforo que implicaria transportar-se 
-ao menos em essncia- at seu tempo e lugar.
      Estava preparada para isso ou ao menos para tent-lo. Sentou-se dentro de seu crculo, com as velas acesas e as ervas flutuando na gua do recipiente O buscou 
uma vez mais, concentrando-se no desenho de seu rosto e sustentando a atadura que havia trazido de retorno com ela.
      -Procuro o homem que tem este rosto, minha busca se dirige em encontrar seu tempo, seu lugar. Sustento seu sangue em minha mo e com seu poder reclamo. Procurem 
e encontrem e me mostrem. Como eu o farei, que assim seja.
      Viu-o em sua mente, com o cenho franzido, rodeado por um monte de livros. concentrou-se e retrocedeu, viu toda a habitao. Apartamento? Luz tnue iluminando 
seu rosto, suas mos.
      -Onde est? -perguntou brandamente-. Mostre-me.         
      E ento pde ver o edifcio, a rua.
      A excitao do xito se mesclou com um desconcerto absoluto.
      Quo ltimo esperava era que ele se encontrasse em Nova Iorque, a umas setenta quadras de distncia e no presente.
      As fadas, decidiu Glenna, estavam fazendo horas extras para pr as coisas em marcha. Quem era ela para question-las?
      Desfez o crculo, recolheu tudo e guardou o desenho em uma das gavetas de sua mesa. A seguir se vestiu, duvidando um momento a respeito do que devia vestir. 
O que tinha que usar exatamente uma mulher quando ia encontrar-se com seu destino? Algo chamativo, discreto, prtico? Algo extico?
      Finalmente se decidiu por um vestido negro com o que sentia que podia dirigir qualquer situao.
      Viajou de metro para a parte alta da cidade, deixando que sua mente se limpasse. O corao pulsava com fora; uma antecipao que tinha estado crescendo em 
seu interior durante as ltimas semanas. Esse, pensou, era o passo seguinte para o que a estivesse esperando.
      E fosse o que fosse o que a esperasse; fosse o que fosse o que se aproximava; fosse o que fosse o que acontecesse a seguir, queria estar aberta a isso.
      Ento tomaria suas decises.
      O metro ia cheio, de modo que viajou de p, sustentando-se da asa que tinha em cima da cabea e balanando-se ligeiramente com o movimento do vago. Gostava 
do ritmo da cidade, seu passo rpido, suas msicas eclticas. Todos os tons e matizes de Nova Iorque.
      Tinha crescido em Nova Iorque, mas no na cidade, e sim ao norte do estado. Entretanto, sua pequena cidade sempre lhe tinha parecido muito limitada, muito 
fechada. Sempre tinha querido mais. Mais cor, mais som, mais gente. Levava na cidade os ltimos quatro de seus vinte e seis anos.
      E toda sua vida explorando sua arte.
      Agora algo estava zumbindo em seu sangue, como se soubesse -em alguma parte dela sabia- que, durante toda sua existncia, preparou-se para aquelas prximas 
horas.
      Na seguinte estao subiram uns passageiros e outros desceram. Deixou que esse som flusse sobre ela enquanto voltava a evocar a imagem do homem que estava 
procurando.
      No tinha o rosto de um mrtir, pensou. Nele havia muito poder para ser um mrtir. E muita ira tambm. Tinha descoberto, devia admiti-lo, que se tratava de 
uma combinao muito interessante.
      O poder do crculo que ele tinha criado era muito forte, e tambm o que fosse que o estivesse perseguindo. Eles tambm se fizeram presentes nos sonhos dela; 
esses lobos negros que no eram animais e tampouco humanos, e sim uma horrvel mescla de ambos.
      Acariciou ociosamente o colar que levava no pescoo. Bom, ela tambm era forte. Sabia proteger-se.
      -Ela se alimentar de ti.
       A voz era um vaio que deslizava por trs de seu pescoo e lhe gelava a pele. Ento, o que tinha falado se moveu, pareceu planar e flutuar descrevendo um crculo 
a seu redor, e o frio que desprendia fez que seu flego escapasse tremendo de entre seus lbios congelando o ar.
      Os outros passageiros continuavam sentados ou de p, lendo ou falando. Imperturbveis. Alheios a essa coisa que deslizava ao redor de seus corpos como uma 
serpente.
      Seus olhos eram vermelhos, suas presas longas e afiadas. O sangue os manchava, gotejava de sua boca de um modo quase obsceno. Dentro de seu peito, o corao 
de Glenna se fechou como um punho e comeou a pulsar, pulsar, pulsar com fora contra suas costelas.
      Aquela coisa tinha forma humana, pior ainda, usava um traje de rua. De listras finas azuis, notou quase sem dar-se conta, camisa branca e gravata de l de 
vistosas cores.
      -Somos imortais.
      Passou uma mo ensangentada pela face de uma mulher que estava sentada e lia uma novela de bolso. Com a cor vermelha lhe manchando a face, a mulher virou 
a pgina e continuou com sua leitura.
      -Conduziremo-os como gado, montaremo-os como cavalos, apanharemo-os como ratos. Seus poderes so insignificantes e patticos, e quando tivermos acabado com 
vocs, danaremos sobre suas tumbas.
      -Ento, por que tem medo?
      A coisa jogou os lbios para trs com um grunhido e saltou.        
      Glenna abafou um grito e retrocedeu tambm cambaleando.
      Quando o trem passou depressa pelo interior de um tnel, a coisa se desvaneceu.
      -Cuidado senhora.
      Recebeu a cotovelada impaciente e as palavras resmungadas pelo homem sobre o qual tinha cado.
      -Sinto muito.
      Voltou a agarrar-se na asa que oscilava na barra de cima de sua cabea com a mo gordurenta de suor.
      Ainda podia cheirar o sangue enquanto percorria as ltimas quadras para a parte alta da cidade.
      Pela primeira vez em sua vida, Glenna tinha medo da escurido, pelo que a rodeava, das pessoas que tinha a seu lado. Teve que fazer um grande esforo para 
no pr-se a correr quando o trem se deteve. Teve que reprimir o impulso de empurrar outros passageiros para abrir passagem entre eles e correr atravs da plataforma 
para a escada que levava a rua.
      Caminhou depressa, e inclusive entre os rudos prprios da cidade, podia ouvir o som de seus saltos sobre a calada e o ofego apreensivo de sua prpria respirao.
      Havia uma fila que se movia sinuosamente  entrada do clube chamado Eternity. Casais e pessoas ss se apinhavam  espera do sinal que os permitisse entrar 
no local. Ela, em lugar de esperar, aproximou-se decidida do homem que estava na porta. Sorriu e praticou um pequeno conjuro.
      Passou junto a ele sem que comprovasse a lista ou desse uma olhada a sua identificao.
      No interior havia msica, luzes azuis e o batimento do corao da excitao. Mas por uma vez, a presso das pessoas, o ritmo e a msica no a excitaram.
      Muitos rostos, pensou. Muitos pulsados. Ela s queria um e, de repente, a perspectiva de encontr-lo entre tanta gente pareceu impossvel. Cada tropeo e tranco 
enquanto abria passagem para o interior do clube faziam que estremecesse. E seu prprio medo a envergonhava.
      Ela no estava indefesa, no era uma mulher dbil. Mas nesse momento assim se sentia. Aquela coisa do trem resumia todo os pesadelos. E tinha sido enviada 
para ela.
      Para ela.
      Aquela coisa, pensou agora, tinha reconhecido seu medo e tinha brincado com ele, burlou dela at que seus joelhos pareceram liquidificar-se e os gritos que 
lanava em seu interior tinham ferido sua mente como laminas de barbear.
      Ficou muito comocionada, muito assustada para recorrer  nica arma que levava consigo: a magia.
      Agora a ira comeava a filtrar-se atravs do terror.
      Recordou a si mesma que era uma investigadora, uma mulher que corria riscos, que valorizava o conhecimento. Uma mulher que possua defesas e capacidades que 
a maioria eram incapazes de imaginar. E, entretanto, ali estava, tremendo ante o primeiro sopro real de perigo. Ergueu a coluna vertebral, controlou a respirao 
e logo se dirigiu para o enorme balco circular do clube.
      A metade de caminho da pista o viu.
      A sensao de alvio chegou primeiro, logo o orgulho de saber que tinha tido xito to depressa em sua tarefa. Uma pontada de interesse abriu passagem em seu 
interior enquanto se dirigia para o homem.
      Recuperou-se muito bem.
      Levava o cabelo estudadamente despenteado em lugar de sujo e alvoroado, de um negro brilhante e mais curto do que recordava de seu primeiro encontro. Naquela 
ocasio estava ferido, agitado e em um grave apuro. Agora ia vestido de negro, e lhe sentava muito bem, o fazia muito atraente. Igual ao olhar vigilante e ligeiramente 
irritado de seus olhos brilhantes.
      Com grande parte de sua segurana recuperada, Glenna sorriu e cruzou seu caminho.
      -Estive procurando-o.
      Cian se deteve. Estava acostumado que as mulheres se aproximassem dele, e no era que no pudesse obter certo prazer disso, especialmente quando se tratava 
de uma mulher excepcional, como a que tinha diante. Seus olhos verde esmeralda faiscavam com um pingo coquete de diverso. Seus lbios eram carnudos, sensuais e 
bem desenhados, a voz suave e grave.
      Tinha um bom corpo, embelezada com um vestido negro, curto e apertado, que mostrava uma generosa poro de pele leitosa e um forte tnus muscular. Poderia 
haver-se entretido com ela uns minutos se no fosse pelo colar que levava no pescoo.
      As bruxas, e pior ainda, as que praticavam a feitiaria, podiam ser um problema.
      -Eu gosto que me olhem as mulheres lindas quando tenho tempo para ser encontrado.
      Partiu nesse momento, continuando seu caminho, mas lhe tocou o brao.
      Cian sentiu algo. E, aparentemente, ela tambm, porque seus olhos se entrecerraram e seu sorriso desapareceu.
      -Voc no  ele. S se parece com ele. -Sua mo aumentou a presso sobre seu brao e ele sentiu que procurava poder-. Mas isso tampouco  completamente certo. 
Maldita seja. -Deixou cair a mo e jogou o cabelo para trs. - Devia ter sabido que no seria to simples.
      Esta vez foi ele quem a agarrou pelo brao.
      -Procuraremos uma mesa.
      "Em um canto escuro e tranqilo", pensou Cian. At que soubesse quem ou o que era aquela mulher.
      -Necessito informao. Tenho que encontrar algum.
      -O que precisa  uma taa -disse Can amavelmente e a guiou com rapidez atravs da multido.
      -Olhe sou capaz de conseguir minha prpria bebida se desejar uma.
      Glenna considerou a possibilidade de montar uma cena, mas decidiu que isso s conseguiria que a expulsassem do clube. Considerou tambm um arranque de poder, 
mas sabia por experincia que depender da magia quando estava irritada a metia em problemas.
      Deu uma olhada a seu redor avaliando a situao. O lugar estava cheio de gente em todos seus nveis. A msica era uma pulsao, apoiada no baixo, e com uma 
cantora que debulhava a letra com voz sensual e felina.
      Um clube muito concorrido, muito ativo, decidiu Glenna, com muito cromo e luzes azuis, envernizando o sexo com classe. O que podia lhe fazer esse tipo nessas 
circunstncias?
      -Estou procurando algum.
      "Conversa -se disse-. Deve se manter amigvel e conversadora."
      -Pensei que era o homem que estou procurando. Aqui a luz no  muito boa, e voc se parece o bastante para ser seu irmo.  muito importante que o encontre.
      -Como se chama? Talvez possa ajudar.
      -No sei seu nome. -E o fato de que o ignorasse fez que se sentisse como uma completa imbecil-. Ok, ok, sei bem como isso soa, mas me disseram que estava aqui. 
Acredito que tem problemas. Se voc...
      Ela foi tocar sua mo e a encontrou dura como uma pedra. O que podia lhe fazer aquele homem naquelas circunstncias? Voltou a pensar. Praticamente qualquer 
fodida coisa. Com o primeiro vislumbre de pnico lhe atendendo a garganta, fechou os olhos e procurou o poder.
      A mo se fechou ao redor de seu brao e aumentou a presso.
      -De modo que  uma das autnticas -murmurou, e fixou os olhos, to acerados como seus dedos, em seu brao-. Acredito que continuaremos esta conversa l em 
cima.
      -No penso ir contigo a nenhuma parte. -Um pouco parecido ao medo que tinha sentido no vago do metro abriu passagem em seu interior.- Isso foi uma baixa voltagem. 
Acredite-me voc no gostaria que aumentasse os ampres.
      -Me acredite -arremedou ele com voz suave-, voc no gostaria de ver me zangado.
      Levou-a atrs da curva que descrevia a escada de caracol aberta. Ela apoiou os ps com fora no cho, preparada para defender-se com todos os meios a seu alcance. 
Logo levantou um p e cravou seu salto agulha de oito centmetros no peito do p, ao mesmo tempo em que Cian a esbofeteava com o dorso da mo. Em lugar de desperdiar 
seu flego com um grito, Glenna comeou a praticar um conjuro.
      Mas o ar abandonou seus pulmes quando ele a levantou do cho como se no pesasse nada e a carregou sobre o ombro. Sua nica satisfao procedia do fato de 
que, ao cabo de trinta segundos quando tivesse acabado o conjuro, ele estaria sentado sobre seu traseiro.
      Isso no a impediu de seguir debatendo-se. Aspirou todo o ar que pde para soltar um grito, depois de tudo.
      Nesse momento se abriram as portas do que parecia um elevador particular. E ali estava ele em carne e osso. E to parecido ao homem que a tinha carregada sobre 
seu ombro que decidiu que podia odiar a ele tambm.
      -Desa-me, filho de puta, ou transformarei este lugar em uma cratera lunar.
            
            
      Quando as portas da caixa transportadora se abriram, Hoyt se viu assaltado por uma mescla de rudo aromas e luzes. Todo isso investiu com fora contra seu 
sistema, intumescendo seus sentidos. Atravs de seus olhos deslumbrados viu seu irmo com uma mulher que se debatia furiosamente em seus braos.
      Sua mulher, descobriu com outro sobressalto. A bruxa de seu sonho estava meio nua e empregava uma linguagem que ele raramente tinha ouvido nem sequer na taberna 
mais baixa.
      - deste modo que paga algum por t-lo ajudado?
      Separou do rosto a cortina de cabelo e olhou fixamente a Hoyt com aqueles grandes olhos verdes. Em seguida desviou o olhar e examinou King de cima abaixo.
      -Posso me encarregar dos trs -disse finalmente.
      Como ela se encontrava tendida sobre o ombro de Cian como se fosse um saco de batatas, Hoyt no estava seguro de como pensava levar adiante sua ameaa, mas 
as bruxas tinham seus recursos.
      -Ento  real -disse Hoyt brandamente-. Seguiste-me?
      -No tenha iluses, imbecil.
      Cian a trocou de posio sem esforo aparente.
      - sua? -perguntou a Hoyt.
      -No saberia dizer.
      -Pois se encarregue dela voc. -Cian deixou Glenna no cho e deteve o punho dirigido a seu rosto um segundo antes que chegasse ao destino-. Faz o que tenha 
que fazer - disse-. Em silncio. Depois a mande embora daqui. E mantenham a magia coberta. Os dois. King.
      Cian partiu. Depois de sorrir e dar de ombros, King o seguiu.
      Glenna alisou o vestido e jogou o cabelo para trs.
      -Que merda passa contigo?
      -Ainda me doem um pouco as costelas, mas estou quase curado. Obrigado por sua ajuda.
      Ela o olhou um momento e depois deixou escapar o ar com irritao.
      -Isto  o que faremos. Vamos sentar-nos e me convide para uma taa. Necessito uma.
      -Eu... no levo moedas nestas calas.
      -Tpico. Eu pagarei.
      Enlaou um brao ao redor do seu para assegurar-se de que no voltaria a perd-lo e logo comearam a abrir passagem entre a multido.
      -Meu irmo te fez mal?
      -O que?
      Hoyt teve que gritar. Como podia algum manter uma conversa com semelhante rudo? Naquele lugar havia muita gente. Era alguma espcie de festival?
      Havia mulheres rebolando no que devia ser algum tipo de dana ritual, e levando menos roupa at que a bruxa. Outras estavam sentadas em mesas prateadas e, 
observadas ou ignoradas, bebiam de taas e copos transparentes.
      A msica, pensou, chegava de toda as partes ao mesmo tempo.
      -Perguntava se meu irmo te fez mal.
      -Irmo? Isso encaixa. Feriu meu orgulho principalmente.
      Ela se decidiu pela escada e subiu ao nvel superior, onde o som no era to horrendo. Sem soltar-se de seu brao olhou a direita e esquerda e logo se dirigiu 
para um assento baixo, com uma vela que tremulava em cima da mesa. Havia cinco pessoas mais apertadas ao redor da mesa, e todas pareciam estar falando ao mesmo tempo.
      Ela sorriu e Hoyt sentiu a vibrao de seu poder.
      -Ol - lhes saudou -. Tm que ir agora mesmo para casa, no ?
      Os cinco se levantaram, sem deixar de falar, e deixaram a mesa cheia daqueles copos transparentes para beber, alguns quase cheios.
      -Lamento ter tido que lhes cortar a noitada, mas acredito que isto  mais importante. Sente-se, quer? -Ela se deixou cair no assento e estendeu suas longas 
pernas nuas-. Deus, que noite. -Agitou uma mo no ar e acariciou o colar com a outra enquanto estudava seu rosto-. Tem melhor aspecto que a outra vez. J est curado?
      -Sinto-me bastante bem. De onde vem?
      -Direto ao ponto. -Elevou a vista para a garonete que se aproximou para limpar a mesa-. Eu tomarei um Martini Grei Goose, s, com duas azeitonas. Seco como 
p. -Elevou uma sobrancelha em direo a Hoyt. Quando ele no disse nada, ela levantou dois dedos.
      Glenna acomodou uma mecha de cabelo atrs da orelha e se inclinou para adiante. Do lbulo de sua orelha penduravam umas espirais prateadas entrelaadas seguindo 
um modelo celta.
      -Aquela noite sonhei contigo. E outras duas vezes antes dessa acredito - comeou a dizer ela-. Tento prestar ateno a meus sonhos, mas nunca conseguia ret-los 
tempo suficiente, at este ltimo. Acredito que no primeiro deles estava em um cemitrio e sentia uma grande pena. Meu corao sangrou por voc, lembro haver sentido 
isso.  estranho, mas agora o recordo com mais clareza. A vez seguinte que sonhei contigo, vi-o em um escarpado sobre o mar. E vi tambm contigo uma mulher que no 
era uma mulher. Inclusive no sonho senti medo dela. E voc tambm tinha medo.
      Glenna se apoiou no respaldo, tremendo.
      -OH, sim, agora recordo. Lembro que estava aterrada e que havia uma grande tormenta. E voc... voc a golpeou. Eu mandei tudo o que tinha para voc, tentando 
o ajudar. Sabia que ela no... que nela havia algo que estava errado. Horrivelmente mal. Havia relmpagos e gritos... -Desejou que sua bebida j tivesse chegado-. 
Despertei e, por um instante, o medo despertou comigo. Depois tudo se desvaneceu.
      Quando Hoyt permaneceu calado, ela respirou profundamente.
      -De acordo, continuarei com meu relato. Utilizei meu espelho e tambm minha bola de cristal, mas no podia ver nada com clareza. S em meu sonho. Depois voc 
me levou a aquele lugar do bosque, ao crculo. Ou algo o fez. Por qu?
      -No foi minha obra.
      -Tampouco minha. -Fez tamborilar sobre a mesa suas unhas pintadas de vermelho, quo mesmo seus lbios-. Tem um nome, lindo?
      -Sou Hoyt Mac Cionaoith.
      O sorriso dela transformou seu rosto em algo que quase fez parar o corao de Hoyt.
      -No  de daqui, no ? -prosseguiu Glenna.
      -No.
      -Irlanda, sei. E no sonho falvamos em galico, um idioma que eu no conheo... na realidade no. Mas acredito que se trata de algo mais que de onde. Tambm 
 quando, no ? No se preocupe por me assustar. Esta noite sou imune.
      Hoyt estava lavrando uma luta interna. Ela tinha aparecido diante dele e tinha entrado no crculo. Nada que pudesse representar um perigo para ele poderia 
ter penetrado no crculo protetor. Embora houvessem dito que devia procurar uma bruxa, ela no era absolutamente, absolutamente o que tinha esperado.
      Entretanto, tinha-o curado, e tinha permanecido a seu lado enquanto os lobos rondavam seu crculo. E agora ela tinha retornado em busca de respostas, e possivelmente 
tambm de ajuda.
      -Cheguei atravs do Baile dos Deuses, faz quase mil anos no tempo.
      -De acordo. -Ela deixou escapar o ar com um assobio-. Possivelmente no totalmente imune. H muito que aceitar mediante a f, mas com todas as coisas que esto 
acontecendo, estou disposta a dar o salto. -Levantou o copo que a garonete acabava de deixar sobre a mesa e bebeu um gole-. Especialmente com isto para que me ajude 
a amortecer a queda. Cobre as bebidas, quer? -disse Glenna  garonete, e tirou um carto de crdito de sua bolsa.
      -Algo se aproxima -disse ela quando estiveram sozinhos outra vez-.Algo mau. Um mal grande e importante.
      -Pode v-lo?
      -No, no posso v-lo claramente. Mas o sinto, e sei que estou conectada contigo nisto. No  que o assunto me emocione. -Bebeu um pouco mais de seu copo-. 
No depois do que vi esta noite no metro.
      -No a entendo.
      -Algo muito desagradvel, vestido com um traje de desenho -explicou ela-. Essa coisa me disse que se alimentar de mim. Parece-me que era ela... a mulher que 
estava aquela noite no escarpado. Sei que o que vou perguntar pode parecer uma loucura, mas, estamos tratando com vampiros?
      -O que  o metro?
      Glenna apertou as palmas das mos contra os olhos.
      -Bem, mais tarde dedicaremos algum tempo a te pr ciente a algumas questes atuais, meios de transporte macios e coisas pelo estilo, por agora preciso saber 
o que estou enfrentando. O que se espera de mim.
      -No sei como se chama.
      -Sinto muito. Glenna, Glenna Ward. -Estendeu a mo direita at ele. Depois de uma breve vacilao, Hoyt a agarrou. -Prazer em conhec-lo. Agora bem, que merda 
est acontecendo aqui?
      Ele comeou a explicar e ela continuou bebendo. Depois elevou uma mo e tragou com dificuldade.
      -Perdoa, est-me dizendo que seu irmo, o tipo que me maltratou,  um vampiro?
      -No se alimenta de seres humanos.
      -OH, bem. Genial. Ponto para ele. Ou seja, seu irmo morreu faz novecentos e setenta e poucos anos, e voc veio aqui desde essa poca para busc-lo.
      -Os deuses me encarregaram de reunir um exrcito para lutar e destruir o exrcito de vampiros que Lilith est formando.
      -OH, Deus. Vou necessitar outro copo.
      Ele comeou a oferecer o seu, mas ela o afastou com a mo e chamou  garonete.
      -Obrigado, mas beba isso. Imagino que voc tambm vai necessitar.
      Quando chegou a garonete pediu outro copo e um pouco de comida do balco para rebater os efeitos do lcool. J mais acalmada, escutou o resto da histria 
sem interromper Hoyt.
      -E eu sou a bruxa.
      Ele se deu conta de que nela no havia s beleza; no havia somente poder. Havia uma busca e uma fora. Hoyt procuraria alguns, recordou o que havia dito a 
deusa, e alguns buscariam a ele.
      Como Glenna o tinha feito.
      -Sim, acredito que  voc. Voc, meu irmo e eu encontraremos os outros e comearemos.
      -Comear o que? Um acampamento de treinamento militar? Acaso pareo um soldado?
      -No,  claro que no.
      Glenna apoiou o queixo no punho.
      -Eu gosto de ser uma bruxa, e respeito esse dom. Sei que h uma razo para que isto corra por meu sangue. Um objetivo. No esperava que fosse isto, mas . 
-Ento o olhou fixamente-. A primeira vez que sonhei contigo soube que era o seguinte passo desse objetivo. Estou aterrada, estou completamente aterrada.
      -Eu deixei minha famlia para vir a este lugar a cumprir esta misso. Deixei-os s com as cruzes de prata e a palavra da deusa de que estariam protegidos. 
Voc no sabe o que  o medo.
      -De acordo. -Estendeu a mo e a apoiou sobre a sua lhe transmitindo uma espcie de consolo que Hoyt sentiu que era inato nela-. De acordo - repetiu-.  muito 
o que arrisca. Mas eu tambm tenho uma famlia. Vivem no norte do estado, e devo me assegurar de que esto protegidos. Preciso me assegurar para assim poder fazer 
o que se espera de mim. Ela sabe onde estou. Foi ela quem enviou essa coisa para que me colocasse o medo no corpo. Acredito que ela est muito mais preparada que 
ns.
      -Ento nos prepararemos. Tenho que ver do que  capaz.
      -Quer me submeter a uma sesso de prova? Escuta, Hoyt, at agora seu exrcito est composto por trs pessoas. No me insulte.
      -Somos quatro com o rei.
      -Que rei?
      -O gigante negro. E eu no gosto de trabalhar com bruxas.
      -Srio? -Cuspiu as palavras ao mesmo tempo em que se inclinava para ele-. Eles queimavam aos de sua classe com o mesmo fogo que aos meus. Somos primos carnais, 
Merlin. E voc precisa de mim.
      -Pode se que precise, mas a deusa no disse que tivesse que gostar, no ? Tenho que conhecer seus pontos fortes e fracos.
      -Parece-me justo - assentiu ela-. E eu tenho que conhecer os seus. De momento, j sei que no seria capaz de curar um cavalo coxo.
      -Isso  falso. -E desta vez o ressentimento tingiu sua voz-. O que passa  que estava ferido e no podia...
      -Curar um par de costelas quebradas e um talho na palma da mo. Ok, se conseguimos formar esse exrcito, voc no se encarregar das feridas.
      -Pode ficar com essa tarefa -replicou ele-. Formar esse exrcito  o que faremos.  meu destino.
      -Esperemos que o meu seja retornar para casa inteira.
      Assinou a conta e recolheu sua bolsa.
      -Aonde vai?
      -Para casa. Tenho muitas coisas que fazer.
      -No deve ir. Agora devemos permanecer juntos. Ela a conhece Glenna Ward. Ela nos conhece a todos.  mais seguro se estivermos juntos, porque assim somos mais 
fortes.
      - possvel, mas devo recolher algumas coisas de minha casa. Tenho muito que fazer.
      -Eles so criaturas noturnas. Ter que esperar que saia o sol.
      -J est me dando ordens?
      Tentou levantar-se, mas a imagem do que a tinha rodeado no vago do metro voltou para ela com enorme claridade. 
      Agora Hoyt lhe agarrou a mo, obrigando-a a permanecer sentada, e ela sentiu o choque de suas emoes no calor que vibrava entre suas palmas.
      - isto um jogo para voc? -perguntou ele.
      -No. Tenho medo. Faz apenas uns dias eu simplesmente vivia minha vida. A minha maneira. Agora esto me perseguindo, e se supe que devo lavrar uma batalha 
apocalptica. Quero ir para casa. Necessito minhas coisas. Preciso pensar.
      - o medo o que a faz vulnervel e imprudente. Suas coisas estaro ali pela manh igual  agora.
       claro, ele tinha razo. E, por outra parte, ela no estava segura de se tinha a coragem suficiente para voltar a sair de noite.
      -E onde se supe que vou ficar at que amanhea?
      -Meu irmo tem um apartamento neste mesmo edifcio.
      -Seu irmo o vampiro. -Glenna se deixou cair no assento-. No  encantador?
      -Ele no te far mal. Tem minha palavra.
      -Preferiria ter a palavra de seu irmo, se no se importar. E se ele tentar... -Glenna colocou a mo em cima da mesa com a palma para cima e se concentrou 
nela at que surgiu uma pequena bola de fogo-. Se o que disserem os livros e os filmes  certo, esses tipos no se do nada bem com o fogo. Se tentar me machucar, 
queim-lo-ei vivo, e seu exrcito perder um de seus soldados.
      Hoyt se limitou a apoiar uma de suas mos sobre a dela, e a chama se converteu em uma bola de gelo.
      -No oponha suas habilidades s minhas, ou ameace fazer dano a minha famlia.
      -Bonito truque. -Glenna deixou cair a pedra de gelo dentro de um copo-. Digamos desta maneira: tenho direito a me proteger de qualquer um ou de qualquer coisa 
que tente me fazer dano, de acordo?
      -De acordo. No ser Cian. -levantou-se e lhe ofereceu a mo-. Prometo que a protegerei, inclusive dele, se tenta fazer algum dano.
      -Muito bem. -Ela agarrou sua mo e se levantou. Sentiu-o e soube que ele tambm pela forma em que se dilataram suas pupilas. A magia, sim, mas algo mais-. 
Acredito que acabamos de fechar nosso primeiro trato.
      Quando desceram a escada e se dirigiram para o elevador, Cian lhes fechou a passagem.
      -Um momento, aonde acha que a leva?
      -Eu vou com ele - corrigiu Glenna-, ningum me leva.
      -No  seguro que saia agora  rua. No at que tenha amanhecido. Lilith j enviou um explorador atrs dela.
      -De acordo, mas deixa sua magia na porta - disse Cian a Glenna-. Esta noite pode ocupar o quarto livre. O que significa que voc ter que dormir no sof -acrescentou 
dirigindo-se a seu irmo-; a menos que ela queira compartilhar a cama contigo.
      -Ele pode ficar no sof.
      -Por que a insulta? -a ira tingia as palavras de Hoyt-. Ela foi enviada; veio aqui correndo um grande risco.
      -No a conheo -disse Cian simplesmente-. E de agora em diante, espero que fale comigo antes de convidar algum a minha casa. -Marcou o cdigo do elevador-. 
Uma vez que cheguem acima ficaro ali. Depois de vocs o elevador ficar fechado.
      -E o que acontece se h um incndio? -perguntou Glenna docemente. Cian se limitou a sorrir.
      -Ento suponho que tero que abrir uma janela e sair voando.
      Glenna entrou no elevador quando se abriram as portas e logo apoiou uma mo sobre o brao do Hoyt. Antes que as portas se fechassem, brindou novamente a Cian 
um suave sorriso e disse:
      -Ser melhor que recorde com quem est tratando.  possvel que o faamos.
      Glenna respirou profundamente quando as portas se fecharam.
      -Acredito que no gosto de seu irmo.
      -Eu tampouco me sinto muito contente com ele neste momento.
      -D igual. Pode voar?
      -No. -Hoyt a olhou-. E voc?
      -At agora tampouco.
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 5
      
      As vozes despertaram. Eram apagadas e soavam amortecidas, de modo que a princpio temeu estar tendo outra viso. Apesar do muito que valorizava sua arte, tambm 
sabia valorizar o sonho... especialmente depois de uma noite de martinis e estranhas revelaes
      Glenna agarrou um travesseiro e o colocou sobre a cabea.
      Sua atitude para Cian tinha mudado ligeiramente depois que deu uma olhada ao quarto de hospedes. Ali encontrou uma grande cama com um jogo de lenis deliciosamente 
suaves e muitos travesseiros para satisfazer at seu amor pelo luxo.
      No a tinha incomodado absolutamente que o quarto fosse muito espaoso, adornado com antiguidades e pintada com a cor quente e suave das sombras do bosque. 
O banheiro tambm tinha sido uma revelao, recordou enquanto desfrutava da cama. Uma enorme banheira de um branco brilhante e com jorros de gua a presso dominava 
uma habitao que media aproximadamente a metade de seu loft, pintada com o mesmo verde suave que o hectare de bancadas. Mas foi a ampla pia de cobre esculpido o 
que fez que ronronasse de prazer.
      Tinha estado a ponto de ceder  tentao de meter-se na enorme banheira, deleitar-se com alguns dos sai de banho e alguns dos leos contidos em pesados frascos 
de cristal e dispostos junto a um grupo de velas grosas e brilhantes em uma das estantes. Mas as imagens das heronas da grande tela que eram atacadas enquanto desfrutavam 
de um banho a tinham feito desistir da idia.
       Em geral, o pied--terre do vampiro -dificilmente podia chamar guarida a aquela exibio de luxo- resumia seu pequeno loft em West Village em insignificante.
       Embora admirasse o gosto do vampiro, isso no impediu que colocasse um conjuro protetor na porta do dormitrio, alm de assegurar-se de que esta ficava fechada 
com chave.
       Agora se virou na cama e apoiou a cabea no travesseiro para olhar ao teto a tnue luz do abajur que tinha deixado acesa antes de deitar-se. Estava dormindo 
no quarto de convidados de um vampiro. Tinha deslocado um feiticeiro do sculo XII ao sof. Um tipo bonito e srio estava cumprindo uma misso e esperava que ela 
se unisse a sua batalha contra uma antiga e poderosa rainha vampiro.
       Glenna tinha vivido com a magia durante toda sua vida, tinha recebido dons e conhecimentos que a maioria das pessoas jamais imaginaria que pudessem existir 
na realidade. E, entretanto, aquele era um fato digno de ser registrado nos livros.
       Gostava de sua vida tal como era. E sabia, sem a menor sombra de dvida, que jamais voltaria a recuper-la sem alteraes. Sabia, de fato, que podia perder 
essa vida para sempre.
       Mas que alternativa tinha? No podia fazer absolutamente nada, no podia colocar um travesseiro sobre a cabea e esconder-se durante o resto de sua vida. 
Aquilo a conhecia e j tinha enviado um de seus emissrios a lhe fazer uma visita.
       Se Glenna ficava na cidade, pretendendo que nada de tudo aquilo nunca tinha ocorrido, aquela coisa poderia ir procur-la, a qualquer momento, em qualquer 
parte. E ela estaria sozinha.
       Sentiria a partir de agora medo da noite? Olharia continuamente por cima do ombro cada vez que sasse  rua depois do pr-do-sol? Perguntar-se-ia se acaso 
um vampiro que s ela era capaz de ver deslizaria dentro do vago do metro a prxima vez que viajasse para a parte alta da cidade?
       No, essa no era absolutamente a maneira de viver. A nica forma de vida - a nica alternativa real- era enfrentar o problema e controlar seu medo. E unindo 
seus poderes e recursos aos de Hoyt.        
       Sabia que j no poderia voltar a conciliar o sonho. Olhou o relgio e ps os olhos em branco ao comprovar o cedo que era. Depois, resignada, levantou-se 
da cama.
            
            
            
       Na sala de estar. Cian estava acabando a noite com uma taa de brandy na mo e uma discusso com seu irmo.
       Em algumas ocasies tinha retornado a seu apartamento ao amanhecer com uma sensao de solido, com uma espcie de vazio em seu interior. Nunca se deitava 
com uma mulher de dia, nem sequer com as grossas cortinas corridas. Para Cian, o sexo era to vulnervel como poder. E ele no escolhia compartilhar essa vulnerabilidade 
quando o sol brilhava no cu.
       Era muito estranho que tivesse companhia depois da sada do sol e antes do crepsculo. E essas horas freqentemente eram longas e vazias. Mas ao entrar no 
apartamento e encontrar ali seu irmo, tinha descoberto que preferia estar sozinho.
       -Voc quer que ela fique aqui at que decida qual vai ser seu prximo movimento. E eu digo que isso  impossvel.
       -Como se no poderia estar ela a salvo? -argumentou Hoyt.
       -No acredito que a segurana dessa mulher figure em minha lista de preocupaes imediatas.
       Tanto tinha mudado seu irmo -pensou Hoyt com evidente desgosto- que no saa imediatamente em defesa de uma mulher, de um inocente?
       -Agora todos esto em perigo, tudo est em perigo. No temos mais alternativa que permanecer juntos.
       -Eu sim tenho alternativa e no  precisamente compartilhar minha casa com uma bruxa, ou contigo. A propsito disso -acrescentou Cian fazendo um gesto com 
a taa-, eu no gosto que haja ningum em meu apartamento durante o dia.
       -Eu passei aqui o dia de ontem.
       -Isso foi uma exceo. -Cian se levantou da poltrona-. E uma exceo da que j comeo a me arrepender. Est pedindo muito a algum a quem tudo importa muito 
pouco.
       -Ainda no comecei a pedir nada. Sei o que ter que fazer. Voc falou de sobrevivncia, e a sua est agora to em perigo como a dela e a minha.
       -A minha mais, j que a sua ruiva poderia ocorrer me cravar uma estaca no corao enquanto durmo.
       -Ela no  mi... -Frustrado, Hoyt fez um gesto para deixar de lado essa questo-. Jamais permitiria que ela o machuca-se. Juro. Neste lugar, neste tempo, 
voc  minha nica famlia. Meu nico sangue.
       O rosto de Cian se voltou inexpressivo como uma pedra.
       -Eu no tenho famlia. E nenhum sangue salvo o meu. Quanto antes se inteire, Hoyt, quanto antes o aceite, melhor para voc. O que fao, fao-o por mim, no 
por voc. No por sua casa, mas sim pela minha. Disse que lutaria a seu lado e isso  o que farei. Mas por minhas prprias razes.
            -E quais so essas razes? Diga-me isso ao menos.
            -Eu gosto deste mundo. -Cian se sentou no brao de sua poltrona e bebeu um gole de brandy-. Eu gosto do que consegui dele e tenho intenes de conserv-lo; 
e segundo meus prprios termos... no segundo o capricho de Lilith. Esse  o valor que tem esta luta para mim. Alm disso, acumular sculos de existncia tem seus 
momentos aborrecidos. Parece que agora estou vivendo um desses momentos. Mas h limites. E ter sua mulher metida em meu apartamento supera esses limites.
      -Ela no  minha mulher.
      Um sorriso indolente se desenhou nos lbios de Cian.
      -Se no conseguir que seja,  inclusive mais lento do que recordo nesse aspecto.
      -Isto no  um esporte, Cian e sim uma luta de morte. 
      -Eu sei mais a respeito da morte do que voc nunca saber, Hoyt. E mais tambm sobre sangue, dor e crueldade. Durante sculos observei os mortais; uma e outra 
vez vislumbrei sua extino causada por sua prpria mo. Se Lilith fosse um pouco mais paciente, s teria que esperar que desaparecessem. Toma seus prazeres ali 
onde os encontre, irmo, porque a vida  longa, e s vezes, muito aborrecida. -Fez um brinde elevando a taa-. Outra razo para lutar: ter algo que fazer.
      -E por que no une a ela ento? -espetou Hoyt-. A que o transformou no que  agora.
      -Ela me transformou em um vampiro. Eu me transformei no que sou. Por que me uno ao seu bando e no ao dela? Porque posso confiar em voc. Voc manter sua 
palavra; est em sua natureza. Ela nunca o far; no est na dela.
      -E o que h com sua palavra?
      -Uma pergunta interessante.
      -Eu gostaria de ouvir a resposta. -Glenna falou da porta de seu quarto. Usava um robe de seda negra que tinha encontrado pendurada no armrio junto a outra 
srie de objetos ntimos femininos-. Vocs dois podem discutir tudo o que queiram, afinal  o que fazem os homens, e os irmos. Mas considerando que minha vida est 
em jogo, quero saber com quem posso contar.
      -Vejo que se instalou como se fosse sua casa -comentou Cian.
      -Quer que tire isso?
      Quando ela inclinou a cabea e procurou o lao que fechava o robe, Cian sorriu. Hoyt se ruborizou intensamente.
      -No o anime - disse Hoyt-. Se quiser nos perdoar um momento...
      -No, no quero. Quero ouvir a resposta a sua pergunta. E quero saber uma coisa: se seu irmo se zangar, olhar-me como se eu fosse um canap?
      -No me alimento de seres humanos. Muito menos de bruxas.
      -Devido ao profundo amor que professas  humanidade, suponho.
      -Porque  uma questo chata. Se alimentar-se de seres humanos, tem que matar e correr o boato. Se trocar de presa, segue se arriscando a que o descubram. 
Os vampiros tambm fofocam.
      Ela pensou.
      -Razovel. De acordo, prefiro a honestidade razovel s mentiras.
      -Disse que ele no te faria mal.
      -Queria ouvir de seus lbios. -Glenna se voltou para Cian-. Se est preocupado pela possibilidade de que v atrs de voc, darei minha palavra... mas por que 
deveria confiar nela?
      -Razovel - respondeu Cian.
      -Entretanto, seu irmo j me disse que me deteria se tentasse.  possvel que Hoyt encontrasse isso mais difcil do que acredita, mas... seria estpido por 
minha parte tentar mat-lo, e portanto afast-lo dele, considerando a situao em que nos encontramos. Tenho medo, mas no sou uma estpida.
      -Terei que aceitar sua palavra nisso tambm.
      Glenna brincou com a manga do robe e lhe brindou um sorriso ligeiramente coquete.
      -Se estivesse interessada em mat-lo, j teria tentado um conjuro. Saberia se o tivesse feito. Sentiria-o. E se entre ns trs no h mais confiana que esta, 
estamos condenados antes sequer de ter comeado.
      -Nisso tem toda a razo.
      -Agora o que quero  tomar banho e tomar o caf da manh. Logo irei para casa.
      -Voc fica.
      Hoyt se colocou entre ambos. Quando Glenna tentou dar um passo, ele se limitou a levantar uma mo e a fora de sua vontade a lanou de retorno para a porta 
do quarto.
      -S um fodido minuto.
      -Silncio. Ningum partir daqui s. Nenhum de ns. Se formos estar juntos, devemos comear agora mesmo. Nossas vidas esto nas mos dos outros, e muito mais 
que nossas vidas.
      -No volte a usar outra vez seu poder comigo.
      -O que tiver que fazer, farei-o. Deve entend-lo. -Hoyt passeou seu olhar de um a outro-. Devem entender os dois. Agora v vestir-se - ordenou a Glenna-. Depois 
iremos onde acha que precisa ir. Se apresse.
      Por toda resposta, ela deu meia volta, entrou no quarto e bateu a porta.
      -No h dvida de que sabe como cativar s mulheres. Vou para cama.
      Hoyt ficou s na sala de estar e se perguntou por que os deuses teriam acreditado que ele seria capaz de salvar mundos com aquelas duas criaturas a seu lado.
      Glenna no disse nada, mas um homem que tem duas irms sabe que, freqentemente, as mulheres utilizam o silncio como uma arma. E o silncio dela voou atravs 
da habitao como se fossem puas enquanto enchia uma espcie de estranho recipiente com gua do encanamento de prata que havia na cozinha de Cian.
      Era possvel que a moda feminina tivesse mudado radicalmente em novecentos anos, mas ele acreditava que os mecanismos internos eram os mesmos.
      E, entretanto, muitos deles seguiam sendo um autntico mistrio para ele.
      Glenna usava o mesmo vestido do dia anterior, mas ainda ia sem sapatos. Hoyt no estava seguro de que classe de debilidade havia nele para que a viso de seus 
ps nus lhe provocasse aquela incmoda pontada de excitao.
      Glenna no deveria ter paquerado com seu irmo, pensou com considervel ressentimento. Aquele era um momento para a guerra, no para o flerte. E se ela tinha 
inteno de passear pela casa com os braos e as pernas ao ar, ento teria que...
      Conteve-se. Ele no tinha direito a olhar suas pernas, no ? No tinha nenhum direito de pensar nela como se fosse outra coisa que uma simples ferramenta. 
No importava que fosse encantadora. No importava que, quando a via sorrir, acendesse-se um pequeno fogo no interior de seu corao.
      No importava -no podia importar- que quando a olhava sentisse uns irrefreveis desejos de toc-la.
      Manteve-se ocupado com os livros, devolveu com silncio o silncio de Glenna e devaneou os miolos pensando em qual seria a conduta apropriada.
      Logo o ar comeou a encher-se de um aroma sedutor. Olhou-a pela extremidade do olho ao mesmo tempo em que se perguntava se estaria pondo em prtica algo de 
sua magia feminina. De costas a ele, viu-a ficar nas pontas dos ps sobre aqueles encantadores ps nus para agarrar uma taa do armrio.
      O estranho recipiente de antes se deu conta agora de que estava cheio de um lquido negro que fumegava com um aroma muito tentador.
      Hoyt perdeu a guerra do silncio. Segundo sua experincia, os homens sempre a perdiam.
      -O que est preparando?
      Ela se limitou a verter lquido negro em uma xcara, logo, sem responder, voltou-se e o observou com seus glidos olhos verdes por cima do bordo da taa enquanto 
bebia a pequenos sorvos.
      Para satisfazer sua curiosidade, Hoyt se levantou, foi at a cozinha e agarrou tambm uma xcara. Verteu o lquido que ela tinha feito, cheirou-o -no detectou 
nenhum veneno- e logo bebeu um pouco.
      Foi algo eltrico. Como uma sbita sacudida de poder, forte e ao mesmo tempo saborosa. Potente, igual  bebida -o chamado Martini- da noite anterior. Mas diferente.
      - muito bom. -disse e bebeu um gole mais longo.
      Por toda resposta, Glenna passou junto a ele, atravessou a cozinha e retornou ao quarto de hospedes.
      Hoyt elevou o olhar aos deuses. Acaso ia estar permanentemente rodeado pelo mau humor e os acessos de ira daquela mulher e seu irmo?
      -Como? -perguntou-. Como poderei fazer o que me ordenaram se j estamos brigando entre ns?
      -J que est nisso, por que no aproveita e pergunta a sua deusa o que pensa ela de como me tratou?
      Glenna havia retornado com os sapatos postos e levando a bolsa da noite anterior.
      -Foi uma defesa contra o que aparentemente  sua natureza discutidora.
      -Eu gosto de discutir. E no espero que me lance contra as paredes cada vez que desgoste o que tenha que dizer. Volta a faz-lo e devolverei o golpe. Sou contra 
o uso da magia como arma, mas em seu caso estou disposta a fazer uma exceo.
      O caso  que ela tinha direito a faz-lo, o que s resultava ainda mais fastidioso.
      -O que  a bebida que preparaste?
      Glenna suspirou.
      -Caf. Imagino que j teria bebido caf antes, no? Os egpcios tinham caf. Acredito.
      E, como ela sorriu, sups que o pior j tinha passado.
      -Estou preparada para que partamos... logo que se tenha desculpado.
      Deveria hav-lo imaginado. Assim era como se comportavam as mulheres.
      -Lamento me haver visto obrigado a utilizar meu poder para impedir que discutisse toda a manh.
      Glenna se dirigiu para o elevador e apertou o boto de chamada.
      - o costume das mulheres deste tempo mostrarem-se agressivas e sarcsticas, ou s em seu caso?
      Lanou-lhe um olhar por cima do ombro.
      -Eu sou a nica de quem deve preocupar-se neste momento. -Entrou no elevador e manteve a porta aberta-. Vem?
      Glenna tinha elaborado uma estratgia bsica. Primeiro, teria que parar um txi. Fosse qual fosse a conversa, de qualquer maneira que Hoyt se comportasse, 
um taxista da cidade de Nova Iorque j teria visto e ouvido tudo antes.
      Alm disso, sua coragem ainda no tinha chegado ao nvel de lhe permitir voltar a apanhar o metro para retornar a seu apartamento.
      Como tinha antecipado, no momento em que saram do edifcio, Hoyt se deteve e olhou com os olhos muito abertos. Olhou para todas as partes, acima, abaixo, 
direita e esquerda. Estudou o trfico, os transeuntes, os edifcios.
      Ningum lhe prestaria a menor ateno e, se o faziam, suporiam que era um turista.
      Quando abriu a boca para falar, lhe ps um dedo sobre os lbios.
      -Ter um milho de perguntas que fazer, de modo que, por que no as ordena e arquiva? Com o tempo, responderemos todas. Agora procurarei um txi. Uma vez que 
estejamos dentro, por favor tenta no dizer nada que seja muito extravagante.
      As perguntas se moviam qual formigas dentro da cabea de Hoyt, mas decidiu cobrir-se com um manto de dignidade.
      -No sou tolo. Sei muito bem que aqui estou completamente fora de lugar.
      No, no era nenhum parvo, pensou Glenna enquanto se aproximava do meio-fio e levantava uma mo. E tampouco era um covarde. Ela previa que ia ficar boquiaberto, 
mas tambm tinha esperado ver nele um pouco de temor ante a agitao, o rudo e as multides, entretanto, no tinha sido assim. S percebeu no homem curiosidade, 
certa dose de fascinao e um pingo de desaprovao.
      -Eu no gosto como cheira o ar.
      Glenna lhe deu uma ligeira cotovelada quando Hoyt se reuniu com ela junto ao meio-fio.
      -Acabar por se acostumar -disse. Quando um txi se aproximou do meio-fio, sussurrou a Hoyt enquanto abria a porta do carro-: sobe como eu fao, se acomode 
no assento e desfruta da viagem.
      Uma vez dentro do carro, ela estendeu o brao para fechar a porta e depois deu o endereo ao condutor. Quando o veculo voltou a meter-se entre o intenso trfico, 
os olhos de Hoyt se abriram como pratos.
      -No posso contar muito a respeito disto -disse Glenna por debaixo da msica Indiana que saa do rdio do carro-.  um txi, uma espcie de carro. Funciona 
com um motor de combustvel acionado por gasolina e leo.
      Esforou-se por explicar o que eram os semforos, cruzamento para pedestres, os arranha-cus, as lojas de departamentos e qualquer outra coisa que lhe viesse 
 mente. Deu-se conta de que era como se ela tambm visse a cidade pela primeira vez, e comeou a gozar do trajeto.
      Hoyt escutava. Glenna podia ver como absorvia e armazenava toda a informao, as vistas, os sons, os aromas, em algum banco de dados interno.
      -H tantos. -disse com calma, mas seu tom preocupado fez que ela se voltasse para olh-lo-. Tanta gente - especificou ele olhando atravs da janela. - E no 
sabem o que se avizinha. Como faremos para salvar tantas pessoas?
      Ento ela sentiu como se uma flecha aguda e certeira lhe cravasse no ventre. Tantas pessoas, sim. E aquilo era s uma parte de uma cidade em s um estado.
      -No podemos. No a todos eles. Nunca se pode. -Agarrou-lhe a mo e a apertou-. De modo que no deve pensar em todos eles juntos ou ficar louco. Faremos de 
um em um.
      Quando o txi se deteve junto ao meio-fio, tirou dinheiro da bolsa e pagou a corrida... um gesto que a fez pensar nas finanas e em como dirigiria esse pequeno 
problema nos prximos meses. Quando estiveram na calada voltou a agarrar Hoyt pela mo.
      -Este  meu edifcio. Se virmos algum quando entrarmos s deve sorrir e parecer uma pessoa encantadora. Pensaro que estou trazendo um amante a minha casa.
      A reao em seu rosto foi evidente.
      -Faz?
      -De vez em quando.
      Abriu a porta com a chave e logo se apertou com Hoyt no diminuto vestbulo para chamar o elevador. Apinhados em um espao ainda mais estreito, ambos comearam 
a subir.
      -Todos os edifcios tem estes...
      -Elevadores. No, mas muito deles sim.
      Quando chegaram a seu apartamento, Glenna abriu a porta e ambos entraram.
      Era um espao pequeno, mas a luz era excelente. As paredes estavam cobertas com suas pinturas e fotografias, e pintadas com o verde das cebolas tenras para 
refletir a luz. Tapetes tecidos por ela salpicavam o cho com tons e desenhos audazes.
      O lugar estava limpo e ordenado, algo que ia com sua natureza. Sua cama, conversvel em um sof durante o dia, estava cheia de almofadas. A pequena cozinha 
se via reluzente.
      -Vive sozinha. No tem ningum que a ajude. 
      -No posso me permitir o gasto de algum para limpar o apartamento, e, alm disso, eu gosto de viver sozinha. Empregados domstico tem que ser pagos e eu no 
tenho dinheiro suficiente.
      -No tem homens em sua famlia, nenhum estipndio ou atribuio?
      -No cobro nenhuma atribuio desde os dez anos -respondeu ela secamente-. Trabalho. As mulheres trabalham igual aos homens. Em teoria ao menos no dependemos 
de um homem para que cuide de ns, seja economicamente ou de outra maneira.
      Ela lanou a bolsa sobre o sof.
      -Ganho a vida vendendo minhas pinturas e fotografias. Em geral, pinturas e desenhos para cartes de felicitao ou como notas, cartas, mensagens que as pessoas 
se enviam entre elas.
      -Ah, ento  artista.
      -Assim  -conveio ela, divertida pelo fato de que, ao menos sua escolha de emprego, parecesse contar com a aprovao de Hoyt-. Os cartes de felicitao servem 
para pagar o aluguel. Mas de vez em quando tambm vendo diretamente as ilustraes. Eu gosto de trabalhar por minha conta. Tenho meu prprio horrio, o que  uma 
sorte para voc. No devo responder ante ningum, de modo que disponho de tempo para fazer, bom, o que deve ser feito.
      -Minha me tambm  uma artista, a sua maneira. As tapearias que tece so lindas. -aproximou-se de uma pintura que mostrava uma sereia que surgia de um mar 
revolto. O rosto da figura refletia poder, uma espcie de conhecimento que ele interpretava como uma qualidade inerentemente feminina -. Voc o pintou?
      -Sim.
      -Mostra talento, e essa magia que se converte em cor e forma.
      Mais que simples aprovao, decidiu Glenna, agora era admirao. E ela deixou que seu calor a envolvesse.
      -Obrigado. Normalmente, essa espcie de pequena valorizao me alegraria o dia. S que hoje  um dia muito estranho. Preciso trocar de roupa.
      Ele assentiu com ar ausente enquanto se aproximava de outra das pinturas pendurada na parede.
      Atrs dele. Glenna levantou a cabea e deu de ombros. Foi ao velho armrio, escolheu os objetos que queria e os levou ao banheiro.
      Estava acostumada que os homens lhe prestassem um pouco mais de ateno, refletiu enquanto tirava o vestido. A seu aspecto,  forma em que se movia. Resultava 
deprimente ser ignorada com tanta facilidade, embora ele tivesse coisas mais importantes nas quais pensar.
      Vestiu uns jeans e um Top branco. Deixando de lado o sutil glamour que tinha sido bastante vaidosa para tentar pr em prtica essa manh, maquiou-se levemente 
e depois recolheu o cabelo em um pequeno rabo de cavalo.
      Quando retornou, Hoyt estava na cozinha, examinado suas ervas.
      -No toque em minhas coisas.
      Deu-lhe um suave golpe na mo para que a retirasse.
      -Eu s estava... -interrompeu-se e logo a olhou atentamente-.  assim como se veste em pblico?
      -Sim. -Ela se voltou e invadiu seu espao deliberadamente-. Algum problema?
      -No. No usa sapatos?
      -Quando estou em casa no necessariamente.
      Seus olhos eram to azuis, pensou ela. To intensos e azuis, rodeados por aquelas longas pestanas negras.
      -O que  que sente quando estamos assim? Sozinhos. Perto.
      -Inquietao.
      -Isso  o mais agradvel que me disse at agora. Quero dizer, sente algo, aqui? -Glenna apoiou o punho sobre o ventre sem afastar os olhos dele-. Uma espcie 
de comunicao. Nunca o havia sentido antes.
      Ele tambm sentia, e uma espcie de fogo por debaixo de seu corao.
      -No comeste nada -conseguiu dizer Hoyt e, depois retrocedeu uns passos-. Deve ter fome.
      -Aparentemente s eu -murmurou ela. Voltou-se para abrir um armrio-. No sei o que vou precisar, de modo que apanharei o que me parea adequado. No penso 
viajar leve de bagagem. Cian e voc tero que aceit-lo. Provavelmente deveramos partir o antes possvel.
      Hoyt elevou uma mo e esteve a ponto de lhe tocar o cabelo, algo que tinha querido fazer desde o primeiro momento em que a viu. Mas a deixou cair.
      -Partir?
      -No espera que fiquemos sentados em Nova Iorque, esperando que o exrcito venha por ns? O portal se encontra na Irlanda, e devemos supor que a batalha se 
lavrar nesse pas, ou algum lugar mstico prximo a ele. Necessitamos o portal, ou o necessitaremos em algum momento. Ou seja, devemos ir a Irlanda.
      Ele a olhou enquanto Glenna carregava garrafas e frascos em uma caixa no muito diferente da sua.
      -Sim, tem razo.  claro, tem razo. Devemos retornar. A viagem nos levar grande parte do tempo de que dispomos. OH, Deus, estarei doente como seis ces enquanto 
navegamos para casa.
      Ela o olhou.
      -Navegar? No temos tempo para viajar no Queen Mary, querido. Iremos voando.
      -Mas voc disse que no voava.
      -Posso faz-lo dentro de um avio. Teremos que encontrar uma forma de conseguir um bilhete para voc. No tem nenhum documento que o identifique, tampouco 
tem passaporte. Podemos fazer um conjuro com o agente do controle de passaportes e tambm com o de alfndegas. -Fez um gesto com a mo-. J resolverei.
      -Um avio?
      Glenna o olhou, logo se apoiou na bancada e ps-se a rir at que lhe saltaram as lgrimas.
      -Explicarei isso mais tarde.
      -No era minha inteno a divertir.
      -No, no era, mas foi divertido de qualquer modo. OH, merda. No sei o que devo levar e que devo deixar. -Retrocedeu uns passos e passou as mos pelo rosto-. 
 meu primeiro Apocalipse.
      -As ervas, as flores e as razes crescem, muito bem na Irlanda.
      -Eu gosto das minhas. -Era algo estpido e infantil, mas ainda assim... -. Levarei s aquilo que considere absolutamente essencial nesse aspecto, logo comearei 
pelos livros, a roupa e assim sucessivamente. Tambm terei que fazer algumas chamadas. Tenho alguns compromissos que devo cancelar.
      Glenna fechou a caixa j carregada com certa relutncia e a deixou sobre a bancada. Logo se dirigiu a um grande ba de madeira que havia no outro extremo da 
habitao e o abriu mediante um conjuro.
      Curioso, Hoyt se aproximou para estudar o contedo do ba por cima do ombro de Glenna.
      -Que guardas a?
      -Livros de feitios, receitas, meus cristais mais poderosos. Alguns deles os herdei.
      -Ah, ento  uma bruxa hereditria.
      -Assim . A nica de minha gerao que pratica a bruxaria. Minha me o deixou quando se casou com meu pai. No gostava. Meus avs me ensinaram.
      -Como pde renunciar ao que leva em seu interior?
      - uma pergunta que lhe fiz muitas vezes. -sentou-se sobre os calcanhares, tocando as coisas que podia levar e as que devia deixar-. Por amor. Meu pai queria 
levar uma vida singela, ela amava meu pai. Eu no poderia faz-lo. Acredito que nunca poderia amar tanto para renunciar ao que sou. Eu necessitaria em troca que 
algum me amasse o suficiente para me aceitar com o que vai comigo.
      -Uma magia poderosa.
      -Sim. -Extraiu uma bolsa de veludo-. Este  minha bota de cano longo. -De seu interior tirou a bola de cristal com a que ele a tinha visto em sua viso-. Est 
em minha famlia muito tempo. Mais de duzentos e cinqenta anos. Quase nada para um homem de seus anos, mas uma carreira muito longa para mim.
      -Uma magia poderosa - repetiu Hoyt, porque quando ela sustentou a bola em suas mos, pde ver que pulsava como se fosse um corao.
      -Tem razo quanto a isso. -Olhou-o por cima da bola de cristal com olhos que se tornaram subitamente escuros-. E no  tempo de que usemos um pouco? No  
tempo de que faamos o que sabemos fazer, Hoyt? Ela sabe quem sou, onde estou e o que fao.  provvel que saiba o mesmo a respeito de voc, a respeito de Cian. 
Faamos um movimento. -Elevou a bola de cristal-. Averigemos onde se oculta.
      -Aqui e agora?
      -No me ocorre um melhor momento ou lugar. -levantou-se e assinalou com o queixo o tapete ricamente decorado no centro da habitao-.Enrola o tapete, quer?
      -Est a ponto de dar  um passo muito perigoso. Deveramos pens-lo durante um momento.
      -Podemos pens-lo enquanto enrola o tapete. Tenho tudo o que necessito para fazer um conjuro no espelho, tudo o que necessitamos para nos proteger. Podemos 
ceg-la para que no nos veja enquanto ns olhamos.
      Hoyt fez o que dizia e encontrou o pentgono pintado debaixo do tapete. Podia admitir que dar um passo, qualquer passo, era correto e estava bom. Mas ele teria 
preferido dar esse passo s.
      -No sabemos se ela pode ser cegada. Alimentou-se de sangue mgico e, provavelmente, mais de uma vez.  muito poderosa e muito matreira.
      -Ns tambm. Est falando de entrar em batalha dentro de trs meses. Quando pensa comear?
      Hoyt a olhou e assentiu.
      -Aqui e agora ento.
      Glenna colocou o cristal no centro da estrela de cinco pontas e tirou um par de folhas sagradas de seu peito. Colocou-as dentro do crculo e logo reuniu velas, 
uma tigela de prata e varinhas mgicas de cristal.
      -Eu no necessito todas essas coisas.
      -Bom para voc, mas eu prefiro as utilizar. Trabalhemos juntos, Merlin.
      Hoyt elevou uma das folhas de ao para estudar suas gravuras enquanto Glenna rodeava o pentgono com velas.
      -Incomodaria-se se trabalhasse nua?
      -Sim -respondeu ele sem levantar a vista.
      -De acordo, pelo esprito do compromisso e o trabalho em equipe, deixarei a roupa posta. Mas me limita.
      Glenna tirou a fita do cabelo, encheu a tigela de prata com gua de um dos frascos e espaou ervas sobre ela.
      -Geralmente invoco as deusas quando risco o crculo, e me parece mais que apropriado neste caso. Parece-te bem?
      -Bastante bem.
      - um autntico falador, no ? Bem. Est preparado? -Quando Hoyt assentiu, ela se instalou na parte oposta a ele-. Deusas do este, o Oeste, o Norte e o Sul 
-comeou a dizer, movendo-se ao redor do crculo enquanto falava-. Pedimos sua bno. Invocamo-las para que sejam testemunhas deste crculo e o protejam, e a tudo 
o que h em seu interior.
      -Poderes do Ar, da gua, do Fogo e a Terra - sado Hoyt-, viajem conosco agora, enquanto passamos entre os mundos.
      -Noite e dia, dia e noite, convocamo-las a este rito sagrado. Riscamos este crculo trs vezes. Assim o faremos, que assim seja.
      Bruxas, pensou ele. Sempre com suas rimas. Mas sentiu que o ar se agitava e a gua que havia na tigela se moveu enquanto as velas se acendiam.
      -Deveramos chamar Morrigan - disse Glenna-. Ela era a mensageira.
      Hoyt comeou a faz-lo, depois decidiu que queria ver de que material parecia a bruxa.
      -Este  seu lugar sagrado. Pede voc a guia e feixe seu conjuro.
      -De acordo. -Ela colocou a faca sagrada no cho e elevou as mos com as palmas para cima-. Neste dia,  esta hora, convoco o poder sagrado de Morrigan a deusa 
e suplico que nos conceda sua graa e sua coragem. Em seu nome, Me, procuramos a viso, pedimos que nos guie para a luz.
      Glenna se inclinou e levantou o cristal em suas mos.
      -Dentro desta bola tentamos encontrar  besta que persegue a toda humanidade, enquanto seus olhos permanecem cegos para ns. Agua nossa viso, nossas mentes, 
nossos coraes, para que se abram as nuvens que h dentro desta bola. Proteja-nos e nos mostre aquilo que desejamos ver. Como faremos ns, que assim seja.
      A nvoa e a luz giraram dentro da bola de cristal. Por um instante, Hoyt acreditou que podia ver mundos em seu interior. Cores, formas, movimentos. Ouviu seus 
prprios batimentos do corao, e os do corao de Glenna.
      Ajoelhou-se quando ela o fez. E viu quo mesmo ela.
      Um lugar escuro, um labirinto de tneis banhado por uma luz vermelha. Pensou que se ouviam os sons do mar, mas no podia estar seguro se estava ocorrendo dentro 
do cristal ou era s o rugido do poder dentro de sua cabea.
      Havia corpos ensangentados, retorcidos e empilhados como se fossem lenha. E jaulas onde as pessoas choravam ou gritavam, ou simplesmente permaneciam sentadas, 
com o olhar morto. Havia coisas que se moviam dentro dos tneis, coisas escuras que mal agitavam o ar. Algumas subiam pelas paredes como insetos.
      Ouvia-se uma risada horrvel, chiados penetrantes e espantosos.
      Viajou em companhia de Glenna atravs desses estranhos tneis onde o ar cheirava a morte e sangue. Para as profundidades da Terra, ali onde as paredes de pedra 
jorravam umidade e algo pior, at chegar a uma porta gravada com antigos smbolos de magia negra.
      Ela dormia em uma cama prpria de uma rainha, com quatro postes que sustentavam um dossel e lenis que exibiam o brilho da seda e eram brancas como a neve, 
embora estivessem manchadas com pequenas gotas de sangue.
      Seus peitos nus no estavam cobertos pelo lenol e a beleza de seu rosto e suas formas no tinha mudado nem um pice da ltima vez que a tinha visto.
      Junto a ela jazia o corpo de um menino. To jovem, pensou Hoyt com uma enorme tristeza. No mais de dez anos, to plido na morte; com seu cabelo loiro caindo 
sobre a testa.
      As velas agonizavam, projetando uma luz mortia que tremulava sobre sua pele e a dela.
      Hoyt colheu com fora a folha de ao e a levantou por cima de sua cabea.
      Ento os olhos dela se abriram e se cravaram nos seus. A mulher gritou, mas Hoyt no percebeu medo algum nesse grito. Junto a ela, o menino abriu os olhos, 
mostrou as presas e deu um salto para caminhar pelo teto, como se fosse um lagarto.
      -Mais perto -cantarolou Lilith-. Se Aproxime, feiticeiro, e traz contigo a sua bruxa. Converterei-a em minha mascote uma vez que tenha tirado at sua ltima 
gota de sangue. Acaso acredita que pode me tocar?
      Quando ela saltou fora da cama, Hoyt sentiu que saa projetado para trs, atravessando um ar to frio que notou fragmentos de gelo em sua garganta.
      Logo se encontrou sentado dentro do crculo, olhando os olhos de Glenna. Eram grandes e escuros. De seu nariz caam gotas de sangue.
      Glenna s tapou o nariz com um ndulo enquanto lutava por recuperar o flego.
      -A primeira parte funcionou -disse-. A parte de que no nos visse no saiu muito bem, obviamente.
      -Ela tambm tem poder. E no carece de destreza.
      -Alguma vez sentiu algo assim? -perguntou ela.
      -No.
      -Tampouco eu. -permitiu-se um intenso tremor-. Vamos necessitar um crculo maior.
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 6
      
      Antes de preparar a bagagem Glenna tomou seu tempo para limpar e ordenar todo o loft. Hoyt esteve de acordo. Ela no queria que ficasse nenhum rastro do que 
haviam tocado, nenhum eco, nenhum sedimento daquela escurido em seu lar.
      Finalmente, guardou os instrumentos e os livros no ba. Depois do que tinha visto, o que havia sentido, no pensava arriscar-se a escolher. Levava todo o lote, 
junto com seu estojo de viagem, a maior parte de seus cristais, alguns fornecimentos artsticos bsicos, cmaras e duas malas.
      Lanou um olhar ofegante ao cavalete que havia junto  janela e  pintura mal comeada que descansava sobre ele. Se retornasse... no, corrigiu-se, quando 
retornasse, acabaria-a.
      Permaneceu junto a Hoyt, estudando sua pilha de pertences enquanto ele tambm o fazia.
      -Nenhum comentrio? -perguntou-. No h argumentos ou observaes sarcsticas a respeito de como penso viajar com tudo isto?
      -Com que fim?
      -Uma atitude sbia. Agora devemos abordar a pequena questo d tirar tudo isto daqui e lev-lo ao apartamento de seu irmo, na zona alta da cidade. Duvido 
que ele se mostre to sbio como voc. Mas o primeiro  o primeiro. -Brincou com seu colar enquanto pensava-. Acha que devemos levar tudo pessoalmente ou recorremos 
a um conjuro de transporte? Nunca tenho feito nada desta magnitude.
      Hoyt a olhou imperturbvel.
      -Necessitaramos trs de seus txis e a maior parte do que fica do dia para poder transportar todas estas coisas por ns mesmos.
      De modo que tambm ele tinha estado considerando a situao.
      -Visualiza o apartamento de Cian - ordenou-. O quarto onde passou a noite.
      -De acordo.
      -Se concentre. Encha sua mente com ele, os detalhes, a forma, a estrutura.
      Ela assentiu e fechou os olhos.
      -Estou fazendo.
      Hoyt escolheu primeiro o ba, j que seria o objeto que albergava maior poder. Sua magia o ajudaria com sua tarefa. Caminhou a seu redor trs vezes, logo inverteu 
o sentido e pronunciou as palavras ao mesmo tempo em que se abria ao poder.
      Glenna lutou por concentrar-se no foco de sua ateno. Havia algo profundo e mais rico na voz do Hoyt, algo ertico na forma em que pronunciava esse idioma 
antigo. Sentiu na pele e em seu sangue o calor do que Hoyt estava agitando. Logo um sbito e slido golpe de ar.
      Quando abriu os olhos, o ba tinha desaparecido.
      -Estou impressionada.
      Embora, honestamente, o que estava era atnita. Ela era capaz, com um esforo e preparao considerveis, de transportar objetos simples e pequenos a certa 
distncia. Mas ele tinha feito desaparecer, eficaz e simplesmente, um ba que pesava mais de cem quilos.
      Podia ver bem Hoyt, com as roupas agitadas pelo vento, no topo daquele escarpado da Irlanda do qual lhe tinha falado. Desafiando  tormenta, encarregando-se 
dela. E enfrentando algo ao qual nenhum homem deveria fazer frente, com f e com magia.
      Seu ventre se esticou de simples e absoluta luxria.
      -Era galica essa lngua que falava?
      -Irlands -respondeu ele, to obviamente distrado que ela no voltou a falar.
      Hoyt voltou a caminhar em crculos ao redor das coisas de Glenna, agora junto s caixas que continham seu equipamento fotogrfico e seu material artstico. 
Ela esteve a ponto de protestar e logo se recordou que devia ter f. Apelando a esta, fechou novamente os olhos e visualizou o quarto de hospedes do apartamento 
de Cian. Ajudaria Hoyt tudo o que pudesse com seu prprio dom.
      Levou quinze minutos completar uma tarefa que a ela, viu-se obrigada a reconhecer, teria levado horas; isso em caso de que sequer tivesse podido empreend-la.
      -Bom, isso foi... foi incrvel.
      A magia seguia nele, voltando opaco seu olhar, atravessando o ar entre eles. Glenna sentia que era como uma fita que os rodeava, unindo-os um ao outro. Sua 
excitao era to intensa que teve que retroceder, rompendo de forma deliberada o vnculo que havia entre eles.
      -No pretendo ofender, mas est seguro de que minhas coisas esto onde as queremos?
      Ele continuou olhando-a com aqueles olhos azuis e insondveis, at que o calor que ela sentia no ventre foi to forte que se perguntou se no faria brotar 
fogo das pontas de seus dedos.
      Era quase demasiado, aquela presso, aquela necessidade, o enlouquecido pulso de cada pulsado. Comeou a retroceder outra vez, mas Hoyt elevou uma mo e fez 
que ficasse imvel onde estava.
      Glenna sentiu a atrao, dele, fazia ele, com apenas possibilidade de resistir, de morder a correia e escapar. Permaneceu em troca onde estava, com os olhos 
fixos nos de Hoyt enquanto ele reduzia a distncia que havia entre eles dando um s passo.
      Logo nada foi fcil.
      Hoyt a atraiu para ele de tal modo que ela expulsou o flego com um ofego, e esse ofego culminou em um gemido quando suas bocas se encontraram. O beijo, quente 
e embriagador atravessou sua cabea, seu corpo, vaiando em seu sangue quando se aferrou ao homem.
      As velas que tinha deixado na habitao se acenderam com uma chama viva.
      Agressiva e ao mesmo tempo desesperada, Glenna afundou as mos em seus ombros e se lanou de cabea para a tormenta de sensaes. Aquilo, aquilo era o que 
tinha estado desejando desde o primeiro momento em que o viu em seus sonhos.
      Glenna sentiu as mos dele em seu cabelo, em seu corpo, em seu rosto; e ali onde Hoyt a tocava estremecia. Agora no se tratava de um sonho, s de necessidade, 
calor e carne.
      Hoyt no podia deter-se. Ela era como um festim depois do jejum, e o nico que ele queria era saciar-se. Sua boca era suave e plena, e encaixava to perfeitamente 
com a sua que era como se os deuses a tivessem formado com esse nico propsito. O poder que tinha exercido havia retornado subitamente a ele, despertando um apetite 
impossvel que lhe doa no ventre, na virilha, no corao, e que clamava ser satisfeito.
      Algo ardia entre eles. Tinha-o sabido desde o primeiro instante, inclusive afligido de febre e dor, enquanto os lobos espreitavam alm de sua fogueira. E o 
temia quase tanto como temia aquilo que estavam destinados a enfrentar juntos.
      Hoyt a afastou, estremecido at os ossos. O que ambos tinham agitado ainda estava vivo no rosto de Glenna, entregue e tentador. Se ele o aceitava, se tomava, 
que preo ambos teriam que pagar por isso?
      Sempre havia um preo.
      -Peo desculpas. Eu... fiquei apanhado na cauda de um conjuro.
      -No se desculpe.  insultante.
      "Mulheres", foi tudo o que pde pensar.
      -E a tocar dessa maneira no o ?
      -Se eu no tivesse querido que me tocasse dessa maneira, haveria-lhe dito isso, OH, no faa iluses -acrescentou Glenna ao ver a expresso no rosto de Hoyt-. 
 possvel que seja mais forte fisicamente, magicamente, mas eu posso controlar a mim mesma. E quando quiser uma desculpa, pedirei isso.
      -No posso encontrar meu equilbrio neste lugar, ou contigo. -Agora a frustrao brotava dele como antes o tinha feito a magia-. Eu no gosto, nem o que estou 
sentindo por voc.
      -Esse  seu problema. S foi um beijo.
      Hoyt a agarrou pelo brao antes que ela pudesse lhe dar as costas.
      -No acredito. Nem sequer neste mundo foi s um beijo. Voc viu o que teremos que enfrentar. O desejo  uma debilidade que no podemos nos permitir. Todo nosso 
poder deve estar orientado para o que devemos fazer. No penso arriscar sua vida ou o destino do mundo por uns poucos momentos de prazer.
       -Posso assegurar que seriam mais que uns poucos, mas no tem nenhum sentido discutir com um homem que considera que o desejo  uma debilidade. Deixemos este 
assunto estacionado no momento e sigamos adiante.
      -No pretendo feri-la - comeou a dizer Hoyt com certa tristeza e lhe dirigiu um olhar fulminante.
      -Volta a se desculpar e se encontrar de trazeiro no cho. -Recolheu as chaves e a bolsa-. Quer apagar as velas? E saiamos daqui. Quero me assegurar de que 
minhas coisas chegaram sem problemas, e tambm devemos arrumar a questo dos vos para Irlanda. Procurar a maneira de tir-lo do pas.
      Glenna agarrou uns culos de sol de uma mesa e os ps. Grande parte da irritao desapareceu ao ver a expresso de desconcerto de Hoyt.
      -culos de sol -explicou-. Reduzem o brilho do sol e, alm disso,  uma manifestao de moda sexy.
      Glenna abriu a porta, logo se voltou e passeou o olhar por seu loft, por suas coisas.
      -Tenho que acreditar que retornarei a este lugar. Tenho que acreditar que voltarei a ver tudo isto.
      Entrou no elevador e pulsou o boto do trreo, deixando atrs muito do que amava.
            
            
            
      Quando Cian saiu de seu quarto, Glenna estava na cozinha preparando a comida. Ao retornar ao apartamento de seu irmo, Hoyt se tinha instalado no estdio que 
havia junto  sala de estar, levando seus livros com ele. De vez em quando Glenna sentia algo que flutuava no ar e supunha que devia ser ele praticando algum conjuro.
      Isso o mantinha afastado dela, mas no o mantinha fora de sua cabea.
      Glenna era muito cuidadosa com os homens. Desfrutava deles, sem dvida, mas no se entregava de um modo imprudente. Que era exatamente o que tinha feito com 
Hoyt, e no podia neg-lo. Tinha sido pouco cautelosa, impulsiva e, pelo visto, tinha cometido um engano. E embora houvesse dito que s tinha sido um beijo, na realidade 
tinha sido um ato to ntimo como Glenna nunca tinha experimentado.
      Ele a desejava e disso no havia absolutamente nenhuma dvida. Mas esse desejo no era algo que ele tivesse escolhido. E Glenna preferia ser escolhida.
      O desejo no era uma debilidade, no em sua opinio... mas se era uma distrao. Hoyt tinha razo quanto a que no podiam permitir-se distraes. Essa fortaleza 
de carter e seu slido bom senso era dois de seus traos mais atraentes. Mas considerando o sistema nervoso dela, eram tambm dois traos igualmente irritantes.
      Assim, tinha decidido meter-se na cozinha e preparar a comida, porque isso era algo que a mantinha ocupada e a acalmava.
      Quando Cian entrou, com aspecto limpo e descansado, ela estava picando verduras.
      -Mi casa , ao que parece, tu casa3.
      Ela seguiu picando as verduras.
      -Entre outras coisas, trouxe alguns produtos perecveis de minha casa. No sei se voc come.
      Cian olhou com suspicacia as cenouras cruas e as verduras com folhas.
      -Uma das vantagens de meu destino  que no tenho que comer verduras, como um bom menino. -Mas tinha percebido o aroma do que Glenna estava cozinhando e se 
aproximou para cheirar o molho de tomates e especiarias que bulia em um recipiente-. Por outra parte, isto tem uma aparncia muito tentadora.
      Inclinou-se sobre a bancada para observ-la enquanto trabalhava.
      -E voc tambm.
      -No esbanje comigo seu duvidoso encanto. No estou interessada.
      -Poderia fazer algo nesse sentido, embora s fosse irritar Hoyt. Poderia resultar divertido. Ele tenta no te olhar, mas fracassa estrepitosamente.
      A mo de Glenna vacilou, logo voltou a baixar a faca com fora.
      -Estou segura de que finalmente ter xito.  um homem muito decidido.
      -Sempre foi, se a memria no me falha. Sbrio e srio, e to preso por seu dom como um rato em uma jaula.
      - assim como v seu dom? -Glenna deixou a faca sobre a bancada e se voltou para ele-. Como uma armadilha? No o , nem para Hoyt nem para mim.  uma obrigao, 
sim, mas tambm uma alegria e um privilgio.
      -J veremos a alegria que sentir quando se encontrar no caminho de Lilith.
      -J esteve ali. Em minha casa fizemos um conjuro com o espelho. Est escondida em uma caverna que tem um monte de tneis. Perto do mar, acredito. No muito 
longe desses escarpados onde Hoyt se enfrentou com ela. Lilith nos deu uma boa sacudida. A prxima vez no ser to fcil.
      -Os dois esto loucos. -Abriu sua pequena geladeira e tirou uma bolsa de sangue. Seu rosto ficou tenso ante o pequeno som que Glenna no pde reprimir-. Ter 
que se acostumar a isto.
      -Tem razo. Farei-o. -Observou-o enquanto vertia o contedo da bolsa em uma taa de cristal esculpido e logo o metia no micro-ondas para esquent-lo. Essa 
vez no pde reprimir uma risada-. Sinto muito. Mas  algo to fodidamente estranho.
      Estudou-a, obviamente no notou segundas intenes e relaxou
      -Quer um pouco de vinho?
      -Claro, obrigado - respondeu ela-. Temos que viajar a Irlanda.
      -Isso me disseram.
      -No. Temos que faz-lo agora. Logo que possamos arrumar as coisas. Eu tenho passaporte, mas temos que encontrar a maneira de tirar Hoyt do pas e de que possa 
entrar em outro. E necessitaremos tambm um lugar onde possamos ficar e, bom, treinar, praticar.
      -Iguais -murmurou Cian, servindo uma taa de vinho para ela-. No  uma questo simples, sabe? Delegar minhas responsabilidades; sobre tudo tendo em conta 
que o homem em quem confio para que leve o clube que h no trreo est decidido a unir-se ao exrcito sagrado de Hoyt.
      -Ah. Hoje passei grande parte do dia preparando a bagagem, transferindo meus muitos limitados recursos para poder pagar o aluguel de meu loft at outubro, 
cancelando entrevistas e passando a um scio dois do que sero uns trabalhos muito lucrativos.
      Cian retirou a taa de sangue do micro-ondas.
      -E a que se dedica? O que so esses trabalhos to lucrativos?
      -Desenho de cartes de felicitao. Da variedade mstica. E Pinto. Tambm fao um pouco de fotografia.
      - boa?
      -No, sou um desastre.  claro que sou boa. Obtenho dinheiro das fotos que fao nos casamentos. Logo me dedico  fotografia artstica como uma atividade mais 
pessoal, e vendo algo ocasionalmente. Sou bastante regulvel para poder me manter com meu trabalho. -Elevou sua taa de vinho-. O que me diz de voc?
      -No poderia sobreviver outro milnio, de modo que partiremos esta noite.
      -Esta noite? Mas isso  impossvel...
      -Adaptar-se -disse Cian simplesmente, e bebeu um gole.
      -Devemos comprovar os vos, comprar os bilhetes...
      -Tenho meu prprio avio e licena de piloto.
      -OH.
      -Um bom piloto - assegurou-lhe. - Tenho vrias dcadas de horas de vo, assim no deve preocupar-se por isso.
      Vampiros que bebiam sangue em taas de cristal esculpido e possuam avies. Do que tinha que preocupar-se?
      -Hoyt no tem nenhuma identificao, nem passaporte, nem documentos. Posso fazer um conjuro para que passe o controle de alfndegas, mas...
      -No  necessrio.
      Cian atravessou a cozinha, abriu um painel na parede que ela no tinha detectado, e deixou descoberta uma caixa forte.
      Uma vez que a teve aberto, tirou dela uma pequena caixa de segurana, retornou junto  Glenna, deixou-a sobre a bancada e acionou a combinao.
      -Hoyt pode escolher - disse Cian, e tirou da caixa meia dzia de passaportes.
      -Uau! -Glenna agarrou um dos passaportes, abriu-o e estudou a fotografia-. Resulta muito conveniente que sejam to parecidos. A ausncia de espelhos neste 
lugar me confirma que o que se diz a respeito de que os vampiros no se refletem neles  verdade. No tem problemas em que o fotografem?
      -Se experimentar usar comigo uma cmara de reflexo haver um momento, quando intervier o espelho, em que se sentir muito confusa. Uma vez disparado, o espelho 
desaparece... e ali estarei eu.
      -Interessante. Trouxe minhas cmaras. Eu gostaria de fazer algumas fotos suas quando tivermos tempo para isso.
      -Pensarei.
      Glenna deixou o passaporte na caixa de segurana.
      -Espero que seu avio tenha muito espao de carga, porque tenho um monte de bagagem.
      -Arrumaremos isso. Tenho que fazer algumas chamadas e preparar minhas malas.
      -Espera, ainda nos falta um lugar onde nos alojar ali.
      -Isso no ser um problema - disse Cian enquanto abandonava a cozinha-. Tenho algo que nos vir muito bem.
      Glenna suspirou e jogou uma olhada ao recipiente com o molho.
      -Bom, ao menos primeiro desfrutaremos de uma boa comida.
            
            
            
      No era uma questo simples, nem sequer com o dinheiro e os contatos de Cian aplainando o caminho. Nesta ocasio, a bagagem e a carga deviam ser transportadas 
atravs dos meios convencionais. Glenna pde ver como os trs homens aos quais tinha unido seu destino procuravam alguma maneira de reduzir sua carga. Ela se encarregou 
de solucionar a questo com um firme: "Levo isso tudo..." e no se falou mais do assunto.
      No tinha nem idia de que levava Cian na nica mala ou nos dois grandes bas metlicos.
      No estava segura tampouco se queria sab-lo.
      No era capaz de imaginar o aspecto que deviam ter para outros: dois homens altos e morenos, o enorme homem negro e a ruiva com suficiente bagagem para voltar 
a afundar o Titanic.
      Ela desfrutava do privilgio de ser mulher e deixou nas mos dos homens a tarefa de carregar as coisas no aeroplano, enquanto explorava o estilizado e elegantemente 
equipado avio particular de Cian.
      Ele no temia gastar seu dinheiro, devia lhe reconhecer esse mrito. Os assentos eram de um azul profundo combinado com um couro cor manteiga, bastante generosos 
em suas dimenses para acomodar algum do tamanho de King. Por sua parte, o tapete era bastante grosso para dormir sobre ele.
            
            
      O avio contava com uma pequena e funcional sala de conferncias, dois sofisticados banheiros e o que ela, a princpio, tomou por um acolhedor dormitrio. 
Entretanto, ao ver que no tinha janelas nem espelhos e que contava com seu prprio meio banheiro se deu conta do que era: uma habitao para um vampiro.
      Entrou na cozinha, aprovou-a e soube apreciar o fato de que Cian se encarregou de t-la aprovisionada. No passariam fome durante sua viagem a Europa.
      Europa. Passeou um dedo por um dos assentos totalmente reclinveis. Sempre tinha pensado em viajar a Europa, em passar um ms ali. Pintando, tirando fotografias, 
explorando. Visitando lugares antigos, fazendo compras.
      Agora ia viajar ali, e o faria muito por cima do nvel de primeira classe, entretanto, no percorreria as colinas e os lugares sagrados, como tinha desejado.
      "Bom, queria um pouco de aventura em sua vida -se recordou-. Agora j o tem."
      Fechou uma mo ao redor do colar que pendia de seu pescoo e rogou no s a fora mas tambm a inteligncia para sobreviver.
      Quando os homens subiram ao avio, ela estava sentada em seu assento desfrutando de uma taa de champanha.
      -Abri uma - disse a Cian-. Espero que no se importe. Pareceu-me o mais indicado.
      -Slinte - disse Cian e se dirigiu diretamente  cabine do piloto.
      -Quer o tour de dois dlares? -perguntou- Glenna a Hoyt-. Quer dar uma olhada? -esclareceu-lhe-. Imagino que King j voou antes a bordo desta pequena beleza 
e a deve conhecer de cima abaixo.
      -A seu lado, qualquer avio comercial  uma merda - respondeu King, e procurou uma cerveja em lugar do champanha-. O chefe sabe como dirigir este pssaro. 
-Disse a Hoyt com uma palmada no ombro-. No tem que preocupar-se.
      Como Hoyt parecia muito longe de estar convencido, Glenna ficou de p e serviu outra taa de champanha.
      -Aqui tem, bebe e relaxe. Passaremos aqui dentro toda a noite. Em um pssaro feito de metal e tecido - prosseguiu ela-. Uma mquina voadora. -Hoyt assentiu 
e, como tinha a taa na mo, bebeu o vinho espumoso-.  uma questo de cincia e mecnica.
      Logo Hoyt se dedicou duas horas a ler a respeito da histria e a tecnologia da aviao.
      -Aerodinmica.
      -Exatamente. -King fez chocar a garrafa de cerveja contra a taa do Hoyt e logo contra a da Glenna-. Brindo por chutar alguns trazeiros.
      -Parece como se o estivesse desejando. - comentou ela.
      -Fodidamente certo. E quem no? Temos que salvar ao fodido mundo. O chefe esteve inquieto, eu estou inquieto. E isto  precisamente o que o mdico me receitou 
como remdio.
      -No se preocupa que algum possa morrer?
      -Todo mundo morre. -Desviou o olhar para a cabine do piloto-. De uma maneira ou outra. Alm disso, no  fcil acabar com um bode to grande como eu.
      Cian saiu da cabine.
      -Meninos e garota, j podemos decolar. Agora ter que sentar-se e apertar os cintos.
      -Vou contigo, capito.
      King seguiu Cian  cabine.
      Glenna se sentou e sorriu a Hoyt enquanto dava umas palmadas no assento junto ao dele, disposta a tranqiliz-lo em sua primeira viagem.
      -Ter que prender o cinto de segurana. Deixa que o ensine como funciona.
       -Sei como funciona. Tenho lido. -Estudou o broche metlico durante um momento e logo encaixou ambas as peas-. Para o caso de que haja turbulncias. Bolsas 
de ar.
      -No parece muito assustado.
      -Cheguei atravs de um portal no tempo - recordou-lhe, comeou a brincar com o painel de comandos do assento, mostrando uma expresso divertida quando este 
se reclinava e voltava logo para sua posio original-. Acredito que desfrutarei.  uma maldita lstima que devamos ir sobre a gua.
      -OH, quase esquecia -disse Glenna, e colocando a mo na bolsa, tirou um frasco-. Bebe isto. O ajudar. Bebe -insistiu quando Hoyt franziu o cenho ao ver o 
pequeno frasco-. So ervas e alguns cristais em p. Nada perigoso. Pode te ajudar com as nuseas.
      A desconfiana era evidente em seu rosto, mas Hoyt bebeu a mescla de um gole.
      -Tem uma mo generosa com o cravo-da-ndia.
      -Me agradecer isso quando no tiver que usar a bolsa para vomitar.
      Glenna ouviu o zumbido dos motores e sentiu a vibrao debaixo dela.
      -Espritos da noite, nos concedam asas para iniciar este vo. Mantenham-nos a salvo em suas mos at que tenhamos posado em terra. -Olhou Hoyt-. Nunca est 
de mais.
      Hoyt no sucumbiu, mas Glenna podia ver claramente que sua poo e sua vontade estavam liberando uma dura batalha para manter seu sistema estvel. Preparou-lhe 
um pouco de ch, cobriu-o com sua manta e logo reclinou o assento e levantou o descanso para os ps.
      -Tenta dormir um pouco.
      Muito esgotado para discutir, Hoyt assentiu e fechou os olhos. Quando Glenna esteve segura de que estava cmodo, foi  cabine reunir-se com Cian e King.
      Ouvia-se msica. Nine Inch Nails, reconheceu o grupo. No assento do co-piloto, King tinha reclinado completamente o respaldo e roncava seguindo o ritmo da 
msica. Glenna olhou atravs do pra-brisa e sentiu que o corao lhe dava um tombo.
      No se via nada mais que escurido.
      -Nunca tinha estado na cabine do piloto. A vista  incrvel,
      -Posso lhe jogar daqui se quiser se sentar um momento.
      -No. Estou bem. Seu irmo est tentando dormir um pouco. No se sente muito bem.
      -Hoyt estava acostumado a ficar verde quando cruzvamos o Shannon. Imagino que neste momento estar vomitando como um co.
      -No, s tem nuseas. Dei-lhe algo para que bebesse quando decolamos e sua vontade de ferro aumenta o efeito. Necessita algo?
      Cian voltou a vista para ela.
      -No  o anjo guardio dele?
      -Estou muito cansada para dormir e muito intranqila para me sentar, de modo que caf, ch, leite?
      -No me importaria um pouco de caf. Obrigado.
      Glenna preparou uma pequena cafeteira e lhe levou uma xcara. Logo ficou de p atrs dele, contemplando o cu noturno.
      -Como era de pequeno?
      -Como contei.
      -Duvidou alguma vez de seu poder? Desejou alguma vez no ter recebido esse dom?
      Era uma sensao estranha, ter uma mulher o interrogando a respeito de outro homem. Geralmente, se no estavam falando de si mesmos, perguntavam-lhe coisas 
sobre ele, tentando afastar o que alguma delas viam como uma cortina de mistrio.
      -Nunca me disse isso. E Hoyt o teria feito -disse Cian depois de um momento-. Estvamos muito unidos naquela poca.
      -Havia algum, uma mulher, uma garota, para ele na Irlanda?
      -Hoyt teve algumas garotas.  um feiticeiro, no um sacerdote. Mas nunca me falou de que houvesse nenhuma em especial. Nunca vi que olhasse a nenhuma dessas 
garotas como olha voc. Eu te diria que tomasse cuidado, Glenna, mas os mortais so estpidos quando se trata de amor.
      -Eu diria que, se no for capaz de amar, no merece a pena lutar para enfrentar  morte. Lilith tinha um menino com ela. Hoyt lhe disse isso?
      -No, no o fez. Tem que entender que nisto no cabe nenhum sentimento, nenhuma ternura. Um menino  s uma presa fcil; e uma comida muito doce.
      Glenna pensou que ia vomitar, mas conseguiu manter sua voz serena.
      -Eu diria que esse menino teria uns oito ou dez anos - continuou-. Estava na cama com ela, nessas cavernas. Tinha-o transformado em algo igual a si mesmo. 
Fez esse menino como ela.
      -E isso a emociona e a enfurece, bom, est bem ento. A comoo e a fria podem ser duas armas poderosas nas mos adequadas. Mas recorda isto: se a encontrar 
com esse menino, ou com um como ele, deixa sua compaixo a um lado, porque a matar sem nenhum tipo de piedade a menos que voc o mate primeiro.
      Agora Glenna estudou Cian, aquele perfil to parecido ao de seu irmo e, entretanto, to completamente distinto. Queria lhe perguntar se alguma vez tinha transformado 
um menino em vampiro ou se alimentou dele. Mas tinha medo de sua resposta, e ela o necessitava.
      -Poderia fazer algo assim; destruir um menino fosse o que fosse ao que pudesse ter-se transformado?
      -Sem piedade e sem pensar. -Cian a olhou e ela soube que ele sabia a outra pergunta que lhe estava rondando a cabea-. E se voc no for capaz de fazer o mesmo, 
no  boa nem para ns nem para si mesma.
      Glenna abandonou a cabine e retornou a seu assento para deitar-se junto a Hoyt. A conversa com Cian a tinha deixado gelada, de modo que se cobriu com sua manta 
at o pescoo e se aconchegou junto ao calor do corpo de Hoyt.
      Quando finalmente dormiu, sonhou com meninos de cabelo muito loiros e presas manchadas de sangue.
      Despertou sobressaltada e viu que Cian estava inclinado sobre ela. Um grito subiu at sua garganta at que se deu conta de que estava sacudindo Hoyt para que 
despertasse.
      Jogou o cabelo para trs e passou os dedos pelo rosto para limpar-se um pouco. Os dois irmos falavam em voz muito baixa e, conforme pde comprovar em irlands.
      -Em ingls por favor. No posso lhes seguir, especialmente com o sotaque.
      Ambos voltaram para ela seus intensos olhos azuis, e Cian se ergueu ao mesmo tempo em que Glenna punha o respaldo de seu assento em posio vertical.
      -Estou-lhe dizendo que fica aproximadamente uma hora de vo.
      -Quem est pilotando o avio?
      -King tem se encarregado dos comandos no momento. Aterrissaremos ao amanhecer.
      -Bem. Genial. -Mal pde reprimir um bocejo-. Prepararei um caf e o caf da manh de modo que... Ao amanhecer?
      -Sim, ao amanhecer. Necessitarei uma boa capa de nuvens. A chuva seria um bem-vinda adicional. Pode faz-lo? -perguntou a Hoyt-. Se no for assim, King se 
encarregar da aterrissagem.  capaz disso e eu passarei o resto do vo e do dia na parte posterior do avio.
      -Disse que podia faz-lo e o farei -disse Hoyt.
      -Podemos faz-lo corrigiu Glenna.
      -Bom, mas  importante que se apressem, de acordo? Chamusquei-me j um par de vezes e os asseguro que no  nada agradvel.
      -De nada - murmurou Glenna quando Cian partiu-. Procurarei algumas coisas em minha maleta de viagem.
      -Eu no as necessito. -Hoyt fez a manta a um lado e se levantou-. Desta vez faremos a minha maneira. Depois de tudo  meu irmo.
      -Que seja a sua maneira ento. Como posso ajudar?
      -Se concentre na viso em sua mente. Nuvens e chuva. Chuva e nuvens. -Recuperou seu cajado-. Quero que as veja, sinta-as, cheire-as. Densas e regulares, com 
o sol preso atrs de sua penumbra. Luz nebulosa, luz sem poder nem perigo. Olha-a, sinta-a, cheira-a.
      Hoyt sustentou o cajado em ambas as mos, separou as pernas para conseguir um maior equilbrio, e depois o ergueu.
      -Invoco a chuva, s negras nuvens que cobrem o cu. Invoca as nuvens, carregadas de chuva que cai do cu. Que forma redemoinhos e se aproxima e espessa se 
assenta.
      Ela sentiu o conjuro sair girando dele, elevando-se para o ar. O avio estremeceu, corcoveou, tremeu, mas Hoyt permaneceu imvel, como se estivesse ancorado 
em um cho de granito. Uma luz azul brotava da ponta de seu cajado.
      Voltou-se para ela e assentiu.
      -Isso deve bastar.
      -Muito bem. Ento irei preparar o caf.
            
            
            
      O avio aterrissou em meio de uma tnue escurido enquanto a chuva caa como uma cortina cinza. Um tanto exagerado, na opinio de Glenna. Seria uma viagem 
espantosa do aeroporto at onde demnios fossem.
      Desceu do avio e pisou em terra irlandesa. De repente sentiu. Uma conexo instantnea e surpreendente inclusive para ela. Teve a fugaz sensao da lembrana 
de uma granja; colinas verdes, cercas de pedra e uma casa Branca com roupa estendida em uma corda e agitada por um forte vento. Tinha um jardim diante com dlias 
grandes como pratos e lrios brancos.
      Mas desapareceu quase to depressa como tinha chegado. Perguntou-se se era sua lembrana de outro tempo, de outra vida, ou simplesmente uma chamada de seu 
sangue. A me de sua av tinha nascido na Irlanda, em uma granja do condado de Kerry.
      Ela tinha levado sua roupa de casa e sua melhor baixela - e sua magia aos Estados Unidos.
      Glenna esperou que Hoyt descesse do avio. Para ele, esse seria sempre seu lar. Pde v-lo na satisfao desenhada em seu rosto. J se tratasse de um aeroporto 
cheio de gente ou de um campo deserto, aquele era seu lugar no mundo. E uma parte, uma parte muito importante, agora o entendia, daquilo pelo que daria sua vida 
se com isso a salvava.
      -Bem-vindo a casa.
      -No se parece em nada ao que era.
      -Algumas parte se parecero. -Agarrou-lhe a mo e a apertou brandamente-. Por certo, fez um bom trabalho com o tempo.
      -Bom, isso ao menos me resulta familiar.
      King desceu a seguir, molhado como uma foca. A chuva gotejava das grossas rastafaris de seu cabelo.
      -Can est se encarregando de que a maioria das coisas sejam transportadas no caminho. Tero que agarrar agora o que necessitem ou possam levar. O resto estar 
a caminho em um par de horas.
      -Aonde vamos? -perguntou Glenna.
      -Can tem uma casa aqui. -King deu de ombros- Ali  aonde vamos.
      Tinham uma caminhonete mas, mesmo assim, foram um tanto apertados. E Glenna descobriu que era uma verdadeira aventura viajar sob a intensa chuva por caminhos 
molhados, muitos dos quais pareciam to estreitos como o tronco de um salgueiro.
      Viu sebes cobertas de fcsias, e colinas cor esmeralda que se ondulavam para o cu cinza esvado. Viu casas com flores no jardim dianteiro. No como as que 
tinha visto em sua viso fugaz, mas bastante parecidas para faz-la sorrir.
      Havia algo naquele lugar que nunca lhe tinha pertencido. Agora possivelmente voltaria a lhe pertencer.
      -Conheo este lugar -disse Hoyt--. Conheo esta terra.
      -V? -Glenna lhe deu um tapinha na mo-. Sabia que parte disto resultaria conhecido.
      -No, este lugar, esta terra. -inclinou-se para frente para agarrar Cian pelo ombro-. Cian.
      -No incomode o condutor -ordenou Cian e afastou a mo de seu irmo antes de girar entre as sebes e continuar por uma estreita franja de terra que serpenteava 
atravs de um denso bosque.
      -Deus! - exclamou Hoyt quase sem flego-. Deus bendito!
      A casa era de pedra e se elevava sozinha entre as rvores, silenciosa como uma tumba. Velha e grande, com uma destacada torre e adornos deste modo de pedra. 
Em meio da penumbra cinza, a casa parecia deserta e como de outra poca.
      E, entretanto, havia um jardim na parte da frente, com rosas e lrios e dlias grandes como pratos. As dedaleiras subiam altas e habitavam entre as rvores.
       -Ainda est aqui. -Hoyt falou com uma voz carregada de uma profunda emoo-. Sobreviveu. Ainda est em p.
      Glenna, entendendo agora o que estava ocorrendo, voltou a lhe apertar a mo.
      - seu lar.
      -Que abandonei faz s uns dias. O lar do qual parti faz quase mil anos. Voltei para casa.
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 7
      
      No era o mesmo. Os mveis, as cores, a luz, inclusive o som dos passos ao caminhar por seu interior tinham mudado. Reconheceu algumas peas: alguns candelabros 
e um ba. Mas no estavam nos mesmos lugares.
      Algum tinha colocado lenhas na lareira mas ainda no estavam acesos. E tampouco havia ces deitados no cho ou meneando caudas a modo de saudao.
      Hoyt se moveu pelas distintas estadias como um fantasma. Talvez fosse precisamente isso. Tinha nascido naquela casa, e grande parte de sua vida se desenvolveu 
sob seu teto ou em seus campos. Ele tinha brincado ali, trabalhado ali, comido e dormido naquela casa.
      Mas isso tinha sido no passado, fazia j centenas de anos. De modo que, possivelmente, em certo sentido, sua vida tambm tinha terminado ali.
      Sua alegria inicial ao ver novamente a casa se desvaneceu sob o peso da tristeza por tudo aquilo que tinha perdido.
      Ento, debaixo de um cristal, em uma das paredes, viu uma das tapearias que tinha tecido sua me. Aproximou-se dele, tocou o cristal com as pontas dos dedos 
enquanto a lembrana de sua me chegou voando para ele. Seu rosto, sua voz, sua fragrncia eram to reais como o ar que o rodeava.
      -Foi a ltima tapearia que ela teceu antes que...
      -Eu morresse. -Cian acabou a frase-. A recordo. Topei com ela em um leilo. Isso e algumas outras coisas com o passar do tempo. Pude comprar a casa faz ao 
redor de quatrocentos anos, mais ou menos. E a maior parte das terras tambm.
      -Mas voc j no vive aqui.
      -Fica um pouco longe e no resulta adequado para meu trabalho ou para meus prazeres. Tenho um administrador a quem dei umas pequenas frias at que ordene 
que retorne. E geralmente venho aqui uma vez ao ano.
      Hoyt tirou a mo do cristal que cobria a tapearia e se voltou.
      -Est mudada.
      -A mudana  inevitvel. A cozinha foi modernizada. H encanamentos novos e eletricidade. Apesar de tudo, segue havendo correntes de ar. Os dormitrios do 
segundo andar esto mobiliados, de modo que podem escolher. Eu irei dormir um momento.
      Deu uns passos e logo se voltou.
      -OH, e podem fazer que afaste a chuva se quiserem. King, quer me d uma mo para levar estas coisas acima?
      -Claro. So umas habitaes muito bonitas, se no importar um pouco de calafrios.
      King carregou o ba com a mesma facilidade com que outro homem tivesse pego uma mala e subiu a escada.
      -Est bem? -perguntou Glenna a Hoyt.
      -No sei o que sou. -Foi at a janela e afastou os pesados cortinados para contemplar o bosque banhado pela chuva-.  aqui, este lugar, as pedras que colocaram 
meus antepassados. Sinto-me agradecido por isso.
      -Mas eles no esto aqui agora. A famlia que voc deixou atrs.  muito duro o que est fazendo. Mais duro para voc que para o resto de ns.
      -Todos o compartilhamos.
      -Eu deixei atrs meu loft. Voc deixou sua vida.
      Glenna se aproximou dele e o beijou na face. Tinha pensado em oferecer-se para preparar comida quente, mas compreendeu que o que Hoyt necessitava nesse momento 
era solido.
      -Vou subir, escolher um quarto, tomar banho e me colocar na cama.
      Hoyt assentiu sem deixar de olhar atravs da janela. A chuva se adaptava bem a seu estado de nimo, mas era melhor acabar com aquele conjuro. Inclusive depois 
de hav-lo feito, a chuva continuou caindo, mas agora em forma de fina garoa vaporosa. A nvoa arrastava-se atravs do terreno e se enroscava ao redor das matas 
de roseiras.
      Poderiam ser ainda as de sua me? Era muito improvvel, mas depois de tudo eram rosas. Isso teria gostado. Perguntou-se se, de algum jeito, o fato de ter seus 
filhos novamente na casa, juntos, tambm a agradaria.
      Como podia sab-lo? Como jamais ia saber?
      Acendeu os lenhos dispostos na lareira. O fogo fazia que a casa tivesse mais aspecto de lar. Decidiu no subir a um quarto para descansar, ainda no. Mais 
tarde, pensou, levaria suas coisas  torre. Converteria-a de novo em seu lugar. De momento se envolveu na capa e saiu da casa sob a fina chuva do vero.
      Primeiro se dirigiu para o arroio, onde as empapadas dedaleiras balanavam suas pesadas campainhas e os lrios tinham um laranja intenso. Nola adorava as esgrimir 
como se fossem lanas de fogo. Na casa deveria haver flores, pensou. Teria que agarrar algumas antes que anoitecesse. Na casa sempre tinha havido flores.
      Deu um amplo passeio aspirando a fragrncia do ar mido, das folhas molhadas, das rosas. Seu irmo mantinha o lugar bem cuidado; Hoyt no podia dizer nada 
nesse sentido. Viu que o estbulo ainda estava ali... No era o mesmo, mas estava no mesmo lugar. Era maior que o anterior, com um saliente de um lado, onde havia 
uma grande porta.
      Encontrou-a fechada com chave, de modo que a abriu valendo-se de um pensamento concentrado. A folha se abriu para fora revelando um cho de pedra e uma espcie 
de carro. No era como os de Nova Iorque, advertiu. No como o txi ou a caminhonete em que tinham viajado do aeroporto. Aquele carro era negro e quase roava o 
cho. No cap exibia uma brilhante pantera prateada. Passou as mos pela mquina.
      Desconcertava-lhe que naquele momento houvesse tantos tipos diferentes de carros. Tamanhos, formas e cores diferentes. Se um deles era cmodo e prtico, para 
que necessitavam tantos distintos?
      Ali havia tambm um banco de trabalho muito grande e todos os tipos de ferramentas de aspecto fascinante penduradas da parede ou colocadas nas gavetas de um 
grande ba metlico vermelho. Passou uns minutos as examinando e tambm a pilha de madeira que tinha sido escovada e cortada em compridos pedaos.
      Ferramentas, pensou, madeira, mquinas, mas nada de vida. No havia cavalarios nem cavalo, no havia gatos caando ratos. No havia nenhuma ninhada de cachorrinhos 
para que Nola brincasse com eles. Fechou a porta atrs dele ao sair e ps-se a andar pelo flanco do estbulo.
      Dirigiu-se ao abrigo onde se guardavam os arns dos cavalos, confortado de algum jeito pelo aroma de leo e couro. Podia ver que o lugar estava bem organizado, 
igual estava a quadra do carro. Passou as mos sobre uma cadeira de montar, agachou-se para examin-la e descobriu que no era to distinta a que tinha usado em 
sua poca.
      Brincou com rdeas e bridas e, por um instante, sentiu falta da sua gua do mesmo modo que teria feito com uma amante.
      Entrou por uma porta. O cho de pedra apresentava uma leve inclinao, com duas baias a um lado e uma ao outro. Menores das que havia antes na casa mas melhores, 
conforme pde notar. A madeira era suave e escura. Podia cheirar o feno e o gro e...
      Agora se moveu depressa sobre o cho de pedra.
      Na ltima das trs baias havia um garanho negro como o carvo. Hoyt teve um baque no corao ao v-lo. Depois de tudo, ainda havia cavalos, e aquele, conforme 
podia ver, era magnfico.
      O animal golpeou o cho com o casco e jogou as orelhas para trs quando Hoyt abriu a porta da baia. Continuando, o homem levantou ambas as mos e comeou a 
cantar brandamente uma melodia irlandesa.
      Como resposta, o cavalo chutou a parte traseira da baia e soprou a modo de advertncia.
      -Est bem, est bem. Quem poderia culp-lo por se mostrar desconfiado com um desconhecido? Mas s estou aqui para admir-lo, para contemplar sua formosa natureza, 
isso  tudo. Aqui me tem, por que no me cheira? Vejamos o que  que pensa. Ah, eu disse que cheirasse no que mordesse.
      Com um sorriso, Hoyt retirou a mo enquanto o cavalo lhe mostrava os dentes.
      Continuou falando brandamente e permaneceu muito quieto enquanto o animal exibia todo seu repertrio de bufos e golpes com os cascos no cho. Hoyt decidiu 
que o suborno era a melhor soluo e conjurou uma ma.
      Quando viu o interesse refletido nos olhos do cavalo, levantou a fruta e lhe deu uma boa dentada.
      -Deliciosa. Quer um pouco?
      Agora o cavalo se aproximou, farejou, soprou e acabou por agarrar a ma com os dentes da mo de Hoyt. Enquanto a mastigava, permitiu que o acariciasse.
      -Eu deixei um cavalo atrs. Uma boa gua que me tinha acompanhado durante oito anos. Chamei-a ster, porque tinha a forma de uma estrela justo aqui - Apoiou 
os dedos sobre a testa do garanho-.sinto falta dela. Sinto falta de tudo. Apesar de todas as maravilhas do mundo,  muito duro estar longe de tudo aquilo que conhece.
      Depois de alguns minutos partiu da baia e fechou a porta atrs dele. A chuva tinha cessado, de modo que agora podia ouvir o murmrio do arroio e o som das 
gotas que caam ao cho das folhas das rvores.
      Haveria fadas ainda no bosque? Perguntou-se. Brincando e conspirando e observando as debilidades do homem? Estava muito cansado mentalmente para sair para 
busc-las. Muito cansado em seu corao para empreender o solitrio caminho para onde sabia que devia estar enterrada sua famlia.
      Retornou  casa, agarrou suas coisas e subiu pela sinuosa escada em direo  torre mais alta.
      Uma pesada porta lhe impedia o passo, uma porta profusamente gravada com smbolos e palavras mgicas. Hoyt passou os dedos sobre a madeira esculpida, sentindo 
o calor e o zumbido. Quem quer que tivesse feito aquilo, sem dvida tinha algum poder.
      Bem, no pensava ficar fora de seu prprio quarto de trabalho. Ps mos  obra para desfazer o conjuro que mantinha a porta hermeticamente fechada e utilizou 
seu prprio sentido da imprecao e a ira para esquent-la.
      Aquele era seu lar. E jamais em sua vida tinha havido uma porta fechada com chave para ele.
      -Que se abram os ferrolhos. -ordenou que-.  meu direito entrar neste lugar.  minha vontade que se rompa este conjuro.
      A porta se abriu de par em par acompanhada por uma rajada de vento. Hoyt entrou junto com seu ressentimento, deixando que a porta se fechasse violentamente 
a suas costas.
      A habitao estava vazia, salvo pela presena de p e teias de aranha. E fria tambm, pensou. Fria e ranosa, e sem que se usasse em anos. Em outro tempo, 
essa habitao tinha contido a fragrncia de suas ervas e a cera das velas, o calor de seu prprio poder.
      Ao menos voltaria a ter isso, tudo voltaria a ser tal como o tinha sido. Havia muito trabalho que fazer e era ali onde tinha intenes de lev-lo a cabo.
      De modo que limpou a lareira e acendeu o fogo. Subiu do trreo tudo o que necessitava: uma mesa, cadeiras. Na torre no havia eletricidade e isso o agradou. 
Ele criaria sua prpria luz.
      Colocou velas, tocou seus pavios para acend-las. Sob sua tnue luz disps seus instrumentos e equipamento.
      Com o corao e a mente sossegados pela primeira vez em muitos dias, estendeu-se no cho, diante do fogo, enrolou a capa a modo de travesseiro, apoiou a cabea 
nela e adormeceu.
      Sonhou.
      Hoyt estava com Morrigan no topo de uma elevada colina. O terreno descendia em pronunciados desnveis, ondulaes cortados com abismos sombrios espreitados 
pelo mecha distante de uma cadeia de montanhas escuras. A erva era grossa e estava salpicada de rochas. Algumas se elevavam como lanas, outras sobressaam em forma 
de estratos cinza, plainas como mesas gigantes. O terreno subia e baixava e voltava a subir para as montanhas, onde a nvoa se afundava em profundas cavidades.
      Podia ouvir vaias em meio da nvoa, a respirao ofegante de algo mais velho que o tempo. Naquele lugar flutuava a ira. Uma selvagem violncia esperando manifestar-se.
      Mas no momento, at onde alcanava a vista, nada agitava a terra.
      -Este  seu campo de batalha - disse Morrigan-. Sua ltima posio. Haver outros antes que chegue aqui. Mas  aqui aonde a atrair a ela e a enfrentar com 
todos os mundos nesse dia.
      -O que  este lugar?
      - o Vale do Silncio, nas montanhas da Nvoa, no Mundo do Geall. Sangue ser derramado neste lugar, sangue do demnio e sangue humano. O que cresa depois 
aqui vir determinado pelo que voc faa e quem esteja contigo. Mas no deve ficar nesta terra at o momento da batalha.
      -Como farei para retornar outra vez aqui?
      -Ensinaro a faz-lo.
      -S somos quatro.
      -Vm mais. Agora deve dormir, porque quando despertar, dever agir.
      Enquanto ele dormia, a nvoa se dissipou. Viu que nesse mesmo terreno elevado havia uma donzela. Era magra e jovem, com o cabelo castanho solto sobre os ombros, 
como correspondia a uma donzela. Levava uma vestimenta de rigoroso luto e seus olhos mostravam estragos do pranto.
      Mas agora esses olhos estavam secos e cravados naquela terra desolada, como o tinham estado os seus. A deusa falou, mas suas palavras no eram para ele.
      Seu nome era Moira e sua terra era Geall. Sua terra, seu corao e sua obrigao. Aquela terra tinha permanecido em paz desde que os deuses a tinham criado 
e os de seu prprio sangue tinham protegido essa paz. Agora, ela sabia, a paz se romperia, do mesmo modo em que estava quebrado seu corao.
      Tinha enterrado sua me aquela mesma manh.
      -Eles a mataram como se fosse um cordeiro jovem.
      -Conheo sua pena, filha.
      Seus olhos inchados lanaram um duro olhar atravs da chuva.
      -Sofrem os deuses, minha Senhora?
      -No fez mal a ningum em sua vida. Que tipo de morte  essa para algum que era to bom, to generoso? -Moira elevou as mos, umas mos que nunca havia sentido 
to pequenas e vazias-. Mais sabedoria e astcia? As que tenho no so suficientes.
      -Foi-te concedido tudo o que necessita. Usa-o, aperfeioa-o. H outros e a esto esperando. Deve partir agora, hoje.
      -Partir? -Moira se voltou assombrada para olhar  deusa-. Meu povo perdeu sua rainha. Como posso os deixar e como pode me pedir isso? Ter que passar a prova; 
os prprios deuses assim o decidiram. Embora no seja eu quem deve ocupar o lugar de minha me, tomar a espada e a coroa, mesmo assim devo ficar aqui para ajudar 
a quem o faa.
      -Ajudar partindo, e isso  o que querem os deuses. Este  seu dever, Moira de Geall. Partir deste mundo para pod-lo salvar. 
      -Far que deixe meu lar, minha gente, em um dia como este? As flores ainda no se murcharam sobre a tumba de minha me.
      -Cr que sua me quereria que ficasse chorando por ela e olhando como seu povo morre?
      -No.
      -Deve partir, voc e aquela pessoa em quem mais confie. Devem viajar at o Baile dos Deuses. Uma vez ali, entregarei-te uma chave, e essa chave a levar aonde 
tenha que ir. Encontra aos outros, forma seu exrcito. E quando retornar aqui, a esta terra, pelo Samhain, ento lutar.
      Lutar, pensou ela. A ela jamais tinham convocado para uma briga, s tinha conhecido a paz.
      -Minha Senhora, no sou necessria aqui?
      -Ser. Agora te digo que deve partir ali onde a necessitam j. Se ficar, est perdida. E sua terra estar perdida, como estaro os mundos. Este  o destino 
reservado para voc desde antes que nascesse.  a razo de que esteja aqui. Mas deve partir imediatamente. Depressa. Eles s esperam o crepsculo.
      A tumba de sua me estava ali, pensou Moira com desespero. Sua vida estava ali, e tudo o que conhecia.
      -Estou de luto. S uns dias mais, Senhora, suplico-lhe isso.
      -Se ficar um s dia mais, isto  o que ocorrer a seu povo, a sua terra.
      Morrigan agitou um brao dissipando a nvoa. Atrs dela se estendia a negra noite, onde s se via o feixe prateado da luz da lua fria. Os gritos atravessavam 
o ar. E logo se distinguiu fumaa e o resplendor alaranjado das chamas.
      Moira viu o povo que dominava desde seu lar. As lojas e as cabanas estavam ardendo e esses gritos eram os que proferiam seus amigos, seus vizinhos. Homens 
e mulheres feitos pedaos, meninos que eram devorados por essas coisas horrveis que levaram sua me.
      Viu como seu tio lutava contra eles, lanando estocadas com sua espada enquanto o sangue manchava seu rosto e suas mos. Mas aquelas criaturas com presas e 
os olhos de um vermelho selvagem saltaram sobre ele das alturas, de baixo. Caram sobre ele de todos os lados lanando alaridos que lhe gelaram os ossos. E enquanto 
o sangue regava a terra, uma mulher de grande beleza planava sobre a cena. Levava um vestido vermelho de seda, apertado ao corpo e adornado com jias. Seu cabelo 
estava solto e caa dourado como a luz do sol sobre seus ombros brancos.
      Nos braos sustentava um beb ainda envolto em fraldas.
      Enquanto o massacre continuava a seu redor, essa coisa de esplndida beleza descobriu suas presas e as afundou no pescoo do beb.
      -No!
      -Mantm sua pena e sua ira aqui, e isto  o que ocorrer. -A fria gelada que cobria a voz de Morrigan atravessou o terror de Moira-. Tudo o que conhece ser 
destrudo, arrasado, devorado.
      -O que so esses demnios? Que inferno os deixou soltos sobre ns?
      -Aprende. Toma o que tem, o que  e busca seu destino. A batalha chegar. Deve se armar.
      Despertou junto  tumba de sua me, tremendo pelos horrores que acabava de desprezar. Sentia o corao to pesado como as pedras que tinha utilizado para assinalar 
a tumba.
      -No pude te salvar. Como poderia salvar algum? Como posso impedir que essa coisa chegue at aqui?
      Abandonar tudo o que tinha conhecido alguma vez, tudo o que tinha amado. Era muito fcil para os deuses falar do destino, pensou ela enquanto se obrigava a 
levantar-se. Olhou por cima das tumbas para as verdes e tranqilas colinas, para a faixa azul do rio. O sol estava alto e brilhava com fora, alagando de luz seu 
mundo. Ouviu o canto de uma cotovia e o distante mugido do gado.
      Os deuses tinham sorrido aquela terra durante centenas de anos. Agora teria que pagar um preo, um preo de guerra, sangue e morte. E era seu dever pag-lo.
      -Sentirei falta de voc todos os dias -disse em voz alta, e logo desviou o olhar por volta da tumba de seu pai-. Mas agora esto juntos. Farei o que devo fazer 
para proteger Geall. Porque sou quo nico fica de vs. Juro aqui, neste cho sagrado ante aqueles que me deram a vida. Irei encontrar-me com desconhecidos em um 
mundo desconhecido, e entregarei minha vida se for minha vida o que pedem.  tudo o que posso oferecer agora.
      Recolheu as flores que havia trazido com ela e as repartiu sobre ambas as tumbas.
      -Me ajudem - implorou. Logo partiu.
      Ele a estava esperando junto ao muro de pedra. Ela sabia que ele sofria sua prpria aflio, mas lhe tinha dado o tempo que ela necessitava a ss. Era a pessoa 
em quem mais confiava. O filho do irmo de sua me, o filho daquele tio que ela tinha visto morrer em sua viso.
      Ele se levantou agilmente quando ela se aproximou e simplesmente abriu os braos. Moira apoiou a cabea em seu peito.
      -Larkin.
      - Os perseguiremos. Os encontraremos e acabaremos com eles. Aonde quer que estejam.
      -Sei o que so essas criaturas e as encontraremos, as mataremos. Mas no aqui. No agora. -separou-se dele-. Morrigan me visitou e me disse o que devia fazer.
      -Morrigan?
      Ao ver a expresso de cepticismo em seu rosto, ela esboou um leve sorriso.
       -Nunca chegarei a entender como algum com suas habilidades pode duvidar dos deuses. -Elevou uma mo e lhe acariciou as faces -. Mas confiar em mim?
      Ele agarrou seu rosto entre suas mos e a beijou na testa.
      -Sabe que o farei.
      Quando Moira lhe contou o que a deusa havia dito, a expresso dele voltou a mudar. Sentou-se no cho e passou uma mo por seu arbusto de cabelo leonado. Tinha 
invejado seu cabelo desde que tinha memria, lamentando que a ela fosse concedida s uma cabeleira de castanho vulgar. Seus olhos tambm eram leonados, dourados, 
tinha pensado ela sempre, enquanto que os seus eram cinza como a chuva.
      Larkin tinha sido dotado de uma maior estatura, alm de outras coisas que ela tambm invejava.
      Quando terminou de lhe explicar o que tinha acontecido, deixou escapar um suspiro com uma longa exalao.
      -Vir comigo?
      -Dificilmente poderia deixar que partisse sozinha. -Suas mos se fecharam sobre a dela-. Moira, como pode estar segura de que essa viso no foi simplesmente 
um produto de sua dor?
      -Sei. S posso dizer que sei que o que vi era real. Mas se no for nada mais que dor, unicamente teremos desperdiado o tempo que nos levar chegar at o Baile. 
Larkin, tenho que tentar.
      -Ento tentaremos juntos.
      -No diremos a ningum.
      -Moira...
      -Me escute bem. -Lhe agarrou as mos com um gesto peremptrio-. Seu pai faria todo o possvel para nos deter. Ou para nos acompanhar, em caso de que acreditasse 
em minhas palavras. Este no  o caminho, no  meu destino. S um; isso me disse a deusa. Devia levar s um, aquele em quem eu mais confiasse. E esse s pode ser 
voc. O deixaremos por escrito. Enquanto estejamos fora, ele governar Geall e o proteger.
      -Levar a espada... -comeou a dizer Larkin.
      -No. A espada no deve abandonar este lugar. Esse foi um juramento sagrado e no serei eu quem o rompa. A espada ficar aqui at minha volta. No ocuparei 
meu lugar at que possa elev-la, e no a laarei at que no tenha ganhado meu lugar. H outras espadas. "Deve se armar", disse-me ela, de modo que voc deve fazer 
o mesmo. Se rena comigo dentro de uma hora. Recorda, no deve dizer a ningum.
      Agora lhe apertou as mos.
      -Jura-me isso pelo sangue que compartilhamos. Pela perda que compartilhamos.
      Como podia negar-lhe quando as lgrimas ainda estavam midas em suas faces?
      -Juro. No o direi a ningum. -Esfregou-lhe ligeiramente os braos em um gesto de consolo-. Em qualquer caso, arrumado que estaremos de retorno para o jantar.
      Moira se dirigiu velozmente a sua casa atravs do campo e colina acima, at o castelo onde sua linhagem tinha reinado sobre aquelas terras desde que foram 
criadas. Aqueles junto aos que passava inclinavam a cabea para mostrar compaixo, e ela pde ver as lgrimas que brilhavam nos rostos curtidos.
      E sabia que quando essas lgrimas se secassem, muitos deles voltariam seu olhar para ela em busca de guia, de respostas. Muitos se perguntariam como governaria.
      Ela tambm o fazia.
      Cruzou o grande salo do castelo. Agora no havia risadas, tampouco soava msica. Elevando as pesadas saias de seu vestido, subiu a escada que levava a seus 
aposentos.
      Ali havia mulheres, tecendo, atendendo as crianas, falando em voz muito baixa de modo que pareciam pombas arrulhando.
      Moira passou silenciosamente junto a elas e entrou em sua habitao. Trocou o vestido por roupa de montar e atou as botas. No estava bem tirar to cedo sua 
roupa de luto, to facilmente, mas viajaria mais de pressa com a tnica e as botas. Recolheu o cabelo em uma trana e comeou a preparar a bagagem para a viagem.
      No necessitaria mais do que pudesse carregar  costas, decidiu. Consideraria essa viagem como uma caada, nisso, ao menos, tinha certo talento. De modo que 
tirou seu arco, a aljava com as flechas e uma espada curta e deixou tudo em cima da cama enquanto se sentava a escrever uma mensagem para seu tio.
      Como diria a um homem que tinha sido como um pai para ela durante tantos anos que levava seu filho a lavrar uma batalha que no entendia, a lutar contra algo 
que era impossvel conceber, em companhia de homens que no conhecia?
      A vontade dos deuses, pensou ela, a boca tensa enquanto escrevia. No estava segura se estava seguindo isso ou simplesmente sua prpria ira. Mas iria de todos 
os modos.
            
            Devo faz-lo - continuou com prudncia-. Rogo-te que me perdoe por isso, e quero que saiba que vou s pelo bem de Geall. Peo-te que se no retornar 
para o Samhain, eleve a espada e governe em meu lugar. Quero que saiba que parto por ti, por Geall; e juro pelo sangue de minha me que lutarei at a morte para 
defender e proteger tudo aquilo que amo.
            Agora o deixo em suas mos.
            
      Dobrou a carta, esquentou a cera e a selou.
      Prendeu a espada e pendurou o arco e a aljava do ombro. Uma das mulheres se aproximou apressadamente a ela quando saiu da habitao.
      -Minha Senhora!
      -Quero sair a cavalgar sozinha.
      Sua voz era to cortante, sua atitude to decidida, que s ouviu um ofego de assombro a suas costas quando se afastou pelo corredor.
      Sentia um tremor no ventre, mas no se deteve. Quando chegou ao estbulo, disse-lhe ao cavalario que se afastasse e selou ela mesma seu cavalo. Logo se voltou 
para o menino, seu rosto tenro e suave coberto de sardas.
       -Quando se ocultar o sol deve ficar dentro de casa. Esta noite e todas as noites at que eu diga. Entendeste-me?
      -Sim, minha senhora.
      Ela fez dar meia volta ao cavalo, esporeou-o ligeiramente os flancos e se afastou a galope curto.
      No voltaria a vista atrs, pensou Moira. No voltaria a vista atrs para contemplar seu lar, mas sim olharia para frente.
      Larkin a estava esperando, sentado em sua sela enquanto seu cavalo mordiscava a erva.
      -Sinto muito, levou-me tempo.
      -s mulheres sempre levam mais tempo.
      - muito o que estou te pedindo, Larkin. E se nunca retornamos?
      Ele esporeou seu cavalo e se colocou junto a ela. 
      -Uma vez que no acredito que vamos a nenhuma parte, no estou preocupado. -Olhou-a com um sorriso tranqilizador-. S estou sendo complacente contigo.
      -No sentiria mais que alvio se tudo isto no fosse mais que isso.
      Mas uma vez mais insistiu a seu cavalo que galopasse. O que fosse que lhes estivesse esperando, queria conhec-lo quanto antes. 
      Larkin emparelhou com ela enquanto cavalgavam, como o tinham feito tantas vezes antes, atravs das colinas que brilhavam sob os raios de sol. Os rannculos 
salpicavam os campos de amarelo e proporcionavam s mariposas uma razo para danar no ar, Moira viu como um falco descrevia crculos no alto do cu e parte de 
seu abatimento deixou de pesar sobre seus ombros.
      Sua me adorava observar o vo do falco. Dizia que era o pai da Moira, que as vigiava enquanto voava livre pelo cu. Agora rezou para que sua me tambm pudesse 
voar livre.
      O falco descreveu um crculo por cima do anel de pedras e lanou seu grito.
      Os nervos fizeram que se sentisse intranqila e tragou com dificuldade.
      -Bem, j chegamos. -Larkin jogou o cabelo para trs-. O que sugere?
      -Tem frio? Sente o frio?
      -No. Faz calor. O sol se faz sentir hoje com fora.
      -Algo est nos vigiando. -Ela estremeceu enquanto desmontava-. Algo frio.
      -Aqui s estamos ns.
      Mas quando Larkin saltou a terra de sua montaria, levou a mo ao punho da espada.
      -Nos v. -disse ela. Ouvia vozes em sua cabea, murmrios e sussurros. Como se estivesse em transe, Moira agarrou seu alforje da sela-. Agarra o que precise. 
Vem comigo.
      -Moira, est agindo de um modo muito estranho.
      Larkin suspirou e agarrou seu prprio alforje, carregando-o sobre o ombro enquanto se apressava para alcanar Moira.
      -Moira... seus olhos.
      Ela os voltou para ele. Estavam quase negros e eram insondveis. E quando abriu a mo, nela havia uma varinha de cristal.
      -Estou unida, igual a voc, a isto. Voc  meu sangue.
      Tirou sua espada, fez-se um corte na mo e a aproximou da de Larkin.
      -Isso so tolices.
      Entretanto, estendeu a mo e permitiu que lhe fizesse um pequeno corte na palma.
      Moira embainhou a espada e uniu sua mo ensangentada com a dele.
      -O sangue  vida e o sangue  morte - disse-. E aqui abre o caminho.
      Com sua mo obstinada a dele, Moira entrou no crculo de pedras.
      -Os mundos esperam - comeou, entoando as palavras que giravam dentro de sua cabea-. O tempo flui. Os deuses vigiam. Repete as palavras comigo.
      A mo de Moira pulsava dentro da de Larkin enquanto ambos repetiam as palavras.
      O vento formou redemoinhos, agitando as altas ervas, levantando seus mantos. Larkin, instintivamente, rodeou Moira com seu brao livre, apertando-a contra 
ele enquanto colocava seu corpo a modo de escudo para proteg-la. Produziu-se um relmpago de luz que os cegou.
      Ela se colheu com fora de sua mo e sentiu que o mundo dava voltas a seu redor.
      Logo a escurido. Erva mida, ar nebuloso.
      Ambos permaneceram imveis dentro do crculo de pedras, nessa mesma colina. Mas no era a mesma, conforme descobriu Moira. O bosque que se estendia mais  
frente no era o mesmo.
      -Os cavalos desapareceram.
      Ela negou com a cabea.
      -No. Somos ns que desaparecemos.
      Larkin elevou a vista. Pde ver a lua que deslizava atrs das nuvens. O vento minguante era bastante frio para senti-lo nos ossos.
      - de noite. Mal era meio-dia e agora  de noite. Onde demnios estamos?
      -Onde devemos estar, isso  quo nico sei. Temos que encontrar os outros.
      Ele estava confuso e intranqilo. E reconhecia que no tinha pensado alm daquele momento. Mas isso se acabou, porque agora s tinha uma obrigao: proteger 
sua prima.
      -O que vamos fazer ser procurar um refgio e esperar que amanhea.
      Lanou-lhe o alforje e logo comeou a sair do crculo de pedras. Enquanto o fazia comeou a se transformar.
      A forma de seu corpo, os tendes, os ossos. Plo em lugar de pele, leonado como seu cabelo, mas crina em lugar de cabelo. Agora havia um cavalo onde antes 
havia um homem.
      -Bom, suponho que assim ser mais rpido. -Ignorando o n que tinha no estmago, Moira montou-. Cavalgaremos em direo para onde estaria nosso lar. Acredito 
que isso  o mais razovel... se  que algo de tudo isto tem sentido. Ser melhor no galopar, se por acaso o caminho  diferente de que conhecemos.
      Afastaram-se a trote, enquanto ela examinava as rvores e as colinas iluminadas pela luz da lua. Era uma paisagem quase idntica, pensou, mas com sutis diferenas.
      Havia um grande carvalho onde antes no tinha havido nenhum, e o murmrio de um manancial na direo equivocada. O caminho tampouco era o mesmo. Fez que Larkin 
se separasse dele e se dirigisse em direo onde estaria seu lar se aquele fosse seu mundo.
      Voltaram-se entre as rvores, escolhendo agora o caminho com muito cuidado, seguindo seu instinto e um atalho acidentado.
      Ele se deteve, elevou a cabea como se cheirasse o ar. Seu corpo se esticou debaixo de Moira enquanto girava. Ela sentiu que os msculos dele se inchavam.
      -O que ocorre? O que  o que...?
      Ele saiu a galope rapidamente, arriscando-se a se chocar contra os ramos baixos e as rochas ocultas enquanto o fazia. Moira, sabendo s que ele tinha pressentido 
o perigo que os espreitava, inclinou o corpo e se aferrou a sua crina. O que fosse chegou como um relmpago, voando entre as rvores como se tivesse asas. Ela no 
teve tempo de gritar, tempo de tirar a espada curta antes que Larkin se elevasse e golpeasse a aquela coisa com os cascos.
      A coisa lanou um grito e caiu em meio da escurido.
      Moira ia dizer-lhe que reatasse o galope, mas ele j a estava desmontando, recuperando de novo sua forma humana. Colocaram-se costas contra costas, com as 
espadas nas mos.
      -O crculo - sussurrou ela-. Se pudssemos retornar ao crculo.
      Ele negou com a cabea.
      -Cortaram-nos a retirada - respondeu-. Estamos cercados.
      Agora se aproximavam lentamente, escorrendo-se furtivamente entre as sombras. Cinco, no seis, contou Moira enquanto o sangue lhe gelava nas veias. Suas presas 
brilhavam sob a trmula luz da lua.
      -Fica junto a mim -disse Larkin-. No permita que a afastem de mim.
      Uma daquelas coisas ps-se a rir, um som que era horrivelmente humano.
      -Percorreram um comprido caminho para morrer.
      E saltou.
            
            
            
            
            
            
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 8
      
      Glenna estava muito intranqila para dormir, e vagava pela casa. Era bastante grande, sups, para alojar todo um exrcito e, sem dvida, suficiente para albergar 
a quatro relativos desconhecidos com conforto e certo grau de intimidade. Os tetos eram altos -embelezados com magnficas molduras de gesso- e havia escadas que 
se curvavam ou subiam em forma de caracol para outros aposentos. Alguns desses aposentos eram pequenos como celas, outros espaosos, e estavam bem ventilados.
      Os candelabros pendentes eram de ferro, trabalhados com um estilo intrincado e destro que se orientava para o gtico. Combinavam com a casa muito mais que 
qualquer objeto contemporneo, ou at mesmo que a elegncia do cristal.
      Fascinada pelo que a rodeava, retornou em busca de uma de suas cmaras. Enquanto percorria a casa, ia fazendo pausas conforme ditava seu nimo, enquadrando 
no visor uma parte de teto ou um abajur. Dedicou trinta minutos s aos drages esculpidos no mrmore negro da lareira que havia no salo principal.
      Feiticeiros, vampiros, guerreiros. Drages de mrmore e casas antigas e isoladas em bosques densos e profundos. Uma grande quantidade de motivos para sua arte, 
pensou. Quando retornasse a Nova Iorque poderia incrementar notavelmente seus ganhos.
      Terei que pensar positivo.
      Cian devia ter dedicado um monte de tempo e dinheiro a modernizar, decorar e mobiliar novamente a casa, pensou. Mas Cian dispunha de ambas as coisas em grandes 
quantidades. Cores vivas, tecidos ricos, formosas antiguidades conferiam  casa uma atmosfera de luxo e estilo. E sim, pensou tambm, a casa se limitava a permanecer 
ali, ano aps ano; vazia e com seus antigos ecos reverberando entre suas paredes.
      Uma pena, realmente. Um desperdcio de beleza e histria. Ela detestava o desperdcio.
      No obstante, era uma verdadeira sorte que Cian tivesse essa casa. Sua localizao, seu tamanho e, sups Glenna, sua histria, convertiam-na em uma base de 
operaes perfeita.
      Encontrou a biblioteca e assentiu com aprovao. Ali havia trs altas estantes que se elevavam at o teto, onde outro drago -nesta ocasio de vidro de cores- 
lanava fogo e luz.
      Havia candelabros mais altos que um homem e abajures profusamente trabalhados. No duvidou nem por um instante que os tapetes orientais, do tamanho de um lago, 
fossem autnticos e que, possivelmente, teriam centenas de anos.
      Aquela casa no era s uma boa base de operaes, refletiu, e sim uma base extremamente confortvel e acolhedora. Com sua imensa mesa de biblioteca, macias 
poltronas e a enorme lareira, considerou que aquele era um perfeito gabinete de trabalho.
      Concedeu-se o prazer de acender a lenha na lareira e os abajures para dissipar a penumbra do dia cinza. Logo disps pela habitao os cristais, livros e velas 
que havia trazido com ela.
      Embora tambm tivesse gostado de incluir algumas flores, era um comeo. Sem no entanto necessitar mais. A vida no se limitava somente ao estilo, a sorte ou 
a magia.
      -O que faz ruiva?
      Glenna se voltou. King ocupava todo o vo da porta.
      -Suponho que poderamos chamar de preparar o ninho.
      -Pois  um pedao de ninho.
      -Eu estava pensando o mesmo. E me alegra que esteja aqui.  justo o homem que necessito.
      -Voc e todas as mulheres. O que tem em mente?
      -Coisas prticas. Voc j esteve antes nesta casa, no ?
      -Sim, um par de vezes.
      -Onde esto as armas? -quando King arqueou as sobrancelhas ela abriu os braos-. Essas coisas chatas que se necessitam para fazer a guerra, ou isso ouvi, j 
que esta ser minha primeira guerra. Acredito que me sentiria melhor se tivesse um par de morteiros ao alcance da mo.
      -No acredito que o chefe goste dessas intrigas.
      -E o que  que gosta seu chefe?
      King considerou a pergunta.
      -O que  que tem aqui?
      Glenna jogou uma olhada aos cristais.
      -S algumas das coisas que reparti aqui e l para proteo, coragem, criatividade e demais. Este aposento me pareceu um lugar perfeito para planejar estratgia. 
Um centro de comando. O que? -perguntou ao ver que os lbios de King se curvavam em um amplo sorriso.
      -Acredito que vai bem encaminhada.
      King se dirigiu a uma das paredes cobertas de livros e passou seus dedos grandes e grossos sobre a borda esculpida.
      -No me diga que h um... painel secreto. -Glenna acabou a frase com uma risada encantada quando a parede se abriu.
      -Este lugar est cheio deles. -King empurrou a parede, fazendo-a girar por completo, antes que Glenna pudesse dar uma olhada-. No sei se o chefe quereria 
que farejasse por estes passadios. Mas como disse arma. -Fez um amplo gesto-. Aqui tem armas.
      Espadas, machados, maas, adagas, foices. Todo tipo de folhas brilhantes penduradas e expostas na parede. Havia tambm bestas, arcos largos, inclusive algo 
que pensou que era um tridente.
      -Tudo isto  um pouco inquietante -disse ela, mas avanou uns passos e agarrou uma adaga.
      -Um pequeno conselho -comeou a dizer King-. Se escolher uma dessas adagas, algo que venha para voc teria que estar muito perto para que possa te servir de 
alguma coisa.
      -Uma boa observao. -Glenna deixou a adaga em seu lugar e agarrou uma das espadas-. Uau.  muito pesada. -Voltou a pendur-la na parede e agarrou o que pensou 
que podia denominar-se em florete-. Melhor.
      -Tem idia de como se usa essa arma?
      -hack, hack, hack, jab, jab? -Fez girar a folha como um ensaio, e se surpreendeu que gostasse da sensao que experimentou ao sustentar a arma na mo-. De 
acordo, no. No tenho a menor idia. Algum teria que me dar algumas aulas.
      -Acredita que seria capaz de crav-la em algum? -perguntou Cian entrando no aposento secreto-. Quebrar ossos, derramar sangue?
      -No sei - respondeu ela e baixou a fina espada. - Temo que seja algo que terei que averiguar. Vi o que era essa mulher, o que fez, o que estava com ela. No 
penso entrar nesta guerra s com poes e conjuros. E estou fodidamente segura de que no vou ficar sem fazer nada se ela tentar me morder.
      -Com isso pode os ferir, fazer que vo mais devagar, mas no poder mat-los. No poder a menos que corte a cabea.
      Glenna fez uma careta e examinou a fina folha. Logo, com um gesto de resignao, voltou a deixar o florete em seu lugar e agarrou a pesada espada.
      -Para poder brandir essa espada se necessita muita fora.
      -Ento me porei forte, bastante forte para poder us-la.
      -Os msculos no so a nica classe de fora que necessitar.
      Ela manteve o olhar fixo em seus olhos.
      -Conseguirei a fora que necessito. Voc sabe como usar esta espada. Voc e Hoyt e voc tambm -disse a King-. Se acham que quando chegar o momento de lutar 
vou ficar comodamente sentada, revolvendo um caldeiro, sugiro que meditem de novo. No me trouxeram at aqui para que uns homens me protejam. No me concedeu este 
dom para que me comporte como uma covarde.
      -Eu o farei -disse King com aquele grande sorriso novamente em seus lbios-. Eu gosto das mulheres que tm colhes.
      Glenna agarrou o punho com ambas as mos e cortou o ar com a pesada folha.
      -Muito bem. Quando vai ser minha primeira lio?
      
      
      
      Hoyt desceu a escada. Tentou no lamentar o que estava mudado, o que tinha desaparecido. Ele retornaria, voltaria para seu verdadeiro lar, sua famlia e sua 
vida.
      Veria novamente as tochas que ardiam nas paredes e aspiraria outra vez o perfume das rosas de sua me no jardim. E caminharia junto aos escarpados que se elevavam 
perto de sua cabana no Chiarri, e saberia que o mundo j estava livre de quo canalhas tentavam destru-lo.
      Precisava descansar, isso era tudo. Descanso e solido em um lugar que conhecia e entendia. Agora trabalharia e faria planos. J tinha desaparecido aquela 
sensao de ser arrastado para algo que era incapaz de entender.
      Tinha anoitecido e as luzes -aquelas luzes estranhas e intensas que eram produto da eletricidade e no do fogo- iluminavam a casa.
      Irritou-lhe no encontrar ningum, e tampouco podia cheirar que se estivesse preparando o jantar na cozinha. Era hora de pr mos  obra e de que outros entendessem 
que era necessrio dar os passos seguintes.
      Um som fez que se detivesse, logo deixou escapar o ar com um vaio. Seguiu o som de aos que chocavam. Logo girou por volta de onde antigamente havia uma porta 
e amaldioou ao comprovar que agora havia uma parede. Apertou o passo e irrompeu na biblioteca, onde viu que seu irmo brandia uma espada contra Glenna.
      No pensou; no duvidou um instante. Dirigiu seu poder para Cian e enviou a espada girando no ar at que esta caiu ao cho. Ao no encontrar oposio a sua 
estocada, Glenna feriu Cian no ombro.
      -OH, merda.
      Cian afastou a espada ao mesmo tempo em que Glenna a soltava com uma expresso de horror.
      -OH, Deus! OH, Meu deus!  grave? Muito grave?
      Correu para Cian.
      -Atrs! -com outro golpe de poder, Hoyt fez que Glenna cambaleasse para trs e casse sentada no cho -. Quer sangue? -perguntou a seu irmo enquanto agarrava 
a espada de Glenna-. Vem pegar o meu.
      King desprendeu uma espada da parede e a brandiu frente a Hoyt.
      -Retrocede, menino feiticeiro. Agora.
      -No se meta nisto - disse Cian a King-. Se afaste. -Cian recolheu lentamente sua espada e olhou fixamente Hoyt-. Tenta.
      -Basta! Basta agora mesmo. Que merda passa com vocs dois? -Sem importar as folhas das espadas, Glenna se interps entre os irmos-. Cravei-lhe a espada, pelo 
amor de Deus. Deixa que examine a ferida.
      -Ele a estava atacando. 
      -Ele no estava me atacando. Estava-me ensinando como se usa uma espada.
      -No  nada. -Com o olhar ainda ardendo e cravado nos olhos de Hoyt, Cian afastou Glenna-. Tenho a camisa rasgada e  a segunda vez que isto ocorre por sua 
culpa. Se tivesse querido seu sangue, no a teria pegado com uma espada, para desperdi-lo. Mas com o seu posso fazer uma exceo.
      O flego de Glenna queria sair de sua boca, as palavras queriam brotar atropeladamente, mas se ela conhecia um pouco os homens, sabia que, naquele momento, 
s necessitaria o leve movimento de um dedo para que aqueles dois tipos se lanassem um contra o outro.
      Falou portanto com tom seco: uma garota incomoda frente a dois meninos estpidos.
      -Isto  um erro, foi um acidente. Quero que saiba que aprecio que tenha vindo em meu resgate -disse a Hoyt-. Mas no necessitava nem necessito o cavalheiro 
branco. E quanto a voc... -agitou um dedo ante o rosto de Cian-, voc sabe muito bem o que devia parecer a cena a Hoyt, de modo que relaxe um pouco. E voc -se 
voltou para King- j pode deixar de acrescentar lenha ao fogo.
      -N! Quo nico tenho feito foi...
      -Acrescentar mais problemas - interrompeu ela. - Agora v procurar umas ataduras.
      -No as necessito. -Cian recolheu sua espada-. Minhas feridas curam depressa, um detalhe que conviria que recordasse. -Estendeu a mo para a espada de King. 
O olhar que Cian lhe dirigiu poderia ter sido de afeto, pensou Glenna. Ou de orgulho-. A diferena de nossa zangada bruxa, aprecio o gesto, King.
      -No h problema.
      King lhe entregou a espada a Cian e depois deu de ombros olhando Glenna como se estivesse envergonhado.
      Cian, agora desarmado, voltou-se para seu irmo.
      -Quando era humano, no podia me vencer com a espada. E sabe fodidamente bem que no poderia faz-lo agora tampouco.
      Glenna apoiou uma mo sobre o brao de Hoyt e sentiu o tremor de seus msculos.
      -Baixa a espada -disse com voz calma -Isto tem que acabar.
      Depois deslizou a mo at sua mo e agarrou a espada.
      -Ter que limpar a folha -disse Cian.
      -Eu me encarregarei de faz-lo. -King se separou da parede-. E, de passagem, prepararei um pouco de jantar. Tudo isto me deu fome.
      Inclusive depois de que King partiu, Glenna sentiu que na habitao ficava ainda tanta testosterona que poderia hav-la talhado com um dos machados de Cian.
      -Podemos continuar? -perguntou com voz enrgica-. Pensei que poderamos utilizar a biblioteca como nosso centro de comando. E, considerando as armas que h 
aqui, e os livros de magia, guerra, vampiros e demnios, parece o mais apropriado. Tenho algumas idias...
      -Aposto que sim -resmungou Cian.
      -Em primeiro lugar...
      Glenna se aproximou da mesa e elevou sua bola de cristal.
      -No aprendeu nada a primeira vez? -perguntou Hoyt.
      -No quero procurar essa mulher. J sabemos onde est. Ou onde estava.
      Queria mudar o ambiente que reinava no aposento. Se tinha que haver tenso, pensou, ao menos que pudessem utiliz-la de um modo construtivo.
      -Viro outros, nos disseram. Acredito que chegou o momento de encontrarmos alguns deles.
      Hoyt tinha planejado fazer exatamente isso, mas no podia diz-lo ento sem ficar como um estpido.
      -Baixa isso.  muito cedo para us-la depois da ltima vez.
      -Limpei-a e recarregou -disse ela.
      -No importa. -voltou-se para o fogo que ardia na lareira-. Faremos isto a minha maneira.
      -Uma frase que me soa familiar. -Cian se dirigiu a um armrio e tirou uma pesada taa de conhaque-. Deixo-os com suas coisas. Beberei um pouco de brandy em 
outra parte.
       -Por favor, fique. -Glenna lhe ofereceu um sorriso, e nele havia tanto uma desculpa como uma lisonja-. Se encontrarmos algum, acredito que deveria estar 
aqui para v-lo.  necessrio que decidamos o que fazer. Todos devem decidir. De fato, deveria ir procurar King, para que estejamos os quatro juntos.
      Hoyt fingiu ignorar a ambos, mas descobriu que no resultava to simples fazer a mesma com essa pequena espetada interior que muito bem podia ser cimes. Ensin-la 
a usar a espada e ela preocupada com um leve arranho...
      Estendeu as mos e comeou a concentrar-se no fogo, aproveitando sua irritao para provoc-lo.
      -Uma boa idia. -Cian assinalou Hoyt com a cabea-. Mas parece que algum j comeou.
      -Bom, para... Est bem, est bem. Deveramos criar um crculo.
      -No necessito um crculo para isto. As bruxas sempre esto criando crculos e entoando versos. Por isso a verdadeira feitiaria as evita.
      Quando Glenna foi abrir a boca, Cian lhe sorriu e piscou um olho.
      -Hoyt sempre foi muito arrogante. Brandy?
      -No. -Glenna voltou a deixar sua bola de cristal em cima da mesa e cruzou os braos-. Obrigado.
      O fogo crepitou, as chamas se elevaram e comearam a devorar avidamente as lenhas.
      Hoyt empregou sua prpria lngua, o idioma de sua terra e sangue para fazer que o fogo danasse. Uma parte dele sabia que estava alardeando, prolongando o 
momento e o drama.
      Com uma nuvem de fumaa e um vaio, as imagens comearam a formar-se entre as chamas. Sombras e movimento, formas e silhuetas. Agora se esqueceu de tudo salvo 
da magia e o propsito, de tudo salvo da necessidade e o poder.
      Sentiu que Glenna se aproximava dele... em corpo e mente. Em magia.
      As formas e as silhuetas se definiram no fogo.
      Uma mulher montada a cavalo, o cabelo recolhido em uma longa trana sobre as costas, uma aljava de flechas pendurada no ombro. O cavalo era dourado e brilhante 
e avanava com um poderoso galope atravs do bosque escuro. Havia medo no rosto da mulher, e tambm frrea determinao enquanto cavalgava quase deitada sobre o 
lombo do animal com uma mo obstinada  crina.
      O homem que no era um homem saltou do bosque e foi rechaado. Mais criaturas cobraram forma, deslizando-se fora da escurido, movendo-se para rode-los.
      O cavalo estremeceu e, com um sbito relmpago de luz, converteu-se em um homem, alto, magro e jovem. A mulher e ele se colocaram costas contra costas, as 
espadas desembainhadas. E os vampiros se lanaram sobre eles.
      -Esto no caminho que leva ao Baile. -Cian saltou para onde estavam as armas e agarrou uma espada e um machado de duplo fio-. Fique com King - ordenou a Glenna 
ao mesmo tempo em que corria para a janela-. Fique ali e no deixe entrar ningum. Nada nem ningum.
      -Mas...
      Abriu a janela e pareceu sair... voando atravs dela.
      -Hoyt... -comeou Glenna. Mas ele j estava agarrando uma espada e uma adaga.
      -Faz o que lhe disse - respondeu a ela, continuando, saltou tambm pela janela, quase to velozmente como seu irmo.
      Glenna no duvidou um instante. Seguiu-os.
      Hoyt se dirigiu ao estbulo, lanando seu poder diante para abrir as portas. Quando o garanho foi arremeter contra ele, Hoyt elevou as mos para det-lo. 
No havia tempo para delicadezas.
      -Retorna -gritou a Glenna.
      -Vou contigo. No perca tempo em discusses. Eu tambm estou metida nisto. -Quando ele agarrou um punhado de crina e saltou ao lombo do cavalo, ela jogou a 
cabea para trs-. O seguirei a p.
      Hoyt a amaldioou, mas estendeu a mo para ajud-la a montar. 
      O cavalo retrocedeu quando King apareceu no estbulo.
      -Que merda est acontecendo aqui?
      -Temos problemas -gritou Glenna-. No caminho que leva ao Baile. -Quando o cavalo voltou a retroceder, rodeou com seus braos o corpo de Hoyt e se apertou contra 
ele. -Vamos!
      No clareira do bosque, Moira seguia lutando embora j no por sua vida. Eles eram muitos e tambm muito fortes. Acreditava que ia morrer e lutava por um pouco 
mais de flego, por cada precioso momento.
      No havia espao nem tempo para que pudesse usar o arco, mas tinha sua espada curta. Ela podia feri-los, de fato o fazia. Quando a folha da espada penetrava 
na carne, aquelas coisas chiavam e alguns inclusive caam. Mas voltavam a levantar-se e atacavam outra vez.
      No podia contar quantos eram, e no sabia tampouco contra quantos deles brigava Larkin. Mas sabia que, se ela caa, aqueles seres acabariam com ele. De modo 
que procurava manter-se em p e conservar sua posio, lutava s para poder seguir lutando.
      Dois deles a atacaram e, com uma mescla de ofegos e soluos, alcanou um com a espada. Um jorro de sangue brotou da ferida acompanhado de um horrvel alarido 
enquanto os olhos vermelhos ficavam brancos. Ante o olhar horrorizado de Moira, um de seus companheiros se lanou sobre ele e comeou a beber seu sangue. Mas chegou 
outro e o lanou voando pelo ar. Depois saltou sobre o ferido como um co raivoso, vidos de sangue e com os olhos vermelhos.
      Ouviu que Larkin gritava seu nome e percebeu o horror em sua voz enquanto notava como umas presas roavam seu pescoo; a queimadura lhe produziu uma dor insuportvel.
      Nesse momento, algo surgiu da noite, um guerreiro escuro armado com uma espada e um machado. A criatura que estava em cima dela foi lanada a um lado. Com 
os olhos muito abertos pelo assombro, Moira viu que o guerreiro baixava o machado com fora e lhe cortava a cabea. A criatura gritou e crepitou antes de converter-se 
em p.
      -Corte-lhes a cabea - gritou o guerreiro a Larkin, logo voltou seus olhos azuis e ardentes para ela-. Usa suas flechas. A madeira atravs do corao.
      Logo sua espada comeou a assobiar e cortar.
      Moira se levantou e tirou uma flecha da aljava que levava no ombro. Tentou relaxar a mo coberta de sangue para poder encaixar a flecha na corda do arco. "Chega 
outro cavaleiro", pensou fracamente quando ouviu o trovejar de cascos sobre a terra.
      Outra das criaturas se lanou sobre ela, uma garota muito jovem. Moira se virou mas no tinha tempo de disparar a flecha. A garota saltou e ficou empalada 
na mesma. Dela no ficou mais que o p.
      O cavaleiro recm-chegado saltou a terra brandindo a espada.
      Larkin e ela no morreriam, pensou enquanto o suor caa sobre seus olhos. No morreriam essa noite. Colocou uma flecha e disparou.
      Os trs homens tinham formado um tringulo de costas uns aos outros e estavam rechaando seus inimigos. Um dos horrveis seres conseguiu deslizar-se para o 
cavalo, em cuja cadeira havia uma mulher que observava a batalha. Moira avanou engatinhando, tentando encontrar um ngulo de tiro, mas s conseguiu gritar uma advertncia.
      O segundo guerreiro se voltou rapidamente, com a espada elevada disposto ao ataque, mas a mulher fez que o cavalo se elevasse sobre suas patas traseiras e 
derrubasse seu atacante com os cascos dianteiros.
      Quando a espada lhe cortou o pescoo, no cho s ficou sangue e p.
      No silncio que seguiu, Moira caiu de joelhos, lutando contra uma terrvel sensao de nusea e por levar ar a seus pulmes. Larkin se ajoelhou junto a ela 
e lhe passou as mos pelo corpo, pelo rosto.
      -Feriram-lhe, est sangrando.
      -No  grave. No  grave. -Sua primeira batalha, pensou. E estava viva-. E voc?
      -Cortes, arranhes. Pode se levantar? Eu a levarei.
      -Sim, posso me levantar, e no, no me levar. -Ainda de joelhos, Moira olhou o homem que tinha sado primeiro da escurido do bosque-. Salvaste-me a vida. 
Obrigado. Acredito que viemos aqui para encontr-lo, mas me sinto agradecida de que voc nos tenha encontrado em troca. Sou Moira e chegamos atravs do baile, de 
Geall.
      Ele se limitou a olh-la durante um momento que pareceu interminvel.
      -Devemos retornar  casa. No  seguro ficar aqui
      -Meu nome  Larkin -disse este lhe tendendo a mo-.Luta como um demnio.
      -Isso  bastante certo. -Cian deu umas palmadas-.Os levemos de volta -disse a Hoyt, e olhou para onde estava Glenna-. Vocs duas podem montar juntas.
      -Posso andar -comeou a dizer Moira, s para sentir que era elevada do cho e depositada sobre o lombo do cavalo.
      -Devemos sair daqui -disse Cian em tom peremptrio-. Hoyt, v a frente e voc Larkin, fica junto s mulheres. Eu irei atrs.
      Hoyt apoiou a mo no pescoo do garanho ao passar junto a este e olhou Glenna.
      -Cavalga muito bem.
      -Monto desde que tinha quatro anos, ento no volte a pensar em me deixar atrs. -Logo se voltou para olhar Moira-. Sou Glenna. Prazer em conhec-la.
      - a pura verdade se disser que, nunca em toda minha vida, alegrei-me mais de conhecer algum.
      Quando o cavalo ficou em marcha, Moira se aventurou a olhar para trs. No pde ver o guerreiro. Parecia haver-se dissolvido na escurido.
      -Como se chama? O guerreiro que chegou a p?
      -Chama-se Cian. Hoyt  o que marcha adiante. So irmos e h muito que explicar de ambos. Mas uma coisa  fodidamente segura, conseguimos sobreviver a nossa 
primeira batalha. E chutamos o trazeiro de alguns vampiros.
      Em circunstncias normais, Moira teria se considerado uma convidada, e teria se comportado como tal. Mas ela sabia que esse no era o caso de jeito nenhum. 
Agora Larkin e ela eram soldados e formavam parte do que era um exrcito muito pequeno.
      Podia parecer absurdo, mas se sentia aliviada ao ver que no era a nica mulher do grupo.
      Uma vez dentro da casa, instalou-se em uma maravilhosa cozinha. Um homem enorme, com a pele escura como o carvo, estava ocupado nos foges, embora no acreditava 
que se tratasse de um criado.
      -Curaremos a ferida -disse Glenna-. Se quiser se lavar antes, acompanharei-a ao andar de cima.
      -No at que estejamos todos aqui.
      Glenna ergueu a cabea.
      -Muito bem ento. No sei o resto de vocs, mas eu quero um copo.
      -Eu mataria por um -disse Larkin com um breve sorriso-. Na realidade, parece-me que isso  o que acabo de fazer. No acreditei o que me dizia. -Apoiou sua 
mo sobre a da Moira-. Sinto muito.
      -Est bem, no tem importncia. Estamos vivos e no lugar onde devamos estar. Isso  quo nico importa.
      Moira elevou a vista quando a porta se abriu. Mas era Hoyt quem chegava, no o homem que chamavam Cian. Ainda assim, ficou de p. 
      -No o agradecemos como corresponde que tenham vindo em nossa ajuda. Eles eram muitos. Estvamos perdendo terreno at que vocs chegaram.
      -Estvamos esperando-os.
      -Sei. Morrigan me deixou ver voc. E a voc -acrescentou, assinalando a Glenna -Isto  a Irlanda?
      -Sim.
      Mas...
      Moira apoiou uma mo sobre o ombro de Larkin.
      -Meu primo acredita que a Irlanda  um conto de fadas, inclusive agora.
      Ns dois viemos de Geall, que foi criada pelos deuses com uma parte da Irlanda para que prosperasse em paz e fosse governada pelos descendentes do grande Finn.
      -Voc  o sbio, ou deveria dizer a sbia - constatou Hoyt.
      -Bom, Moira ama seus livros, disso no resta dvida. Isto est muito bom -disse Larkin bebendo um gole de seu vinho.
      -E voc o que adota muitas formas -acrescentou Hoyt.
      -Esse seria eu, assim .
      Quando a porta voltou a abrir-se, Moira sentiu que a sensao de alvio a percorria por dentro como uma mar.
      Cian a olhou brevemente e depois a Glenna.
      -Necessitam que a atendam.
      -No quis mover-se daqui at que no estivesse toda a turma reunida. Por que no se serve outra taa de vinho, Larkin? Moira, vem acima comigo.
      -Tenho tantas perguntas -comentou esta.
      -Todos as temos. Falaremos durante o jantar.
      Glenna agarrou Moira pela mo e juntas saram da cozinha.
      Cian se serviu uma taa e se sentou  mesa. Tinha a camisa manchada de sangue.
      -Sempre acostuma levar sua mulher a lugares estranhos?
      Larkin bebeu outro gole de vinho.
      -Ela no  minha mulher e sim minha prima e, de fato, foi ela quem me trouxe . Moira teve uma viso ou um sonho ou algo mstico... algo que no  incomum nela. 
 um pouco extravagante. Mas estava absolutamente decidida a fazer isto, e eu no teria podido det-la em seu empenho. Essas coisas que vimos ali fora, algumas vieram 
a Geall. Mataram sua me.
      Larkin bebeu outro comprido gole de vinho.
      -A enterramos esta mesma manh, se  que o tempo  o mesmo aqui. Cortaram-na em pedaos, isso foi o que lhe fizeram. Moira viu tudo.
      -Como conseguiu sobreviver para contar?
      -No sabe. Ao menos... bom, na realidade no quis falar disso. No at agora.
            
            
            
      No piso superior da casa, Moira se lavou na ducha tal como Glenna a tinha ensinado a faz-lo. O puro prazer da gua caindo sobre seu corpo a ajudou a mitigar 
suas dores e feridas, e considerou o calor da gua como algo prximo a um milagre.
      Quando o sangue e o suor desapareceram de seu corpo, vestiu o robe que Glenna lhe tinha deixado e saiu do banheiro para encontrar sua nova amiga esperando-a 
no dormitrio.
      -No estranha que falemos da Irlanda como se fosse um conto de fadas. Isso  o que parece.
      -Tem melhor aparncia. Um pouco de cor nas faces. Demos uma olhada a essa ferida que tem no pescoo.
      -Arde muito. -Moira tocou a ferida com os dedos-. Mas  apenas pouco mais que um arranho.
      -Segue sendo a mordida de um vampiro. -Glenna a examinou cuidadosamente e franziu os lbios-. No h orifcio entretanto, ou  apenas perceptvel, e isso  
bom. Tenho algo que deveria ajudar.
      -Como sabiam onde encontrar-nos?
      -Vimo-los no fogo.
      Glenna procurou o blsamo adequado entre suas coisas.
      -Voc  a bruxa.
      -Mmmm-hmmm. Aqui est.
      -E o que chamam Hoyt  o feiticeiro.
      -Sim. Ele tampouco  deste mundo... ou melhor no deste tempo. Parece como se nos estivessem recolhendo de todas as partes. Como o sente?
      -Frio. -Moira deixou escapar um suspiro enquanto o blsamo acalmava o ardor da ferida. Olhou Glenna-. Delicioso, obrigado. E Cian, que tipo de homem ?
      Glenna duvidou. Sinceridade total, decidiu. A honestidade e a confiana tinham que ser consubstancial a seu pequeno batalho.
      - um vampiro.
      Moira se levantou de um salto. Estava novamente muito plida.
      -Por que diz isso? Ele lutou contra eles, salvou-me a vida. Agora inclusive est na cozinha, dentro da casa. Por que diz que  um monstro, um demnio?
      -No o disse, porque no considero que seja nenhuma dessas duas coisas. Cian  um vampiro e leva sendo-o h novecentos anos. Quem o transformou no que  se 
chama Lilith, e  dela de quem temos que nos preocupar. Cian  o irmo de Hoyt, Moira, e jurou lutar, igual ao resto de ns.
      -Se o que diz  certo... Ele no  humano.
      -Seu primo se transforma em um cavalo. Eu diria que isso o faz tambm algo diferente de humano.
      -No  o mesmo.
      -Talvez no. No tenho todas as respostas. Quo nico sei  que Cian no pediu o que lhe fizeram faz centenas de anos. Que nos ajudou a chegar at aqui e que 
foi o primeiro em sair da casa para lutar junto a vocs quando os vimos no fogo. Sei como se sente.
      Moira viu em sua memria o que tinham feito a sua me, voltou a ouvir os terrveis gritos, cheirou o sangue.
      -No pode sab-lo.
      -Bom, sei que a princpio eu tampouco confiava nele. Mas agora sim. Totalmente. E sei que o necessitamos para ganhar esta guerra. Toma. Trouxe um pouco de 
roupa. Sou mais alta que voc mas pode dobrar a bainha da cala at que encontremos algo que se assente melhor. Agora desceremos, comeremos e falaremos de todo este 
assunto. E j veremos como se desenvolvem os acontecimentos.
            
            
            
      Aparentemente comeriam na cozinha, como se fossem uma famlia ou os criados. Moira se perguntou se poderia engolir um bocado, mas descobriu que seu apetite 
era enorme. O frango frito estava suculento e ia acompanhado de montes de batatas e feijes.
      O vampiro comeu muito pouco.
      -Ns j estamos reunidos -comeou Hoyt- e ainda devem unir-se alguns outros em algum ponto que ainda no conhecemos. Mas o grupo devia comear conosco e assim 
foi. Amanh comearemos a treinar, a aprender. Cian voc  quem melhor sabe como lutar contra eles. Voc estar encarregado. Glenna e eu trabalharemos com a magia.
      -Eu tambm quero treinar -disse Glenna.
      -Ento estar muito ocupada. Precisamos descobrir nossos pontos fortes e nossos pontos fracos. Devemos estar preparados quando se lavrar a batalha final.
      -No mundo de Geall -disse Moira- no Vale do Silncio, nas montanhas da Nvoa. No sbado do Samhain. -Evitando os olhos de Cian olhou Hoyt-. Morrigan me mostrou 
isso.
      -Sim. -Hoyt assentiu-. A vi ali.
      -Quando chegar o momento, voltaremos a atravessar o Baile e partiremos para o campo de batalha. Est a cinco dias de caminho, de modo que ter que partir com 
tempo suficiente.
      -H no Geall gente que lutar a nosso lado?
      -Todos lutaro a nosso lado. Todos morrero por salvar nosso lar, e os mundos. -O peso de suas palavras caiu sobre ela-. S tenho que pedir.
      -Tem muita f em sua gente -comentou Cian.
      Agora ela o olhou, obrigou-se a encontrar-se com seus olhos. "Azuis - pensou - e bonitos. Voltariam-se vermelhos como os de um demnio quando se alimentasse 
de sangue humano?"
      -Assim . E em meus compatriotas, e na humanidade. E se no a tivesse, ordenaria-os que o fizessem. Porque quando retornar devo ir  Pedra Real e, se for digna 
disso, se no houver ningum que possa igualar-se a mim conseguirei tirar a espada de sua bainha, e ento serei a rainha de Geall. No verei meu povo sacrificado 
como se fossem cordeiros por essa coisa que se converteu no que . Se tiverem que morrer, o faro lutando.
      -Tem que saber que a pequena escaramua em que se viu envolvida esta noite no foi nada. Nada. Quantos havia ali? Oito, dez deles? Se apresentaro em batalha 
aos milhares. -Cian ficou de p-.Ela teve quase dois mil anos para formar seu exrcito. Seus camponeses tero que fazer algo mais que transformar seus arados em 
espadas se quiserem sobreviver.
      -Ento o faro.
      Cian inclinou a cabea.
      -Se prepare para treinar duramente, e no amanh, ter que comear esta noite. Esqueceste-o irmo, mas eu durmo durante o dia.
      E uma vez dito isto, partiu.
            
            
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 9
      
      Glenna fez um gesto a Hoyt e deixou os outros com King. Voltou a vista para a cozinha e o corredor. No tinha idia de aonde podia ter ido Cian.
      -Temos que falar. Em particular.
      -Temos que trabalhar.
      -No discutirei isso, mas  necessrio que antes voc e eu falemos de algumas coisas. A ss.
      Hoyt franziu o cenho, mas assentiu. Se ela queria privacidade, havia um lugar onde estava seguro de que a encontraria. Subiu a escada em direo a seu quarto 
na torre seguido de Glenna.
      Ela passeou pelo quarto estudando suas reas de trabalho, seus livros e ferramentas. Foi at cada uma das estreitas janelas, abriu as folhas de cristal que 
estavam ali da poca de Hoyt e voltou s fechar.
      -Bonito. Muito bonito. Pensa compartilhar a riqueza?
      -A que se refere?
      -Tambm necessito um lugar para poder trabalhar; mais ainda, diria que voc e eu necessitamos um lugar onde possamos trabalhar juntos. No me olhe desse modo.
      Glenna fez um gesto displicente enquanto se aproximava da porta e a fechava.
      -De que modo?
      -Como dizendo "Sou um feiticeiro solitrio e no quero bruxas." Estamos unidos, entre ns e com outros. De algum jeito que s Deus sabe, temos que nos transformar 
em uma unidade. Porque Cian tem razo.
      Glenna se aproximou novamente a uma das janelas e olhou para a escurido apenas quebrada pela luz da lua.
      -Cian tem razo. Ela ter milhares junto a ela. Nunca olhei to longe, nunca pensei em um pouco to grande, embora, Meu Deus, h algo que seja maior que um 
Apocalipse?  claro, ela ter um exrcito de milhares de vampiros. Ns somos apenas um punhado.
      - tal como nos disseram -recordou Hoyt-. Ns somos os primeiros, o crculo.
      Ela se voltou, e embora seus olhos sustentassem o olhar de Hoyt, ele notou o medo refletido neles. E a dvida.
      -Todos ns somos desconhecidos e estamos muito longe de estar preparados para unir nossas mos em um crculo e entoar algum conjuro de unidade. Estamos intranqilos 
e receamos os outros. Inclusive ressentidos, no caso de seu irmo e de voc.
      -Eu no estou ressentido com meu irmo.
      - claro que est. -Glenna afastou o cabelo do rosto e Hoyt tambm pde ver frustrao nela-. Faz s duas horas o ameaou com sua espada.
      -Pensei que ele...
      -Sim, sim, e agradeo que tenha se deslocado a me resgatar.
      Seu tom indiferente insultou seu sentido de cavalheirismo e o irritou.
      -No tem nenhuma fodida importncia.
      -Se em algum momento realmente me salva a vida, Hoyt, minha gratido ser sincera, prometo-lhe isso. Mas defender  dama s formava parte do assunto entre 
vocs, e me haver respondido como fez s foi uma pequena parte de por que Cian esteve a ponto de lutar contigo. Voc sabe, eu sei e Cian tambm sabe.
      -Se esse for o caso, no h necessidade de que siga falando disso.
      Glenna se aproximou dele. Hoyt comprovou no sem satisfao que no era o nico que estava irritado.
      -Est furioso com Cian por ter permitido que o matassem e, pior ainda, que o transformassem no que  agora. Ele est furioso contigo por hav-lo arrastado 
a esta situao, obrigando-o a recordar quem era antes que Lilith lhe cravasse suas presas no pescoo. Tudo isso no  mais que uma perda de tempo e energia. De 
modo que temos que deixar de lado todas essas emoes, ou temos que as usar. Porque, tal como esto as coisas, tal como estamos ns, ela nos aniquilar, Hoyt. E 
eu no quero morrer.
      -Se tiver medo...
      - claro que tenho medo. Acaso  estpido? Depois de tudo o que vimos e enfrentado esta noite, seramos uns imbecis se no tivssemos medo. -Apertou as palmas 
das mos contra suas faces, tentando recuperar o ritmo de sua respirao-. Sei o que devemos fazer, mas no sei como faz-lo. E voc tampouco sabe. Nenhum de ns 
sabe.
      Glenna baixou as mos e foi para ele.
      -Quero que voc e eu sejamos honestos. Vamos depender um do outro, temos que confiar um no outro, de modo que sejamos sinceros. S somos um punhado, com poder, 
sim, com habilidades, mas um punhado contra um nmero incalculvel de inimigos. Como podemos sobreviver a isso, e muito menos alcanar a vitria?
      -Reuniremos mais gente.
      -Como? -Glenna levantou as mos-. Como? Nesta poca, neste lugar, as pessoas no acreditam nessas coisas, Hoyt. Qualquer um que v por a falando de vampiros, 
feiticeiros, batalhas apocalpticas e misses encomendadas pelos deuses  considerado um excntrico no melhor dos casos, ou o metem em uma cela com paredes acolchoadas.
      Glenna, necessitando o contato fsico, passou uma mo por seu brao.
      -Temos que enfrentar isso. Aqui no h nenhuma cavalaria que vir em nosso resgate. Ns somos a cavalaria.
      -Expe-me os problemas, mas nenhuma soluo.
      -Talvez -disse ela com um suspiro-. Talvez. Mas no se podem encontrar solues at que se exponham os problemas. Eles nos superam em nmero de uma maneira 
entristecedora. Vamos enfrentar essas criaturas, a falta de uma palavra melhor, que s podem ser mortas de um nmero limitado de maneiras. Esto controladas ou dirigidas 
ou governadas por um vampiro de enorme poder e, bom, com uma enorme sede. No sei muito a respeito da guerra, mas sim sei quando as probabilidades esto contra mim. 
De modo que devemos igualar essas probabilidades.
      Ela falava com um bom senso que ele no podia discutir. O fato de que Glenna pudesse falar desse modo era, em sua opinio, um tipo de coragem.
      -Como?
      -Bom, no podemos simplesmente sair e cortar algumas centenas de cabeas, no seria prtico. De maneira que devemos encontrar a maneira de cortar a cabea 
do exrcito. A cabea dela.
      -Se fosse algo to simples, j se teria feito.
      -Se fosse impossvel, no estaramos agora aqui. -Frustrada, Glenna deu uns leves golpes com o punho no brao de Hoyt-. Quer colabora comigo?
      -Temo que no tenha outra alternativa.
      Agora em seus olhos havia aflio, uma leve sombra desse sentimento.
      -Realmente lhe  to desagradvel? Assim que me v?
      -No. -Agora havia vergonha no olhar do homem-. O sinto. No, desagradvel no. Difcil. Perturbadora.  perturbador, seu aspecto, seu perfume, sua maneira 
de ser.
      -OH. -Os lbios dela se curvaram lentamente-. Isso  muito interessante.
      -No tenho tempo para voc, nesse sentido.
      -Em que sentido? Quero que seja especfico. -Ela sabia que no era justo jogar com ele dessa maneira. Mas era um autntico alvio ser simplesmente humana.
      -H vidas em jogo.
      -Que sentido tem viver sem sentir nada? Eu sinto coisas por voc. Voc agita coisas dentro de mim. Sim,  difcil, e  perturbador, mas isso me diz que estou 
aqui, e que o ter medo no  quo nico h. Necessito isso, Hoyt. Preciso sentir algo mais que medo.
      Ele levantou a mo para acariciar sua face com os dedos.
      -No posso prometer que a protegerei, mas sim que o tentarei.
      -No estou pedindo que me proteja. No estou pedindo nada mais que a verdade... por agora.
      Hoyt manteve sua mo sobre o rosto de Glenna, levantando a outra para emoldur-lo entre ambas enquanto baixava os lbios. Os dela se abriram para receb-los, 
oferecendo-se. E ele se dedicou a sentir, ou seja, com a mesma necessidade que ela experimentava.
      A ser humano.
      Foi um lento fogo no sangue, uma progressiva tenso nos msculos, uma agitao no pulso... dela e dele.
      Era to fcil, pensou ele, to fcil afundar-se no calor e a suavidade. Estar envolto por ela na escurido e permitir-se esquecer, por um momento, por uma 
hora, tudo aquilo que se estendia diante deles.
      Os braos de Glenna deslizaram por seu corpo, apertando-se contra sua cintura enquanto se elevava nas pontas dos ps para que seus lbios se unissem mais intensamente 
aos dele. Ele saboreou sua boca, sua lngua e a promessa que albergava. Aquilo podia ser dele. E ele queria acreditar mais do que jamais tinha acreditado em nada 
em toda sua vida.
      Os lbios da Glenna se moveram sobre os seus, formando seu nome, uma vez, depois duas. Nesse instante se acendeu uma sbita fasca e seu calor percorreu sua 
pele e ardeu em seu corao.
      Atrs deles, o fogo da lareira, que tinha ficado reduzido a uns poucos rescaldos, avivou-se como uma dzia de tochas
      Hoyt a afastou ligeiramente, mas sem separar as mos de suas faces. Podia ver o fogo danando em seus olhos.
      -H verdade nisto -sussurrou-. Mas no sei o que .
      -Eu tampouco sei. Mas me sinto melhor por isso. Mais forte. -Olhou para o fogo-. Juntos somos mais fortes. E isso significa algo.
      Glenna retrocedeu uns passos.
      -Vou trazer minhas coisas aqui. Trabalharemos juntos e descobriremos o que significa.
      -Acha que nos deitar juntos  a resposta?
      -Pode s-lo, ou pode ser que seja uma das respostas. Mas ainda no estou preparada para me deitar contigo. Meu corpo est, - reconheceu ela - mas minha mente 
no. Quando me entrego a um homem, para mim significa um compromisso. Um compromisso importante. Voc e eu nos comprometemos o bastante. Agora ambos devemos estar 
seguros de que estamos dispostos a entregar mais.
      -Ento que foi isto?
      -Contato -disse ela tranqilamente-. Prazer. -Agarrou-lhe a mo-. Conexo. Faremos magia juntos, Hoyt, magia importante. Para mim  algo to ntimo como o 
sexo. Vou conseguir o que necessito, fazer que aparea.
      As mulheres, pensou ele, eram umas criaturas msticas e poderosas inclusive sem a bruxaria. Se acrescentssemos a isso uma dose de poder, um homem estava em 
uma grande desvantagem.
      Acaso seu perfume no seguia o envolvendo, e seu sabor no permanecia ainda em seus lbios? Armas de mulher, pensou. O mesmo que escapulir-se.
      Ele faria muito bem em proteger-se contra essa classe de coisas.
      Glenna tinha inteno de trabalhar ali, em sua torre, junto a ele. Isso tinha muito sentido. Mas como se supunha que um homem podia trabalhar quando seus pensamentos 
eram arrastados indevidamente para a boca da mulher, ou a sua pele, seu cabelo, sua voz?
      Possivelmente fosse inteligente de sua parte utilizar algum tipo de barreira, ao menos de maneira temporria. Foi at sua mesa de trabalho e se disps a preparar 
precisamente isso.
      -Suas poes e conjuros tero que esperar -disse Cian da porta-. E tambm o romance.
      Hoyt continuou trabalhando.
      -Cruzei com Glenna na escada. Sei quando uma mulher teve as mos de um homem sobre ela. Pude cheirar voc em seu corpo. No  que o culpe -acrescentou Cian 
quase com inapetncia enquanto entrava e passeava pelo quarto da torre-. Tem uma bruxa realmente sexy. Desejvel -acrescentou ante o olhar glido de seu irmo-. 
Tentadora. Leve-a  cama se quiser, mas mais tarde.
      -A quem levo para cama e quando, no  de sua incumbncia.
      -Com quem, certamente no, mas quando j  outra histria. Utilizaremos o salo principal para o treinamento de combate. King e eu j comeamos a prepar-lo. 
No penso acabar com uma estaca de madeira cravada no corao s porque voc e a ruiva estejam muito ocupados para treinar.
      -Isso no ser um problema.
      -No penso deixar que o seja. Os recm chegados so entidades desconhecidas. O homem luta bem com a espada, mas se preocupa em proteger sua prima. Se ela no 
pode valer-se por si mesma na batalha, teremos que encontrar alguma outra tarefa que lhe dar.
      - seu trabalho fazer que ela seja til no combate.
      -Trabalharei nisso -prometeu Cian-. E o mesmo farei com o resto de vocs. Mas necessitaremos algo mais que espadas, estacas, muito mais que msculos.
      -Teremos. Deixe-me essa parte, Cian -disse antes que seu irmo abandonasse o aposento-. Voltou a v-los alguma vez? Sabe como foi sua vida, o que foi deles?
      -Viveram e morreram, como fazem todos o seres humanos.
      -Isso  quo nico so para voc?
      -As sombras so o que so.
      -Voc os amou alguma vez.
      -Meu corao tambm pulsou alguma vez.
      - essa a medida do amor? Um batimento do corao?
      -Podemos amar, inclusive ns somos capazes de amar. Mas amar um ser humano? -Cian meneou a cabea-. Isso s traria desgraas e tragdia. Seus pais fizeram 
de mim o que fui. Lilith fez de mim o que sou.
      -E sente amor por ela?
      -Por Lilith? -Seu sorriso foi lento, reflexivo e carente de todo humor-. A minha maneira. Mas no deve preocupar-se. Isso no impedir que a destrua. Agora 
desa e veremos de que madeira  feito.
            
            
            
      -Todos os dias duas horas de combate corpo a corpo -anunciou Can quando estiveram reunidos-. Duas horas de treinamento com armas, todos os dias. Duas horas 
de resistncia e duas horas de artes marciais. Trabalharei com vocs de noite. King se encarregar do treinamento durante o dia, ento podem praticar fora de casa.
      -Necessitamos tempo para o estudo e a estratgia tambm -Assinalou Moira.
      -Ento encontrem tempo para essas tarefas tambm. Eles so mais fortes que vocs, e mais malvados do que ningum pode imaginar.
      -Sei o que so essas criaturas.
      Cian se limitou a olh-la.
      -Isso  o que voc acha.
      -Tinha matado algum deles antes de hoje? -perguntou Moira.
      -Sim, mais de uma vez.
      -Em meu mundo, as pessoas que matam aos de sua mesma espcie so malvados e escria.
      -Se no o tivesse feito, agora ambos estaramos mortos.
      Cian se moveu to depressa que nenhum deles teve a mnima possibilidade de reagir. Um segundo depois, estava atrs de Moira, com um brao lhe rodeando a cintura 
e uma faca apoiada em sua garganta.
      - claro, no necessito a faca.
      -No a toques. -Larkin apoiou a mo no cabo de sua faca-. No deve lhe pr as mos em cima.
      -Ento me impea isso convidou Cian, e arrojou sua faca a um lado-. Imagina que acabo de lhe romper o pescoo. -Apoiou ambas as mos a cada lado da cabea 
de Moira e logo lhe deu um leve empurro que a enviou onde estava Hoyt. - Pode ving-la. Venha, me ataque.
      -No atacarei o homem que lutou costas contra costas junto a mim.
      -Agora no estou contra suas costas, no ? Demonstra um pouco de coragem, ou acaso os homens de Geall no tm?
      -Temos muito.
      Larkin tirou sua faca e, agachado, comeou a descrever um crculo ao redor de Cian.
      -Deixa j de brincar - burlou este-. Estou desarmado. Voc leva vantagem. Use-a... depressa.
      Larkin investiu, fez uma finta e logo tentou apunhalar Cian, mas de repente se encontrou estendido de costas no cho, com sua faca longe dele.
      -Nunca tem vantagem sobre um vampiro. Primeira lio.
      Larkin jogou o cabelo para trs e sorriu.
      - melhor que eles.
      -Grandemente.
      Cian, com expresso divertida, estendeu-lhe a mo e ajudou Larkin a levantar-se.
      -Comearemos com algumas manobras bsicas e veremos o que parecem. Escolham um competidor. Tm um minuto para derrubar seu rival... sem armas. Quando eu disser 
que troquem, escolham outro. Se movam depressa e sem olhares. Agora.
      Cian viu que seu irmo duvidava e que a bruxa o aproveitava para lanar-se usando seu corpo para desequilibr-lo e depois colocava um p atrs dele para derrub-lo.
      -Treinamento de defesa pessoal -explicou Glenna-. Vivo em Nova Iorque.
      Enquanto ela sorria, Hoyt lhe fez uma varredura por trs que acabou com o traseiro de Glenna golpeando duramente contra o cho.
      -Argh, Primeira petio, um tapete amaciado para o cho.
      -Troquem de oponente!
      Todos se moveram atravs do salo, manobraram, lutaram corpo a corpo. Mas era mais brincadeira e competio que treinamento. Mesmo assim, pensou Glenna, ela 
receberia sua rao de machucados. Enfrentou Larkin e sentiu que ele duvidava. De modo que lhe sorriu com uma careta sedutora e, quando a risada iluminou os olhos 
dele, agarrou-o por um brao e o lanou por cima de seu ombro.
      -Sinto muito. Eu gosto de ganhar.
      -Troquem de oponente.
      O enorme corpanzil de King ocupou todo seu campo visual e Glenna elevou e elevou a vista at encontrar seus olhos.
      -Eu tambm.
      Ela comeou a mover-se por instinto, agitando ligeiramente as mos, entoando um cntico. Quando ele sorriu desconcertado, Glenna lhe tocou o brao.
      -Por que no se senta? -disse.
      -De acordo.
      Quando King obedeceu, ela olhou por cima do ombro e viu que Cian a estava observando. Ruborizou-se ligeiramente.
      - provvel que v contra as regras e  pouco provvel que eu seja capaz de consegui-lo no fragor da batalha, mas acredito que deveria contar.
      -No h regras. Ela no  a mais forte -disse aos outros, elevando a voz-. Tampouco  a mais rpida. Mas  a mais preparada. Utiliza a astcia e o engenho 
tanto como o msculo e a velocidade. Agora lhe falta adquirir fora -disse a Glenna-. E ser mais rpida.
      Pela primeira vez, Cian sorriu.
      -E busca uma espada. Comearemos a praticar com as armas.
      Ao acabar a seguinte hora, Glenna estava banhada em suor. O brao com que sustentava a espada lhe doa como um dente cariado, do ombro at a mo. A excitao 
do trabalho, de estar fazendo algo tangvel, converteu-se fazia muito em um doloroso esgotamento.
      -E eu que pensava que estava em boa forma -se queixou Glenna a Moira-. Todas essas duas horas de pilates, de ioga, de pesos... embora talvez para voc o que 
digo soe a chins.
      -Est fazendo bem. -Moira tambm se sentia dbil e torpe.
       -Mal posso me sustentar sobre as pernas. Fao exerccio regularmente, um duro treinamento fsico e, em troca, tudo isto est me convertendo em um merengue. 
Parece fatigada.
       - que foi um dia muito duro.
       -Para dizer de uma maneira suave. 
       -Senhoritas? No queria as interromper mas deveriam voltar a se unir ao grupo. Ou possivelmente prefeririam que nos sentssemos a falar das ltimas tendncias 
da moda?
      Glenna deixou sua garrafa de gua no cho.
      -So quase as trs da manh - replicou a Cian-. Uma hora perigosa para os comentrios sarcsticos.
      -E a melhor hora para o inimigo.
      -Pode ser, mas nem todos ns estamos no mesmo fuso horrio. Hoje Moira e Larkin fizeram uma viagem exaustiva e tiveram que enfrentar umas boas-vindas muito 
desagradvel. Precisamos treinar, nisso tem toda a razo. Mas se no descansarmos no conseguiremos ser mais rpidos. Olhe-a -acrescentou Glenna, assinalando Moira-. 
Mal pode sustentar-se em p.
      -Estou bem -respondeu Moira em seguida.
      Cian a olhou longamente.
      -Ento culparemos ao cansao por sua lamentvel atuao com a espada e de seu pobre estado fsico.
      -Fao-o bastante bem com a espada. -Quando tentou agarr-la, Larkin se aproximou dela com os olhos avermelhados, apoiou uma mo sobre seu ombro e o apertou 
levemente.
      -Moira o faz bastante bem, e assim o demonstrou esta noite no bosque. Mas a espada no seria a arma que minha prima escolheria para o combate.
      -Ah, no?
      Nessa simples frase, Cian expressou todo seu aborrecimento.
      -Ela tem boa mo para dirigir o arco.
      -De acordo, poder nos fazer uma demonstrao amanh, mas agora...
      -Vou faz-lo esta noite -disse Moira-. Abram as portas.
      O tom autoritrio de sua voz fez que Cian arqueasse as sobrancelhas.
      -Voc no manda aqui, pequena rainha.
      -E voc tampouco. -Foi em busca de seu arco e da aljava-. Abrir as portas ou terei que faz-lo?
      -Voc no sair da casa.
      -Ele tem razo Moira -disse Glenna.
      -No terei necessidade de faz-lo. Larkin, por favor.
      Larkin se aproximou das portas e as abriu de par em par ao amplo terrao que se estendia atrs dela. Moira colocou uma flecha na corda do arco ao mesmo tempo 
em que se aproximava da soleira.
      -O carvalho.
      Cian se colocou a seu lado enquanto outros se apinhavam junto  porta,
      -No  muita distncia comentou.
      -Ela no se refere  rvore que est mais perto -explicou Larkin ao mesmo tempo em que assinalava para o bosque-. A rvore  aquela, justo  direita do estbulo.
      -Ao ramo mais baixo.
      -Mal posso v-la -comentou Glenna.
      -Voc pode? -perguntou Moira a Cian.
      -Perfeitamente.
      Moira elevou o arco, manteve-o fixo e apontou. Um segundo depois, a flecha saiu disparada da corda.
      Glenna ouviu o zumbido e depois um dbil som quando alcanou o alvo assinalado.
      -Uau. Temos um Robin Hood entre ns.
      -Um tiro preciso -conveio Cian com tom aprazvel, deu meia volta e comeou a afastar-se. Percebeu o movimento antes inclusive de ouvir a ordem severa de seu 
irmo.
      Quando se voltou, Moira tinha preparada outra flecha e a estava apontando.
      Cian sentiu que King se preparava para lanar-se sobre ela e elevou uma mo para det-lo.
      -Se assegure de acertar no corao -aconselhou a Moira-. De outro modo, s conseguir me chatear. Que assim seja -disse a Hoyt-.  sua escolha.
      O arco tremeu um instante e logo Moira o baixou. E tambm baixou o olhar.
      -Preciso dormir. Sinto muito, preciso dormir.
      - claro que sim. -Glenna agarrou o arco de suas mos e o deixou a um lado-. Eu irei contigo e a ajudarei no que necessite.
      A seguir dirigiu a Cian um olhar to aguado como a flecha enquanto acompanhava Moira fora do salo.
      -Sinto muito -repetiu Moira-. Estou envergonhada
      -No deve est-lo. Est exausta, completamente esgotada. Todos esto. E isto acaba de comear. Umas horas de sono so o que todos necessitamos.
      -Eles tambm? Eles dormem?
      Glenna entendeu a que se referia. Aos vampiros. A Cian.
      -Sim, aparentemente sim.
      -Eu gostaria que j tivesse amanhecido para poder ver a luz do sol. Eles ento se arrastam a seus buracos. Estou muito cansada para pensar.
      -Mas eles no. Vem, deixa que a ajude a se despir.
      -Acredito que perdi todas minhas coisas no bosque. Tampouco tenho camisola.
      -Nos encarregaremos disso manh. Hoje pode dormir nua. Quer que fique um momento contigo?
      -No. Obrigado, no. -As lgrimas apareceram fugazmente em seus olhos-. Estou-me comportando como uma menina.
      -No. S como uma mulher esgotada. Sentira-se melhor pela manh. Boa noite.
      Glenna pensou por um momento em retornar ao salo, mas logo se dirigiu para seu quarto. No lhe importava absolutamente se os homens pensavam que se estava 
esquivando. Queria dormir.
            
            
            
      Os sonhos a perseguiram, atravs dos tneis da caverna da vampira onde os gritos dos torturados eram como facas afiadas em sua mente, em seu corao. Cada 
vez que girava nesse labirinto, cada vez que corria pelo interior daquela greta negra, to parecida com uma boca esperando para devor-la, aqueles terrveis chiados 
a seguiam.
      E pior que os gritos, muito pior, era a risada.
      Seus sonhos a levaram a borda rochosa de um mar revolto onde um relmpago vermelho cortava um cu negro, um mar negro. Ali, o vento a rasgava, as rochas surgiam 
da terra e lhe cravavam nas mos, nos ps, at deix-la coberta de sangue.
      O denso bosque cheirava a sangue e morte, e ali as sombras eram to espessas que podia as sentir contra sua pele como dedos gelados.
      Podia ouvir que aquilo que a buscava chegava com o leve som de um bater de asas no deslizamento das serpentes, com o furtivo arranho das garras na terra.
      Ouviu o uivo do lobo e seu som de fome.
      Estavam em todas as partes e ela s tinha as mos vazias e o corao lhe golpeando com fora no peito. Ainda assim, ps-se a correr s cegas e com o grito 
abafado em sua garganta ardente.
      Saiu de entre as rvores e chegou ao topo de um escarpado que se elevava sobre um mar de guas turbulentas. Abaixo dela, a dezenas de metros, as ondas chocavam 
violentamente contra as rochas que se sobressaam, afiadas como facas. Presa do terror, tinha deslocado em crculos, e se encontrava novamente em cima da caverna 
que albergava algo que inclusive a morte temia.
      O vento continuava aoitando-a e o poder cantava nele. O poder dele, o poder ardente e claro do feiticeiro. Ela o buscou, estendeu as mos para ele, mas deslizou 
atravs de seus dedos trmulos deixando-a sozinha.
      Quando se voltou, ali estava Lilith, magnfica com seu traje vermelho, sua beleza luminosa contrastando sobre o negro fundo aveludado. A cada lado tinha um 
lobo, ansiosos por matar. Lilith lhes acariciou o lombo com mos nas quais brilhavam os anis.
      E quando sorriu, Glenna sentiu uma horrvel pontada no ventre. Um profundo e terrvel desejo.
      -O demnio ou as profundidades do mar. -Com uma gargalhada, Lilith fez estalar os dedos e os lobos se sentaram-. Os deuses jamais concedem a seus servos uma 
opo decente, no ? Eu tenho algumas melhores.
      -Voc est morta.
      -No, no, no. Eu sou a vida. Nisso  no que eles mentem. Esto mortos, carne e ossos convertendo-se em p. Quanto tempo vivem atualmente? Setenta e cinco, 
oitenta anos? To pouco, To limitado.
      -Aceitarei o que me deram.
      -Ento ser uma estpida. Pensava que foi mais esperta que isso, prtica. Sabe que no pode ganhar. J est cansada, esgotada, j comeou a fazer perguntas. 
Eu ofereo uma sada, e mais. Muito mais.
      -Para que seja como voc? Para caar e matar? Para beber sangue?
      -Como se fosse champanha. OH, a primeira vez que a saboreia. Tenho saudades disso. Esse primeiro sabor embriagador, esse momento em que todo o resto desaparece 
salvo a escurido.
      -Eu gosto do sol.
      -Com essa tez? -perguntou Lilith com um alegre sorriso-. Depois de uma hora na praia, assaria-se como bacon. Eu a ensinarei a frescura. A fria, fria escurido. 
J est em seu interior, esperando s ser despertada. Pode senti-la?
      Porque sim podia senti-la, Glenna se limitou a negar com a cabea.
      -Embusteira. Se vier para mim, Glenna, estar a meu lado. Concederei-te a vida eterna. A juventude e a beleza eternas. E um poder muito maior que o que lhe 
foi dado. Governar seu prprio mundo. Isso  o que darei, um mundo prprio.
      -Por que faria algo assim?
      -Por que no? Terei muitos. E poderia desfrutar da companhia de uma mulher como voc. O que so os homens, na realidade, a no ser ferramentas para ns? Se 
os quiser, os tomar.  um grande presente o que ofereo.
      -O que me oferece  uma maldio.
      Sua risada era sedutora e alegre.
      -Os deuses atemorizam as crianas com histrias do inferno e da condenao eterna. Utilizam-nas para mant-los controlados. Pergunte a Cian se trocaria sua 
existncia, sua eternidade, sua bela juventude e seu corpo esbelto pelas cadeias e as armadilhas da mortalidade. No o faria, asseguro-lhe isso. Vem. Vem comigo 
e lhe proporcionarei prazeres com os que jamais sonhaste.
      Quando ela se aproximou, Glenna levantou ambas as mos, concentrou-se tudo o que pde em apesar de seu sangue gelado, e lutou por criar um crculo protetor.
      Lilith se limitou a mover a mo. O azul aprazvel de sua ris comeou a tornar-se vermelho.
      -Acredita acaso que essa magia insignificante poder me deter? Bebi o sangue de feiticeiros, deleitei-me com a carne das bruxas. Todos eles esto em mim, como 
tambm voc estar. Vem voluntariamente e encontra a vida. Ou luta contra mim e encontra a morte.
      Lilith se aproximou ainda mais, e os lobos se prepararam para atacar.
      Glenna sentiu a pontada, hipntica, gloriosa e escura, um estremecimento elementar e primrio no ventre. Era como se o batimento do corao de seu sangue respondesse 
a essa chamada. Eternidade e poder, beleza, juventude. Tudo por um s momento.
      Unicamente tinha que estender a mo e agarr-lo.
      O triunfo iluminou os olhos de Lilith com um vermelho ardente. Suas presas brilharam quando sorriu.
      As lgrimas escorregavam pelas faces de Glenna quando esta se voltou, quando saltou por volta do mar e as rochas. Quando escolheu a morte.
      Ao sentar-se de repente na cama um grito lhe rasgava a cabea. Mas no era seu grito, ela sabia que no era dela. Era de Lilith. Um grito de fria.
      Com o flego entrecortado, Glenna saltou do leito arrastando consigo a manta. Ps-se a correr, tremendo de frio e terror e com os dentes tocando castanholas. 
Voou atravs do corredor como se os demnios ainda estivessem tentando lhe caar. O instinto a levou ao nico lugar onde se sentia segura.
      Hoyt despertou de um profundo sonho para encontrar entre os braos uma mulher nua e sacudida pelos soluos. Mal podia v-la a tnue luz prvia do amanhecer, 
mas conhecia seu perfume, sua forma.
      -O que? O que aconteceu?
      Hoyt comeou a afast-la de seu lado enquanto procurava a espada que tinha junto  cama, mas Glenna se aferrou a ele como a hera ao tronco de um carvalho.
      -No. No v. Fique. Por favor, por favor, fique.
      -Est gelada. -Hoyt a cobriu com a manta tentando lhe dar calor, tentando no perder a calma-. Estiveste fora da casa? Por todos os diabos. Fez algum conjuro?
      -No, no, no. -apertou-se contra ele-. Ela veio. Veio. Dentro de minha cabea, dentro de meu sonho. Mas no era um sonho. Era real. Tinha que ser real.
      -Basta. Acaba de uma vez com isto. -Sacudiu-a com fora pelos ombros-.Glenna!
      A cabea dela oscilou adiante e atrs, seu flego saindo tremulo de seus lbios.
      -Por favor. Tenho muito frio.
      -Vamos, se tranqilize, se tranqilize. -Seu tom e seu contato foram se suavizando enquanto enxugava as lgrimas de suas faces. Envolveu-a completamente com 
a manta e a aproximou de seu corpo-. Foi um sonho, um pesadelo. Nada mais.
      -No foi. Olhe-me. -Glenna elevou a cabea para que Hoyt pudesse olh-la nos olhos-. No foi s um sonho.
      Hoyt compreendeu que era verdade. Podia ver que no tinha sido s um sonho.
      -Ento me fale dele.
      -Ela estava dentro de minha cabea. Ela... ela tirou uma parte de mim fora de meu corpo. Igual quando voc estava naquele bosque, ferido, com os lobos espreitando 
fora de seu crculo. To real como aquilo. E voc sabe que aquilo foi real.
      -Sim, foi real.
      -Eu corria -comeou Glenna, e contou tudo o que tinha acontecido.
      -Tentou seduzi-la com enganos. Agora pensa. Por que Lilith iria fazer algo assim a menos que soubesse que voc  forte, a menos que soubesse que pode lhe causar 
dano?
      -Eu morri.
      -No o fez, no, nem morreste. Est aqui. Fria -Lhe esfregou os braos e as costas. Conseguiria voltar a esquent-la alguma vez? -, mas viva e aqui. A salvo.
      -Ela era linda. Fascinante. Eu no gosto das mulheres, quero que me entenda, mas me sentia atrada para ela. E parte disso era sexual. Inclusive no meio do 
terror, eu a desejava. A idia de que me tocasse, de que tomasse, era premente.
      - uma espcie de transe, nada mais que isso. Pensa que voc no o permitiu. Que no a escutou, no acredite no que ela lhe dizia.
      -Mas sim que a escutei, Hoyt. E uma parte de mim sim acreditou no que ela dizia. Uma parte de mim queria aceitar o que ela estava me oferecendo. Queria-o intensamente. 
Viver para sempre, e ter todo esse poder. Eu pensava, dentro de mim, pensava, sim, por que no deveria t-lo? E ter que me afastar disso... Quase no consegui, porque 
faz-lo foi o mais difcil que tenho feito em toda minha vida.
      -E, entretanto, o tem feito. 
      -Esta vez sim.
      -Todas s vezes.
      -Eram seus escarpados. Podia o sentir nesse lugar. Sentia-o ali, mas no podia chegar at voc. Eu estava sozinha, mais s do que jamais estive antes. E depois 
caa, e estava mais s ainda.
      -No est sozinha. -Hoyt a beijou na testa -. No est sozinha, no ?
      -No sou uma covarde, mas tenho medo. E a escurido... -Glenna estremeceu e olhou ao redor do quarto-. Tenho medo da escurido.
      Hoyt se concentrou na vela que havia na mesinha de noite e na lenha do lareira, acendendo-os.
      -Logo amanhecer. Vem e ver. -Abraou-a, desceu da cama e a levou junto  janela-. Olhe para o oeste. Est saindo o sol.
      Glenna pde ver a luz, um resplendor dourado sobre o horizonte. A bola fria que havia em seu interior comeou a reduzir-se.
      -A manh -murmurou-.  quase de amanh.
      -Voc venceste de noite e ela perdeu. Vem, necessita um pouco de sono.
      -No quero estar sozinha.
      -No estar.
      Hoyt a levou de novo  cama e a apertou contra ele. Porque ela seguia tremendo e porque ele podia faz-lo, passou-lhe a mo pela cabea e a enviou brandamente 
para o sono.
            
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 10
      
      Despertou com a luz do sol deslizando-se por seu rosto, e despertou sozinha.
       Ele tinha apagado as velas, embora tivesse deixado que o fogo da lareira continuasse ardendo com escassa chama. Tinha sido um gesto muito amvel por sua parte, 
pensou ela enquanto se sentava na cama e cobria os ombros com a manta. Hoyt tinha sido muito amvel e muito terno, e lhe tinha proporcionado exatamente o consolo 
e a segurana que necessitava naquele momento.
      No obstante, uma onda de vergonha foi a primeira sensao que experimentou. Tinha deslocado para ele como uma menina histrica que foge do monstro que se 
oculta no armrio. Soluando, tremendo e dizendo incoerncias. No tinha sido absolutamente capaz de controlar a situao e ento tinha procurado algum - ele- para 
que a salvasse. Sempre havia se sentido orgulhosa de sua coragem e de seu engenho, entretanto no tinha sido capaz de fazer frente a sua primeira confrontao com 
Lilith.
      Nem tmpera, pensou com desgosto, nem autntica magia. O medo e a tentao os tinham anulado. No, pior ainda, pensou, o medo e a tentao os tinham congelado 
dentro dela, profundamente, em um lugar onde ela no tinha sido capaz de chegar. Agora,  luz do dia, podia ver com claridade quo ridcula tinha sido, quo estpida, 
quo fcil. No tinha feito absolutamente nada para proteger-se antes, durante ou depois. Tinha deslocado atravs dos tneis das cavernas, atravs do bosque, chegando 
at a borda dos escarpados porque eles assim o tinham querido, e tinha permitido que o terror bloqueasse tudo, exceto a desesperada necessidade de fugir.
      Tinha sido um engano que nunca mais voltaria a cometer.
      E tampouco pensava ficar aqui sentada lambendo as feridas, no por algo que j tinha passado.
      Levantou-se, envolveu-se na manta e logo apareceu ao corredor. No viu ningum e tampouco ouviu nada, e se sentiu agradecida por isso. No queria falar com 
ningum at que no se tranqilizasse.
      Entrou no banheiro, tomou banho, vestiu-se e em seguida dedicou tempo a maquiar-se com esmero. Como toque final, colocou nas orelhas uns brincos de mbar para 
aumentar a fora. Ao fazer a cama. Ps um cristal de ametista e um pouco de romeiro debaixo do travesseiro. Depois de escolher uma vela com azeite para expulsar 
Lilith de seus sonhos e todos aqueles que eram como ela. 
      E tambm fabricaria uma estaca, e procuraria uma espada entre as armas. No voltaria a ficar indefesa e exposta.
      Antes de abandonar o quarto olhou longamente seu reflexo no espelho. Seu aspecto era o de algum que estava alerta, pensou, e que era competente.
      Ela seria forte.
      Primeiro dirigiu seus passos  cozinha, porque considerava que era o corao de qualquer casa. Algum tinha preparado caf e, mediante um processo de eliminao, 
sups que tinha sido King. Havia provas de que algum tinha comido ali. Podia cheirar o bacon. Mas no havia ningum nos arredores e tampouco pratos na pia.
      Era uma sensao agradvel saber que algum tivesse comido -ou, ao menos, algum tivesse cozinhado-depois tinha deixado tudo limpo e ordenado. No gostava 
da desordem, mas tampouco importava encarregar-se dos aspectos domsticos.
       Serviu-se uma xcara de caf e sopesou a possibilidade de preparar um caf da manh. Mas o sonho ainda rondava em sua cabea e a sensao de estar sozinha 
na casa era inquietante.
      Sua seguinte opo foi  biblioteca, que considerava como a artria principal do corao. Ali, com certo alvio, encontrou Moira.
      Esta estava sentada no cho, diante do fogo e rodeada de livros. Nesse momento estava encurvada sobre um deles como uma estudante que se prepara para um exame. 
Levava postos uma tnica cor aveia, calas marrons e as botas de montar.
      Ao ouvir Glenna entrar, elevou a vista e lhe dedicou um tmido sorriso.
      -Bom dia.
      -Bom dia. Estudando?
      -Sim. -O acanhamento desapareceu e os olhos cinza mostraram seu intenso brilho -Este  um aposento maravilhoso, no acha? Em nosso castelo temos uma grande 
biblioteca, mas esta no tem nada que invejar.
      Glenna se agachou junto a ela e apoiou um dedo sobre um livro grosso como uma viga. Em sua capa de couro esculpido havia uma s palavra: VAMPIROS.
      -Est-se pondo em dia? -perguntou-. Estudando o inimigo?
      -Acredito que  sensato saber o mximo possvel sobre um tema. Nem todos os livros que tenho lido at agora concordam em tudo, mas sim em alguns elementos.
      -Poderia perguntar a Cian. Imagino que ele poderia lhe explicar tudo que queria saber.
      -Eu gosto de ler.
      Glenna se limitou a assentir.
      -De onde tirou a roupa?
      -OH. Esta manh sa, muito cedo, e recuperei minhas coisas.
      -Sozinha?
      -Estava bastante segura, j que no me afastei do caminho iluminado. Eles no podem sair  luz do sol. -Olhou por volta das janelas-. No havia nenhum rastro 
dos que nos atacaram ontem  noite. At as cinzas tinham desaparecido.
      -Onde esto todos os outros?
      -Hoyt subiu a sua torre para trabalhar, e King disse que se ia ao povoado procurar provises agora que somos mais na casa. Nunca tinha visto um homem to grande. 
Cozinhou para ns e preparou suco de fruta: laranja. Era delicioso. Acha que poderia levar algumas sementes dessa laranja quando retornarmos a Geall?
      -No vejo por que no. E os outros?
      -Imagino que Larkin ainda est dormindo. Ele tem tendncia a evitar as manhs como se fossem a peste. E suponho que o vampiro est em seu quarto. - Moira passou 
o dedo sobre a palavra gravada na capa do livro-. Por que fica conosco? No encontrei nada nos livros que possa explicar sua conduta.
       -Ento suponho que nem tudo pode ser encontrado nos livros. H algo mais que necessite por agora?
      -No, obrigado.
      -Pois irei  cozinha comer algo e depois eu tambm subirei para trabalhar. Imagino que quando King retornar do povoado teremos que comear a sesso de tortura 
que tenha planejado para ns.
      -Glenna... queria te agradecer o que fez ontem  noite por mim. Estava to cansada e zangada. Sinto-me to fora de meu lugar.
      -Entendo. -Glenna apoiou a mo sobre a de Moira-. Acredito que, de algum jeito, todos nos sentimos igual. Talvez isso forme parte do plano, nos afastar de 
nossos lugares, nos reunir para que encontremos a ns mesmos, para que encontremos o que h em nosso interior, juntos e individualmente, para lutar contra essa coisa. 
-Glenna se levantou-. Mas at que chegue o momento de nos pr em marcha, teremos que converter esta casa em nosso lugar.
      Deixou Moira em companhia de seus livros e retornou  cozinha. Ali encontrou o que restava de uma fornada de po de centeio e encheu uma fatia de manteiga. 
Que dessem s calorias nesse momento. Foi comendo enquanto subia a escada que levava a torre de Hoyt.
      Encontrou a porta do aposento fechada. Estava a ponto de chamar quando recordou que aquela era tambm sua rea de trabalho e no o solitrio domnio de Hoyt. 
De modo que colocou a fatia de po a meio comer em cima da caneca de caf e abriu a porta.
      Hoyt levava uma camisa de tecido jeans desbotado, jeans negros e botas muito gastas, e ainda assim as arrumava para parecer um feiticeiro. No se tratava s 
do cabelo negro, brilhante e espesso, pensou ela, ou daqueles intensos olhos azuis. Era o poder, que se via nele mais autntico que suas roupas emprestadas.
      A irritao foi a primeira emoo que cruzou pelo rosto do homem quando desviou o olhar e a viu. Glenna se perguntou se seria algo habitual nele esse chateio 
instantneo quando era interrompido ou incomodado. Logo o gesto de contrariedade desapareceu e ela se encontrou sendo cuidadosamente estudada.
      -Ento que se levantou.
      -Isso parece.
      Hoyt voltou a concentrar-se em seu trabalho, vertendo um lquido escuro de uma espcie de tubo de ensaio no interior de um frasco.
      -King foi ao povoado comprar provises.
      -Isso me disseram. Encontrei Moira na biblioteca, aparentemente lendo todos os livros que h ali.
      O seguinte ia ser difcil, pensou Glenna enquanto Hoyt continuava trabalhando em silncio. O melhor seria encar-lo quanto antes.
      -Pensava me desculpar por t-lo incomodado ontem  noite, mas o faria s para agrad-lo. -Esperou, um batimento do corao, logo dois, antes que ele deixasse 
o que estava fazendo e a olhasse-. De modo que pode me dizer que no me preocupe com isso, que,  claro, no h nenhum problema. Eu estava assustada e alterada.
      -Mas isso no seria de tudo certo.
      -Sim seria, e como ambos sabemos todos os demais me agrade. Assim, no me desculparei, mas sim quero lhe agradecer
      -No tem importncia.
      -Para mim sim tem, a vrios nveis. Voc estava ali quando necessitei e, por outro lado, tranqilizou-me. Fez que me sentisse segura. Mostrou-me o sol atravs 
da janela.
      Deixou a caneca sobre a mesa para ter as mos livres quando se aproximou dele.
      -Assaltei sua cama na metade da noite. Nua. Estava histrica e era vulnervel. Estava indefesa.
      -No acredito que esse ltimo seja verdade.
      -Naquele momento era. No voltar acontecer. Poderia ter me tomado. Ambos sabemos.
      Produziu-se um comprido silencio que confirmou essa simples verdade mais autenticamente que qualquer palavra.
      -Que tipo de homem teria sido se a tivesse tomado em um momento assim? Se tivesse aproveitado seu medo para minhas prprias necessidades?
      -Um homem diferente do que . E estou agradecida ao homem que . -Rodeou a mesa e ficou nas pontas dos ps para beij-lo em ambas as faces-. Muito. Voc me 
deu consolo, Hoyt, e me deu o sono. E deixou o fogo aceso. No esquecerei.
      -Agora est melhor.
      -Sim. Agora estou melhor. Surpreenderam-me com a guarda baixa, a prxima vez no ser assim. No estava preparada para ela mas na seguinte ocasio estarei. 
No tomei as precaues necessrias, nem sequer as mais elementares, porque estava esgotada. -aproximou-se do fogo que ele mantinha ardendo fracamente-. Descuidei-me.
      -Assim .
      Ela levantou a cabea e sorriu.
      -Desejou-me?
      Hoyt voltou para seu trabalho. 
      -Essa no  a questo.
      -Tomarei isso como um sim e prometo que a prxima vez que me meta em sua cama no estarei histrica.
      -A prxima vez que se meter em minha cama no permitirei que durma.
      Ela ps-se a rir a gargalhadas.
      -Bom, vejo que nos entendemos.
      -No sei se a entendo, mas isso no impede que a deseje.
      - recproco em ambos os aspectos. Mas acredito que eu sim estou comeando a entend-lo.
      -Veio aqui para trabalhar ou s me distrair?
      -A ambas as coisas, suponho. Posto que j consegui o segundo, perguntarei no que est trabalhando.
      -Um escudo.
      Glenna, intrigada, aproximou-se dele.
      -Mais cincia que feitiaria -disse ela.
      -No so excludentes, mas sim esto ligadas.
      -Estou de acordo. -Cheirou o tubo de ensaio-. Um pouco do salvia -decidiu ao cabo de um momento- e cravo-da-ndia. O que usa para fix-los?
      -P de gata.
      -Boa escolha. Que tipo de escudo est procurando?
      -Um escudo que proteja do sol.  para Cian.
      Glenna desviou os olhos da poo para olh-lo, mas Hoyt seguiu concentrado no seu.
      -Entendo.
      -Se sairmos de noite nos arriscamos a sofrer um ataque, e Cian morrer se expuser-se-se  luz do sol. Mas se tivesse um escudo que o protegesse da luz, poderamos 
trabalhar e treinar com mais eficcia. Se ele tivesse um escudo, poderamos sair para caar essas coisas durante o dia.
      Glenna no disse nada no momento. Sim, estava comeando a entend-lo. Era um homem muito bom, um homem que tinha princpios elevados. De modo que podia mostrar-se 
impaciente, irritvel e inclusive autocrtico.
      E amava seu irmo.
      -Acha que Cian sente falta do sol?
      Hoyt suspirou.
      -No o sentiria voc?
      Tocou-lhe o brao. Um bom homem, voltou a pensar. Um homem muito bom que se preocupava com seu irmo.
      -O que posso fazer para ajudar?
      -Talvez eu esteja comeando a entender voc tambm.
      -Srio?
      -Tem um corao aberto. -Agora Hoyt a olhou nos olhos-. Um corao aberto e uma mente disposta. So duas coisas difceis de resistir.
      Glenna agarrou o frasco que Hoyt sustentava entre as mos e o deixou em cima da mesa.
      -Quer me beijar? Ambos estamos desejando, e resulta muito difcil trabalhar nestas condies. Beije-me, Hoyt, para que possamos nos tranqilizar.
      A voz dele transluzia um vislumbre de diverso:
      -Nos beijar far que nos tranqilizemos?
      - algo que no saberemos at que no tenhamos tentado. -Glenna apoiou as mos sobre seus ombros e deixou que seus dedos brincassem com seu cabelo-. Mas sei 
que, neste preciso instante, no posso pensar em nenhuma outra coisa. De modo que me faa um favor e me beije.
      -Um favor ento.
      Os lbios dela eram suaves e quentes debaixo dos de Hoyt. E ele foi tenro, abraando-a e degustando-a como tinha desejado faz-lo a noite anterior. Acariciou-lhe 
o cabelo com uma mo, deslizando-a logo para baixo, por suas costas, de modo que o tato dela se mesclou em seus sentidos com seu sabor e seu aroma.
      E o que havia dentro dele acabou por abrir-se e acalmar-se.
      Ela deslizou os dedos pelo duro contorno de suas mas do rosto e se entregou completamente ao momento. Ao prazer e a quietude, e  onda de calor que flua 
debaixo de ambos.
      Quando seus lbios se separaram, Glenna apertou sua face contra a dele, e permaneceu assim durante segundos.
      -Sinto-me melhor - disse-. E voc?
      -Eu tambm. -Hoyt retrocedeu, logo agarrou a mo da Glenna e a levou aos lbios-. E suspeito que precisarei voltar a me tranqilizar. Pelo bem do trabalho.
      Ela ps-se a rir, encantada.
      -Tudo que seja pela causa.
      Ambos trabalharam juntos durante mais de uma hora, mas cada vez que expunham a poo ao sol, o lquido fervia imediatamente.
      -Um conjuro diferente - sugeriu Glenna.
      -No. Necessitamos um pouco de sangue de Cian. -Olhou-a por cima do cubo-. Para a prpria poo e para poder prov-la.
      Glenna pensou.
      -Mas pede voc.
      Nesse momento algum golpeou a porta e King a abriu de par em par. Levava calas de camuflagem e uma camiseta verde oliva. Recolheu as rastas em um rabo de 
cavalo grosso e frisado. E ele sozinho parecia todo um exrcito, pensou Glenna.
      -A hora da magia se acabou. Formar l fora! Temos que nos pr em forma.
      
      
      
      
      Se King no tinha sido um sargento instrutor em outra vida, o carma se perdeu numa passagem. O suor se metia nos olhos de Glenna quando atacava o manequim 
que Larkin tinha construdo com palha e envolto em tecido. Levantou o antebrao para bloquear um golpe imaginrio, como lhe tinham ensinado, e logo cravou a estaca 
na palha.
      Mas o manequim seguia aproximando-se dela, movendo-se graas ao sistema de polias que King tinha instalado, e a lanou de costas ao cho.
      -E est morta -anunciou King.
      -OH,  uma merda. Cravei-lhe a estaca.
      -Mas no no corao, ruiva. -King estava de p junto a ela, enorme e desumano-. Quantas oportunidades acha que ter? Se no puder com o que vem de frente, 
Como far para eliminar os trs que a ataquem pelas costas?
      -Est bem, de acordo. -levantou-se e sacudiu o p-. Farei de novo.
      -Esse  o esprito que eu gosto.
      Glenna o fez outra vez, e outra, at que detestou o boneco de palha tanto quanto tinha detestado sua professora de histria de curso. Ento se voltou, furiosa, 
agarrou uma espada com ambas as mos e o fez em pedaos.
      Uma vez que teve terminado, os nicos sons que se ouviam eram sua agitada respirao e a risada sufocada de Larkin.
      -Muito bem. -King esfregou o queixo-. Acredito que agora est fodidamente morto. Larkin, quer fazer o favor de construir outro boneco? E voc deixa que lhe 
faa uma pergunta, ruiva.
      -Dispara.
      -Como  que no acabaste com o boneco usando sua magia?
      -A magia requer concentrao, Acredito que poderia utilizar um pouco de magia em uma briga... parece-me. Mas agora a maior parte de minha concentrao est 
orientada ao uso da espada ou da estaca, especialmente se tivermos em conta que no estou acostumada a usar nenhuma das duas coisas. Se no me concentrasse, minha 
arma poderia sair simplesmente voando de minha mo falhando assim o alvo.  algo sobre o que tenho que trabalhar.
      Deu uma olhada ao redor para assegurar-se de que Hoyt no podia ouvi-la.
      -Geralmente necessito instrumentos, cnticos, certos rituais, mas posso fazer isto.
      Abriu a mo, concentrou-se e fez aparecer uma bola de fogo.
      King, curioso, tocou-a com o dedo. E o retirou rapidamente para lev-lo  boca e acalmar a queimadura.
      -Fodido truque.
      -O fogo  elementar, como o ar, a terra, e a gua. Entretanto se fizer isto durante uma batalha e o lanar a um de nossos inimigos, poderia alcanar sem querer 
um dos nossos ou a ambos.
      King estudou a bola luminosa com olhos assombrados.
      - como apontar com uma arma sem saber disparar. No pode estar segura da quem alcanaria a bala. Ou acabar disparando contra seu prprio e fodido p.
      -Algo assim. -Glenna fez desaparecer a bola de fogo-. Mas  agradvel o ter de reserva.
      -Tome um descanso, ruiva, antes que machuque algum.
      -Nem penso discutir.
      Glenna entrou na casa com inteno de beber vrios litros de gua e comer algo. Esteve a ponto de se chocar com Cian.
      -No sabia que estava acordado.
      Cian se mantinha afastado da luz que se filtrava atravs das janelas, mas Glenna viu que tinha uma perspectiva perfeita e completa das atividades que estava 
se desenvolvendo fora da casa. 
      -O que pensa? -perguntou-lhe-. Como estamos fazendo? 
      -Se eles viessem agora procurar por vocs, eles comeriam como um frango em uma comida campestre.
      -Sei. Somos torpes e no h nenhum sentido de equipe. Mas melhoraremos.
      -Tero que faz-lo.
      -Bom, vejo que esta tarde est cheio de entusiasmo e nimo para ns. Levamos treinando duas horas e no estamos acostumados a este tipo de coisas. Larkin  
o mais parecido a um guerreiro que King pode ter, e ainda est verde.
      Cian se limitou a olh-la.
      -Ser melhor que maturem logo ou acabaro todos mortos.
      Podia enfrentar o cansao, o suor e o esforo, pensou Glenna, mas agora a estavam insultando.
      -J  bastante difcil fazer o que estamos fazendo sem necessidade de que um de ns se comporte como um completo imbecil.
      - assim como chama ser realista?
      -A merda a realidade, e voc com ela.
      Glenna entrou na cozinha e meteu em uma cesta um pouco de fruta, po e uma garrafa de gua. Quando voltou a sair, ignorou por completo a presena de Cian.
      Uma vez fora, deixou a cesta em cima da mesa que King tinha tirado para ter ali as armas.
      -Comida! -exclamou Larkin como algum a ponto de desfalecer de fome-. Abeno-a at a planta dos ps, Glenna. J comeava a me consumir.
      -No tenho dvida disso, considerando que faz apenas duas horas que se abarrotou de comida -disse Moira.
      -O senhor das trevas acredita que no estamos nos esforando o suficiente, e nos comparou com os frangos de uma comida campestre para os vampiros. -Glenna 
agarrou uma das mas da cesta e o visualizou, e a seguir lanou a ma. A fruta voou para o boneco e, na metade do vo, converteu-se em uma estaca que perfurou 
a palha e o tecido,
      -OH, isso foi magnfico -disse Moira quase sem flego -Isso foi brilhante.
      -s vezes o mau gnio me d um pouco de estmulo  magia.
      A estaca deslizou fora do boneco e caiu ao cho convertida novamente em uma ma. Glenna olhou Hoyt.
      - algo que devemos desenvolver -disse.
      -Necessitaremos algo mais que nos una, que nos mantenha juntos -disse mais tarde a Hoyt. Estava sentada na torre, esfregando os machucados com um blsamo enquanto 
ele passava as pginas de um livro de conjuros-. As equipes levam uniformes ou tm canes de guerra.
      -Canes? Agora deveramos cantar? Ou melhor, talvez encontrar um fodido harpista?
      O sarcasmo, decidiu Glenna, era algo que os irmos compartilhavam tanto como seus traos fsicos.
      -Necessitamos algo. Olhe-nos. Inclusive agora: voc e eu aqui, Moira e Larkin juntos ali fora, King e Cian na sala de treinamento, planejando novas torturas 
para ns. Est bem e  positivo ter uma equipe grande dividida em equipes menores e trabalhando em seus prprios projetos, mas  que ns no somos ainda uma equipe 
grande.
      -Ento devemos trazer a harpa e comear a cantar? Temos um trabalho importante que fazer, Glenna.
      -No est me acompanhando. -Pacincia, disse-se a si mesmo. Ela tinha trabalhado to duramente como ele e estava igualmente cansada-. Trata-se de simbolismo. 
Temos o mesmo inimigo, isso  verdade, mas no o mesmo propsito.
      Glenna se aproximou da janela e comprovou como se foram alargando as sombras e quo baixo estava o sol no cu. 
      -Logo escurecer.
      Seus dedos procuraram o colar. Nesses momentos tudo lhe parecia to simples, to bvio.
      -Est procurando um escudo para Cian porque ele no resiste  luz do sol. E o que acontece conosco? No podemos nos arriscar a sair da casa depois de que escurece. 
E embora permaneamos entre estas paredes, sabemos muito bem que ela pode chegar at ns, meter-se em nosso interior. Onde est nosso escudo, Hoyt? O que pode nos 
proteger contra o vampiro?
      -A luz.
      -Sim, sim, isso j sei, mas que smbolo? Uma cruz. Temos que fazer cruzes e dot-las de magia. As converter no s em um escudo mas tambm em uma arma, Hoyt.
      Ele pensou nas cruzes que Morrigan lhe tinha entregado para todos os membros de sua famlia. Mas seus poderes, inclusive as suas misturas com os da Glenna, 
no podiam competir com os deuses.
      No obstante...
      -Prata - murmurou ele-. A prata seria o melhor.
      -Com jaspe vermelho para a proteo noturna. Necessitamos um pouco de alho e tambm salvia. -Glenna comeou a procurar em sua caixa de ervas e razes secas-. 
Comearei a preparar a poo agora mesmo. -Agarrou um de seus livros e passou rapidamente as folhas- Tem alguma idia de onde podemos tirar a prata?
      -Sim.
      Hoyt saiu da sala, desceu ao primeiro andar da casa e entrou no que agora era a sala de jantar. Os mveis eram novos... ao menos para ele. Mesas de madeira 
escura e pesada, cadeiras de respaldo alto e belamente esculpidos. As cortinas que estavam jogadas na janela eram de uma cor verde brilhante e escura, como as sombras 
do bosque, e feitas com uma seda grosa e pesada.
      Nas paredes havia pinturas, todas elas representando cenas noturnas do bosque e clareiras umbrosas, e escarpadas. Inclusive ali, pensou Hoyt, seu irmo fugia 
a luz. Ou acaso preferia a escurido inclusive nas pinturas?
      Altos albergues com portas de cristal esmerilhado continham baixelas e cristais de ricos tons. Posses, pensou, de um homem de fortuna e posio e que tinha 
tido toda uma eternidade para colecion-las.
      Alguma daquelas coisas significava algo para Cian? Tendo tanto, podia lhe importar um s objeto?
      No aparador maior havia dois altos candelabros de prata e Hoyt se perguntou se possivelmente... se tinham tido tanta importncia para seu irmo alguma vez.
      Esses candelabros tinham pertencido a sua me.
      Elevou uma mo e teve uma imagem dela -clara e transparente como a gua de um lago- sentada  roca e fiando, cantando uma das velhas canes que tanto gostava 
enquanto seguia o ritmo com os ps.
      Levava um vestido azul e vu, e seu rosto era jovem e sereno, uma aprazvel satisfao a cobria como um manto de seda suave. Pde ver que seu corpo estava 
volumoso pelo menino que levava no ventre. No, corrigiu-se, pelos meninos: Cian e ele.
      E, sobre o aparador que havia debaixo da janela, junto  mulher os dois candelabros.
      -Foram um presente de meu pai no dia de minhas bodas, de todos os pressente que recebi,  o que mais estimo. Algum dia, um deles ser para voc e o outro para 
Cian. E desse modo passar de uns aos outros, e o doador ser recordado cada vez que se acenda a vela.
      Hoyt se consolou pensando que no necessitava nenhuma vela para recordar sua me. Mas o candelabro pesava em suas mos quando o levou a torre.
      Glenna elevou a vista do caldeiro onde estava mesclando suas ervas para preparar a poo.
      -OH,  perfeito. E to lindo. Machuca que tenhamos que fundi-lo. -Glenna deixou seu trabalho por um momento para examinar melhor o candelabro-.  muito pesado. 
E antigo me parece.
      -Sim,  muito antigo -confirmou Hoyt.
      Ento Glenna o entendeu, e sentiu uma leve pontada no corao.
      -Era de sua famlia?
      O rosto, a voz do Hoyt eram deliberadamente inexpressivos.
      -Devia ser para mim, e assim foi.
      Glenna esteve a ponto de lhe dizer que procurasse alguma outra coisa, algum objeto que no tivesse um significado afetivo to grande para ele, mas decidiu 
engolir as palavras. Pensou que entendia perfeitamente por que tinha feito essa escolha. Tinha que ter um custo. A magia pedia um preo.
      -O sacrifcio que est fazendo fortalecer o conjuro. Espera. -Ela tirou um anel do dedo do meio da mo direita-. Era de minha av.
      -No  necessrio.
      - um sacrifcio pessoal, teu e meu. Estamos pedindo muito. Necessito um pouco de tempo para idear o conjuro. No encontrei nada em meus livros que possa nos 
servir para nosso propsito, de modo que teremos que resolver isso.
      Quando Larkin chegou  porta da torre, ambos estavam profundamente absortos nos livros. Jogou uma olhada ao redor da sala e permaneceu na soleira.
      -Enviaram-me para busc-los. O sol se ps e logo comearemos o treinamento noturno.
      -Diga ao King que iremos assim que tenhamos terminado o que estamos fazendo -disse Glenna-. Estamos na metade de algo.
      -O direi, mas no acredito que v gostar disso.
      Larkin fechou a porta e partiu.
      -J quase o tenho. Vou desenhar o que acredito que deveria ser seu aspecto e logo ambos o visualizaremos. Hoyt?
      -Deve ser puro -disse quase falando consigo mesmo-. Conjurado tanto com f como com magia.
      Glenna deixou Hoyt com isso e comeou a desenhar. Simples, pensou, e com tradio. Elevou a vista e viu que Hoyt estava sentado, com os olhos fechados. Reunindo 
poder, sups, e seus pensamentos.
      Uma expresso to sria, e um rosto, deu-se conta, no que tinha chegado a confiar plenamente. Tinha a sensao de que conhecia esse rosto sempre, igual ao 
som e a cadncia de sua voz.
      Em troca, o tempo de que dispunham era muito pouco, um punhado de gros na areia do relgio.
      Se conseguissem a vitria -no, quando, quando conseguissem a vitria-, Hoyt retornaria a seu tempo, sua vida, seu mundo. E ela aos seus. Mas nada voltaria 
a ser o mesmo. E nada poderia encher jamais o vazio que ele deixaria atrs.
      -Hoyt.
      Seus olhos eram diferentes quando se encontraram com os dela. Mais profundos e mais escuros. Empurrou o desenho para ele.
      -Acha que isso servir?
      Hoyt levantou o papel e estudou o desenho.
      -Sim, exceto por isso.
      Agarrou o lpis que Glenna tinha na mo e acrescentou umas linhas na larga base da cruz celta que ela tinha desenhado.
      - escrita ogham. O que diz?
      -Diz "luz".
      Ela assentiu com um sorriso.
      -Ento  perfeito. Este  o conjuro. Parece-me bom.
      Hoyt agarrou o papel e a olhou.
      -Versos?
      -Assim  como trabalho. Ter que aceit-lo. E quero um crculo. Sentirei-me melhor se tivermos um.
      Hoyt se levantou, aceitando o pedido de Glenna de que riscassem o crculo juntos. Ela colocou umas velas e observou enquanto Hoyt as prendia.
      -Faremos o fogo juntos -disse.
      Hoyt estendeu a mo para ela.
      O poder subiu por seu brao e chegou at seu corao. E o fogo, puro e branco, ardeu a uns centmetros do cho. Hoyt elevou o candelabro dentro do caldeiro-. 
Volte-se lquida sob esta luz.
      -Da torre do feiticeiro -continuou Glenna, acrescentando o jade vermelho e as ervas -exortam a esta chama para que libere seu poder.
       Deixou cair o anel de sua av dentro do caldeiro.
      -Poderes do cu e o mar, do ar e da terra, invocamo-los. Ns, seus servos, imploramos esta bno, nos protejam neste tempo de prova. Respondemos a seu encargo 
com cabea, corao e mo para derrotar a escurido na Terra. De modo que os invocamos trs vezes para proteger aqueles que lhes servem fielmente.
      -Que esta cruz arroje luz na noite.
      Enquanto ambos entoavam juntos o ltimo cntico trs vezes, o caldeiro comeou a desprender uma fumaa cinza e as chamas brancas que ardiam debaixo se voltaram 
mais brilhantes.
      A luz, o calor e a fumaa envolveram Glenna por completo enquanto que sua voz se elevava junto  de Hoyt. Atravs dessa mescla pde ver os olhos dele, s seus 
olhos, fixos nos dela.
      Em seu corao, em seu ventre, a mulher sentiu que algo se esquentava e crescia. Mais forte, mais potente que qualquer outra coisa que nunca tinha conhecido 
e que formou redemoinhos em seu interior enquanto Hoyt, com sua mo livre, arrojava o resto do p de jade dentro do caldeiro.
      -E cada cruz de prata ser um escudo para ns. Que assim seja.
      A sala estalou de luz e sua fora fez que tremessem o cho e as paredes. O caldeiro se derrubou, derramando o lquido prateado em cima das chamas.
      A fora esteve a ponto de derrubar tambm Glenna, mas os braos de Hoyt a seguraram. Deu meia volta para proteg-la com seu corpo das chamas subitamente crescidas 
e do vento ensurdecedor.
      Hoyt viu que a porta se abria. Por um instante Cian ficou emoldurado na entrada da torre, imerso nessa luz impossvel e depois desapareceu.
       -No! No! -Hoyt arrastou Glenna com ele e rompeu o crculo. A luz se encolheu sobre si mesmo, engoliu-se a si mesmo e se esfumou com um poderoso estrondo.
      Cian sangrava estendido no cho, com a camisa meio queimada e ainda fumegante.
      Hoyt ficou de joelhos e seus dedos procuraram o pulso de seu irmo antes de recordar que no o encontraria em nenhum caso.
      -Meu Deus, meu Deus, o que  que tenho feito?
      -Est gravemente queimado. Tire-lhe a camisa. -A voz da Glenna era fresca como gua e igualmente tranqila-. Com cuidado.
      -O que aconteceu? Que merda tem feito? -King afastou violentamente Hoyt-. Filho da puta. Cian. Meu Deus.
      -Estvamos acabando de fazer um conjuro e Cian abriu a porta. Havia muita luz. No foi culpa de ningum. Larkin -continuou Glenna-, ajuda King levar Cian a 
seu quarto. Eu irei em seguida. Tenho algumas coisas que podem ajudar.
      -No est morto -disse Hoyt em voz baixa, olhando seu irmo-. No est morto.
      -No est morto -repetiu Glenna-. Eu posso ajud-lo. Sou uma boa curadora.  um de meus pontos fortes.
      -Eu a ajudarei. -Moira se aproximou e se apoiou na parede enquanto King e Larkin levantavam Cian -. Tenho alguma experincia nisto.
      -Bem. V com eles. Procurarei as coisas que necessito. Hoyt, posso ajud-lo.
      -O que  que temos feito? -Hoyt olhava as mos com expresso de impotncia. Embora ainda vibrassem como conseqncia da potncia do conjuro, sentia-as vazias 
e inteis. - Era algo mais poderoso que tudo o que tenho feito at agora.
      Glenna lhe agarrou a mo e o arrastou novamente dentro da sala da torre.
      O crculo era visvel sobre o cho depois ter ardido e deixado um anel branco abrasado. No centro do mesmo brilhavam nove cruzes de prata com um crculo de 
jaspe vermelho na unio de ambos os braos.
      -Nove. Trs vezes trs. Pensaremos a respeito disto mais tarde. Acredito que por agora deveramos as deixar onde esto. No sei, deixar que se esfriem.
      Hoyt ignorou as palavras de Glenna, entrou no crculo e agarrou uma das pequenas cruzes de prata.
      -Est fria.
      -Genial. Bem -disse Glenna. Mas sua mente j estava concentrada em Cian e no que teria que fazer para ajud-lo. Agarrou sua caixa com poes e ervas-. Tenho 
que descer e fazer por ele tudo o que possa. No foi culpa de ningum, Hoyt.
      -Duas vezes. Estive a ponto de matar a meu irmo duas vezes.
      -Isto foi coisa minha tanto como sua. Vem comigo?
      -No.
      Glenna foi dizer algo, logo meneou a cabea e abandonou rapidamente a sala.
            
            
            
      No esplndido dormitrio, o vampiro jazia imvel sobre a enorme cama. Seu rosto era o de um anjo. Um anjo do inferno, pensou Moira. Enviou os homens por gua 
quente e ataduras; o fez sobre tudo para tir-los do meio.
      Agora estava a ss com o vampiro, quem estava estendido sobre a cama, imvel como a morte.
      Se apoiasse a mo sobre seu peito no perceberia absolutamente nenhum pulsado de seu corao. No haveria flego algum que empanasse um cristal se o aproximava 
de seus lbios. E sua imagem no se refletiria nele.
      Moira tinha lido todas essas coisas nos livros, e muitas mais.
      Entretanto, lhe tinha salvado a vida, e o devia.
      Aproximou-se de um lado do leito e usou a escassa magia que tinha para tentar esfriar sua pele queimada. Sentiu um acesso de nusea que conseguiu controlar. 
Nunca tinha visto uma carne to chamuscada. Como era possvel que algum -algo -pudesse sobreviver a umas feridas to terrveis?
      Os olhos azuis de Cian se abriram subitamente. Sua mo se fechou ao redor de seu pulso.
      -O que est fazendo?
      -Est ferido gravemente. -Odiava ouvir o tremor de sua voz, mas o medo que sentia ante ele, estando sozinha com ele, era incontrolvel-. Tiveste um acidente. 
Estou esperando Glenna, o ajudaremos. Agora no deve se mover. -Moira pde ver o momento em que a dor crescia nele, e parte de seu medo desapareceu-. No se mova 
- repetiu-. Posso aliviar um pouco as queimaduras.
      -No preferiria acaso que ardesse no inferno?
      -No sei. Mas sei que no quero ser eu quem o envie ali. Ontem  noite no teria disparado a flecha, e me sinto envergonhada por ter permitido que acreditasse 
que poderia fazer semelhante coisa. Devo-te a vida.
      -Parte e estaremos em paz.
      -Agora vir Glenna. Refresca-te um pouco?
      Can se limitou a fechar os olhos e seu corpo estremeceu.
      -Necessito sangue.
      -Bom, posso lhe assegurar que no ser o meu. No sou to agradecida.
      Moira acreditou ver que seus lbios se curvavam ligeiramente.
      -No me refiro ao seu, embora apostasse que  muito saborosa. -Teve que recuperar o flego que a dor lhe roubava-. Nessa caixa que h no outro lado do quarto. 
A caixa negra com a asa de prata. Necessito sangue para... bom, necessito-o.
      Moira deixou que fosse ele quem abrisse a caixa, depois fez um esforo para reprimir a repulso que sentiu ao ver as bolsas transparentes, com seu contedo 
de lquido vermelho escuro.
      -Aproxima-me isso traga-me e pe-se a correr o que preferir, mas o necessito agora.
      Moira lhe levou a caixa, logo viu que Can fazia um esforo para levantar-se e tentar abrir uma das bolsas de sangue com suas mos queimadas. Sem dizer nada, 
ela agarrou a bolsa de plstico e a abriu, derramando algumas gotas.
      -Sinto muito.
      Olhou e reuniu coragem para lhe passar um brao por cima dos ombros enquanto que com a mo livre lhe aproximava a bolsa aos lbios.
      Cian a olhou enquanto bebia e ela se obrigou a sustentar seu olhar sem pestanejar.
      Quando esvaziou a bolsa, Moira voltou a apoiar com cuidado a cabea de Cian sobre o travesseiro antes de ir ao banheiro em busca de uma toalha para lhe limpar 
o sangue da boca e o queixo.
      - uma mulher pequena mas valente.
      Moira percebeu certa ironia em sua voz e que recuperava algo de suas foras.
      -Voc no tem escolha por causa do que . Eu no a tenho por causa do que sou.
      Moira se separou da cama quando Glenna entrou no quarto.
      
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 11
      
      -Quer algo para a dor? -perguntou Glenna enquanto encharcava uma fina gaze com blsamo.
      -O que  o que tem?
      -Um pouco de tudo. -Apoiou brandamente a gaze sobre o peito de Cian-. Sinto muito. Cian. Teramos que ter fechado a porta com chave.
      -Uma porta fechada com chave no teria me impedido de entrar na sala, no em minha prpria casa. A prxima vez poderiam tentar com algum tipo de cartaz, algo 
assim como... v passear!
      -Sei, sinto muito, sei. Em uns minutos se sentir melhor. Um cartaz? -continuou dizendo Glenna com voz suave e sedativa enquanto trabalhava sobre as queimaduras 
de Cian. -. Algo como magia inflamvel. No passar.
      -Isso ajudaria que ningum sasse machucado. -Cian sentia a dor das queimaduras no s na pele mas tambm nos ossos, como se o fogo tivesse ardido dentro e 
fora dele-.Que merda estavam fazendo?
      -Mais do que nenhum de ns esperava. Moira, unta mais blsamo em uma atadura, por favor. Cian?
      -O que?
      Ela se limitou a lhe olhar intensamente, com suas mos revoando em cima de suas queimaduras mais graves. Glenna sentia o calor, mas no sua liberao.
       -Isto no funcionar a menos que voc o permita -disse-. A menos que confie em mim e o deixe sair.
      -Um preo muito alto para um pouco de alvio, somado ao feito de que voc  em parte responsvel pelo que me ps neste estado.
      -Por que quereria Glenna te machucar? - interveio Moira enquanto que seguia enchendo a atadura com blsamo-. Ela o necessita. Todos o necessitamos, ns gostemos 
ou no.
      -Um minuto -disse Glenna-. Confia em mim s um minuto. Quero ajud-lo;  necessrio que acredite. Tem que me acreditar. Olhe-me nos olhos. Sim, isso.
      "Agora sim. Calor e liberao."
      -Muito bem, isso est melhor. Um pouco melhor. Sim?
      Can compreendeu que ela tinha transpassado parte das queimaduras dele dentro dela. Jamais o esqueceria.
      -Um pouco melhor, sim. Obrigado.
      Glenna aplicou mais gaze untadas com blsamo sobre as feridas e se voltou para a caixa onde guardava suas pomadas e ervas.
      -Agora limparei os cortes e tratarei os machucados e depois lhe darei algo que o ajudar a descansar.
      -No quero descansar.
      Glenna trocou de postura acomodando-se na cama, para poder limpar os cortes que Cian tinha no rosto. Com um gesto de assombro apoiou os dedos sobre suas faces 
e o fez girar a cabea.
      -Pensei que eram piores.
      -Eram. Curo-me depressa da maioria das feridas.
      -Me alegro por voc. Como est sua viso?
      Ele voltou para ela seus quentes olhos azuis.
      -Vejo-a bastante bem, ruiva.
      -Poderia ter uma contuso. Pode sofrer contuses? Imagino que sim -disse ela antes que ele pudesse responder-. Tem queimaduras em alguma outra parte do corpo? 
-Comeou a descer o lenol e depois lhe lanou um olhar travesso-.  verdade o que dizem a respeito dos vampiros?
      A pergunta fez que Cian pusesse-se a rir e logo lanasse um gemido de dor.
      -Isso  um mito. Temos os mesmos atributos que antes da mudana. Pode comprov-lo por si mesma, mas no estou ferido nessa rea. Deu-me totalmente no peito.
      -Preservaremos sua modstia... e minhas iluses. -Quando ela retirou as mos, a expresso divertida desapareceu do rosto de Cian-. Pensei que o tnhamos matado. 
E ele tambm. Agora est sofrendo.
      -OH, ele est sofrendo, no ? Talvez gostasse de trocar de lugar comigo.
      -Sabe muito bem que o faria. No importa o que pense de Hoyt, ele o ama. No pode eliminar esse sentimento, e no teve tanto tempo como voc para afastar-se 
de seu irmo.
      -Deixamos de ser irmos na mesma noite de minha morte. 
      -No, no  verdade. E est enganando se pensar isso. -levantou-se da cama-. Tenho feito tudo o que est em minhas mos para que esteja cmodo. Voltarei dentro 
de uma hora e trocarei as ataduras.
      Glenna recolheu suas coisas. Moira abandonou o quarto antes que ela e esperou.
      -O que foi o que provocou essas queimaduras?
      -No estou de todo segura.
      - necessrio que saiba, porque  uma arma muita poderosa contra os de sua espcie. Poderamos utilizar contra eles.
      -No estvamos controlando. No sei se podemos faz-lo.
      -Se pudesse -insistiu Moira.
      Glenna abriu a porta de seu quarto e guardou a caixa com suas coisas. No estava preparada para retornar ainda  torre.
      -Que eu saiba, isso nos controlava. Era algo enorme e poderoso. Muito poderoso para que qualquer um de ns possa dirigi-lo. Inclusive Hoyt e eu juntos, e estvamos 
to unidos como nunca estive com ningum, no fomos capazes de control-lo. Era como estar dentro do sol.
      -O sol  uma arma.
      -Se no saber como usar uma espada, pode cortar sua prpria mo tanto como a de seu inimigo.
      -Por isso aprende a utiliz-la -disse Moira.
      Glenna se inclinou sobre a cama e logo levantou uma mo.
      -Estou tremendo -disse, olhando-a oscilar no ar-. E h partes dentro de meu corpo que no sabia que tivesse e que esto tremendo igual a minha mo.
      -E eu a estou importunando, sinto muito. Quando estava curando o vampiro parecia to tranqila, to controlada.
      -Ele tem nome: Cian. Comea a us-lo. -Ante o tom cortante de Glenna, a cabea da Moira se sacudiu como se tivesse recebido uma bofetada, e seus olhos se abriram 
como pratos. -Lamento por sua me. Sinto-me doente por isso, mas Cian no a matou. Se sua me tivesse sido morta por um homem loiro de olhos azuis, voc iria pelo 
mundo odiando a todos os homens loiros de olhos azuis?
      -No  o mesmo, de jeito nenhum.
      - bastante parecido, especialmente em nossa situao.
      Uma frrea obstinao endureceu as feies de Moira.
      -Alimentei-o com sangue e lhe dei o pouco que podia para alivi-lo. Ajudei-a curar suas queimaduras. Isso deveria ser suficiente.
      -Pois no . Um momento -pediu Glenna quando Moira deu meia volta para partir-. S um momento. Estou tremendo e irritada por tudo isto. S quero que espere 
um momento. Se antes pareceu que estava tranqila  porque assim  como eu funciono. Manejo as crises e depois me derrubo. Agora estamos na parte em que me toca 
me derrubar. Mas o que disse segue sendo vlido, Moira. Voc mesmo disse ali dentro. Necessitamo-lo. Ter que comear a pensar nele como Cian, e a trat-lo como 
uma pessoa e no como uma coisa.
      -Eles a fizeram em pedaos. -Os olhos de Moira se encheram de lgrimas enquanto o muro do desafio caa. -No, ele no estava ali, no tomou parte no que aconteceu. 
Ele elevou sua espada para me defender, sei; mas no posso senti-lo. -Moira apoiou uma mo no corao. -No posso senti-lo. Eles no permitiram que vivesse o luto. 
No me deram tempo para chorar minha prpria me. E Agora. Agora que estou aqui, tudo  fria e aflio. Tudo  sangue e morte. No quero levar esta carrega sobre 
os ombros. Longe de minha gente, longe de tudo o que conheo. Por que estamos aqui? Por que nos encomendaram esta misso? Por que no h respostas?
      -No sei, o que  outra falta de resposta. Sinto muito, sinto horrivelmente o que ocorreu a sua me, Moira. Mas voc no  a nica que sente fria e dor. E 
tampouco  a nica que faz perguntas e deseja voltar para a vida que conhecia.
      -Um dia, voc retornar. Eu em troca nunca poderei faz-lo. -Moira abriu a porta e partiu.
      -Perfeito. Simplesmente perfeito. -Glenna ocultou o rosto entre as mos.
            
            
            
      Na sala da torre, Hoyt colocou cada uma das cruzes sobre um pedao de tecido branco. Eram frias ao tato, e embora o metal se empanou ligeiramente, sua luz 
era bastante brilhante para lhe fazer piscar.
      Agarrou o caldeiro de Glenna. Estava negro e chamuscado. Hoyt duvidou que pudessem voltar a utiliz-lo e se perguntou se isso era o que se pretendia. As velas 
que ela tinha colocado e aceso no eram mais que pequenos atoleiros de cera no cho. Terei que limpar. Toda a sala tinha que ser limpa a conscientizada antes de 
realizar outra sesso de magia nela.
      O crculo agora tinha ficado gravado no cho: um fino anel de branco puro. E o sangue de seu irmo manchava o cho e as paredes do outro lado da porta.
      Sacrifcio, pensou. O poder sempre tinha um preo. Sua entrega do candelabro de prata de sua me, o anel da av da Glenna no tinham sido suficientes.
      A luz tinha ardido com enorme brilho e intensidade, com um calor violento. Entretanto, no tinha queimado sua pele. Elevou a mo, examinou-a. Intacta. Tremula, 
teve que reconhecer, mas sem uma s marca.
      A luz o tinha enchido por completo, quase o tinha consumido. Tinha-o unido de tal modo a Glenna que tinha sido quase como se fossem uma s pessoa, um nico 
poder.
      E esse poder tinha sido impetuoso e fantstico, lanou-se contra seu irmo como a ira dos deuses. Tinha derrubado  outra metade de si mesmo enquanto o feiticeiro 
guiava o raio.
      A agora Hoyt se sentia completamente vazio. O poder que ficava nele era como chumbo, pesado e frio; chumbo recoberto por uma grossa capa de culpa.
      De momento no podia fazer nada, nada salvo pr um pouco de ordem na sala. Dedicou-se s tarefas bsicas para acalmar-se. Quando King irrompeu na sala, Hoyt 
permaneceu imvel, com os braos aos lados do corpo, e recebeu em pleno rosto o golpe que estava esperando.
      Enquanto saa disparado para a parede, teve um instante para pensar que era como ser golpeado com um arete. Depois simplesmente deslizou ao cho.
      -Se levante. Se levante, filho da puta.
      Hoyt cuspiu sangue. Sua viso estava desfocada, de modo que via vrios gigantes negros de p junto a ele com punhos grandes como presuntos. Apoiou uma mo 
na parede e conseguiu ficar em p.
      O arete voltou a lhe golpear com violncia. Esta vez sua viso se voltou vermelha, negra, e tremulou fracamente at voltar-se cinza. A voz de King se converteu 
apenas em um sussurro em seus ouvidos, mas lutou por obedecer a ordem de voltar a levantar-se.
      Viu um relmpago de cor atravs do cinza, sentiu uma corrente de calor atravs da dor gelada.
      Glenna entrou na sala como uma exalao. No se incomodou em empurrar King, mas sim lhe atirou uma violenta cotovelada no abdmen e logo se ajoelhou diante 
do Hoyt para proteg-lo.
      -Basta! Se afaste dele, fodido bode. OH, Hoyt, seu rosto.
      -V.
      Hoyt logo que pde murmurar as palavras e seu estmago se revolveu quando empurrou Glenna e tentou ficar de novo em p.
      -Adiante, me golpeie. Venha. -King estendeu os braos e depois golpeou a si mesmo no queixo-. O deixarei me devolver um golpe. Porra, lhe darei de presente 
dois golpes, miservel filho de puta.  mais do que voc deu a Cian.
      -Ento morreu. Se aparte de mim. -Hoyt empurrou Glenna-. Adiante -disse a King-. Acaba seu trabalho.
      Embora mantivesse os punhos fechados, King os baixou uns centmetros. Hoyt mal se mantinha em p e o sangue lhe emanava do nariz e da boca. Um de seus olhos 
estava j completamente fechado. Balanava-se diante do gigante esperando o seguinte golpe.
      - estpido ou s se tornou louco? -perguntou King.
      -Nenhuma das duas coisas -respondeu Glenna-. Ele acredita que matou seu irmo, de modo que ficar quieto e permitir que o mate a golpes porque se culpa tanto 
quanto voc o culpa. E ambos esto errados. Cian no morreu. Hoyt, seu irmo ficar bem. Est descansando, isso  tudo. Est descansando.
      -No morreu? -perguntou Hoyt.
      -No conseguiu e no ter uma segunda oportunidade -disse King.
      -OH, pelo amor de Deus! -Glenna se voltou para ele-. Ningum tentou matar ningum.
      -Se afaste, ruiva. -King moveu o polegar-. No quero te machucar.
      -Por que no? Se ele for responsvel, eu tambm sou. Estvamos trabalhando juntos. Estvamos fazendo o que devemos fazer aqui, maldito seja. Cian entrou no 
momento errado,  to simples e trgico como isso. Se Hoyt pudesse e quisesse ferir deliberadamente Cian desse modo, acha que agora voc estaria aqui to tranqilo? 
Ele poderia o fazer pedaos com seu pensamento. E eu o ajudaria.
      King entrecerrou seus olhos bicolores e fez um gesto desagradvel com a boca. Mas manteve os punhos fechados aos lados do corpo.
      -E por que no o fazem?
      -Porque isso vai contra tudo o que somos. Possivelmente no possa entend-lo, mas a menos que seja estpido como um tijolo, deveria compreender que qualquer 
afeto e lealdade que sinta por Cian, Hoyt tambm sente. E os sentiu desde o dia em que nasceu. Agora te largue daqui.
      King abriu as mos e as esfregou contra suas calas.
      -Possivelmente estava errado.
      -Isso  um grande consolo.
      -Vou ver Cian. Se no ficar satisfeito, voltarei para terminar meu trabalho.
      Quando King abandonou a sala, Glenna o ignorou e se voltou para ajudar Hoyt.
      -Vem, precisa te sentar.
      -Quer me largar?
      -No, no o farei.
      Por toda resposta, Hoyt se deixou cair no cho.
      Glenna, resignada, foi procurar um pano e verteu em uma terrina um pouco de gua de uma jarra.
      -Parece que terei que passar toda a tarde limpando sangue.
      Ajoelhou-se junto a Hoyt, molhou o pano e limpou brandamente o sangue de seu rosto.
      -Menti. Sim,  um estpido por permitir que o golpeasse. E um estpido por se sentir culpado. E um covarde, tambm.
      Os olhos de Hoyt, inchados e injetados em sangue, voltaram-se para ela.
      -Tome cuidado com o que diz.
      -Covarde -repetiu Glenna com voz cortante, porque as lgrimas comeavam a surgir da base de sua garganta-. Ficar aqui, lamentando-se, em lugar de descer e 
nos ajudar. Em lugar de descer e ver em que estado se encontrava seu irmo. Que no  muito pior que o seu neste momento.
      -No estou de humor para que me fira com suas palavras ou revoe a meu redor.
      Fez um gesto com a mo para lhe indicar que partisse.
      -Bem. Muito bem -disse ela. E lanou o pano dentro da terrina salpicando o cho com a gua. -Cuide-se voc mesmo ento. Estou cansada de todos vocs. Sempre 
se lamentando, se compadecendo. Inteis. Se quiser minha opinio acredito que Morrigan cometeu um grave engano ao escolher este grupo.
      -Sempre nos lamentando, nos compadecendo, inteis? Esquece sua parte nisto, harpia.
      Ela inclinou a cabea.
      -Essa  uma palavra dbil e antiquada. Hoje dizemos simplesmente puta.
      -Seu mundo, sua palavra.
      -Assim . Enquanto fica aqui em cima lamentando-se de suas desgraas, pode dedicar um minuto a considerar isto: esta noite temos feito algo realmente assombroso. 
-Assinalou as pequenas cruzes de prata que descansavam sobre a mesa. -Algo que vai muito alm de qualquer coisa que eu tenha experimentado antes de alguma vez. O 
fato  que devemos, pudemos, unir de algum jeito este grupo ridculo. Mas em troca todos estamos gemendo em nossos cantos, de modo que suponho que a magia e o momento 
foram desperdiados.
      Glenna abandonou a sala justo no momento em que Larkin subia  torre.
      -Cian est se levantando. Diz que j perdemos muito tempo e que esta noite treinaremos uma hora extra.
      -Pode lhe dizer que me beije o trazeiro.
      Larkin piscou e logo se voltou para ver como Glenna descia a escada rapidamente.
      -No tenho dvida de que o tem muito bonito -disse, embora em um tom de voz apenas audvel.
      Larkin apareceu a cabea  sala da torre e viu Hoyt sentado no cho e sangrando.
      -Pelos pregos de cristo! Ela te fez isso?
      Hoyt fez uma careta e decidiu que seu castigo ainda no tinha terminado.
      -No. Pelo amor de Deus, acaso pareo um homem que pode ser derrotado por uma mulher?
      -Ela me parece uma mulher formidvel. - Embora tivesse preferido manter-se afastado das reas onde se praticava a magia, no podia deixar Hoyt ali atirado, 
de modo que se aproximou e se agachou junto a ele-. Bem, parece um desastre, sabia? Tem cara de enterro.
      -Tolices. Quer me ajudar a me levantar?
      Larkin o ajudou e lhe ofereceu seu ombro para que Hoyt se apoiasse nele.
      -No sei que raios ocorreu aqui, mas Glenna est furiosa. E Moira se encerrou em seu quarto. Cian parece ter sido alvo da clera de todos os deuses, mas se 
levantou da cama e diz que devemos treinar. King tem aberto uma garrafa de usque e eu estou pensando em me unir a ele.
      Hoyt se apalpou com cuidado a ma do rosto e lanou um gemido quando a dor lhe atravessou a cara.
      -As palavras so a arma mais afiada de uma mulher. Pelo aspecto que tem, eu diria que voc tambm deveria beber um pouco desse usque.
      -Deveria. -Hoyt apoiou uma mo sobre a mesa e rezou por poder recuperar logo o equilbrio-. Larkin, faz o que puder para reunir todos na rea de treinamento. 
Eu descerei em seguida.
      -Arriscando minha vida, mas de acordo. Tentarei convencer s damas com doura e encanto. Elas ficaro agradadas de mim ou chutaro minhas bolas.
      No as chutaram, mas tampouco desceram radiantes de felicidade. Moira se sentou com as pernas cruzadas em cima de uma mesa, cabisbaixa e com os olhos inchados 
pelo pranto. Glenna ficou em um canto, com uma taa de vinho e um evidente mau humor. King permaneceu em seu prprio canto, sacudindo o gelo em seu copo de usque.
      Cian estava sentado e tamborilava com os dedos no brao da poltrona. Seu rosto estava branco como o gesso e as queimaduras das reas que a camisa solta no 
alcanava cobrir se viam lvidas.
      -No estaria mal um pouco de msica -disse Larkin para romper o silncio-. O tipo de msica que se escuta nas piras funerrias e outras pelo estilo.
      -Hoje trabalharemos a agilidade e a forma fsica. -Cian passeou o olhar pela sala-. At agora no vi muito disso em nenhum de vocs.
      - necessrio que seja to insultante? -perguntou Moira cansativamente-. Tem sentido tudo isto? Intercambiar golpes e estocadas com as espadas? Sofreste as 
queimaduras mais horrveis que vi em minha vida e aqui est, uma hora depois, novamente em p. Se uma magia semelhante no pode o derrubar, o manter no cho, o que 
poder faz-lo?
      -Deduzo que se sentiria mais feliz se me tivesse convertido em um monte de cinzas. Alegra-me a decepcionar.
      -Isso no  o que Moira queria dizer.
      Glenna jogou o cabelo para trs com um gesto de irritao.
      -Agora  sua interprete? -perguntou Cian.
      -No necessito que ningum fale por mim -replicou Moira-. E no necessito que me digam o que devo fazer cada maldita hora de cada maldito dia. Sei o que mata 
os vampiros, tenho lido nos livros.
      -OH, bem, assim que as leu nos livros. -Cian assinalou as portas-. Ento adiante. Sai ali fora e se encarregue de um par deles.
      -Isso seria melhor que estar dando cambalhotas pelo cho aqui dentro, como se estivesse em um circo -replicou ela.
      -Estou de acordo com Moira. -Larkin apoiou a mo no cabo de sua faca-. Deveramos sair a os caar, passar  ofensiva. Nem sequer colocamos um guarda ou enviamos 
um explorador.
      -Esta no  esse tipo de guerra, moo.
      Os olhos de Larkin cintilaram de fria.
      -No sou um moo e, por isso posso ver, esta no  uma guerra de nenhum tipo.
      -No sabe o que enfrentamos -interveio Glenna.
      -No sei? Matei trs deles com minhas mos.
      -Eram dbeis, jovens. Ela no desperdiou seus melhores elementos com vocs. -Cian se levantou da poltrona, Movia-se rigidamente e com evidente esforo-. Alm 
disso, receberam ajuda e tiveram sorte. Mas se tivessem topado com alguns vampiros veteranos, hbeis, neste momento estariam mortos.
      -Sou capaz de defender meu terreno.
      -Pois o defende comigo. Ataque-me.
      -Est ferido. No seria justo.
      -Deixa de injustias. Se me derrubar, irei contigo. -Cian assinalou para a porta-. Sairemos a caa esta noite.
      O interesse brilhou nos olhos de Larkin.
      -Tenho sua palavra?
      -Tem minha palavra. Derrube-me.
      -Muito bem ento.
      Larkin se aproximou rapidamente a Cian, logo girou afastando-se dele. Lanou alguns golpes, fez umas fintas e voltou a girar. Cian se limitou a esticar a mo, 
agarrar Larkin pelo pescoo e levant-lo do cho.
      -No quer danar com um vampiro -disse e o lanou at quase o outro extremo da sala.
      -Bode. -Moira se levantou e correu ao lado de seu primo-. Quase o estrangula.
      -O "quase"  aqui o que conta.
      -Isto era realmente necessrio?
      Glenna se aproximou de Larkin e apoiou as mos sobre sua garganta.
      -O menino procurou -disse King e Glenna se voltou para ele furiosa.
      -No  mais que um valento. Os dois o so.
      -Estou bem, estou bem. -Larkin tossiu e esclareceu garganta-. Foi um bom movimento -disse a Cian -. Nem sequer o vi vir.
      -At que possa faz-lo, e o faa, no sair para caar. -Cian voltou a sentar-se na poltrona-.  hora de trabalhar.
      -Pediria-te que esperasse.
      Hoyt entrou na habitao.
      Cian nem sequer se dignou a olh-lo.
      -J esperamos muito.
            -S um pouco mais. Tenho algumas coisas que dizer. Em primeiro lugar a voc. Cometi uma imprudncia, mas voc tambm. Eu teria que haver trancado a porta, 
mas voc no teria que ter entrado.
      -Esta  agora minha casa. No  sua h sculos.
      -Pode ser que assim seja. Mas a cautela e a cortesia no deveriam esquecer-se quando algum se aproxima de uma porta, especialmente quando dentro da sala se 
est praticando magia. Cian -esperou que seu irmo o olhasse-, eu nunca teria te feito mal. No me importa se acredita ou no. Eu nunca teria te feito mal.
      -No sei se eu poderia dizer o mesmo. -Assinalou com o queixo o rosto de Hoyt-. Sua magia te fez isso no rosto?
      - outra conseqncia do mesmo.
      -Parece doloroso.
      -.
      -Pois ento isso de algum jeito equilibra a balana.
      -E isto  ao que chegamos,  separao de nossos poderes. -Hoyt se voltou para olhar os outros-. Discusses e ressentimentos. Tinha razo -disse a Glenna-. 
Grande parte do que disse era certo, embora fale muito.
      -OH, srio?
      -No estamos unidos e, at que no seja assim, estaremos perdidos. Podemos treinar e nos preparar cada hora de cada dia do tempo que resta, e no conseguir 
nunca a vitria. Porque, isto  o que disse, temos um inimigo comum, mas no um objetivo comum.
      -O objetivo  lutar contra eles -interrompeu Larkin-. Lutar contra eles e mat-los. Mat-los a todos.
      -Por qu?
      -Porque so demnios.
      -Ele tambm .
      Hoyt apoiou uma mo no respaldo da poltrona de Cian.
      -Mas ele luta a nosso lado. Cian no ameaa Geall.
      -Geall. Voc pensa em Geall e voc -disse a Moira -pensa em sua me, King est aqui porque segue Cian a toda parte e, a minha maneira, eu tambm o fao. Cian, 
por que est voc aqui?
      -Porque eu no sigo a ningum. E voc e ela?
      -Por que est aqui, Glenna?
       -Estou aqui porque se no lutar, se no tentar, tudo o que temos e somos e sabemos cada um de ns poderia se perder. Porque o que tenho em meu interior me 
exige que esteja aqui. E, sobre tudo, porque o bem precisa de soldados para lutar contra o mal.
      "OH, sim, aquilo era uma mulher", pensou Hoyt. Fazia que todos os outros se envergonhassem.
      -Essa  a resposta. No h outra, e ela  a nica que h disse. Somos necessrios. Isso  mais forte que a coragem ou a vingana, que o orgulho ou a lealdade. 
Somos necessrios. Podemos permanecer separados e faz-lo? No, nem em mil anos nem com mais mil de ns para lutar. Ns somos os seis, o ncleo, o comeo. No podemos 
seguir sendo estranhos. 
      Separou-se da poltrona de Cian e colocou a mo em um bolso.
      -Glenna props que fizssemos um smbolo e um escudo, um smbolo do objetivo comum. Essa unidade de propsito produziu a magia mais poderosa do que se podia 
esperar -acrescentou, olhando Cian -. Acredito que pode ajudar a nos proteger se recordarmos que uma espada necessita um escudo, e se utilizarmos ambos com um propsito 
comum.
      Tirou as cruzes de modo que a prata brilhou sob a luz. Aproximou-se de King e ofereceu uma.
      -A usar?
      King deixou o copo a um lado e agarrou a cruz e a corrente. Examinou o rosto de Hoyt enquanto colocava a corrente ao redor do pescoo.
      -Poderia pr um pouco de gelo nesse olho -disse.
      -Poderia pr muito gelo. E voc?
      Estendeu uma cruz a Moira.
      -Trabalharei para ser digna dela. -Olhou Glenna com uma desculpa nos olhos-. Esta noite no o tenho feito muito bem.
      -Igual a todos - disse Hoyt-. Larkin?
      -No s por Geall -disse Larkin enquanto agarrava a cruz.
      -E voc. -Hoyt fez gesto de alcanar a cruz a Glenna, mas logo se aproximou dela e a colocou ele mesmo ao redor do pescoo enquanto a olhava nos olhos-. Acredito 
que esta noite conseguiste envergonhar a todos.
      -Tentarei no convert-lo em um costume. Toma.
      Agarrou a ltima cruz e passou a corrente por cima da cabea de Hoyt. Logo, muito lentamente, tocou sua face ferida com os lbios.
      Finalmente Hoyt se voltou e se aproximou de Cian.
      -Se for me perguntar se usaria uma dessas armas, pode economizar o flego -disse Cian.
      -Sei que no pode levar uma destas cruzes. Sei que no  como ns e, ainda assim peo que nos acompanhe neste propsito. -Ofereceu-lhe um pendente em forma 
de pentgono, muito parecido ao que tinha Glenna-. A pedra do centro  jade, como a que levam as cruzes. No posso te dar um escudo, ainda no, de modo que ofereo 
um smbolo. Aceitaria-o?
      Cian no disse nada e estendeu a mo. Quando Hoyt depositou o pendente e a corrente sobre ela, Cian a moveu ligeiramente como se estivesse comprovando o peso.
      -O metal e a pedra no formam um exrcito.
      -Mas so armas.
      -Isso  verdade. -Cian passou a corrente por cima da cabea-. Agora, se a cerimnia tiver terminado, poderamos voltar para o fodido trabalho?
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 12
      
      Glenna, procurando um pouco de solido e algo em que ocupar-se, serviu-se uma taa de vinho, tirou um caderno de notas e um lpis e se sentou  mesa da cozinha.
      Uma hora de tranqilidade, pensou, para sentar-se e confeccionar algumas listas. Depois, possivelmente, dormiria um momento.
      Quando ouviu que algum se aproximava se ergueu na cadeira. Em uma casa to grande no podiam encontrar outro lugar aonde ir?
      King entrou na cozinha e ficou de p junto a ela, trocando o peso do corpo de uma perna a outra e com as mos afundadas nos bolsos.
      -Sim? -disse Glenna.
      -Isto... sinto haver partido a cara de Hoyt.
      -Era sua cara, acredito que deveria se desculpar com ele.
      -Ambos sabemos onde estamos. S queria deixar as coisas claras contigo.
      Ao ver que ela no dizia nada, King arranhou o cocuruto atravs de sua espessa cabeleira, e se um homem de quase dois metros e cento e trinta quilos era capaz 
de retorcer-se, King o fez.
      -Escuta, subo  torre e me encontro com essa exploso de luz, e ele est estendido no cho, sangrando e ardendo. Esse tipo  meu primeiro feiticeiro -continuou 
King depois de fazer outra pausa-. Faz s uma semana que o conheo. E Cian conheo desde... faz muito tempo, e lhe devo muito.
      -De modo que quando encontrou Cian ferido, sups, naturalmente, que seu irmo tinha tentado mat-lo.
      -Sim. E imaginei que voc tambm tinha participado disso, mas a voc no podia moer a pauladas.
      -Aprecio seu cavalheirismo.
      O aguilho de sua voz fez que King desse um salto.
      -No tenho dvida de que sabe como cortar em seco um tipo.
      -Para cortar voc, eu agarraria uma moto serra. OH, deixa de se mostrar to digno de pena e culpado. -Glenna afastou o cabelo com um suspiro fastidioso-. Ns 
cagamos, voc cagou e todos estamos fodidamente dignos de penas pelo que aconteceu. Suponho que agora quer um pouco de vinho. Possivelmente um biscoitinho?
      King no teve mais remdio que sorrir.
      -Tomarei uma cerveja. -Abriu a geladeira e agarrou uma garrafa-. Passo do biscoitinho.  uma chutadora, ruiva. Uma qualidade que admiro em uma mulher, embora 
seja meu trazeiro o que recebe a bota.
      -Nunca fui assim. Acredito que no.
      A garota era bonita embora estivesse plida; devia estar esgotada. Ele a tinha feito trabalhar, a todos eles, duramente essa tarde, e de noite, Cian os tinha 
terminado de espremer.
       claro, ela tinha se queixado um pouco, pensou King. Mas no tanto como ele tinha esperado. E quando pensava nisso, Hoyt tinha razo: a ruiva tinha sido a 
nica que tinha sabido explicar que merda estavam fazendo ali. 
      -Esse assunto de que falou Hoyt, o que voc disse, tem muito sentido. Se no unirmos as foras, estamos perdidos. -Levantou a garrafa de cerveja e bebeu a 
metade de seu contedo de um comprido trago-. De modo que eu o farei se voc o faz.
      Glenna olhou a enorme mo que King lhe estendia e logo colocou a sua nela.
      -Acredito que Cian  afortunado por ter algum que lutar por ele. Que se preocupa com ele.
      -Ele faria o mesmo por mim. Faz muito que estamos juntos.
      -Em geral leva tempo formar, solidificar esse tipo de amizade. Outros no tero esse tempo.
      -Ento suponho que deveremos tomar alguns atalhos. Estamos em paz por agora?
      -Eu diria que agora estamos em paz.
      King acabou de beber a cerveja e logo lanou a garrafa vazia em um balde que havia debaixo da pia.
      -Vou para meu quarto. E voc teria que fazer o mesmo. Dorme um pouco.
      -Farei-o.
      Mas quando a deixou novamente sozinha, ela estava machucada, cansada e nervosa, de modo que se sentou na cozinha com sua taa de vinho e as luzes acesas para 
combater a escurido. No sabia que hora era e se perguntou se isso tinha alguma importncia.
      Todos eles estavam se transformando em vampiros, dormindo durante a maior parte do dia e trabalhando durante a maior parte da noite.
      Acariciou a cruz que tinha pendurada no pescoo enquanto continuava escrevendo sua lista, e sentiu a presso da noite sobre as omoplatas como se fossem mos 
geladas.
      Sentia falta da cidade, pensou. No a envergonhava admiti-lo. Sentia falta dos sons, as cores, o rudo constante e montono do trfico que era como um batimento 
do corao. Desejava sua complexidade e sua simplicidade. Ali a vida era simplesmente vida. E se havia morte, se havia crueldade e violncia, tudo era absolutamente 
humano.
      A imagem do vampiro no vago do metro cruzou como um relmpago por sua cabea.
      Ou ela tinha tido uma vez o consolo de acreditar que era.
      Entretanto, seguia tendo vontade de levantar-se pela manh e caminhar at a padaria em busca de rosquinhas recm assadas. Queria colocar o cavalete sob a luz 
matinal e pintar, e at que sua principal preocupao fosse como ia pagar o carto VISA.
      Ela havia possudo a magia durante toda sua vida, e Glenna tinha acreditado que a respeitava e a valorizava. Mas tudo aquilo no tinha sido nada comparado 
com isto, sabendo que a magia estava nela por aquela razo, para aquele propsito que muito bem poderia significar a morte para ela.
      Agarrou a taa de vinho e se sobressaltou ao ver Hoyt na porta.
      -Tendo em conta a situao, no  uma boa idia andar rondando na escurido.
      -No estava seguro de se devia incomod-la.
      -No importa. S estava tendo minha festa de auto-compaixo particular. J passar -disse ela, dando de ombros-. Sinto falta de minha casa. Mas suponho que 
isso no  nada comparado com o que voc deve sentir.
      -Ocupo o quarto que compartilhei com Cian quando fomos crianas, e noto que sinto muitas coisas, e de uma vez no as suficientes.
      Glenna se levantou, procurou outra taa e serviu um pouco de vinho.
      -Sente-se -disse.
      Logo ela voltou a sentar-se e deixou a taa de vinho sobre a mesa.
      -Tenho um irmo -disse-.  mdico, acaba de comear. Possui um sopro de magia e a utiliza para curar.  um bom mdico, um bom homem. Ama-me, mas no me entende 
muito bem.  duro quando no o entendem.
      -Preocupa-me a perda de Cian, pelo que fomos um para o outro.
      - claro que deve preocupar-se.
      -As lembranas que Cian tem de mim so velhas e esto esvadas, enquanto que as minhas so frescas e fortes. -Hoyt levantou sua taa-. Sim,  duro que no 
o entendam.
      -O que sou, o que h em mim -disse Glenna-. Eu estava acostumada a me gabar disso. Como se tratasse de um brilhante trofu que sustentava entre as mos, s 
para mim. OH, tomava cuidado com isso, sentia-me agradecida, mas de qualquer modo me gabava disso. Acredito que nunca mais voltarei a faz-lo.
      -Tendo em conta o que nos aconteceu esta noite, duvido de que nenhum dos dois volte a faz-lo.
      -Ainda assim, minha famlia, meu irmo, no entendia, no totalmente, essa satisfao vaidosa ou esse prmio. E no sero capazes de entender, no totalmente, 
o preo que estou pagando agora por isso. No podem.
      Glenna estendeu uma mo e a apoiou sobre a de Hoyt.
      -Cian no pode entend-lo. De modo que, embora nossas circunstncias sejam diferentes, compreendo de que perda est falando. Por certo, tem um aspecto horrvel 
-acrescentou com um tom mais leve-. Posso te ajudar a reduzir esses machucados um pouco mais.
      -Est muito cansada. Posso esperar.
      -No merecia isso.
      -Deixei que o que fosse que acontecesse tomasse o controle. Deixei que escapasse voando de mim.
      -No, escapou voando dos dois. Quem pode dizer que no foi isso o que devia fazer?
      Glenna tinha recolhido o cabelo para treinar, para trabalhar, e agora o deixou solto caindo desordenadamente at quase lhe roar os ombros.
      -Olhe, aprendemos, no ? Juntos somos mais fortes do que nenhum dos dois poderia ter previsto. Agora nos toca aprender a control-lo, a canaliz-lo. E, pode 
me acreditar, todos nossos companheiros nos respeitaro mais.
      Hoyt sorriu.
      -Isso soa um pouco presunoso.
      -Sim, suponho que sim.
      Ele bebeu um pouco de vinho e se deu conta de que pela primeira vez em muitas horas, sentia-se cmodo. Sentado tranqilamente na cozinha bem iluminada, com 
a noite presa atrs dos vidros, falando com Glenna.
      Seu perfume estava ali, justo na borda de seus sentidos. Aquele perfume sensual, feminino. Seus olhos, to claros e verdes, mostravam uma ligeira sombra de 
fadiga na delicada pele de debaixo deles.
      Assinalou o papel com a cabea.
      -Outro conjuro?
      -No,  algo mais prosaico. Listas. Necessito mais provises. Ervas e essas coisas. E Moira e Larkin necessitam roupa. Logo temos que estabelecer algumas regras 
domsticas bsicas. At agora esse aspecto esteve a cargo de King e de mim, refiro-me a cozinhar. Mas uma casa no se leva sozinha, e inclusive quando est preparando 
uma guerra necessita comida e toalhas limpas.
      -H muitas mquinas para fazer esse trabalho. -Hoyt passeou o olhar pela cozinha-. Deveria ser bastante simples.
      -Isso acredita.
      -Estava acostumado a haver um jardim de ervas aromticas. No percorri os campos. -Tinha-o adiado voluntariamente, teve que admitir. Tinha atrasado ver o que 
tinha mudado e o que seguia igual-. Possivelmente Cian fez que plantassem um. Ou eu poderia traz-lo novamente aqui. A terra recorda.
      -Bem, isso poderia incluir-se na lista para amanh. Voc conhece os bosques da rea. Poderia-me dizer onde posso encontrar o que necessito. Posso sair pela 
manh e recolher as ervas.
      -Conhecia-os -disse quase para si.
      -Tambm necessitamos mais armas, Hoyt. E, ao larga, mais mos que as empunhem.
      -Em Geall haver todo um exrcito.
      -Esperemos. Conheo alguns como ns, e Cian...  provvel que conhea alguns como ele. Talvez devssemos comear a alist-los.
      -Mais vampiros? Confiar em Cian j foi bastante complicado. Quanto a mais bruxas, ns ainda estamos aprendendo um do outro, como pudemos comprovar hoje mesmo. 
Devemos nos dedicar aos que temos. Mal comeamos. Mas temos que fabricar as armas do mesmo modo que temos feito com as cruzes.
      Glenna agarrou de novo sua taa de vinho e bebeu lentamente.
      -De acordo estou preparada.
      -As Levaremos conosco quando formos a Geall.
      -Falando disso. Quando e como?
      -Como? Atravs do Baile dos Deuses. Quando? No posso saber. Tenho que acreditar que nos avisaro quando chegar o momento. Ento saberemos quando.
      -Acredita que alguma vez poderemos retornar? Se conseguimos sobreviver? Acha que alguma vez poderemos voltar para casa?
      Hoyt a olhou. Glenna estava desenhando, os olhos fixos no papel, a mo firme, tinha as faces plidas, deu-se conta ele, devido  fadiga e a tenso. Seu cabelo, 
espesso e brilhante, caa-lhe para frente quando ela baixava a cabea.
      -O que mais a preocupa? -perguntou Hoyt-. Morrer ou no voltar a ver sua casa?
      -No estou do todo segura. A morte  inevitvel. Ningum se salva disso. E a gente espera, ou eu ao menos o fao, que quando chegar o momento terei coragem 
e curiosidade para enfrent-la.
      Com gesto distrado, Glenna colocou uma mecha de cabelo atrs da orelha com a mo esquerda enquanto continuava desenhando com a direita.
      -Mas sempre foi abstrato. At agora. Resulta difcil pensar em morrer e mais difcil ainda sabendo que possivelmente no volte a ver nunca mais minha casa 
ou minha famlia. Eles no entendero o que me possa acontecer. -Elevou a vista-. E estou pregando no deserto.
      -Eu no sei quanto tempo viveram meus familiares. Como morreram. Quanto tempo me procuraram.
      -Ajudaria-o sab-lo?
      -Sim, ajudaria-me. -Hoyt sacudiu esse pensamento e ergueu a cabea-. O que est desenhando?
      Ela franziu os lbios enquanto olhava o desenho.
      -Parece-se com voc.
      Virou-o e o mostrou.
       assim como me v? -seu tom de voz soava desconcertado e no de todo satisfeito-. To severo.
      -Severo no, srio.  um homem srio. Hoyt McKenna. -Escreveu o nome no esboo-. Assim  como deveria escrever-se e dizer hoje. Procurei-o. -Assinou o desenho 
com uma rpida rubrica-. E sua natureza sria muito atraente.
      -A seriedade  para os homens mais velhos e os polticos.
      -E tambm para os guerreiros, para os homens que tm poder. Ao conhec-lo, me senti atrada por voc. Fez que me desse conta do que sabia antes em relao 
aos mais novos. Pelo visto, agora eu gosto dos homens mais velhos.
      Hoyt se sentou, olhando-a, com o desenho e o vinho entre eles. Com as palavras entre eles, disse-se. E, no obstante, nunca havia se sentido to perto de ningum.
      -Sentado aqui contigo, em uma casa que  minha, mas que no , em um mundo que  meu, mas tampouco,  o nico que quero.
      Glenna se levantou da cadeira, aproximou-se de Hoyt, e o rodeou com os braos. Ele apoiou a cabea entre seus seios, escutou os batimentos de seu corao.
      - bem-estar? -perguntou Glenna.
      -Sim, Mas no s isso. Tenho uma necessidade to grande de voc que no sei como control-la dentro de mim. 
      Ela baixou sua cabea, fechando os olhos enquanto apoiava a face em seu cabelo.
      -Sejamos humanos. Pelo que fica desta noite, sejamos humanos, porque no quero ficar s na escurido. -Agarrou-lhe o rosto entre as mos-. Leve-me para cama.
      Agarrou-lhe as mos enquanto se levantava da cadeira.
      -Essas coisas no mudaram nada em mil anos, no ?
      Ela ps-se a rir.
      -Algumas coisas nunca mudam.
      Hoyt reteve a mo da Glenna entre as suas enquanto saam da cozinha.
      -No levei muitas mulheres para cama... sendo como sou um homem srio.
       -Eu nunca fui levada para cama por muitos homens... sendo como sou uma mulher sensata. -Ao chegar  porta de seu quarto, voltou-se para Hoyt com um sorriso 
rpido e travesso. -Mas acredito que podemos compens-lo.
      -Espera.
      Aproximou-a para ele antes que ela pudesse abrir a porta e apoiou os lbios sobre sua boca. Ela sentiu uma onda de calor e um subjacente tremor de prazer.
      Logo Hoyt abriu a porta.
      Glenna comprovou que tinha acendido as velas. Todas elas, de modo que o quarto estava alagado de uma luz dourada e um leve perfume. A lenha tambm ardia na 
lareira com um fogo lento e vermelho.
      Isso comoveu um lugar recndito em seu corao enquanto arrepiava sua pele por antecipao.
      -Um comeo muito agradvel. Obrigado. -Ouviu o som metlico da chave na fechadura e levou uma mo ao corao-. De repente estou nervosa. Nunca havia me sentido 
nervosa por estar com um homem. Nem sequer a primeira vez.  vaidade outra vez.
      A Hoyt no importavam seus nervos. De fato, acrescentavam um fator estimulante a sua prpria excitao.
      -Sua boca. Esta plenitude aqui. -Acariciou o lbio inferior dela com o dedo-. A degustao em meus sonhos. Distrai-me inclusive quando no est comigo.
      -Isso o incomoda. -Ela enlaou os braos por trs de seu pescoo-. Estou to contente.
      Glenna se abandonou entre seus braos, observando como o olhar de Hoyt descia at seus lbios, atrasava-se ali um momento e logo voltava a fixar-se em seus 
olhos. Sentiu seu flego misturado com o seu e como seu corao pulsava contra o de Hoyt. Ficaram assim durante um momento que pareceu interminvel, logo seus lbios 
se encontraram e ambos se afundaram um no outro.
      Os nervos voltaram a revoar no ventre dela, uma dzia de asas de veludo que respiravam o desejo. E esse tremor de poder era como um zumbido no ar.
      Ento as mos dele se elevaram para afastar o cabelo de seu rosto com um gesto de urgncia que a mantinha estremecida de antecipao ante o que ia acontecer. 
A boca de Hoyt abandonou a sua para vagar por seu rosto, para encontrar o pulso que pulsava em sua garganta.
      Ele podia afogar-se nela. Hoyt era consciente disso enquanto tomava mais. Essa imperiosa necessidade de Glenna podia lev-lo para as profundidades, a um lugar 
onde jamais tinha estado. E sabia que, em qualquer lugar que estivesse esse lugar, a levaria com ele.
      Modelou a forma da mulher com suas mos e se embebeu dela. Glenna voltou a procurar sua boca, avidamente. Ele ouviu o tremor de seu flego quando ela retrocedeu. 
A luz das velas se derramou sobre seu corpo quando Glenna comeou a desabotoar a blusa.
      Debaixo levava algo branco e adornado com renda que parecia sustentar seus seios como uma oferenda. Viu mais renda branca quando ela deslizou as calas para 
baixo por seus quadris; um tentador tringulo impregnado muito baixo sobre o ventre e muito alto na parte superior das coxas.
      -As mulheres so as criaturas mais sutis -murmurou ele, e deslizou a mo at roar a renda com as pontas dos dedos. Quando ela estremeceu, Hoyt sorriu -. Eu 
gosto destes objetos. Sempre os usa debaixo dos outros?
      -No. Depende de meu estado de nimo.
      -Pois eu gosto deste estado de nimo.
      Ele acariciou com os polegares a renda que cobria seus seios.
      Glenna jogou a cabea para trs.
      -OH, Deus.
      -Isso te d prazer. E isto?
      Hoyt repetiu a carcia sobre a renda que rodeava a parte inferior de seu ventre e viu como a excitao se estendia pelo rosto da Glenna.
      Tinha uma pele suave, delicada e suave, mas com msculos debaixo. Fascinante.
      -S deixa que a toque. Seu corpo  lindo. S quero te tocar.
      Glenna estendeu as mos para trs e agarrou com fora os pilares da cama.
      -Pode se servir.
      Seus dedos percorreram seu corpo, fazendo que sua pele estremecesse. Logo pressionaram levemente e Glenna gemeu. Ela podia sentir como seus ossos se liquidificavam 
e seus msculos se debilitavam enquanto ele a explorava. Entregou-se totalmente a isso, ao lento e enervante prazer que era ao mesmo tempo um triunfo e uma rendio.
      -Ento, este  o broche?
      Ela abriu os olhos enquanto ele brincava com o fechamento dianteiro de seu suti. Mas quando ela foi abri-lo, lhe afastou as mos.
      -J me engenharei isso para faz-lo sem ajuda. Ah, sim, j est. -Quando conseguiu abri-lo, os seios dela ficaram livres em suas mos-. Engenhoso. Lindo.
      Hoyt inclinou a cabea e provou a carne suave e clida.
      Queria sabore-la; queria lanar-se.
      -E a outra parte? Onde est o broche?
      Deslizou os dedos para baixo.
      -A no h...
      Quase sem flego, cravou os dedos nos ombros de Hoyt enquanto um leve grito escapava de seus lbios.
      -Sim, me olhe. Assim. -Introduziu as mos por debaixo do pequeno tecido puxado-. Glenna Ward, que esta noite  minha.
      E ela gozou ali mesmo, seu corpo estalou enquanto seus olhos permaneciam apanhados pelos de Hoyt.
      Sua cabea repousou flcida sobre seu ombro enquanto estremecia violentamente.
      -Quero-o em cima de mim, quero-o dentro de mim.
      Glenna puxou a camisa que Hoyt usava e a tirou por cima da cabea. Encontrou msculo e carne com suas mos, com seus lbios. Agora o poder voltou a filtrar-se 
nela enquanto o atraa  cama.
      -Dentro de mim. Dentro de mim.
      Sua boca se apertou com fora contra a dele, ao mesmo tempo em que ela se oferecia com os quadris arqueados. Hoyt lutou para tirar o resto da roupa, lutou 
para devorar mais do corpo de Glenna enquanto uma de onda de calor os envolvia.
      Quando a penetrou, o fogo bramou, e as chamas das velas se elevaram como flechas.
      A paixo e o poder os golpearam, arrastando-os  loucura. Entretanto, ela se entrelaou ao redor de Hoyt e o olhou enquanto as lgrimas nublaram seus olhos.
      Uma rajada de vento agitou seu cabelo, brilhante como o fogo contra a cama. Hoyt sentiu que a mulher se esticava como um arco debaixo de seu corpo. Quando 
o estalo o alcanou, s foi capaz de pronunciar seu nome: Glenna.
      Ela se sentia acesa, como se o fogo que tinha acendido entre os dois ainda estivesse ardendo. Surpreendeu-lhe no ver raios de sua luz dourada brotando das 
pontas dos dedos.
      Na lareira, os lenhos queimavam agora lenta e silenciosamente, outro resplendor crepuscular. Mas o calor que havia surgido da lareira, e deles, umedecia sua 
pele. Seu corao ainda pulsava desbocado.
      A cabea do Hoyt descansava ali, sobre seu corao, e a mo dela, sobre sua cabea.
      -Alguma vez...
      Os lbios de Hoyt roaram ligeiramente seus seios.
      -No.
      Ela passou os dedos por seu cabelo.
      -Eu tampouco. Talvez seja porque foi a primeira vez, ou porque algo do que temos feito antes ainda estava dentro de ns.
      "Juntos somos mais fortes". Suas prprias palavras ressonaram em sua mente.
      -E agora aonde vamos daqui?
      Quando ele elevou a cabea, ela meneou a sua.
      - s uma expresso -explicou-. No tem importncia. Seus machucados desapareceram,
      -Sei. Obrigado.
      -No sei se eu o tenho feito.
      -Tem-no feito. Tocou meu rosto quando nos unimos. -Agarrou sua mo e a levou aos lbios-. Tem magia nas mos, e no corao. E seus olhos seguem preocupados.
      -S estou cansada.
      -Quer que parta agora?
      -No, no quero. -Acaso no era esse o problema? -. Quero que fique.
      -Fico ento. -Hoyt mudou de postura e a aproximou dele, junto com os lenis e a manta-. Tenho uma pergunta.
      -Hum.
      -Tem uma marca aqui. -Deslizou-lhe os dedos pela regio lombar-. Uma estrela de cinco pontas. Nesta poca se marca s bruxas desta maneira?
      -No.  uma tatuagem... eu decidi me fazer isso Queria levar um smbolo do que sou, inclusive quando estava nua.
      -Ah. No quero faltar com respeito a seu propsito secundrio. -Sinto-me completo outra vez -disse ele-: Sinto-me eu mesmo outra vez.
      -Eu tambm.
      Mas cansada, pensou ele. Podia perceb-lo em sua voz.
      -Agora dormiremos um momento.
      Glenna elevou a cabea de modo que seus olhos se encontraram.
      -Disse que quando me levasse para cama no me deixaria dormir.
      -S por esta vez.
      Ela apoiou a cabea sobre seu ombro mas no fechou os olhos, apesar de que ele diminuiu a luz das velas.
      -Hoyt, no importa o que possa acontecer, isto foi precioso. 
      -Para mim tambm. E pela primeira vez, Glenna, no s porque devemos ganhar, mas tambm podemos faz-lo. E acredito porque est comigo.
      Agora ela fechou os olhos um momento com uma leve pontada no corao. Ele falava de guerra, pensou. E ela tinha falado de amor.
            
            
            
      Glenna despertou com a chuva e o calor de Hoyt. Permaneceu deitada na cama, escutando o som das gotas, absorvendo a sensao boa, natural de ter o corpo de 
um homem junto ao dela.
      Tinha tido que repreender-se durante a noite. O que acontecia com Hoyt era um presente, um que devia ser apreciado e entesourado. No tinha nenhum sentido 
renegar dele porque no era suficiente.
      E quem podia perguntar-se por que tinha acontecido?
      Perguntar-se se o que fosse que os estava levando para o campo de batalha os tinha unido, tinha acendido essa paixo, essa necessidade e, sim, amor, porque 
eram mais fortes desse modo?
      Era suficiente sentir, ela sempre tinha acreditado nisso. E agora s duvidava porque sentia muito.
      Era hora de voltar a mostrar-se prtica, de desfrutar do que tinha enquanto o tivesse. E de fazer o trabalho que tinha por diante.
      Afastou-se brandamente dele e comeou a descer da cama.  mo do Hoyt se fechou ao redor de sua mo.
      -Ainda  cedo e est chovendo. Vem, fica um momento.
      Ela o olhou por cima do ombro.
      -Como sabe que  cedo? Aqui no h nenhum relgio. Tem um relgio de sol na cabea?
      -No me serviria de muito com a chuva que est caindo. Seu cabelo  como o sol. Volta para a cama.
      Ele no parecia to srio agora, observou Glenna, no com seus olhos sonolentos e o rosto coberto por uma sombra de barba. O que parecia era comestvel.
      -Precisa se barbear.
      Hoyt passou a mo pela rosto e notou a barba incipiente. Voltou a passar mo e a barba desapareceu.
      -Assim est melhor para voc, a str?
      Ela se aproximou e passou um dedo por sua face.
      -Muito suave. Poderia usar um corte de cabelo decente tambm.
      Ele franziu o cenho e passou a mo pelo cabelo.
      -O que tem de mau meu cabelo?
      - bonito, mas no viria mal um pouco de forma. Eu posso me encarregar de faz-lo.
      -Acredito que no. 
      -OH, no confia em mim?
      -No com meu cabelo.
      Ela ps-se a rir e se colocou escarranchada em cima de Hoyt.
      -Confiou-me outras partes mais sensveis de seu corpo.
      -Essa  uma questo totalmente diferente. -Suas mos lhe cobriram os seios-. Como se chama esse objeto que usava ontem  noite sobre seus encantadores seios?
      -Chama-se sutian e no mude de assunto.
      -Sinto-me mais feliz falando de seus seios que de meu cabelo.
      -Est muito alegre esta manh.
      -Me enches de luz.
      -Adulador. -Agarrou-lhe uma mecha de cabelo. -Snip, snip, e ser um homem novo.
      -Parece-me que voc gosta bastante do homem que sou agora.
      Os lbios da Glenna se curvaram enquanto levantava os quadris e logo os descia para permitir que entrasse nela. As velas quase consumidas durante a noite, 
avivaram-se subitamente.
      -S recort-lo um pouco -sussurrou ela, inclinando-se para esfregar seus lbios com os de Hoyt. -Depois.
      Hoyt experimentou o considervel prazer que era tomar banho com uma mulher e depois a fascinao de contempl-la enquanto se vestia
      Glenna untou a pele com vrios cremes e aplicou outros tantos no rosto.
      O suti, e o que ela chamava calcinhas, hoje eram azuis. Como um ovo de petirrojo4. Em cima vestiu uma cala grosseira e a tnica curta e folgada que chamava 
camiseta. Sobre ela tinha escritas umas palavras que diziam ENTRANDO EM UM MUNDO FANTSTICO WICCA:5
      Hoyt pensou que os objetos exteriores convertiam o que ela usava debaixo em uma espcie de maravilhoso segredo.
      Sentiu-se relaxado e muito satisfeito de si mesmo. E tambm frustrado quando lhe disse que se sentasse sobre a tampa da privada. A seguir agarrou umas tesouras 
e as abriu e fechou vrias vezes.
      -Por que a um homem com bom senso permitiria que uma mulher se aproximasse dele com uma ferramenta como essa?
      -Um feiticeiro grande e duro como voc no deveria temer que lhe cortassem um pouco o cabelo. Alm disso, se voc no gostar de como fica quando tiver terminado, 
sempre pode voltar a mud-lo.
      -Por que s mulheres sempre gostam de brincar com um homem?
      - nossa natureza. Agrade-me.
      Hoyt suspirou e se sentou. E se retorceu.
      -Fica quieto e terei acabado antes que se d conta.
      -Como supe que se arranja Cian para arrumar-se? 
      Hoyt elevou a vista tentando ver o que lhe estava fazendo.
      -No sei.
      -No poder ver-se no espelho deve ser uma trabalheira. E em troca sempre est perfeito.
      Agora Hoyt a olhou nos olhos.
      -Voc gosta, no ?
      -So quase iguais, de modo que  claro. Embora Cian tenha essa pequena fenda no queixo e voc no.
      -Onde lhe beliscaram as fadas. Isso costumava dizer minha me.
      -Seu rosto  um pouco mais fino e tem as sobrancelhas mais arqueadas. Mas os olhos, esta boca e estas mas do rosto... so os mesmos.
      Ele viu como caam as mechas de seu cabelo sobre seu regao e o poderoso feiticeiro estremeceu.
      -O que faz, mulher, est-me deixando calvo?
      -Tem sorte de que eu goste do cabelo comprido em um homem. Ao menos eu gosto em voc. -Deu-lhe um beijo no cocuruto-. O seu  como seda negra, com uma leve 
ondulao. Sabe? Em algumas culturas, quando uma mulher corta o cabelo de um homem  um voto matrimonial.
      A cabea do Hoyt se ergueu bruscamente, mas ela tinha antecipado a reao e apartou as tesouras. Sua risada, divertida e brincalhona, ressonou nas paredes 
do banheiro.
      -Era uma brincadeira. Menino, sei que  ingnuo. J est quase.
      Glenna se sentou escarranchada sobre suas pernas e aproximou com isso os seios a seu rosto. Hoyt comeou a pensar que um corte de cabelo no era algo to duro 
depois de tudo.
      -Eu gostava do tato de uma mulher.
      -Sim, acredito recordar isso de voc.
      -No, o que quero dizer  que eu gostava do tato de uma mulher quando tinha uma. Sou um homem, e tenho necessidades como qualquer outro. Mas nunca nenhuma 
ocupava tanto minha mente como acontece contigo.
      Glenna deixou as tesouras e logo passou os dedos atravs de seu cabelo mido.
      -Eu gosto de ocupar sua mente. J est, d uma olhada.
      Hoyt se levantou e se olhou no espelho. Tinha o cabelo mais curto mas no muito. Sups que agora caa de uma forma mais agradvel, embora tivesse parecido 
que j estava bem antes que ela agarrasse as tesouras.
      No obstante, Glenna gostava, e no o tinha tosquiado como se fosse uma ovelha.
      -Est bastante bem, obrigado.
      -De nada.
      Ele acabou de vestir-se e, quando ambos desceram, encontraram todos na cozinha, exceto Cian.
      Larkin estava engolindo uma generosa poro de ovos mexidos.
      -Bom dia -disse-. Este homem tem mos de mago com os ovos.
      -E meu turno na cozinha terminou -anunciou King-. De modo que se querem tomar caf da manh, devero faz-lo sem minha ajuda.
      -Isso  algo do que queria falar. -Glenna abriu a geladeira-. Turnos. Cozinhar, lavar a roupa, tarefas domsticas bsicas. Devem repartir-se entre todos.
      -Eu estarei encantada em ajudar -disse Moira-. Se me ensinar o que devo fazer e como faz-lo.
      -Muito bem, observa e aprende. Esta manh nos limitaremos aos ovos e o bacon.
      Glenna ps mos  obra enquanto Moira observava cada um de seus movimentos.
      -No me importaria comer um pouco mais, j que esto nisso -disse Larkin.
      Moira o olhou.
      -Come igual a dois cavalos -disse.
      -Hum. Precisaremos ir renovando provises. -Agora Glenna se dirigiu a King-. Eu diria que isso recai em voc ou em mim, j que nenhum destes trs sabe conduzir. 
Alm disso, tanto Moira como Larkin necessitam roupas apropriadas. Se me fizer um mapa, eu irei ao povoado.
      -Hoje no h sol -disse Hoyt.
      Glenna o assinalou.
      -Tenho proteo, e o dia pode limpar-se.
      -A casa deve funcionar, tal como disse, de modo que pode propor esses planos, ns os seguiremos. Mas quanto s outras questes, tambm ter que seguir umas 
normas. Acredito que ningum deve sair sozinho fora da casa para ir ao povoado. E que ningum deve sair desarmado.
      -Ento, devemos ficar aqui sitiados, imobilizados pela chuva? -Larkin apunhalou o ar com o garfo-. No  hora de que demonstremos que no vamos permitir que 
eles sejam os que fixem os termos?
      -Larkin tem razo -conveio Glenna-. Prudentes mas no covardes.
      -E, alm disso, no estbulo h um cavalo -acrescentou Moira-. Necessita que o atendam.
      O fato era que Hoyt pensava encarregar-se disso enquanto os outros estavam ocupados fazendo outras coisas. Agora se perguntou se o que havia dito a si mesmo, 
que era responsabilidade e liderana, no seria na realidade s outra falta de confiana.
      -Larkin e eu nos encarregaremos do cavalo. -sentou-se quando Glenna disps os pratos sobre a mesa-. Glenna necessita ervas e eu tambm, de modo que iremos 
busc-las. Com prudncia -repetiu.
      E comeou a planejar como faz-lo enquanto comia.
            
            
            
      Hoyt sujeitou uma espada no cinturo. A chuva era agora uma fina garoa, o tipo de precipitao que sabia que podia seguir caindo durante dias. Glenna e ele 
podiam conseguir que sasse um sol to brilhante que deixasse o cu sem uma nuvem, mas a terra tambm necessitava chuva.
      Larkin e Hoyt saram juntos, separando-se a direita e esquerda, costas contra costas para examinar o terreno.
      -Devem ter uma vigilncia muito pobre se com este tempo ficam sentados esperando.
      Cruzaram o terreno, procurando sombras e movimentos. Mas no encontraram nada mais que chuva e o aroma das flores e a erva molhadas.
      Quando chegaram ao estbulo, o trabalho foi simples rotina para eles. Tirar o esterco, colocar palha fresca, gro e atender o cavalo. Era reconfortante estar 
perto daquele animal, pensou Hoyt.
      Larkin entoava uma alegre melodia enquanto trabalhava.
      -Tenho uma gua zaina em casa -disse a Hoyt-.  uma beleza. Aparentemente no se podem trazer cavalos atravs do Baile dos Deuses.
      -Tambm me disseram que devia deixar minha gua.  verdade o que diz a lenda? Que a espada e a pedra decidem quem  rainha em Geall? Como na lenda de Arthur?
      -Sim,  verdade, e alguns dizem que esta ltima est inspirada na nossa. -Enquanto falava, Larkin encheu o bebedouro de gua limpa-. Depois da morte de um 
rei ou de uma rainha, um mago volta a colocar a espada na pedra. O dia depois do funeral, chegam os herdeiros, um por um, e tentam tir-la dali. S um o conseguir, 
e esse ser quem reinar em Geall. A espada  conservada no grande salo, para que todos possam v-la, at que o rei morre. E de novo se repete o ritual, gerao 
aps gerao.
      Enxugou o suor da testa.
      -Moira no tem irmos nem irms. Ela  a que deve governar.
      Hoyt, intrigado, deixou de trabalhar um momento para olhar a Larkin.
      -E se ela no consegue tirar a espada da pedra, a responsabilidade recair sobre voc?
      -Olhe, me livre disso! -exclamou Larkin com sentimento-. No tenho nenhum desejo de governar.  um maldito chateio, se quer saber. Bom, j est preparado, 
no acha? -Escova o flanco do cavalo-.  um diabo muito bonito, essa  a verdade. Necessita exerccio. Um de ns deveria dar um passeio. 
      -Hoje no, mas tem razo. Precisa correr. Ainda assim, o cavalo  de Cian, de modo que  ele quem deve decidir.
      Aproximaram-se da porta do estbulo e, como tinham feito antes, saram juntos.
      -Por ali - indicou Hoyt - havia um jardim de ervas aromticas e possivelmente ainda exista. Ainda no reconheci essa parte do terreno.
      -Moira e eu o temos feito. No vimos nenhum jardim.
      -Daremos uma olhada de qualquer modo.
      Saltou do teto do estbulo to rapidamente que Hoyt no teve tempo nem de tirar a espada. Por sorte, a flecha o alcanou no corao enquanto ainda estava no 
ar.
      Suas cinzas voaram ao vento enquanto um segundo saltava a sua vez. Uma segunda flecha deu no alvo.
      -Poderia deixar um para os outros! -gritou Larkin a Moira.
      Ela estava de p, na porta da cozinha, e tinha uma terceira flecha preparada no arco.
      -Ento pode se encarregar do que chega pela esquerda.
      -Para mim -gritou Larkin ao Hoyt.
      Dobrava-o em tamanho e Hoyt tentou protestar, mas Larkin j estava atacando. As folhas de ao chocaram e ressonaram. Por duas vezes viu que aquela coisa retrocedia 
quando a cruz que Larkin levava no pescoo brilhava ante ele. Mas tinha uma espada muito longa.
      Quando Hoyt viu que Larkin escorregava na erva molhada, lanou-se para frente. Volteou a espada para o pescoo da criatura... e encontrou ar.
      Larkin se levantou de um salto e lhe cravou limpamente a estaca no peito.
      -S estava tentando que perdesse o equilbrio.
      -Muito bem feito.
      -Pode haver mais.
      - possvel -conveio Hoyt-. Mas faremos o que viemos fazer.
      -Eu protegerei suas costas e voc a minha. Deus sabe que Moira protege os dois. Isto o machucava -acrescentou, tocando a cruz de prata-. Em qualquer caso lhe 
causava problemas.
      -Podem nos matar, mas no podero nos transformar enquanto levemos as cruzes.
      -Ento eu diria que tm feito um bom trabalho.
            
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 13      
      
      J no havia nenhum jardim de ervas aromticas, com seu tomilho trepador e seu fragrante romeiro. O bonito jardim que sua me tinha cuidado com tanto esmero 
se converteu em um espao ligeiramente ondulado coberto de grama. Seria um lugar ensolarado quando o cu se limpasse, ele sabia. Embora no estivesse imediatamente 
fora da cozinha, como tivesse sido mais conveniente, sua me o tinha escolhido para que suas ervas pudessem desfrutar da luz do sol.
      Quando era pequeno, tinha aprendido de sua me tudo o que sabia das ervas, de seus usos e sua beleza. Sentado junto a ela enquanto semeava, podava e colhia, 
tinha-o ensinado seus nomes e propriedades. Ele tinha aprendido s identificar por seus aromas e as formas de suas folhas, pelas flores que brotavam delas se sua 
me permitia.
      Quantas horas tinha passado ali com ela, trabalhando a terra, falando ou simplesmente sentado em silencio para desfrutar das mariposas e o zumbido das abelhas?
      Aquele tinha sido seu lar, pensou Hoyt, mais que qualquer outro.
      Mal tinha se transformado em um homem e encontrado seu lugar no escarpado do que hoje se chamava Kerry. Tinha construdo ali sua cabana de pedra e encontrado 
a solido que necessitava para sua prpria colheita, para sua magia. Mas sempre tinha retornado a seu lar. E sempre tinha encontrado prazer e quietude com sua me 
justamente ali, em seu jardim de ervas.
      Agora se encontrava de p onde uma vez tinha estado o jardim, lamentando-se e recordando. Uma chama de ira se acendeu dentro dele para seu irmo por permitir 
que desaparecesse.
      -Era isto o que estava procurando? -Larkin estudou a erva, logo seguiu a direo de seu olhar para as rvores atravs da chuva.
      Hoyt ouviu um som e se voltou junto a Larkin. Glenna se aproximou deles com uma estaca na mo e uma faca na outra. A chuva posava em seu cabelo como se as 
gotas fossem jias diminutas.
      -Deveria ficar dentro da casa. Poderia haver mais.
      -Se os houver, agora somos trs. -Glenna fez um gesto com a cabea em direo  casa-. Cinco j que Moira e King esto nos cobrindo.
      Hoyt deu uma olhada. Moira estava na janela mais prxima, a flecha na corda e o arco apontando para baixo. Na porta da esquerda viu King, com uma espada longa 
de dois fios nas mos.
      -Isso deveria bastar. -Larkin sorriu a sua prima. -Tome cuidado de no nos cravar uma flecha no trazeiro.
      -S se apontar para esse lugar -respondeu ela.
      Glenna, que estava junto a Hoyt, examinou o terreno.
      -Estava aqui? O jardim?
      -Estava. Estar.
      Passava algo mau, muito mau, para que Hoyt tivesse essa expresso to dura.
      -Tenho um conjuro rejuvenescedor. Tive xito com ele curando algumas plantas -disse ela.
      -No o necessitarei para isto.
      Ato seguido, cravou a espada na terra molhada para poder ter as mos livres.
      Ento pde v-lo exatamente como tinha sido, e poliu essa imagem em sua mente enquanto estendia os braos e abria as mos. Aquilo, ele sabia bem, nasceria 
de seu corao tanto como de sua arte. Seria uma comemorao a quem lhe tinha dado a vida.
      E por isso mesmo seria doloroso.
      -De semente a folha, de folha a flor. Terra, sol e chuva. Recorda.
      Seus olhos trocaram e seu rosto pareceu de repente esculpido em pedra. Larkin foi dizer algo mas Glenna apoiou um dedo sobre seus lbios para que guardasse 
silncio. Ela sabia que nesse momento s deviam ouvir a voz e as palavras de Hoyt. O poder j estava espessando o ar.
      Glenna no pde recorrer  visualizao porque Hoyt no lhe havia descrito o jardim, mas podia concentrar-se nas fragrncias. Romero, lavanda, salvia.
      Hoyt repetiu o conjuro trs vezes enquanto seus olhos se obscureciam cada vez mais e sua voz se elevava com cada uma das repeties. Sob seus ps a terra comeou 
a tremer ligeiramente.
      O vento comeou a levantar-se, logo girou e logo soprou com fora.
      -Se levante! Retorna. Cresce e floresce. Presente da terra, dos deuses. Para a terra, para os deuses. Airmed6, OH, antiga deusa, libera sua generosidade. Airmed, 
dos Tuatha D Danann, alimenta esta terra. Deixa que retorne como uma vez foi.
      Seu rosto estava plido como o mrmore, seus olhos escuros como o nix. E o poder flua dele para o interior da terra trmula.
      Esta se abriu.
      Glenna ouviu como Larkin continha o flego, ouviu seus prprios batimentos do corao retumbando em seus ouvidos. As plantas se elevaram, as folhas se abriram, 
os casulos estalaram. A excitao se apoderou dela, fazendo que se pusesse a rir de puro prazer.
      Salvia prateada, lustrosas agulhas de romeiro, tapetes de tomilho e camomila, louro e arruda, delicados dardos de lavanda e muitas mais ervas brotavam da terra 
sob a chuva.
      O jardim descrevia um n celta, comprovou Glenna, com estreitos laos e atalhos para facilitar o recolhimento.
      Quando o vento desapareceu, quando a terra serenou, Larkin deixou escapar o ar com um assobio.
      -Bom, esta sim que  uma curiosa forma de cultivar a terra.
      Glenna apoiou uma mo sobre o ombro de Larkin.
      - maravilhoso, Hoyt.  um dos atos de magia mais belos que vi em minha vida. Bendito seja.
      Hoyt extraiu a espada da terra. O corao, que tinha aberto para obrar a magia, doa-lhe como se estivesse ferido.
      -Agarra tudo o que necessite, mas se apresse. J estivemos fora muito tempo.
      Ela utilizou a faca e trabalhou com eficcia e rapidez, embora tivesse desejado atrasar-se, desfrutar do trabalho.
      As fragrncias a rodeavam, e sabia que o que estava recolhendo seria inclusive mais potente graas  forma em que tinha aparecido na terra.
      O homem que a tinha acariciado aquela noite, que a tinha tomado essa mesma manh, possua mais poder que ningum que ela nunca tivesse conhecido. E que qualquer 
um que tivesse imaginado.
      -Isto  algo que sinto falta na cidade -disse ela-. Tenho um monte de vasos de barro nas janelas, mas no  o mesmo que a jardinagem autntica.
      Hoyt no disse nada, simplesmente a olhou: o cabelo brilhando sob a chuva, as mos finas trabalhando entre as ervas. Sentiu algo em seu corao, s um pequeno 
belisco.
      Quando Glenna se levantou, com os braos cheios de ervas e os olhos reluzentes ante tanta maravilha, esse mesmo corao golpeou ligeiramente contra seu peito 
e quase deixou de pulsar, como se tivesse sido atravessado por uma flecha.
      Enfeitiado, pensou Hoyt. Tinha-lhe enfeitiado. A magia de uma mulher aponta sempre primeiro ao corao.
      -Posso preparar muitas coisas com esta quantidade de ervas. - Jogou a cabea para trs para afastar o cabelo molhado de seu rosto-. E ficar bastante para 
alinhar uma boa sopa para o jantar.
      -Ento ser melhor que o levemos para dentro. Temos movimento pelo oeste. -Larkin assinalou por volta da borda ocidental do bosque-. Por agora s esto vigiando.
      Enfeitiado, pensou novamente Hoyt enquanto se voltava para a direo que assinalava Larkin, tinha esquecido sua vigilncia; enfeitiado por Glenna.
      -Conto meia dzia -continuou dizendo Larkin com voz fria e serena-. Embora possa haver mais atrs. Confiando em nos atrair com um chamariz para que os persigamos. 
De modo que certamente haver mais esperando para nos atacar se nos aproximarmos deles.
      -Por esta manh j temos feito tudo o que precisvamos -comeou a dizer Hoyt, e logo pareceu pens-lo melhor-, mas  melhor que no pensem que nos obrigaram 
a retornar  casa. Moira - acrescentou, elevando a voz para que ela pudesse lhe ouvir. -pode alcanar algum deles desta distncia?
      -Qual prefere?
      Hoyt, divertido, deu de ombros.
      -Deixo-o a sua escolha. Vamos lhes dar um pouco em que pensar.
      Mal tinha pronunciado a ltima palavra quando uma flecha saiu voando, e logo a segunda, to depressa que acreditou que o tinha imaginado. Ouviram-se dois gritos, 
a gente fundindo-se com o outro. E ali onde havia seis daquelas criaturas, agora ficavam s quatro... que fugiram a ocultar-se entre as rvores do bosque.
      -Dois menos lhe daro mais que um pouco em que pensar. -Com um sorriso turvo, Moira preparou outra flecha-. Posso lanar um par de flechas para o bosque e 
os obrigar a retroceder ainda mais se quiser.
      -No esbanje as flechas.
      Cian apareceu na janela, atrs dela. Estava desgrenhado e parecia irritado. Moira se afastou automaticamente.
      -No se esbanjam se alcanarem o alvo.
      -J tero partido por agora. Se estavam aqui para algo mais que nos chatear, teriam atacado enquanto nos superavam em nmero.
      Cian passou junto a ela e saiu pela porta lateral.
      -J passou sua hora de dormir, no ? -disse Glenna.
      -Eu gostaria de saber quem poderia dormir com toda esta baderna. Parecia um fodido terremoto. -Examinou o jardim -Isto  obra sua, suponho -disse a Hoyt.
      -No. -A amargura de sua ferida interna se fez evidente-. De minha me.
      -Bem, a prxima vez que tenha inteno de se dedicar ao paisagismo, me avise, assim no terei que me perguntar se a casa est caindo em cima de minha cabea. 
Quantos matou?
      -Cinco. Moira acabou com quatro deles. -Larkin embainhou a espada-. O outro foi meu.
      Cian olhou para a janela.
      -A pequena rainha est aumentando o marcador.
      -Queramos examinar o terreno e atender seu cavalo - disse Larkin.
      -Sinto-me agradecido por isso.
      -Estava pensando que poderia tir-lo um momento a galopar de vez em quando, se no se importar.
      -No me importa e Vlad gostaria.
      -Vlad? -repetiu Glenna.
      - s uma brincadeira pessoal. Se a emoo j se acabou, voltarei para cama.
      -Tenho que falar contigo. -Hoyt esperou que Cian o olhasse-. Em particular.
      -E esta conversa em particular requer que fiquemos sob a chuva?
      -Caminharemos.
      -Como queira. -Depois olhou Glenna e sorriu-. Est muito bonita esta manh.
      -E molhada. H muitos lugares secos e privados dentro de casa, Hoyt - disse ela.
      -Prefiro estar fora.
      Houve um momento de incomodo silncio.
      - um pouco lento, Glenna. Ela est esperando que a beije -prosseguiu dirigindo-se agora a Hoyt-, desse modo se preocupar menos se lhe cortarem o pescoo 
por se empenhar em caminhar sob a chuva.
      -Volta dentro. -Embora no se sentia absolutamente cmodo com a exibio pblica, Hoyt agarrou o queixo de Glenna com sua mo e a beijou levemente nos lbios-. 
Estarei bem.
      Larkin voltou a tirar a espada e a ofereceu a Cian.
      - melhor estar armado.
      -Sbias palavras. -Depois o vampiro se inclinou e deu um beijo rpido arrogante em Glenna-. Eu tambm estarei bem.
      Ambos os irmos caminharam em silncio e sem indcio da camaradagem que Hoyt recordava que tinham compartilhado em outro tempo. Um tempo, pensou, em que eram 
capazes de saber o que o outro pensava sem necessidade de palavras. Agora os pensamentos de seu irmo eram hermticos para ele, do mesmo modo que imaginava que os 
seus eram para Cian.
      -Conservou as rosas, mas deixou morrer o jardim de ervas aromticas. Esse jardim era um dos grandes prazeres de nossa me.
      -As roseiras foram substitudas no recordo quantas vezes desde que adquiri este lugar. Mas as ervas tinham desaparecido j antes que comprasse a propriedade.
      -No  uma propriedade como esse lugar que tem em Nova Iorque.  nosso lar.
      - para voc. -A ira de Hoyt rodou pelas costas de Cian igual  chuva-. Se esperas mais do que posso ou quero dar, viver em um estado de decepo permanente. 
 meu dinheiro o que comprou esta terra e a casa que se levanta sobre ela,  meu dinheiro que mantm a ambas. Acreditava que esta manh estaria de melhor humor, 
depois de ter pulado com essa bonita bruxa ontem  noite.
      -Tome cuidado por onde pisa -disse Hoyt.
      -Tenho boa base. -E no pde resistir a pisar em um terreno ainda mais delicado-. Ela  sem dvida uma magnfica mulher, mas tenho alguns sculos mais de experincia 
que voc com as mulheres. H algo mais que luxria nesses assombrosos olhos verdes. Ela pode ver o futuro atravs deles. E me pergunto o que far voc a respeito.
      -No  teu assunto.
      -No mnimo, mas resulta entretido especular, especialmente quando, como neste momento, no tenho uma mulher que me distraia. Ela no  uma garota fcil de 
povoado que se contente com uma queda no palheiro e uma bagatela. Glenna querer e esperar muito mais de voc, como tendem a faz-lo as mulheres, especialmente 
as mulheres inteligentes.
      Cian elevou a vista instintivamente, comprovando o manto de nuvens cinza. O clima irlands era enganoso, sabia, e o sol podia decidir-se a aparecer junto  
chuva.
      -Acredita que se conseguir sobreviver estes trs meses e satisfazer a seus deuses, poderia lhes pedir o direito de lev-la de volta contigo?
      -Por que se importa com isso?
      -Nem todo mundo faz perguntas por que lhe importem as respostas.  capaz de imagin-la, encerrada em sua cabana de pedra, nos escarpados do Kerry? Sem eletricidade, 
sem gua corrente, sem nenhuma Saks7  volta da esquina. Preparando-lhe o jantar em uma panela sobre o fogo, reduzindo provavelmente sua expectativa de vida na metade 
por causa de cuidados mdicos e m nutrio. Mas bom, tudo que seja por amor.
      -O que sabe voc disso? -perguntou Hoyt bruscamente-. Voc no  capaz de amar.
      -OH, nisso se equivoca. Os de minha espcie podem amar profundamente, com desespero at. E sem dvida tambm de um modo imprudente, algo que aparentemente 
voc e eu temos em comum. De modo que no a levar de volta contigo, porque isso seria algo muito egosta de sua parte. E voc  muito bom, muito puro para isso. 
E tambm desfruta muito com o papel de mrtir. Deixar Glenna aqui para que se consuma por voc. Eu poderia me divertir lhe oferecendo um pouco de consolo e, considerando 
que nos parecemos muito, arrumado que ela aceitaria. E a mim tambm.
      O golpe o fez retroceder uns passos, mas no o derrubou. Notou o sangue, seu maravilhoso sabor, logo passou a mo pela boca ensangentada. Havia-lhe custado 
muito menos do que supunha provocar seu irmo.
      -Bem, fazia tempo que isto deveria vir, para os dois. -Lanou a espada a um lado, como o tinha feito Hoyt-. Vamos l ento.
      O punho de Cian se moveu to rpido que foi apenas uma mancha... uma mancha cheia de estrelas que estalaram diante dos olhos de Hoyt, convertendo seu nariz 
em um fornecedor de sangue. Logo ambos carregaram um contra o outro como aretes.
      Cian recebeu um golpe nos rins e outro que lhe fez zumbir os ouvidos. Tinha esquecido que Hoyt era capaz de brigar como um autntico demnio quando o provocavam. 
Ele lanou um golpe curto e alcanou Hoyt no abdmen, derrubando-o. Mas tambm ele se encontrou sentado no cho quando seu irmo o golpeou com ambas as pernas.
      Poderia haver se levantado em um abrir e fechar de olhos e acabar com aquela briga, mas tinha o sangue quente e preferia a luta corpo a corpo.
      Agora ambos rodaram sobre a erva, lanando golpes e maldies enquanto a chuva lhes empapava a roupa. Cotovelos e punhos golpeavam a carne, chocavam-se contra 
os ossos.
      Ento Cian retrocedeu com um vaio e um brilho de suas presas. Hoyt viu a marca da queimadura na mo de seu irmo, com a forma de sua cruz.
      -Que me fodam -murmurou Cian, enquanto lambia a queimadura e o sangue-. Aparentemente necessita uma arma para me vencer.
      -Sim, que o fodam. E no necessito nada mais que meus punhos.
      Hoyt se levou a mo  corrente e esteve a ponto de arranc-la. Logo deixou correr ao compreender a enorme estupidez que estava a ponto de cometer.
      -Isto  genial, no ? -Hoyt cuspiu as palavras e um pouco de sangue junto com elas-. Isto est muito bem. Brigando como dois ratos guias de rua e nos expondo 
assim frente a algo que queira nos atacar. Se algum deles tivesse estado perto, agora estaramos mortos.
      -Eu j estou... fala por si mesmo.
      -No  isto o que quero, me atar a golpes contigo. -Embora a vontade de briga ainda estivesse em seu rosto enquanto limpava o sangue da boca. - No tem nenhum 
sentido.
      -Entretanto, esteve bem.
      Hoyt sentiu uma pontada no lbio inchado e lhe doa o bordo da tmpora.
      -Sim, esteve bem, essa  a verdade. Mrtir e puro, e uma merda.
      -Sabia que isso chegaria fundo.
      -Sempre soube como chegar ali. Se no pudermos ser irmos, Cian, o que  o que somos?
      Cian se sentou na terra, sacudindo com ar ausente as ervas e as manchas de sangue da camisa.
      -Se conseguir a vitria, partir dentro de uns meses. E se no, verei-o morrer. Sabe quantos vi morrer?
      -Se o tempo estiver curto, deveria ser ainda mais importante.
      -Voc no sabe nada sobre o tempo. -Cian se levantou-. Quer caminhar? Vem ento e aprende algo sobre o tempo.
      Ps-se a andar pela erva empapada e Hoyt se viu obrigado a apertar o passo para alcan-lo.
      -Ainda te pertence? O terreno?
      -A maior parte. Algumas terras foram vendidas faz uns sculos e outras foram tomadas pelos ingleses, durante uma de suas guerras, e entregues aos cupinchas 
do Cronwell.
      -Quem  Cronwell?
      -Era. Um autntico bode que dedicou tempo e esforo a queimar e assolar a Irlanda para a famlia real britnica. Polticos e guerras, parece que deuses, seres 
humanos e demnios no podem prescindir de tudo isso. Convenci o filho de um desses homens para que, depois de que herdasse as terras, vendesse-me isso. A bom preo.
      -Convenceu-lhe? Matou-o quer dizer.
      -E se o fiz? -disse Cian com voz cansada-. Foi h muito tempo.
      - assim que tem feito sua fortuna? Matando?
      -Tive mais de novecentos anos para encher meus cofres e o tenho feito de diferentes maneiras. Eu gosto do dinheiro e sempre tive cabea para os negcios.
      -Sim, isso  verdade.
      -A princpio houve anos de vacas magras. Dcadas deles, mas consegui super-lo. Viajei.  um mundo enorme e fascinante, e eu gosto de possuir partes dele. 
Por isso me preocupa a idia de que Lilith queira representar seu prprio Cronwell.
      -Protege seu investimento -disse Hoyt.
      -Fao-o. Seguirei fazendo. Ganhei o que tenho. Falo quinze idiomas... uma vantagem muito til no mundo dos negcios.
      -Quinze? -Agora o passeio e a conversa eram mais fceis-. Lembro que inclusive era capaz de massacrar o latim.
      -Nada como o tempo para aprender e mais ainda gozar de seus frutos. Desfruto muito disso.
      -No te entendo. Ela tirou sua vida, sua humanidade.
      -E me concedeu a eternidade. Apesar de que no me sentir particularmente agradecido, j que no o fez em meu benefcio, no vejo que sentido pode ter passar 
essa eternidade lamentando-se por isso. Minha existncia  longa, e isto  em troca do que tm voc e os de sua espcie. -E Cian assinalou uma tumba-. Um punhado 
de anos e logo nada mais que terra e p.
      Havia umas runas de pedra cobertas de trepadeiras cheias de espinhos e bagos negros. A parede do fundo ainda permanecia em p, e acabava em uma espcie de 
pico. Tinham gravado algumas figuras nela como em um marco, mas o tempo e a intemprie haviam tornado a deixar a superfcie da pedra quase lisa.
      Algumas flores, inclusive pequenos arbustos, abriam passagem atravs das gretas com seus casulos roxos que venciam sob o peso da chuva.
      -Uma capela? Nossa me sempre falava de construir uma.
      -E construiu -confirmou Cian- Isto  tudo o que fica dela. E deles, e de todos os que chegaram depois. Lpides mofo e matas.
      Hoyt se limitou a menear a cabea. As grandes lpides tinham sido cravadas na terra ou apoiadas sobre ela para assinalar o lugar onde descansavam os mortos. 
Agora se moveu entre elas, sobre o terreno irregular onde o cho tinha sido levantado uma e outra vez, com as ervas altas reluzentes sob a chuva.
      A igual  escrita gravada nas runas da capela, as palavras esculpidas nas lpides quase tinham desaparecido, e as pedras estavam cobertas de mofo e lquen. 
Em algumas alcanou ler o que tinha escrito sobre elas, nomes que no conhecia. Michael Thomas McKenna, amado marido de Alice. Abandonou esta terra em 6 de maio 
de 1825. E Alice, que tinha se reunido com ele seis anos mais tarde. Seus filhos, um dos quais tinha abandonado o mundo apenas uns dias depois de ter chegado a ele, 
e trs mais.
      Este Thomas e essa Alice tinham vivido e morrido, sculos depois que ele nascesse, e quase dois sculos antes que ele estivesse ali, lendo seus nomes.
      O tempo era fluido, pensou, e muito frgeis aqueles que passavam por ele.
      Havia cruzes e lpides redondas cadas. Em alguns lugares cresciam jardins cobertos de ervas daninhas em cima das tumbas, como se estivessem cuidados por fantasmas 
indolentes. E pde sentir esses fantasmas com cada passo que dava.
      Uma roseira cheia de casulos vermelhos crescia luxuriosamente atrs de uma lpide no mais alta que seus joelhos. Suas ptalas brilhavam como o veludo. Foi 
um golpe rpido ao corao, uma dor surda retumbada atrs.
      Hoyt soube que estava ante a tumba de sua me.
      -Como morreu?
      -Seu corao se deteve.  a forma habitual.
      Hoyt apertou os punhos.
      -Como pode ser to frio, inclusive aqui, inclusive agora?
      -Alguns disseram que foi a tristeza que a matou. Possivelmente foi assim. Ele partiu primeiro. -Cian fez um gesto por volta de uma segunda lpide. -Umas febres 
o levaram ao redor do equincio, o outono depois que... eu fosse. Ela o seguiu trs anos depois.
      -E nossas irms?
      -Ali. Esto todas ali. -Fez um gesto para um grupo de lpides-. E as geraes que as seguiram, as que ficaram aqui, em todo caso. Houve uma terrvel fome e 
a terra se apodreceu. As pessoas morriam como moscas ou se lanavam a Amrica, a Austrlia, a Inglaterra, a qualquer parte menos ficar aqui, onde havia sofrimento, 
dor, peste, pilhagem. Morte.
      -E Nola?
      Cian ficou calado durante um momento, logo continuou falando com um tom de deliberada indiferena.
      -Viveu at passar os setenta anos; teve uma vida boa e longa para uma mulher nesses tempos, para o ser humano. Teve cinco filhos. Ou talvez fossem seis.
      -Foi feliz?
      -Como poderia sab-lo? -respondeu Cian com impacincia. -Nunca voltei a falar com ela. Eu no era bem-vindo na casa que agora  minha. Por que ia ser?
      -Ela disse que eu retornaria.
      -Bom, tem-no feito, no  assim?
      O sangue de Hoyt estava morno agora, e logo estaria frio.
      -No h nenhuma tumba para mim aqui. Se voltar, haver uma? Trocar acaso o que h aqui?
      -Um paradoxo. Quem pode dizer? Em qualquer caso, esfumou-se ou, ao menos, isso era o que se dizia. Dependia da verso.  uma espcie de lenda nesta parte do 
pas. Hoyt de Clare, embora Kerry tambm o reclame como patrimnio deles. Sua cano e sua histria no alcanam  altura de um deus, nem sequer a de Merlin, mas 
tem uma nota em alguns guias de viagem. O crculo de pedras que se encontra ao norte daqui, que voc usava, hoje atribui a voc e se chama o baile de Hoyt.
      Hoyt no sabia se sentir-se adulado ou incmodo.
      -Esse lugar  o Baile dos Deuses e estava aqui muito antes que eu nascesse.
      -Isso  o que acontece a verdade quando a fantasia  mais luminosa. Recorda as cavernas que havia debaixo dos escarpados onde me jogou no mar? Conta-se que 
voc jaz ali, enterrado profundamente sob as rochas, protegido pelas fadas, debaixo da terra da que chamou o raio e ao vento.
      -Tolices.
      -Uma divertida reclamao da fama.
      Nenhum dos dois disse nada durante um momento, simplesmente permaneceram ali, dois homens de assombrosa semelhana fsica no mundo chuvoso dos mortos.
      -Se eu tivesse ido contigo aquela noite, como me pediu que fizesse, se tivesse cavalgado a seu lado at a estalagem no povoado. Um gole e uma queda... -Hoyt 
sentiu a garganta quente enquanto recordava-. Mas tinha trabalho e no queria companhia. Nem sequer a sua. S que se tivesse acompanhado-o, nada disto teria acontecido.
      Cian passou a mo pelo cabelo molhado.
      -Joga um grande peso de em cima dos ombros, mas bom, sempre o fez. Se aquela noite me tivesse acompanhado ao povoado,  provvel que ela tivesse pegado a ambos... 
ou seja que  verdade, nada disto teria acontecido.
      Cian viu algo no rosto de Hoyt que fez que voltasse a lhe invadir a fria.
      -Acaso pedi que se sinta culpado? No foi meu guardio ento e no o  tampouco agora. Estou aqui, como estive faz sculos e, deixando de lado a m sorte, 
ou minha prpria estupidez por permiti-lo me arrastar a esta loucura e o grave risco de que me atravessem o corao com uma estaca, aqui seguirei durante muitos 
sculos mais. Enquanto voc, Hoyt, ser alimento para os vermes. De modo que, a qual dos dois acha que sorriu o destino?
      -Que valor tem meu poder se no for capaz de mudar aquela noite, aquele nico momento? Tivesse ido contigo ao povoado. Teria morrido por voc.
      Cian elevou a cabea subitamente e em seu rosto se notava a mesma ira que tinha mantido durante a briga.
      -No carregue sua morte ou seus remorsos sobre meus ombros.
      Mas nas palavras de Hoyt no havia indcio de ira quando prosseguiu:
      -E voc teria morrido por mim, por qualquer deles. -E abriu os braos para abranger as tumbas.
      -Uma vez.
      - a metade de mim. Nada do que , nada do que ocorreu pode trocar isso. Voc sabe to bem como eu. Inclusive alm do sangue, alm dos ossos, debaixo de tudo 
isso somos o que sempre fomos.
      -Eu no posso existir neste mundo sendo isto -disse Cian.  Agora a emoo era evidente em seu rosto, em sua voz-. No posso sentir pena pelo que sou, ou por 
voc... Ou por eles. E maldito seja por me haver trazido novamente aqui.
      -Te amo. Esta ligado a mim.
      -O que voc ama desapareceu.
      No, pensou Hoyt. Nesse momento estava vendo o corao de seu irmo. Podia v-lo nas rosas que tinha plantado sobre a tumba de sua me.
      -Est aqui comigo e com os espritos de nossa famlia. No mudaste tanto quanto acredita Cian, ou no teria feito isto. -Acariciou as ptalas de uma rosa-. 
No poderia hav-lo feito.
      De repente os olhos de Cian se voltaram intemporais, cheios de tormento de sculos.
      -Vi a morte. Milhares e milhares de vezes. Velhice e enfermidade, assassinatos e guerras. Mas no vi as suas. Isto  quo mnimo podia fazer por eles.
      Quando Hoyt moveu a mo, as ptalas de uma rosa muito amadurecida caram e se pulverizaram sobre a tumba de sua me.
      -Foi suficiente.
      Cian olhou a mo que Hoyt lhe estendia. Suspirou uma vez, profundamente.
      -Bom, malditos sejamos os dois ento -disse e estreitou a mo de seu irmo-. J estamos fora muito tempo, no tem sentido que sigamos tentando  sorte. E quero 
voltar para minha cama.
      Puseram-se a andar de retorno por onde tinham vindo.
      -Sente falta do sol? -perguntou Hoyt-. Caminhar sentindo seu calor no rosto?
      -Tm descoberto que produz cncer de pele.
      -OH. -Hoyt pensou nisso-. Mesmo assim, o calor do sol em uma manh de vero.
      -No penso nisso. Eu gosto da noite.
      Possivelmente no era o momento de pedir a Cian que lhe permitisse praticar uma pequena sangria experimental.
      -O que faz nesse negcio que tem? E com seu tempo livre? Voc...
      -Fao o que gosto. Eu gosto de trabalhar,  gratificante. E faz que o jogo seja mais atraente. E no  possvel se pr a par de vrios sculos durante um passeio 
matinal sob a chuva, embora estivesse disposto a faz-lo. -apoiou a espada sobre o ombro-. Mas em qualquer caso, provavelmente se inteiraria de sua morte atravs 
dessa histria e deixaria ento de me fazer perguntas.
      -Sou feito de uma madeira mais forte do que acredita -respondeu Hoyt alegremente-, como demonstrei faz um momento, quando te parti a cara. Tem um bonito machucado 
no queixo.
      -Ir mais rpido que em voc, a menos que essa bruxa intervenha outra vez. Em qualquer caso, eu me contive.
      - uma merda.
      As sombras que sempre caam sobre Cian quando visitava aquele cemitrio comearam a dissipar-se.
      -Se me tivesse empregado a fundo contigo, agora estaramos cavando uma tumba ali.
      -Voltemos a tent-lo ento.
      Cian olhou seu irmo. As lembranas, o prazer que emanava destes, reprimidos durante tanto tempo, voltaram para ele.
      -Em outro momento. E quando tiver acabado contigo no poder se levantar para se deitar com a ruiva.
      Hoyt sorriu.
      -Te senti saudades.
      Cian olhou para a casa que aparecia entre as rvores.
      -O fodido de todo este assunto  que eu tambm senti sua falta.
            
          
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 14
      
      Com um arco armado e preparado a seu lado, Glenna vigiava da janela da torre. Tinha considerado o fato de que tinha muito pouca prtica com a arma em particular 
e que sua pontaria podia ser muito seriamente questionada, mas no podia ficar simplesmente sentada ali. Desarmada e retorcendo as mos, como uma mulher indefesa.
      Se o fodido sol sasse de uma maldita vez no teria do que preocupar-se. Mais que isso pensou com um ligeiro sussurro de ira, se os meninos McKenna no tivessem 
sado a passeio -obviamente para brigar em particular- ela no teria agora na cabea essas imagens nas que ambos eram feitos pedaos por uma manada de vampiros.
      Manada? Rebanho? Bando?
      O que importava? Chamasse como chamasse, essas coisas seguiam tendo presas e uma fodida atitude.
      Aonde tinham ido? E por que tinham permanecido fora, expostos e vulnerveis, durante tanto tempo?
      Talvez o rebanho/manada/bando j os tivesse despedaado e arrastado seus corpos mutilados... E, OH, Deus, oxal pudesse apagar o vdeo de sua cabea durante 
cinco fodidos minutos.
       maioria das mulheres s se preocupava que seu homem pudesse ser atacado, ou atropelado por um nibus. Mas, OH, no, ela tinha que enredar-se com um tipo 
que estava em guerra com uns seres malignos que adoravam chupar sangue.
      Por que no podia haver-se apaixonado por um agradvel contador ou de um bonito agente da bolsa?
      Tinha pensado empregar suas habilidades e a bola de cristal para procur-los. Mas logo decidiu que isso teria sido... invadir sua intimidade. Ofensivo portanto.
      Mas se Hoyt e Cian no retornassem em dez minutos, importaria-lhe um caralho as boas maneiras e iria procur-los.
      Ela no tinha pensado, no de tudo, no torvelinho emocional que Hoyt estava experimentando, o que estranhava e o que arriscava. Mais que o resto deles, decidiu. 
Glenna se encontrava a milhares de quilmetros de sua famlia, mas no a centenas de anos. Ele em troca estava na casa onde tinha nascido e crescido, mas j no 
era seu lar. E cada dia, cada hora, era um aviso disso.
      Ter criado novamente o jardim de ervas de sua me lhe tinha feito muito dano. Glenna teria que ter cado nisso e manter a boca fechada em relao ao que queria 
e necessitava. Deveria haver-se limitado a fazer uma fodida lista e depois sair e procurar ou comprar as provises.
      Olhou algumas das ervas que j tinha amarrado e pendurado para que se secassem. As pequenas coisas, as coisas de todos os dias, eram as que podiam provocar 
mais dano.
      Agora ele estava fora, em alguma parte, sob a chuva, com seu irmo o vampiro. Ela no acreditava que Cian fosse capaz de atacar Hoyt... ou no queria acreditar. 
Mas se Cian estava furioso, se o pressionassem muito, poderia controlar o que eram seus impulsos naturais?
      Provavelmente era uma tolice preocupar-se. Eles eram dois homens de considervel poder, homens que conheciam aquelas terras. Nenhum dos dois dependia exclusivamente 
de espadas e facas. Hoyt estava armado, e levava uma das cruzes que ambos tinham conjurado, de modo que no estava indefeso.
      E o fato de que ambos estivessem ali fora, movendo-se livremente, demonstrava um fato importante: que no poderiam os submeter a um assdio.
      Ningum mais estava particularmente preocupado. Moira tinha retornado a estudar na biblioteca. Larkin e King estavam na rea de treinamento, dedicados a fazer 
um inventrio das armas. Seguro que ela estava se preocupando com nada.
      Mas onde diabos estavam?
      Enquanto continuava vigiando o terreno viu que algo se movia. Apenas umas sombras na penumbra. Agarrou a besta, ordenou a seus dedos que deixassem de tremer 
enquanto se colocava em posio na estreita janela.
      -S respira - se disse-. S respira. Inspira, espira. Inspira, espira.
      Deixou escapar o flego com um assobio de alvio quando viu Hoyt com Cian a seu lado. Caminhando e jorrando gua como se tivessem todo o tempo do mundo e nenhuma 
preocupao.
      Arqueou as sobrancelhas quando estiveram mais perto. Era sangue o que havia na camisa do Hoyt e uma ferida recente debaixo do olho direito?
      Inclinou-se para fora e se chocou contra o parapeito de pedra. A flecha saiu disparada do arco com um som mortal. Lanou um grito. Mais tarde se odiaria por 
isso, mas aquele som de comoo e medo puramente feminino escapou de seus lbios enquanto a flecha cortava o ar e a chuva e aterrissava a poucos centmetros da ponta 
da bota de Hoyt.
      Ambos tiraram as espadas, um pilar de ao, enquanto giravam costas contra costas. Em outras circunstncias, ela sem dvida tivesse admirado esse movimento, 
a elegncia e o ritmo do mesmo, como se fosse uma coreografia. Mas nesse momento estava apanhada entre a mortificao e o horror
      -Sinto muito! Sinto muito! -inclinou-se ainda mais fora da janela e agitou freneticamente o brao enquanto gritava-. Fui eu. A flecha escapou. Eu s... -OH, 
merda-. Agora baixo.
      Deixou o arco onde estava, prometendo-se que praticaria durante uma hora antes de voltar a disparar a qualquer outra coisa que no fosse um alvo. Antes de 
pr-se a correr alcanou ouvir o som inconfundvel de umas gargalhadas masculinas. Um rpido olhar lhe confirmou que era Cian, quase dobrado em dois pela risada. 
Hoyt simplesmente olhava para a janela.
      Quando girou na curva da escada, Larkin saiu da sala de treinamento.
      -Problemas?
      -No. No. Nada. Est tudo bem. No foi nada.
      Glenna podia sentir que o sangue subia s faces enquanto corria para o trreo.
      Hoyt e Cian j entravam pela porta principal, sacudindo-se como ces encharcados ao mesmo tempo em que ela descia os ltimos degraus.
      -Sinto muito. Sinto muito.
      -Me recorde que no devo a zangar, ruiva -disse Cian-. Poderia querer me apontar ao corao e em troca me atingir as bolas.
      -S estava vigiando para ver se vinham e devo ter disparado o arco sem me dar conta. Algo que nunca teria feito se vocs no tivessem demorado tanto em retornar 
fazendo que me preocupasse dessa maneira.
      -Isso  o que eu gosto das mulheres. -Cian deu uma palmada no ombro de seu irmo-. Quase o matam, mas ao final a culpa  sua. Sorte, vou para cama.
      -Tenho que examinar suas queimaduras,
      -No, no, no.
      -O que aconteceu? Eles atacaram? Tem sangue na boca e voc tambm -disse a Hoyt-. E um olho praticamente fechado pelo inchao.
      -No, ningum nos atacou-. Em sua voz havia uma nota de exasperao-. Bom, at que voc quase me atravessa o p com uma flecha.
      -Mas tm golpes no rosto e as roupas sujas... rasgadas. Se no os atacaram... -deu-se conta ao ver a expresso de seus rostos. Depois de tudo, ela tambm tinha 
um irmo-. Brigaram? Entre vocs?
      -Ele me pegou primeiro.
      Glenna lanou a Cian um olhar que teria murchado uma pedra.
      -Muito bem, isso est muito bem, no ? No passamos j por tudo isto ontem? No falamos acaso das brigas internas, das inteis e destrutivas que so?
      -Parece-me que iremos para cama sem jantar.
      -No se faa de esperto comigo. -Cravou o indicador no peito de Cian-. Eu aqui, doente de preocupao, e vocs dois ali fora lutando como um par de estpidos 
cachorrinhos.
      -E voc quase me crava uma flecha no p - recordou Hoyt-. Acredito que por hoje estamos quase ao mesmo tempo quanto a comportamentos estpidos.
      Ela deixou escapar o ar com um vaio.
      - cozinha os dois. Encarregarei-me desses cortes e machucados... outra vez.
      -Eu vou para cama -comeou a dizer Cian.
      -Os dois. Agora. E no lhe convm discutir comigo neste momento.
      Enquanto ambos se dirigiam  cozinha, Cian esfregou brandamente o lbio partido com um dedo.
      -Passou muito tempo, mas no recordo que sentisse uma predileo especial pelas mulheres dominantes.
      -No sentia. Mas as entendo o suficiente para saber que deveramos deixar que se de bem nisto. E a verdade  que o olho est me matando. 
      Quando entraram na cozinha, Glenna estava colocando sobre a mesa tudo o que necessitava para suas curas. Tinha posto o bule a ferver e levava as mangas enroladas.
      -Quer sangue? -perguntou a Cian, com suficiente gelo nas palavras para que ele esclarecesse a garganta.
      Resultava-lhe quase assombroso sentir-se realmente compungido. Era uma sensao que no tinha experimentado em... muito tempo para record-lo. Obviamente, 
o fato de viver to estreitamente com os seres humanos no era uma boa influncia.
      -A infuso que est preparando  suficiente, obrigado.
      -Tire a camisa.
      Tinha um comentrio irnico na ponta da lngua que Glenna quase pde ver. Demonstrando que era um homem preparado, teve a prudncia de trag-lo.  
      Tirou a camisa e se sentou.
      -Tinha esquecido as queimaduras. -Agora Hoyt as examinou atentamente. J no havia bolhas e a pele tinha adquirido uma cor vermelha e desagradvel-. Se me 
tivesse lembrado -disse enquanto se sentava diante de Cian -teria dado mais golpes no peito.
      -Tpico -disse Glenna em voz baixa, e ambos a ignoraram.
      -J no briga como estava acostumado a faz-lo. Agora usa mais os ps e os cotovelos. -E Hoyt ainda podia sentir o doloroso resultado deles-. E logo est tambm 
esse salto para se levantar do cho.
      -Artes marciais. Sou faixa preta em vrias delas. Categoria Mestre -explicou Cian-. Tm que dedicar mais tempo ao treinamento.
      Hoyt esfregou as costelas machucadas.
      -Farei-o.
      "No haviam se tornado sociveis de repente?", pensou Glenna. O que era que fazia que os homens decidissem serem amigos depois de haver-se amassado mutuamente 
a cara a golpes?
      Verteu a gua em uma chaleira sobre umas ervas e, enquanto a infuso se assentava, aproximou-se da mesa com seu blsamo.
      -Eu haveria dito trs semanas para que se curassem, considerando a extenso das queimaduras. -sentou-se e passou o blsamo em seus dedos-. Retifico e digo 
trs dias.
      -Podemos ser feridos, com gravidade. Mas a menos que seja um golpe mortal, curamo-nos... e rapidamente.
      - afortunado, especialmente com esses bonitos machucados que acompanham s queimaduras. Mas no os podem regenerar -continuou Glenna enquanto aplicava o blsamo 
sobre as queimaduras-. Se, por exemplo, cortamo-lhes um brao. No voltar a lhes crescer.
      -Essa  uma idia horrvel e interessante. No. Nunca ouvi que acontecesse nada pelo estilo.
      -Ento, se no podermos lhes alcanar na cabea ou no corao, podemos ir por um de seus membros. 
      Glenna foi  pia para lavar o blsamo das mos e preparar compressas frias para os machucados.
      -Aqui tem. -Deu uma a Hoyt-. Ponha isso no olho.
      Hoyt a cheirou e logo fez o que Glenna lhe dizia.
      -No tinha que ter se preocupado.
      Cian deu um bufo.
      -Isso no esteve nada bem, Hoyt.  mais inteligente dizer." Meu amor, sentimos muito que tenha se preocupado. Fomos egostas e desconsiderados, e deveramos 
ser aoitados por isso. Confiamos que possa nos perdoar". E diz-lo marcando muito a pronncia. As pronuncias enlouquecem as mulheres.
      -E depois lhe beijar os ps, suponho -respondeu seu irmo.
      -Na verdade melhor o trazeiro. Beijar o trazeiro  uma tradio que nunca passa de moda. Precisar ter pacincia com ele, Glenna. Hoyt ainda est aprendendo.
      Ela levou a infuso  mesa e logo surpreendeu a ambos ao apoiar uma mo na face de Cian.
      -Est perdoado. Agora bebe sua infuso.
      -Assim fcil? -protestou Hoyt-. Ele recebe uma carcia na face e um beijo e j est? No foi a ele a quem estiveste a ponto de cravar uma flecha.
      -As mulheres so um mistrio permanente. -Cian falou sossegadamente-. E uma das maravilhas do mundo. Levarei a bebida para o quarto. -levantou-se-. Necessito 
roupa seca.
      -Beba tudo. -Glenna falou sem virar-se enquanto agarrava outro frasco-. O ajudar.
      -Ento farei. Faa-me saber se no aprender bem depressa para satisfaz-la. No me incomodaria ser a segunda alternativa.
      - s sua forma de ser - disse Hoyt quando Cian partiu-. Uma espcie de brincadeira.
      -Sei. De modo que se tm feito amigos de novo enquanto se moam a golpes.
      - verdade que eu o peguei primeiro. Falei-lhe de nossa me e do jardim, e ele se mostrou frio como o gelo. Embora eu pudesse ver o que ocultava debaixo dessa 
frieza, eu... bom, ataquei-o, e... depois, Cian me levou onde est enterrada nossa famlia. Isso  tudo.
      Agora Glenna se voltou e toda a pena que sentia se refletiu em seus olhos.
      -Deve ter sido muito duro para ambos estar ali.
      -Faz que para mim seja algo real. Que enquanto eu estou aqui sentado contigo eles estejam mortos, antes no parecia real. Nem possvel, nem real.
      Glenna se aproximou dele e lhe passou uma tintura pelas reas machucadas.
      -E para Cian? Ter vivido durante todo este tempo sem uma famlia  outra das crueldades que cometeram com ele. Com todos eles. No tnhamos pensado nisso, 
no , quando falamos da guerra e de como destru-los? Todos eles foram pessoas alguma vez, igual a Cian.
      -Querem nos matar, Glenna. A todos ns, face  pena que possamos sentir por eles.
      -Sei, sei. Algo os despojou de sua humanidade. Mas uma vez foram seres humanos, Hoyt, com famlias, amantes, esperanas. Ns no pensamos nisso. Talvez no 
possamos faz-lo.
      Afastou o cabelo do rosto. "Um contador agradvel -voltou a pensar-. Um agente de bolsa. Que ridculo, que ordinrio." Ela tinha ali mesmo, o maravilhoso.
      -Acredito que Cian foi posto aqui, neste caminho, para que entendssemos que o que estamos fazendo no  fcil. Para que ao acabar o dia saibamos que temos 
feito o correto, mas que no nos saia de graa.
      Ela retrocedeu e o olhou.
      -Isso teria que bastar. Agora trata de manter o rosto separado de novos punhos.
      Glenna comeou a virar-se, mas Hoyt lhe agarrou a mo, levantando-se enquanto a atraa para ele. Seus lbios se uniram aos dela com enorme ternura.
      -E voc, o destino ps aqui. Glenna, para me ajudar a entender que no se trata somente de morte, sangue e violncia. No mundo h tanta beleza, tanta bondade. 
E eu tenho tudo isso. -Envolveu-a em seus braos-. O tenho aqui mesmo.
      Ela se entregou, deixando que sua cabea repousasse sobre seu ombro. Queria perguntar o que teriam quando tudo tivesse acabado, mas sabia que era importante, 
essencial inclusive, viver somente o dia a dia.
      -Temos que trabalhar. -Glenna se afastou-. Tenho algumas idias relacionadas com a criao de uma rea de segurana ao redor da casa. Uma rea protegida onde 
possamos nos mover livremente. E acredito que Larkin tem razo quando diz que deveramos enviar exploradores. Se pudermos chegar at as cavernas durante o dia, talvez 
pudssemos descobrir algumas coisas. Inclusive poderamos colocar algumas armadilhas.
      -Vejo que sua mente esteve ocupada.
      -Preciso mant-la assim. No tenho tanto medo se estou pensando, se estou fazendo algo.
      -Ento trabalhemos.
      -Moira poderia nos ajudar uma vez que tenhamos comeado -acrescentou Glenna quando abandonavam a cozinha-. Est lendo todos os livros que pode sobre este assunto, 
de modo que ser nossa principal fonte de dados... informao -explicou-. E alm disso tambm possui certo poder. Est verde e carece de treinamento, mas a est.
            
            
            
      Enquanto Glenna e Hoyt se encerravam na torre e a casa permanecia em silncio, Moira encontrou na biblioteca um livro que tratava de temas populares relacionados 
com o demnio. Era fascinante, pensou. Havia tantas teorias e lendas diferentes. Considerou como sua tarefa principal separar a palha do trigo.
      Cian sem dvida as conheceria, ao menos algumas delas, deduziu. Sculos de existncia era um tempo mais que suficiente para aprender. E algum que enchia de 
livros uma sala daquelas dimenses sem dvida procurava e respeitava o conhecimento. Mas ainda no estava preparada para lhe perguntar, e no estava segura de se 
alguma vez estaria.
      Se Cian no era como as criaturas sobre as quais estava lendo, esses seres que procuravam o sangue humano noite aps noite -e estavam sedentos no s de sangue 
mas tambm vidos de caa-,o que era ele? Estava-se preparando para fazer a guerra contra o que ele mesmo era, e isso Moira no podia entender.
      Precisava aprender mais coisas, a respeito daquilo contra o que lutavam, a respeito de Cian, a respeito de todos os outros. Como podia entender, e depois confiar, 
em algo que no conhecia?
      Tomou notas, abundantes nota, em papel que tinha encontrado em uma das gavetas da enorme mesa. Gostava do papel e o instrumento que se utilizava para escrever. 
A pluma, corrigiu-se, que sustentava a tinta dentro de um tubo. Perguntou-se se poderia levar alguns papis e plumas de volta a Geall.
      Fechou os olhos. Sentia falta de seu lar e essa nostalgia era como uma dor constante no ventre. Tinha escrito sobre seus ltimos desejos e selado. Deixaria 
entre suas coisas para que Larkin o encontrasse se algo lhe acontecesse.
      Se morresse deste lado, queria que seu corpo fosse levado de retorno a Geall para ser enterrado ali.
      Continuou escrevendo com os pensamentos girando dentro de sua cabea. Havia um pensamento em especial ao que voltava uma e outra vez, medindo-o com cuidado. 
Tinha que encontrar alguma maneira de perguntar a Glenna se podia fazer-se, e se outros acessariam a isso.
      Haveria alguma maneira de selar o portal, de fechar a porta a Geall?
      Ouviu passos que se aproximavam e acariciou o cabo de sua faca com as pontas de seus dedos. Apartou a mo quando King entrou na biblioteca. Por razes que 
no podia identificar, sentia-se mais cmoda com ele que com os outros.
      -Tem algo contra as cadeiras, pequena?
      Ela torceu os lbios. Gostava da forma em que as palavras saam dele, como rochas caindo pela ladeira de uma colina pedregosa.
      -No, mas eu gosto de me sentar no cho.  hora de continuar com o treinamento?
      -Tomamos um descanso. -hospedou-se em uma poltrona, com uma grande caneca de caf na mo-. Larkin poderia estar treinando todo o fodido dia. Agora est l 
em cima, praticando algumas katas8.
      -Eu gosto das katas. So como danar.
      -Pois se danar com um vampiro, se assegure de que  voc quem marca o passo.
      Moira voltou ociosamente a pgina de um livro.
      -Hoyt e Cian brigaram.
      King bebeu um gole de caf.
      -Ah, sim? Quem ganhou?
      -Acredito que nenhum dos dois. Vi-os quando retornavam  casa, e por seus rostos e claudicaes, eu diria que foi um empate.
      -Como sabe que a briga foi entre eles? Talvez os atacassem.
      -No. -Percorreu as palavras escritas com os dedos-. Ouo coisas.
      -Tem as orelhas muito grandes para ser to pequena.
      -Isso me dizia minha me. Fizeram as pazes entre eles... Hoyt e seu irmo.
      -Isso elimina uma complicao... se essas pazes durarem. -Tendo em conta suas respectivas personalidades, King calculou que uma trgua entre os irmos tinha 
a mesma expectativa de vida que uma mosca fora da fruta-. Que esperas encontrar em todos esses livros?
      -Tudo. Cedo ou tarde. Sabe como apareceram os primeiros vampiros? Nos livros h diferentes verses.
      -Nunca pensei nisso.
      -Eu o fazia... fao. Uma das verses  uma histria de amor. Faz muito tempo, quando o mundo era jovem, os demnios estavam se extinguindo. Antes, muito antes 
disso, eram muitos mais. Milhares deles que viajavam pelo mundo. Mas o homem era cada vez mais forte e preparado, e o tempo dos demnios se acabava. 
      King era um homem que desfrutava das histrias, de modo que se acomodou na poltrona.
      -Uma espcie de evoluo.
      -Uma mudana, sim. Muitos dos demnios se meteram debaixo da terra, para esconder-se ou dormir. Ento havia mais magia, porque as pessoas no a rechaavam. 
Os homens e as fadas forjaram uma aliana para liberar uma guerra contra os demnios, para acabar com eles de uma vez por todas. Um deles foi envenenado e sofreu 
uma morte muito lenta. Esse demnio amava uma mulher mortal e isso era algo que estava proibido inclusive no mundo dos demnios.
      -De modo que o homem no tem a exclusividade da intolerncia. Continua -disse King quando ela fez uma pausa.
      -Assim, o demnio moribundo levou a mulher mortal de seu lar. Estava realmente obcecado com ela e seu ltimo desejo antes de morrer era acasalar-se com ela.
      -Nesse sentido no era to diferente dos homens.
      -Acredito que possivelmente todas as criaturas vivas desejam o amor e o prazer. E o ato fsico que representa a vida.
      -E os tipos querem gozar.
      Ela perdeu o fio do que estava dizendo.
      -Querem o que?
      King esteve a ponto de cuspir o caf, mas em troca se engasgou. Fez um gesto com a mo enquanto punha-se a rir.
      -No me faa conta. Acaba a histria.
      -Ah... Bom, o demnio a levou ao mais profundo do bosque e conseguiu o que queria, e ela, como uma mulher sob um feitio, queria seu contato. Ento, para tentar 
lhe salvar a vida lhe ofereceu seu sangue. Ele a mordeu e ela bebeu tambm o sangue dele, j que esse era outro tipo de acoplamento. A mulher morreu junto a ele, 
mas no deixou de existir, mas sim se converteu no que chamamos vampiro.
      -Um demnio por amor.
      -Sim, suponho que sim. Como vingana contra os homens que tinham matado seu amado, ela os caava, alimentava-se deles, os transformava, para aumentar assim 
o nmero dos de sua espcie. Mas apesar de tudo, seguia sofrendo por seu amante demnio e se matou com a luz do sol.
      -No se parece muito a Romeo e Julieta, no ?
      -Uma pea de teatro. Vi o livro aqui, em uma estante. Ainda no o li.
      Levaria anos ler todos os livros que havia naquela sala, pensou Moira enquanto brincava com a ponta de sua trana.
      -Mas tenho lido outra histria de vampiros. Fala de um demnio, doente e louco por causa de um conjuro ainda pior que ele, que procurava grosseiramente o sangue 
humano. Alimentava-se dele e quanto mais o fazia, mais louco ficava. Morreu depois de ter misturado seu sangue com a de um mortal, e esse mortal se converteu em 
um vampiro. O primeiro de sua espcie.
      -Acredito que voc gosta mais da primeira verso.
      -No, eu gosto mais da verdade, e acredito que a segunda histria  a verdadeira. Que mulher mortal poderia amar um demnio?
      -Levava uma vida protegida em seu mundo, no ? Desde onde eu venho, a gente perde a cabea pelos monstros, ou o que outros consideram monstros, todo o tempo. 
No h nenhuma lgica no amor, pequena.  assim.
      Ela jogou a trana para trs ao dar de ombros.
      -Bom, se eu amar, no ficarei estpida por isso.
      -Espero estar por aqui tempo suficiente para ver como engole essas palavras.
      Moira fechou o livro e olhou King.
      -Voc ama algum?
      -Uma mulher? Estive perto de faz-lo um par de vezes, e por isso sei que no dava no alvo.
      -Como pode sab-lo? -perguntou Moira.
      -Quando alcana o centro do alvo, pequena, j est perdido. Mas  divertido disparar para tentar alcan-lo. Necessitarei uma mulher especial para que isso 
acontea.
      King deu uns golpes no rosto com o dedo.
      -Eu gosto de seu rosto.  to grande e escuro -disse Moira.
      King ps-se a rir, to forte que esteve a ponto de derramar o caf.
      -Nisso tem razo.
      -E  muito forte. Falas bem e sabe cozinhar.  leal com seus amigos.
      Aquele rosto grande e escuro se suavizou.
      -Quer se apresentar para o posto de amor de minha vida?
      Devolveu-lhe o sorriso.
      -Acredito que no sou seu alvo. Se devo ser rainha, um dia terei que me casar, ter filhos. Espero que no seja s uma obrigao, mas sim possa encontrar o 
que minha me encontrou em meu pai. O que encontraram um no outro. Eu gostaria que fosse um homem forte e leal.
      -E bonito.
      Ela fez um pequeno gesto com os ombros, porque no esperava que fosse um homem especialmente bonito.
      -As mulheres aqui s procuram beleza?
      -No poderia diz-lo, mas  algo que nunca faz mal. Os tipos como Cian, por exemplo, tm que tir-las de cima com um pau.
      -Ento, por que est s?
      King a estudou por cima do bordo da caneca.
      -Boa pergunta.
      -Como o conheceu?
      -Cian me salvou a vida.
      Moira abraou as pernas e se acomodou. Havia poucas coisas que gostasse mais que uma histria.
      -Como foi?
      -Eu estava no lugar errado no momento errado. Um bairro perigoso no leste de Los Angeles -Bebeu outro gole de caf e encolheu levemente os ombros-. Ver, meu 
velho se largou antes que eu nascesse e minha me teve o que poderamos chamar um pequeno problema com as substncias ilegais. Overdose. Passou dos limites com a 
droga.
      -Ela morreu. -Toda ela sentia uma enorme tristeza por ele-. Sinto muito.
      -Ms escolhas, m sorte. Tem que ter em conta que algumas pessoas vm ao mundo preparadas para atirar sua vida pela privada. Ela era uma delas. De modo que 
me encontro na rua, fazendo o que posso para sobreviver, e fora do sistema. Um dia vou a esse lugar que conheo. Est escuro e faz muito calor. Eu s procurava um 
lugar onde passar a noite.
      -No tinha casa.
      -Tinha a rua. Um par de tipos esto rondando por ali, provavelmente esperando para dar um golpe. Eu preciso passar junto a eles para chegar aonde quero ir. 
Aparece um carro e comeam a disparar. Como em uma emboscada. Eu fico preso no meio do tiroteio. As balas passam roando minha cabea. A coisa fica realmente feia 
e sei que vou morrer. Ento algum me colhe com fora e me arrasta para trs. Tudo se volta impreciso, mas eu sinto como se voasse. Logo estava em outro lugar.
      -Onde?
      -Em um elegante quarto de hotel. Nunca tinha visto algo assim exceto no cinema. -Cruzou seus grandes ps calados com as botas enquanto recordava-. Uma cama 
enorme, para dez pessoas pelo menos, e eu estava deitado ali. A cabea me di horrivelmente, e s por isso no penso que estou morto e que aquilo  o cu. Esse tipo 
sai do banheiro. Tira a camisa e leva uma vendagem no ombro. Tinha recebido um balao quando estava me tirando do fogo cruzado.
      -O que fez ento?
      -No muito, suponho que estava emocionado. Ele se senta, estuda-me como se eu fosse um fodido livro. " afortunado -me diz- e estpido." Tem esse sotaque ao 
falar. Eu penso que deve ser uma estrela de rock ou algo assim. O aspecto que tem, a voz estranha. A verdade  que pensei que era um pervertido e que queria que 
eu... Digamos somente que eu estava cagado de medo. Tinha oito anos.
      -Era uma criana? -Os olhos de Moira se abriram como pratos-. No foi mais que uma criana?
      -Tinha oito anos -repetiu King-, mas se vive como eu fiz, no  uma criana durante muito tempo. Ele me pergunta que merda estava fazendo ali e eu lhe respondo 
de maus modos. Tento me tranqilizar. Ele me pergunta se tinha fome e eu respondo algo assim como que no penso... fazer nenhum favor sexual por um fodido prato 
de comida. Ento pede o jantar, bife, uma garrafa de vinho, refrigerante. E me diz que no est interessado em foder com meninos. Que se tiver algum lugar onde preferiria 
estar, deveria ir ali. Se no for assim, posso ficar e esperar que chegue o bife.
      -E voc ficou esperando que chegasse o bife.
      -Pode apostar. -deu-lhe uma piscada-. Esse foi o comeo de tudo. Ele me deu comida e tambm me deu a escolha. Eu podia retornar onde tinha estado at ento, 
no era assunto dele, ou podia trabalhar para ele. Escolhi o trabalho. No sabia que o trabalho significava ir  escola. Deu-me roupa, uma educao, dignidade.
      -Disse o que era?
      -Ento no. Embora no passou muito tempo antes que o fizesse. Eu pensava que estava louco, mas no me importava muito. Quando compreendi que estava me dizendo 
a verdade, literalmente a verdade, eu j teria feito qualquer coisa por ele. O homem que eu estava condenado a ser morreu na rua aquela noite. E ele no me transformou 
em algum como eles -prosseguiu King-. Embora seja verdade que Cian me trocou.
      -Por que o fez? Alguma vez o perguntaste?
      -Sim. E isso deveria dizer-lhe.
      Moira sentiu. Com a prpria histria j tinha bastante no que pensar.
      -O descanso terminou -anunciou King-. Podemos treinar durante uma hora e fortalecer esse trazeiro fraco que tem.
      Ela sorriu.
      -Ou podemos trabalhar com o arco e melhorar essa lamentvel pontaria que voc tem.
      -Venha espertinha. -De repente franziu o cenho e olhou para a porta-. Ouviste algo?
      -Como se algum golpeasse?
      Moira deu de ombros e, como se atrasou ordenando os livros, saiu da biblioteca depois que King o fizesse.
            
            
            
      Glenna desceu rapidamente a escada. Com o escasso progresso que estavam fazendo, podia deixar Hoyt no momento. Algum tinha que encarregar-se de preparar o 
jantar e, posto que tinha includo seu nome na lista, ela tinha sido a escolhida. Podia preparar um escabeche de frango e logo voltar para a torre a trabalhar durante 
outra hora.
      Uma boa comida melhoraria o ambiente para a reunio da equipe.
      Passaria pela biblioteca e arrancaria Moira dos livros para lhe dar uma lio de cozinha enquanto preparava o jantar. Talvez fosse sexista pr a seguir na 
lista de cozinheiros  outra nica mulher, mas tinha que comear por alguma parte.
      O golpe na porta a sobressaltou e passou uma mo nervosa pelo cabelo.
      Esteve a ponto de chamar o Larkin ou King, logo meneou a cabea. Falando de sexismo, como ia participar de uma batalha sria se nem sequer era capaz de abrir 
a porta da casa numa tarde de chuva?
      Podia tratar-se de um vizinho que se aproximou para fazer uma visita de cortesia. Ou o zelador de Cian, que ia para assegurar-se de que tinham tudo o que necessitavam.
      E um vampiro no podia entrar na casa, no podia passar da soleira a menos que o convidasse a entrar.
      Algo altamente improvvel.
      No obstante, Glenna olhou primeiro pela janela. Viu uma jovem de uns vinte anos, uma bela loira vestida com jeans e um pulver vermelho brilhante. Levava 
o cabelo recolhido em um rabo de cavalo pendurado atrs de uma boina tambm vermelha. Tinha um mapa na mo e parecia procurar a soluo de um problema enquanto mordia 
a unha do polegar.
      "Algum que se perdeu", pensou Glenna, e quanto antes conseguisse que essa garota continuasse seu caminho e se afastasse da casa, melhor para todos.
      A jovem voltou a golpear a porta quando ela se separou da janela.
      Glenna lhe abriu, cuidando de manter-se do lado de dentro da soleira.
      -Ol? Necessita ajuda?
      -Ol. Obrigado, sim. -Havia alivio na voz da jovem e um forte acento francs-. Estou, ah, perdida. Excusez moi, meu ingls no  muito bom.
      -No h problema. Meu francs  praticamente inexistente. O que posso fazer por voc?
      -Ennis? SIL vous plat? Pode me dizer voc como o caminho vai a Ennis?
      -No estou segura. Eu tampouco sou daqui. Posso dar uma olhada no mapa. -Glenna vigiou os olhos da jovem enquanto estendia a mo... com as pontas dos dedos 
de seu lado da porta-. Eu sou Glenna. Je suis Glenna.
      -Ah, oui. Je mapelle Lora. Estou de frias, estudante.
      -Isso est bem.
      -A chuva. -Lora estendeu a mo e as gotas caram sobre ela-. Estou perdida na chuva, acredito.
      -Pode acontecer a qualquer um. Vamos dar uma olhada ao mapa, Lora. Est sozinha?
      -Pardon?
      -Sozinha? Est sozinha?
      -Oui. Ms amies, meus amigos, tenho amigo no Ennis, mas virei mau. Errado?
      "OH, no -pensou Glenna-. Realmente no acredito."
      -Surpreende-me que pudesse ver a casa da estrada principal. Estamos muito retirados.
      -Sinto muito?
      Glenna sorriu.
      -Arrumado que voc gostaria de entrar e desfrutar de uma boa xcara de ch enquanto decidimos qual  o caminho que deve seguir. -Viu o brilho que acendia os 
olhos azuis da jovem-. Mas no pode, no ? No pode atravessar esta porta.
      -Je NE comprend os.
      -Aposto que sim entende, mas em caso de que meu instinto de aranha esteja me enganando hoje, tem que voltar para a estrada principal e girar  esquerda. Esquerda 
-repetiu e comeou a fazer o gesto com a mo para indicar-lhe...
      O grito do King a suas costas fez que se voltasse. Sua cabeleira revoou com o gesto e as pontas do cabelo se sobressaram mais  frente da soleira da porta. 
Sentiu uma exploso de dor quando atiraram violentamente dele, quando seu corpo saiu voando da casa e se chocou contra o cho com um rudo surdo de ossos quebrados.
      Havia dois mais que saram de alguma parte. O instinto fez que Glenna aferrasse a cruz de prata com uma mo enquanto lanava chutes em todas as direes. O 
movimento deles era como um pilar no ar e sentiu o sabor do sangue na boca.
      Viu que King atravessava a um deles com a faca, apartando o dela ao tempo que gritava que se levantasse e corresse  casa.
      Glenna ficou de p cambaleando-se, bem a tempo de ver como as criaturas rodeavam ao King. Ouviu-se gritar e pensou -esperou- escutar gritos de resposta da 
casa. Mas em todo caso chegariam muito tarde. Os vampiros estavam j em cima de King como uma matilha de ces.
      -Puta francesa -cuspiu Glenna e se lanou sobre a loira.
      Seu punho rompeu um osso, e sentiu uma enorme satisfao nisso, logo viu brotar um jorro de sangue. Ento se sentiu levada para trs uma vez mais e, quando 
lanou um novo golpe, sua viso se voltou cinza.
      Sentiu que a arrastavam e lutou. A voz de Moira ressonou em seu ouvido.
      -J a tenho. J a tenho. Est novamente dentro da casa. No se mova.
      -No. King. Eles tm King.
      Moira estava j correndo fora da casa com a adaga na mo. Quando Glenna comeou a levantar-se, Larkin saltou por cima dela e atravs da porta.
      Ajoelhou-se e logo conseguiu ficar em p. As nuseas lhe queimaram a garganta com seu gosto cido quando cambaleou para a porta.
      To rpido, pensou torpemente, como era possvel que algo se movesse to rpido? Enquanto Moira e Larkin se lanavam sobre eles, conseguiram introduzir King 
dentro de uma caminhonete negra apesar de que ele seguia lutando, e desapareceram antes que Glenna pudesse sair outra vez da casa.
      O corpo do Larkin estremeceu e se converteu em um puma. O felino saiu disparado atrs da caminhonete e se perdeu de vista.
      Glenna caiu de joelhos sobre a erva molhada em meio de intensas arcadas.
      -Entra na casa. -Hoyt a agarrou por um brao com sua mo livre. Na outra empunhava uma espada-. Dentro da casa. Glenna, Moira, entrem na casa.
      - muito tarde - gritou Glenna, enquanto lgrimas banhavam suas faces-. Tm King. -Elevou a vista e viu Cian detrs de Hoyt-. Eles o levaram. Levaram King.
            
            
            
            
            
      Captulo 15      
            
      -Entrem na casa -repetiu Hoyt. Quando comeou a arrastar a Glenna para dentro, Cian passou velozmente junto a eles e correu para o estbulo.
      -V com ele. -Glenna lutou contra o pranto e a dor-. OH, Deus, v com ele. Depressa!
      Deix-la ali, tremendo e sangrando, foi a coisa mais dura que Hoyt nunca havia feito.
      A porta do lugar onde se encontrava a mquina negra estava aberta. Seu irmo estava colocando armas em seu interior de qualquer maneira.
      -Com isto podemos agarr-los? -perguntou Hoyt.
      Cian apenas lhe dirigiu o olhar com seus olhos bordejados de vermelho.
      -Fica com as mulheres. No o necessito.
      -Necessite-me ou no, tem-me. Como demnios me coloco dentro desta coisa?
      Lutou com a porta e, quando conseguiu abri-la, instalou-se no assento.
      Cian no disse nada e deslizou atrs do volante. A mquina deixou escapar um inquietante rugido e pareceu tremer como um potro a ponto de iniciar um galope. 
Um momento depois quase voavam. Pedras e partes de terra com ervas saram disparados para o ar como msseis. Hoyt alcanou ver Glenna de p na porta, segurando o 
brao que ele temia que tivesse quebrado.
      Rezou a todos os deuses para que pudesse voltar a v-la.
      Ela o observou afastar-se e se perguntou se teria enviado seu amado  morte.
      -Agarra todas as armas que possa -- disse a Moira.
      -Est ferida. Deixa que me ocupe de voc.
      -Agarra essas armas, Moira. -voltou-se com uma expresso selvagem no rosto ensangentado. -Ou pretende que fiquemos aqui como duas meninas indefesas enquanto 
os homens lutam?
      Moira assentiu.
      -O que quer, espada ou arco?
      -Ambos.
      Glenna foi rapidamente  cozinha e procurou vrias garrafas. O brao a estava matando, de modo que fez tudo o que pde para atenuar a dor. Aquilo era a Irlanda, 
pensou sombriamente, o que significava que devia haver um monte de Igrejas. E nas Igrejas tinha que haver gua benta. Levou as garrafas  caminhonete, junto com 
uma faca de aougueiro e um feixe de estacas de jardim.
      -Glenna.
      Com um arco e uma aljava pendurados dos ombros e duas espadas nas mos, Moira se aproximou da caminhonete. Colocou as armas dentro e logo elevou uma das cruzes 
de prata por sua corrente.
      -Isto estava l em cima, na sala de treinamento. Acredito que deve ser de King. No tem nenhuma proteo.
      Glenna fechou a porta de carga.
      -Tem a ns.
            
            
            
      As colinas e as sebes no eram mais que uma mancha atravs da densa cortina cinza de chuva. Hoyt viu outras mquinas -carros, recordou a si mesmo -viajando 
pela estrada molhada e os contornos do povoado.
      Tambm viu gado nos campos, e ovelhas, e o serpenteio das cercas de pedra. Mas no distinguia Larkin por nenhuma parte, e tampouco o carro que levou a King.
      -Pode lhe seguir o rastro com isto? -perguntou a Cian.
      -No. -Fez girar o volante e levantou um fornecedor de gua-. Mas eles o levaram a Lilith. E o mantero com vida. -Tinha que acreditar nisso-. O levaro para 
Lilith.
      -s cavernas?
      Hoyt pensou no tempo que tinha levado ao viajar dos escarpados at Clare, a casa. Mas o tinha feito no lombo de um cavalo, e ferido e consumido pela febre. 
Ainda assim, a viagem levaria tempo. Muito tempo.
      -Com vida? Cian, por que quereriam lev-lo com vida?
      -Como um presente para ela. Isso  o que King , um presente. Lilith quereria a presa para si mesma. No podem estar muito longe. No  possvel. E o Jaguar 
 muito mais veloz que essa fodida caminhonete em que o levaram.
      -No podero lhe morder. A cruz o impedir.
      -Mas no poder fazer nada contra uma espada ou uma flecha. Ou contra uma fodida bala. Embora as pistolas e os arcos no sejam armas de nossa escolha -disse 
quase para si-. Muito longnquas. Ns gostamos de matar de perto, e h um pouco de tradio nisso. Ns gostamos de olhar nos olhos das vitima. Lilith querer tortur-lo 
antes. No desejar para ele uma morte rpida. -Suas mos aferraram o volante com tanta fora que os ndulos ficaram brancos. Isso deveria nos dar um pouco de tempo.
      -Est anoitecendo.
      O que Hoyt no disse, e ambos sabiam, era que ao cair da noite seus inimigos seriam mais numerosos.
      Cian adiantou a outro carro a uma velocidade que fez que o Jaguar patinasse sobre o pavimento molhado, logo os pneus se afirmaram e continuaram viagem. O resplendor 
de uns faris dianteiros cegaram Cian um instante mas no reduziu a velocidade. Teve um momento para pensar: "fodidos turistas", enquanto o carro que vinha em sentido 
contrrio o obrigava a sair da estrada. Os ramos das sebes arranharam e golpearam o lado e vidros das janelas do Jaguar. O cascalho solto saiu desprendido como balas 
de pedra.
      -J deveramos t-los alcanado. A no ser que tenham tomado outro caminho, ou que talvez ela tenha outro buraco onde... -Muitas opes, pensou Cian, e acelerou-. 
Pode fazer algo? Alguma tipo de conjuro para localiz-lo? -perguntou a Hoyt.
      -No tenho nenhum... -De repente deu um golpe no painel com a mo aberta enquanto Cian tomava outra curva a toda velocidade-. Um momento.
      Aferrou a cruz de prata que tinha pendurada ao pescoo e lhe insuflou poder. Logo trouxe sua luz a sua mente.
      -Escudo e smbolo. Guiem-me. Dem-me viso.
      Viu o puma, correndo atravs da chuva, com a cruz agitando-se como um chicote de prata ao redor do pescoo.
      -Larkin est perto. Perdido atrs de ns. Nos campos. Est cansado. -Procurou, apalpando com a luz como se fossem dedos-. Glenna... e Moira junto a ela. No 
ficaram na casa, esto-se movendo. Glenna sofre grande dor.
      -Eles no podem me ajudar. Onde est King?
      -No posso encontr-lo. Est na escurido.
      -Morto?
      -No sei. No posso chegar at ele.
      De repente, Cian afundou o p no freio e torceu o volante. O Jaguar comeou a girar, aproximando-se cada vez mais  caminhonete negra que estava atravessada 
na estreita estrada. Os pneus chiaram e logo se ouviu um rudo seco quando o metal se chocou contra o metal.
      Cian estava fora do carro antes sequer que este se detivesse, com a espada na mo. Quando abriu a porta da caminhonete no encontrou a nada nem ningum.
      -Aqui h uma mulher - gritou Hoyt-. Est ferida.
      Cian amaldioou, rodeou a caminhonete e abriu a porta de carga. Viu que havia sangue no cho... sangue humano por seu aroma. Mas no o suficiente como para 
que a pessoa estivesse morta.
      -Morderam-na, mas est viva - disse Hoyt.
      Cian olhou por cima do ombro. Viu a mulher tendida na estrada e o sangue que emanava dos orifcios que tinha no pescoo.
      -No puderam lhe chupar todo o sangue. No tiveram tempo. Reanima-a. Aproxima-a at aqui -ordenou Cian-. Pode faz-lo. Faa-o depressa. Agarraram o carro que 
ela conduzia. Averigua que carro era.
      -Esta mulher necessita ajuda.
      -Maldita seja, viva ou morta agora deve reanim-la.
      Hoyt apoiou as pontas dos dedos nas feridas e sentiu a queimadura.
      -Senhora, me escute. Desperte e me escute.
      A mulher se agitou, depois seus olhos se abriram de repente, com as pupilas grandes como luas.
      -Rory! Rory! Ajude-me.
      Cian afastou bruscamente Hoyt. Ele tambm tinha um pouco de poder.
      -Me olhe. Nos olhos. -inclinou-se at que os olhos da mulher ficaram fixos nos seus. -O que ocorreu aqui?
      -Uma mulher, a caminhonete. Necessitava ajuda, isso pensamos. Rory parou o carro. Desceu. Saiu do carro e eles... OH, Deus bendito. Rory.
      -Eles levaram seu carro. Que carro era?
      -Azul. BMW. Rory. O levaram. Eles o levaram. No h lugar para voc. Eles disseram que no havia lugar para mim e me lanaram ao cho. Riam.
      Cian se levantou.
      -Me ajude a tirar a caminhonete do caminho. Foram bastante preparados para levar as chaves.
      A fria fez que Hoyt se voltasse de repente e a caminhonete saiu disparada dois metros fora da estrada.
      -Bom trabalho.
      -Poderia morrer aqui. Esta mulher no tinha feito nada.
      -No seria a primeira nem a ltima. Isto  uma guerra, no ? -replicou Cian-. Ela  o que chamam um dano colateral.  uma boa estratgia -murmurou e avaliou 
a situao-. Trocar por um carro mais veloz e nos atrasar. Agora no poderei lhes dar caa antes que cheguem s cavernas. Se for ali onde se dirigem. -voltou-se 
para seu irmo-. Pode ser que agora o necessite, depois de tudo.
      -No penso deixar uma mulher ferida atirada junto a uma estrada como se fosse um co.
      Cian retornou a seu carro, abriu o compartimento central e tirou um telefone mvel. Falou brevemente.
      - um aparelho que serve para comunicar-explicou a Hoyt enquanto voltava a guardar o mvel-. Chamei pedindo ajuda. Uma ambulncia e  polcia. Se ficar aqui, 
s conseguir que o detenham e lhe faam um monte de perguntas s quais no poder responder.
      Abriu o porta-malas e tirou uma manta e uns sinais luminosos.
      -Cobre-a com a manta -disse-. Eu colocarei estes sinais. Agora King  uma isca -acrescentou ao mesmo tempo em que acendia os sinais-. Uma isca e um prmio. 
Ela sabe que vamos ali, e quer que o faamos.
      -Ento no a decepcionaremos.
      Sem nenhuma esperana de poder alcanar  partida de caa antes que chegassem s cavernas, Cian conduziu com mais cuidado.
      -Foi mais esperta que ns. Mais agressiva e mais disposta a perder soldados. De modo que agora nos leva vantagem.
      -Superam-nos em nmero.
      -Assim teria sido em qualquer caso. Chegados a este ponto, pode ser que ela queira negociar. Fazer um trato.
      -Um de ns em troca de King.
      -Vocs so todos iguais para ela. Um humano  um humano, de modo que no tm um valor especial em tudo isto. Voc, possivelmente, porque Lilith respeita e 
anseia o poder. Mas o mais provvel  que me queira.
      -Est disposto a trocar sua vida pela de King?
      -Ela no me matar. Ao menos no imediatamente. Primeiro querer utilizar suas considerveis habilidades comigo. Desfruta com isso.
      -Tortura.
      -E persuaso. Se conseguir me atrair a seu bando, seria um verdadeiro golpe.
      -Um homem que  capaz de trocar sua vida pela de um amigo, logo no se volta e o trai. Por que ia pensar ela que faria isso?
      -Porque somos criaturas volveis. E porque ela me criou. Isso lhe confere um poder muito grande.
      -No, no tem que ser voc pois. Eu acredito que trocaria sua vida pela do King, mas penso que ela no acreditaria assim. Tem que oferecer a mim -disse Hoyt 
depois de pensar um momento.
      -OH, acha isso?
      -No signifiquei nada para voc durante centenas de anos. King  mais importante que eu em sua vida. Ela entender assim. Um humano por um feiticeiro. Para 
Lilith seria uma boa troca.
      -E por que ia ela acreditar que voc se trocaria por um homem que conhece h quanto, uma semana?
      -Porque ter uma faca apoiada em minha garganta.
      Cian fez tamborilar os dedos sobre o volante.
      -Poderia funcionar.
      Quando chegaram aos escarpados, a chuva tinha deixado passagem  luz melanclica da lua. Subiram at o topo pela estrada, que sobressaa da parede de rocha 
projetando sombras dentadas sobre o mar turbulento.
      S se ouvia o som da gua aoitando as rochas e o zumbido do ar era como o flego dos deuses.
      No havia sinal algum de outro carro, de humanos ou de criaturas.
      Ao longo da costa da estrada que dava ao mar havia um parapeito. Abaixo se viam rochas, gua e o labirinto de cavernas.
      -Vamos atra-la at aqui. -Cian assinalou a beira do abismo-. Se descermos, ficaremos apanhados com o mar as nossas costas. Subiremos e a obrigaremos que venha 
a ns.
      Comearam a subir, subindo sobre pedras escorregadias e ervas encharcadas. No promontrio havia um farol e seu feixe de luz perfurava a escurido.
      Ambos pressentiram o ataque antes que houvesse movimento algum. A criatura saltou detrs das rochas com as presas descobertas. Cian se limitou a se virar, 
golpeou-a com o ombro e a mandou rodando pela estrada. Para o segundo atacante usou a estaca que levava segura no cinto.
      Logo se ergueu e se voltou para o terceiro, que parecia mais prudente que seus companheiros.
      -Diga a sua senhora que Cian McKenna quer falar com ela.
      Os dentes imundos brilharam  luz da lua.
      -Esta noite beberemos seu sangue.
      -Ou voc morrer de fome nas mos de Lilith porque no lhe levou a mensagem.
      A criatura desapareceu.
      -Pode haver mais dessas coisas nos esperando no topo -disse Hoyt.
      - pouco provvel. Ela estar esperando que ataquemos as cavernas, no que dirijamos ao terreno elevado para negociar pelo King. Lilith se sentir intrigada 
e ir falar conosco.
      De modo que continuaram a ascenso, e logo se dirigiram ao lugar onde Hoyt enfrentou Lilith e a aquela coisa em que ela tinha convertido seu irmo.
      -Lilith saber apreciar a ironia do lugar que escolhemos.
      -Suponho que sim. -Hoyt escondeu a cruz de prata debaixo da camisa-. O ar.  noite. Este foi meu lugar alguma vez, onde podia vir e convocar o poder com o 
pensamento.
      -Ser melhor que ainda possa faz-lo. -Cian tirou sua faca-. Ponha-se de joelhos. -Alcanou o pescoo de Hoyt com a ponta do ao e observou o fino fio de sangue 
que brotava da ferida. Agora.
      -De modo que se trata de escolher.
      -Sempre se trata de escolher. Voc teria me matado aqui se pudesse faz-lo.
      -Eu o teria salvado aqui, se tivesse podido.
      -Bom, no fez nenhuma das duas coisas, no ? -Tirou a faca da bainha de Hoyt e formou um V com as folhas de ambas junto  garganta de seu irmo-. Ajoelhe-se.
      -Que espetculo to agradvel -ouviram. Lilith apareceu sob a luz da lua. Levava um vestido at os ps cor verde esmeralda e o cabelo, comprido e solto, caa-lhe 
sobre os ombros como raios de sol.
      -Lilith. Passou muito tempo.
      -Muito tempo. -A seda rangeu quando se moveu-. Percorreste este comprido caminho para me trazer um presente?
      -Um trato -a corrigiu Cian-. Afasta seus ces -prosseguiu com voz firme- ou o mato e depois a eles. Ento ficar sem nada.
      -Impressionante. -Lilith fez um gesto com a mo para os vampiros que se arrastavam a seu lado-. Maturaste. No foi nada mais que um pequeno cachorrinho quando 
lhe dava o dom, e olhe agora, um lobo elegante. Eu gosto.
      -E segue sendo seu escravo - disse Hoyt com desprezo.
      -Ah, o poderoso feiticeiro ajoelhado ante mim. Isso tambm eu gosto. Voc me marcou. -abriu o vestido para mostrar a Hoyt o pentgono sobre o corao-. Doeu-me 
durante mais de uma dcada. E a cicatriz no desaparece. Tem uma dvida comigo. Diga-me, Cian, como conseguiste traz-lo at aqui?
      -Ele acredita que sou seu irmo. Foi fcil.
      -Ela te tirou a vida. Ela no  mais que mentiras e morte.
      Cian sorriu por cima da cabea de Hoyt.
      -Isso  o que eu adoro nela. Trocarei este pelo humano que levou. Resulta-me muito til e  fiel. Quero que me devolva isso.
      -Mas esse humano  muito maior que este. Mais carne para me deleitar.
      -No tem nenhum poder.  um mortal comum. Eu entrego em troca um feiticeiro.
      -Entretanto, quer ao humano.
      -Como j disse, resulta-me muito til. Sabe quanto tempo e quantos problemas leva treinar um servente humano? Quero que me devolva isso. Ningum rouba o que 
 meu. Nem voc nem ningum.
      -Discutiremos. Leva-o abaixo. Fiz um bom trabalho nas cavernas. Podemos nos pr muito cmodos e comer algo. Tenho preparado at estudante realmente robusto... 
suo. Podemos compartilh-lo. OH, um momento... -Deixou escapar uma risada musical-. Ouvi dizer que neste tempo se alimenta com sangue de porco.
      -No pode fazer caso de tudo o que ouve.
      Cian levantou deliberadamente a faca com que tinha cravado a Hoyt e lambeu o sangue da folha.
      Esse primeiro contato com sangue humano depois de um jejum to prolongado avermelhou seus olhos e aumentou seu apetite.
      -Mas no consegui viver tanto tempo sendo um estpido.  uma oferta nica, Lilith. Traz o humano e fica com o feiticeiro.
      -Como posso confiar em voc, meu querido menino? Voc mata os nossos.
      -Eu mato o que gosto quando quero. Igual a voc.
      -Arrumou sua parte. Do lado dos humanos. Conspirou contra mim.
      -Enquanto o assunto me divertia. Mas est ficando aborrecido e caro. D-me o humano e agarra este. E, como bonificao, a convidarei a minha casa. Pode organizar 
um banquete com os outros.
      A cabea de Hoyt se ergueu e o metal mordeu a carne. Amaldioou, esta vez em galico, com violncia contida.
      -Posso cheirar o poder nesse sangue -cantarolou Lilith-. Maravilhoso.
      -Outro passo e lhe corto o jugular. Todo este sangue se perder.
      -Faria isso? -Ela sorriu belamente-. Pergunto-me se no for isso na verdade o que quer.
      Fez um gesto.
      Na borda do escarpado, onde se elevava o farol, Cian conseguiu ver King cansado entre dois vampiros.
      -Est vivo -disse Lilith jovialmente-.  claro, s tem minha palavra; quo mesmo eu s tenho a sua de que me entregar o feiticeiro como um pequeno presente 
envolto em papel brilhante. Joguemos um jogo.
      Ela agarrou a saia do vestido e deu uma volta.
      -Mata-o e entregarei o humano. Mata seu irmo, mas no com as facas. Mate-o como fazemos ns. Bebe seu sangue e poder levar o humano contigo.
      -Primeiro faz com que tragam o humano aqui.
      Lilith franziu os lbios e alisou a saia.
      -OH, est bem.
      Levantou um brao e logo o outro. Cian afastou as facas do pescoo de Hoyt quando os vampiros comearam a arrastar King para eles.
      Deixaram-no cair ao cho e, com um chute malvado, lanaram-no pela borda do escarpado. -Oohhh! -Os olhos de Lilith danaram de jbilo enquanto levava uma mo 
aos lbios-. Que torpes! Acredito que agora ter que me pagar na mesma moeda e matar a seu irmo.
      Cian lanou um rugido selvagem e se lanou para frente. Lilith se elevou, estendendo seu vestido como se fosse um par de asas.
      -O agarrem! -gritou-. Traga isso -E desapareceu.
      Cian segurou as facas pelas folhas enquanto Hoyt se levantava de um salto e agarrava as estacas que levava s costas, seguras com o cinto.
      Nesse momento umas flechas voaram atravessando ar e coraes. Antes que Cian pudesse atirar o primeiro golpe, meia dzia de vampiros se converteu em p e o 
vento o tinha levado por volta do mar.
      -Vm mais! -gritou Moira da proteo que lhe brindavam as rvores-. Tm que ir. Temos que ir agora. Por aqui. Depressa!
      A retirada mais amarga, um sabor de blis lhe queimando a garganta. Mas a alternativa era a morte. De modo que abandonaram a batalha.
      Quando chegaram ao carro, Hoyt procurou a mo de seu irmo.
      -Cian...
      -No o faa. -Entrou no carro e observou como subiam outros-. Simplesmente no o faa.
      A comprida viagem de volta a casa estava cheia de silncio, tristeza e fria.
      Glenna no chorou. O que sentia era muito profundo para as lgrimas. Em troca, inundou-se em uma espcie de transe, o corpo tremendo de dor e comoo; a mente 
aturdida pelo que tinha ocorrido. E ainda sabendo que era uma covardia, permanecendo encolhida.
      -No foi sua culpa.
      Ouviu a voz de Moira mas no pde responder. Sentiu que Larkin tocava seu ombro, sups que com um gesto de consolo, mas estava muito aturdida para reagir. 
E quando Moira partiu no lombo de Larkin para deix-la sozinha, ela s sentiu um vago alvio.
      Girou para o bosque, manobrando com cuidado pelo estreito caminho. Ao chegar diante da casa, onde ardiam os abajures, apagou o motor e as luzes.
      Foi abrir a porta do carro, mas esta se abriu de par em par e Glenna se sentiu arrastada para fora e levantada um palmo do cho. Inclusive ento no sentiu 
nada, nem sequer medo ao ver a sede nos olhos de Cian.
      -Me diga por que no deveria te romper o pescoo agora mesmo e acabar com isto.
      -No posso.
      Hoyt se dirigiu para eles e foi arrojado a vrios metros com um tapa indiferente.
      -No o faa. Ele no tem culpa. No o faa. -disse Glenna a Hoyt antes que este voltasse para a briga-. Por favor, no. -E a Larkin-: Acredita que no tem 
razo?
      Voltou a olhar Cian aos olhos.
      -No posso lhe responder. Por que deveria faz-lo? Ele era teu e eu o matei.
      -Ela no o tem feito. -Moira tentou baixar o brao de Cian, mas no pde mov-lo nem um centmetro-. No deve culp-la pelo que aconteceu.
      -Deixa que fale por si mesma.
      -No pode. Acaso no v que est ferida gravemente? Antes no me deixou que a atendesse para ir atrs de vocs. Devemos entrar na casa. Se nos atacarem agora 
morreremos todos.
      -Se lhe fizer mal -interveio Hoyt-, matarei-o.
      -Isso  tudo o que h? -As palavras de Glenna no eram mais que um sussurro exausto-. S morte?  isso o que haver no futuro?
      -Me d ela.        
      Hoyt a pegou nos braos, e a levou para casa enquanto lhe falava em galico.
      -Voc vir tambm e escutar. -Moira agarrou Cian pelo brao-. King merece isso.
      -No me diga o que ele merece. -livrou-se de sua mo com uma fora que a fez retroceder dois passos-. Voc no sabe nada disso.
      -Sei mais do que acredita. -E o deixou para seguir Hoyt dentro da casa.
      -No pude alcan-los. -Larkin olhava o cho-. No fui bastante veloz e no pude os alcanar. -Abriu a porta traseira e descarregou as armas-. No posso me 
converter em uma destas mquinas -disse enquanto fechava a porta -Aquilo no que me transformo tem que estar vivo. Nem sequer o puma pde alcan-los.
      Cian no disse nada e ambos entraram na casa.
      Glenna estava deitada no sof, no salo principal. Tinha os olhos fechados, o rosto plido, a pele mida e fria. Na palidez de seu rosto destacava o machucado 
que lhe cobria o queixo e parte da face. O sangue secou na comissura de sua boca.
      Hoyt lhe apalpou brandamente o brao. No estava quebrado, pensou com alvio. Tinha um feio golpe, mas no estava quebrado. Tentando no mov-la muito, tirou-lhe 
a camisa para descobrir que tinha outros machucados no ombro e no torso que lhe chegava at o quadril.
      -Sei o que precisa -disse Moira e se afastou rapidamente.
      -Nada quebrado. -As mos do Hoyt deslizaram sobre as costelas-  bom que no haja nada quebrado.
      -Tem sorte de conservar a cabea em cima dos ombros.
      Cian foi diretamente a um armrio e tirou uma garrafa de usque. Bebeu diretamente da garrafa.
      -Algumas das feridas so internas. Est gravemente ferida.
      -No menos do que merece por ter sado da casa.
      -Ela no saiu de casa. -Moira havia tornado levando a caixa de Glenna-. No da maneira em que voc est insinuando.
      -No espera que acredite que King saiu da casa e ela correu em sua defesa?
      -Ele saiu por mim. -Glenna abriu os olhos, frgeis pela dor-. E eles o agarraram.
      -Silncio -ordenou Hoyt-. Moira a necessito aqui.
      -Usaremos isto. -Moira escolheu uma garrafa-. Verta o lquido sobre as feridas.
      Depois de entregar a garrafa a Hoyt, Moira se ajoelhou e apoiou as mos brandamente sobre o torso da Glenna.
      -Recorro a todo o poder que possa invocar para acalmar sua dor. Calor para curar e no ferir, para afastar o dano infligido. -Olhou Glenna com olhos suplicantes-. 
Tem que me ajudar. No sou muito boa nisto.
      Glenna apoiou a mo sobre a de Moira e fechou os olhos. Quando Hoyt apoiou a suas em cima delas para formar uma trade, Glenna respirou profundamente e deixou 
escapar o ar com um gemido. Entretanto, quando Moira quis retirar a mo, Glenna a reteve com fora.
      -s vezes a cura  dolorosa -conseguiu dizer-. s vezes tem que s-lo. Repete o cntico outra vez. Deve faz-lo trs vezes.
      Enquanto Moira o fazia, a pele de Glenna se cobriu de um filme de suor, mas os machucados perderam um pouco de cor, adquirindo os tons macilentos da cura.
      -Sim, isso est melhor. Obrigado.
      -Necessitaremos um pouco desse usque aqui -disse Moira.
      -No. Ser melhor que eu no beba. -Glenna se levantou tentando respirar pausadamente-. Ajude-me a sentar. Preciso saber quo grave .
      -Daremos uma olhada nisso.
      Hoyt lhe roou o rosto com as pontas dos dedos e lhe agarrou a mo. Agora as lgrimas rodavam por suas faces sem poder cont-las.
      -Sinto tanto.
      -No pode se culpar, Glenna.
      -A quem se no? -disse Cian, e Moira se levantou.
      -King no usava sua cruz. -Colocou a mo no bolso e a tirou-. tirou-a l em cima e a deixou ali.
      -King estava me ensinando alguns movimentos. Luta livre - explicou Larkin-. E disse que a cruz o incomodava. Depois deve ter se esquecido dela.
      -Mas no tinha intenes de sair de casa,no ? No o teria feito se no fosse por ela.
      -Ele se equivocou. -Moira deixou a cruz de prata de King em cima da mesa-. Glenna, ele tem que saber a verdade. A verdade sempre  menos dolorosa.
      -King acreditou, deve acreditar, que eu a deixaria entrar ou que sairia da casa. Mas no era assim. Entretanto fui arrogante, de modo que, qual  a diferena? 
Arrogncia. King est morto por isso.
      Cian bebeu outro gole de usque.
      -Me diga por que est morto.
      -Ela bateu na porta. Eu no teria que ter aberto mas vi que era uma mulher. Uma jovem com um mapa nas mos. No pensava sair e tampouco deix-la entrar na 
casa, juro. Ela disse que se perdeu. Falava com um marcado sotaque francs. Encantadora, de fato, mas eu soube... senti. E no pude resistir a tentao de brincar 
um pouco com ela. Deus, OH, Deus -disse, enquanto as lgrimas banhavam suas faces-. Que estpida. Que vaidosa.
      Respirou profundamente.
      -Ela disse que se chamava Lora.
      -Lora? -Cian baixou a garrafa-. Jovem, atraente, com sotaque francs?
      -Sim. Conhece-a?
      -Sim. -Voltou a beber-. Sim, conheo-a.
      -Pude ver o que era, No sei como, mas soube. Nesse momento tinha que lhe haver fechado a porta no nariz. Mas me equivoquei, pensei que devia lhe indicar o 
caminho que devia seguir e me despedir dela. Estava-o fazendo quando King lanou um grito e se aproximou correndo para a porta. Voltei-me sobressaltada e me descuidei. 
Ela agarrou uma mecha de meu cabelo e me arrastou fora da casa.
      -Foi tudo muito rpido -continuou Moira-. Eu estava atrs de King. Quase no vi quando se moveu... o vampiro. King saiu atrs dela e havia vrios mais. Quatro 
ou cinco vampiros mais. Levavam a cabo o ataque como relmpagos.
      Moira serviu um pouco de usque e o bebeu de um gole para acalmar seus nervos.
      -Todos eles se lanaram sobre King, e gritou a Glenna que entrasse na casa. Mas ela no fez conta, levantou-se e correu a ajudar. A mulher a lanou para trs 
como se fosse uma pedra em um estilingue. Glenna seguiu tentando ajudar apesar de estar ferida. Talvez fosse imprudente, mas King tambm foi. -Moira voltou a agarrar 
a cruz-. E pagou um preo terrvel por isso. Um preo terrvel por defender uma amiga.
      Glenna ficou em p com a ajuda do Hoyt.
      -Lamento que no seja suficiente. Sei o que King significava para voc.
      -Nunca poder sab-lo.
      -Acredito que sim e tambm sei o que significava para o resto de ns. Agora est morto por minha culpa. E terei que viver com isso o resto de minha vida.
      -Eu tambm. E por desgraa viverei muito mais anos que voc.
      Cian levou a garrafa de usque quando abandonou o salo.
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 16
      
      Nesse momento entre o sonho e o despertar s existia a tnue luz das velas e a sorte de um nada. Um calor agradvel e lenis com aroma de lavanda, e flutuar 
em uma comodidade vazia.
      Mas o momento se esfumou e Glenna recordou de repente.
      King estava morto, arrojado ao mar pelos monstros com a mesma indiferena com que um menino lana uma pedra a um lago.
      Ela tinha subido sozinha a seu quarto, assim o tinha querido, para procurar a solido e o esquecimento que desejava que lhe proporcionasse o sono.
      Enquanto contemplava a luz tremulante da vela, perguntou-se se alguma vez seria capaz de voltar a dormir na escurido. Se alguma vez voltaria a ser capaz de 
ver como chegava a noite e no pensar que a hora dos monstros chegava com ela. Caminhar  luz da lua sem sentir medo? Voltaria a sentir alguma vez algo to simples 
como isso? Ou acaso at um dia de chuva faria que sentisse calafrios durante o resto de seus dias?
      Voltou a cabea sobre o travesseiro e viu a silhueta dele recortada  luz prateada que se filtrava atravs da janela que dava a seu jardim de ervas. Montando 
guarda durante a noite, pensou, para proteg-la. Para proteger todos eles. Quaisquer que fossem as cargas que eles suportassem sobre seus ombros, as dele eram mais 
pesadas. E, apesar de tudo, tinha ido ali a colocar-se entre ela e a escurido.
      -Hoyt.
      Ele se voltou para olh-la e ela se sentou na cama e lhe estendeu a mo.
      -No queria despertar -disse Hoyt aproximando-se da cama e agarrando suas mos enquanto estudava seu rosto  luz lgubre das velas-. Di-te?
      -No. A dor passou, ao menos por agora. Devo-lhes agradecer isso a voc e a Moira.
      -Voc ajudou tanto quanto ns. E dormir tambm a ajudar.
      -No parta. Por favor. E Cian?
      -No sei. -Dirigiu um olhar de preocupao para a porta-. Encerrado em seu quarto com a garrafa de usque. -Hoyt a olhou e a fez girar o rosto para examinar 
as contuses-. Esta noite todos estamos recorrendo ao que podemos para combater a dor.
      -Jamais o teria deixado partir. Lilith nunca teria deixado King em liberdade. No importa o que ns fizssemos, no ?
      -No, no o teria feito. -Hoyt se sentou na beira da cama-. E no fundo, Cian certamente sabia, mas tinha que tentar. Tnhamos que tentar.
      Fingindo que se tratava de uma troca pensou ela, recordando a explicao de Hoyt a respeito do que tinha acontecido nos escarpados.
      -Agora sabemos que neste momento no pode haver nenhum trato - continuou ele-. Est bastante forte para ouvir o que tenho que dizer?
      -Sim.
      -Perdemos um dos nossos. Um dos seis que nos disseram que necessitaramos para liberar esta batalha, para ganhar esta guerra. No sei o que isso significa.
      -Nosso guerreiro. Talvez signifique que todos ns devemos nos converter em guerreiros. Em melhores guerreiros. Esta noite matei, Hoyt, mais por sorte que por 
habilidade, mas destru o que uma vez tinha sido um humano. Posso e voltarei a faz-lo, mas o farei com mais habilidade. Cada dia com mais habilidade. Ela levou 
um de ns e pensa que isso nos assustar e debilitar. Mas se equivoca. Ns demonstramos que est equivocada.
      -Eu dirigirei esta batalha. Voc tem uma grande habilidade com a magia. Trabalhar na torre com armas, escudos e conjuros. Em um crculo protetor para...
      -Espera, espera. -Glenna elevou a mo -Isto  o que me espera? Estou destinada a ficar na torre... como Rapunzel?
      -No conheo essa pessoa.
      - s outra mulher indefesa esperando ser resgatada. Eu trabalharei com a magia e o farei com mais dedicao e afinco. Mas o que no penso fazer  ficar na 
torre dia e noite com meu caldeiro e meus cristais, escrevendo conjuros enquanto o resto de vocs combate.
      -Hoje lutaste sua primeira batalha e por pouco a matam.
      -O que me tem feito respeitar muito mais aquilo com que enfrentamos. Chamaram-me para esta misso, igual ao resto de vocs. No penso me esconder.
      -Usar sua fora no  esconder-se. Puseram-me  frente deste exrcito e...
      -Bom, pois ento te porei alguns gales e o chamarei coronel.
      -Por que est to zangada?
      -No quero que me proteja. Quero que me valorize.
      -Te valorizar? -levantou-se e o resplendor avermelhado dos lenhos acesos lhe alagou o rosto-. Valorizo-a quase mais do que posso suportar. J sofri muitas 
perdas. Vi como levavam meu irmo, com quem compartilhei o ventre de minha me. Estive ante as tumbas de minha famlia. No quero ver como estas coisas a destroem... 
a voc, a nica luz para mim em todo este pesadelo. No voltarei arriscar sua vida. No me quero ver ante sua tumba.
      -Mas voc sim pode arriscar sua vida? 
      -Eu sim posso me ver ante sua tumba?
      -Eu sou um homem.
      Disse-o de um modo to simples, to da mesma maneira em que um adulto diria a um menino que o cu  azul, que ela ficou sem fala durante dez segundos. Depois 
desabou em cima dos travesseiros.
      -A nica razo pela que neste momento no estou trabalhando para convert-lo em um asno que zurre,  que lhe concedo o benefcio da dvida porque vem de uma 
poca no ilustrada.
      -No... ilustrada?
      -Deixa que d algumas pistas a respeito de minha poca, Merlin. As mulheres so iguais aos homens. Trabalhamos, vamos  guerra, votamos e, sobre tudo, tomamos 
nossas prprias decises no que se refere a nossas vidas, nossos corpos e nossas mentes. Os homens aqui no mandam.
      -Nunca conheci um mundo onde os homens mandassem-murmurou ele-. No so iguais a ns em fora fsica, Glenna.
      -Mas o compensamos com outras vantagens.
       -Apesar do agudas que sejam suas mentes, suas mutretas, seus corpos so mais frgeis. Esto feitas para dar a luz a filhos.
      -Acaba de expor uma contradio. Se os homens fossem responsveis pela maternidade, o mundo teria se acabado faz muito tempo sem necessidade de contar com 
a ajuda de um punhado de vampiros em busca de glria. E me permita que lhe assinale um pequeno feito: a que est provocando todo este terrvel assunto  uma mulher. 
      -De algum jeito esse seria meu argumento.
      -Bem, pois no serve, de modo que j pode esquec-lo. E quem reuniu todos ns tambm  uma mulher, assim que os superamos em nmero. E tenho mais munio, 
mas esta conversao ridcula est me produzindo enxaqueca.
      -Deveria descansar. Amanh seguiremos falando disto. 
      -No penso descansar, e amanh no vamos seguir falando.
      Sua nica luz? Pensou ele. s vezes era um relmpago que lhe atravessava os olhos.
      - uma mulher rebelde e exasperante.
      -Sim. -Agora Glenna sorriu e voltou a estender as mos para ele-. Quer sentar-se aqui? Est preocupado por mim. Quero que saiba que entendo e o aprecio.
      -Se fizesse o que pedi -levou as mos da Glenna aos lbios-, isso me tranqilizaria e faria de mim um lder melhor.
      -OH, isso est bem. -Ela afastou as mos para lhe golpear brandamente nas faces -. Muito bem. As mulheres no so quo nicas tm suas mutretas.
      -No  uma mutreta e sim a verdade.
      -Me pea qualquer outra coisa e tentarei o agradar. Mas no posso te dar isto, Hoyt. Eu tambm me preocupo com voc. Por todos ns. E me pergunto o que  o 
que podemos fazer, o que somos capazes de fazer. E por que de todo o mundo, de todos os mundos, ns somos quo nicos devemos fazer isto. Mas isso no muda nada. 
Ns somos os escolhidos. E j perdemos um homem muito bom.
      -Se eu a perdesse...  Glenna, s de pensar nisso se abre um enorme vazio em meu interior.
      s vezes, ela sabia, a mulher tinha que ser a mais forte.
      -Existem tantos mundos e tantas maneiras. No acredito que agora pudssemos perder um ao outro. O que tenho agora contigo  mais do que nunca tive antes com 
ningum. Acredito que isso nos faz melhores pessoas do que fomos. Talvez seja em parte a razo pela que estamos aqui. Para nos encontrar.
      Glenna se inclinou para ele e suspirou quando seus braos a envolveram.
      -Fica comigo. Vem, se deite a meu lado. Faa-me amor.
      -Precisa se curar de suas feridas.
      -Sim. -Glenna o atraiu para ela e lhe roou os lbios com os seus-.  o que fao.
      Hoyt esperava ter em seu interior a ternura que ela necessitava. Queria lhe dar isso, a magia dessa ternura.
      Utilizou s seus lbios, beijando-a na boca, o rosto, o pescoo. Beijos quentes e relaxantes. Afastou o fino objeto que ela levava posta para prolongar esses 
beijos sobre os seios, sobre suas contuses. Com cuidado e para confort-la.
      Suaves como as asas de pssaros, lbios e pontas dos dedos para acalmar sua mente e seu corpo, e para aviv-los.
      E quando seus olhares se encontraram, ele soube mais coisas das que nunca tinha sabido. Teve mais do que jamais tinha tido.
      Elevou-a sobre um travesseiro de ar prateado, convertendo sua cama em algo mgico. Ao redor do quarto, as velas cobraram vida com um som similar a um suspiro. 
E a luz que compartilhavam era como ouro fundido.
      - formoso. -Ela agarrou suas mos enquanto ambos flutuavam, fechou os olhos ante a esplndida felicidade do momento -Isto  formoso.
      -Daria-te tudo o que tenho, e ainda assim no seria suficiente.
      -Engana-se. Voc  tudo.
      Mais que prazer, mais que paixo. Sabia ele acaso o que fazia com ela quando a tocava dessa maneira? Nada do que pudessem enfrentar, nenhum terror ou dor. 
Nenhuma morte ou condenao era capaz de superar aquilo. A luz dentro dela era como um farol, e nunca mais voltaria para a escurido.
      Ali estava a vida em sua expresso mais doce e generosa. O sabor dele era como um blsamo para sua alma, embora suas carcias despertassem o desejo. Impregnada 
dele, Glenna elevou os braos e fez girar as palmas. Ptalas de rosa, brancas como a neve, comearam a cair como gotas de chuva sobre suas mos.
      Ela sorriu quando ele deslizou em seu interior, quando se moveram juntos, suave e lentamente. Luz e ar, fragrncia e sensao rodeavam a ascenso e descida 
de corpos e coraes.
      Uma vez mais seus dedos se entrelaaram, uma vez mais seus lbios se encontraram. E enquanto ambos flutuavam  deriva, o amor curou os dois.
            
            
            
      Na cozinha, Moira estava desconcertada ante um pote de sopa. Ningum tinha comido e estava decidida a preparar algum tipo de comida para quando Glenna despertasse. 
Com o ch no tinha tido problemas, mas no a tinham ensinado o procedimento a seguir.
      Em troca s tinha visto como King abria um desses cilindros metlicos usando aquela pequena mquina que fazia um rudo to desagradvel. Tinha tentado faz-la 
funcionar trs vezes e outras tantas tinha fracassado. Agora estava considerando seriamente a possibilidade de tirar a espada e abrir o cilindro de um golpe.
      Moira possua uma pequena magia para a cozinha, muito pequena, devia reconhec-lo. Deu uma olhada a seu redor para assegurar-se de que estava sozinha, concentrou-se 
em seu pequeno dom e visualizou o pote aberto.
      O cilindro se moveu ligeiramente sobre a bancada, mas permaneceu obstinadamente fechado.
      -Muito bem, uma vez mais ento.
      Inclinou-se, estudou o abridor que estava fixado  parte inferior do armrio. Com as ferramentas adequadas poderia tir-lo dali e averiguar qual era seu funcionamento. 
Adorava desmontar as coisas. Mas em primeiro lugar tinha que abrir aquele maldito cilindro.
      Ergueu-se, jogou o cabelo para trs e relaxou os ombros. Murmurando para si tentou novamente conseguir a faanha de abrir aquilo. Esta vez, quando a mquina 
girou, o pote tambm o fez. Moira aplaudiu encantada e logo voltou a inclinar-se para observar seu funcionamento.
      Era to engenhoso, pensou. Tudo ali era muito engenhoso. Perguntou-se se alguma vez lhe permitiriam conduzir a caminhonete. King havia dito que a ensinaria 
a faz-lo.
      Seus lbios tremeram ante esse pensamento e os apertou com fora. Rezou para que sua morte tivesse sido rpida e seu sofrimento breve. Pela manh colocaria 
uma lpide para ele no cemitrio que Larkin e ela tinham visto quando caminhavam perto da casa.
      E quando retornasse a Geall, erigiria outra lpide e pediria  harpista que compusesse uma cano.
      Esvaziou o contedo do pote em uma panela e o colocou sobre um queimador, como Glenna a tinha ensinado.
      Todos precisavam comer. A tristeza e a fome os debilitariam, e a debilidade os converteria em presas fceis. Po, decidiu. Comeriam um pouco de po. Seria 
uma comida simples mas substanciosa.
      Voltou-se para a despensa e retrocedeu ao ver Cian na porta da cozinha. Recostou-se na parede com a garrafa de usque quase vazia pendurando de seus dedos.
      -Um lanche de meia-noite? -seu sorriso mostrou seus dentes brancos-. Eu tambm sinto debilidade por eles.
      -Ningum comeu nada e pensei que deveramos comer alguma coisa.
      -Sempre pensando, no , pequena rainha? Sua mente sempre trabalhando.
      Moira se deu conta de que estava bbado. O excesso de usque lhe tinha nublado o olhar e posto a voz pastosa. Mas ela tambm podia ver a dor que havia debaixo.
      -Deveria se sentar antes que caia ao cho.
      -Obrigado pelo amvel convite em minha prpria e fodida casa, mas s vim a procurar outra garrafa. -Agitou a que levava na mo-. Parece que algum acabou com 
todo o contedo desta.
      -Pode beber at cair doente, se  que  to estpido para fazer isso. Mas tambm deveria comer alguma coisa. Sei que come, vi-o faz-lo. Tive alguns problemas 
para preparar isto.
      Cian jogou uma olhada a bancada e sorriu.
      -Tem aberto uma lata de sopa.
      -Lamento no ter tido tempo de matar pessoalmente o bezerro. De modo que ter que se conformar com o que h.
      Moira se virou para seguir preparando a comida e logo ficou muito quieta quando sentiu a Cian atrs dela. Seus dedos acariciaram o lado de seu pescoo, ligeiros 
como as asas de uma traa.
      -Em outro tempo haveria dito que era muito saborosa.
      Bbado, furioso, triste, pensou Moira. Tudo isso o voltava perigoso. Se mostrasse medo s pioraria as coisas.
      -Est-me distraindo -disse.
      -Ainda no -replicou ele.
      -Cian, no tenho tempo para bbados. Talvez voc no queira comida, mas Glenna precisa ingerir algo para recuperar as foras e curar-se.
      -Eu diria que j se sente bastante forte. -A amargura tingiu sua voz enquanto elevava a vista-. Acaso no viu como se avivavam as luzes faz um momento?
      -Sim. Mas no sei o que tem isso haver com Glenna.
      -Significa que meu irmo e ela esto fodendo. Sexo -acrescentou Cian quando ela se mostrou desconcertada-. Um pouco de sexo simples e suarento para rematar 
a jornada. Ah, ruborizou-se. -ps-se a rir e se aproximou ainda mais de Moira-. Todo esse formoso sangue debaixo da pele. Deliciosa.
      -Basta.
      -Estava acostumado a gostar que as mulheres tremessem, como voc neste momento. Faz que o sangue se esquente e aumenta a excitao. Quase o tinha esquecido.
      -Cheira a usque. Isto j est preparado. Sente-se e servirei um prato.
      -No quero essa fodida sopa. No me incomodaria em troca ter um pouco de sexo quente e suarento, mas provavelmente estou muito bbado para isso. Muito bem, 
agarrarei outra garrafa e acabarei o trabalho.
      -Cian. Cian, as pessoas se unem procurando consolo quando chega a morte. No  falta de respeito e sim necessidade fsica.
      -No pretenda me dar lies sobre sexo. Sei muito mais a respeito do que voc poderia imaginar. A respeito de seus prazeres e sua dor e seu objetivo.
      -As pessoas tambm esto acostumadas recorrer  bebida, mas no  muito saudvel. Sei o que King significava para voc.
      -No, no sabe.
      -Ele falava comigo, mais que com outros, acredito, porque eu gosto de escutar. Contou-me como o encontrou, faz muitos anos, o que fez por ele.
      -Fiz por diverso.
      - J basta. -Um genuno tom de autoridade tingiu sua voz-. Agora est mostrando falta de respeito por um homem que era um amigo para mim. E que era como um 
filho para voc, um amigo e um irmo. Tudo isso. Amanh quero ir ao cemitrio e colocar uma lpide para ele. Poderia esperar at a hora do crepsculo, at que voc 
pudesse sair...
      -O que pode me importar as lpides? -disse Cian e abandonou a cozinha.
            
            
            
      Glenna se sentiu to agradecida ao ver a luz do sol que poderia haver-se posto a chorar. No cu havia algumas nuvens, mas eram muito tnues e os raios de luz 
as atravessavam desenhando leves sombras na terra.
      Ainda lhe doam o corpo e o corao. Mas superaria. Agarrou uma de suas cmaras e saiu da casa para sentir a carcia do sol no rosto. Cativada pela msica 
do bosque decidiu caminhar at o arroio. Ao chegar ali, estendeu-se junto  borda para desfrutar da manh ensolarada.
      Os pssaros cantavam nos ramos, derramando alegria no ar impregnado do perfume das flores. Podia ver uma dedaleira movendo-se levemente sob a brisa. Por um 
instante, sentiu que a terra debaixo dela suspirava e sussurrava com o prazer de um novo dia.
      Glenna sabia que a aflio viria e iria. Mas era dia, havia luz e trabalho. E ainda existia magia no mundo que a rodeava.
      Quando uma sombra se projetou sobre ela, girou a cabea e sorriu a Moira.
      -Como se sente esta manh?
      -Melhor -respondeu Glenna-. Sinto-me melhor. Dolorida e dbil, talvez um pouco cambaleante ainda, mas melhor.
      Voltou-se um pouco mais para olhar a tnica e as calas gastas que Moira levava.
      -Temos que te conseguir um pouco de roupa.
      -Estou bem com o que levo.
      -Talvez pudssemos ir at o povoado e ver o que podemos encontrar para voc.
      -No tenho nada para trocar. No posso pagar.
      -Para isso est o Visa. Ser meu presente. -estendeu-se novamente na erva e fechou os olhos-. No pensei que ningum mais estivesse de p.
      -Larkin levou o cavalo para passear. Isso deveria fazer bem a ambos. Acredito que Larkin no dormiu nada esta noite.
      -Duvido que nenhum de ns tenha podido dormir. No parece real, no , no  luz do dia, com o sol brilhando no cu e os pssaros cantando nos ramos?
      -Pois de dia me parece ainda mais real -disse Moira sentando-se a seu lado-. Mostra o que temos que perder. Tenho uma lpide -continuou dizendo enquanto passava 
a mo pela erva-. Estava pensando que quando Larkin retornasse de seu passeio poderamos ir at onde esto as tumbas e colocar uma lpide para King.
      Glenna manteve os olhos fechados, mas agarrou a mo de Moira.
      -Tem um corao generoso -disse-. Sim, cavaremos uma tumba para o King.
      As feridas a impediam de treinar, mas no impediram que Glenna trabalhasse. Dedicou os dois dias seguintes a preparar a comida, comprar provises e investigar 
a magia.
      Tirou fotografias.
      Era algo mais que trabalho, disse-se. Era algo prtico e organizativo. E as fotos eram -seriam- uma espcie de documentao, uma espcie de comemorao.
      A maior parte de suas atividades a ajudavam a no sentir-se intil enquanto outros trabalhavam em excesso no manejo da espada e nos combates corpo a corpo.
      Estudou as diferentes rotas e memorizou o traado de vrias delas. Suas habilidades ao volante eram escassas e torpes, de modo que as aperfeioou, manobrando 
com a caminhonete por caminhos enlodados, roando as sebes ao tomar as curvas, acelerando nos lances retos quando se sentiu mais segura.
      Estudou os livros de conjuros, procurando o ataque e a defesa. Procurando solues. No podia fazer que King retornasse, mas faria tudo o que estivesse em 
sua mo para proteger seus companheiros.
      Ento teve a brilhante idia de que cada membro da equipe deveria ser capaz de conduzir a caminhonete. Comeou por Hoyt.
      Sentou-se junto a ele enquanto ele levava o veculo a passo de tartaruga pelo prado que rodeava a casa.
      -Tenho melhores maneiras de empregar meu tempo.
      - possvel. -E a essa velocidade, pensou ela, passaria um milnio antes que superasse os dez quilmetros por hora-. Mas todos ns teramos que ser capazes 
de agarrar o volante se fosse necessrio.
      -Por qu?
      -Porque sim.
      -Planeja levar esta mquina  batalha?
      -No contigo ao volante, disso pode estar seguro.  uma questo de prtica, Hoyt. Eu sou quo nica pode conduzir de dia. Se algo me acontecer...
      -No o faa. No tente os deuses.
      Sua mo se fechou sobre a de Glenna.
      -Temos que ter esse fator em conta. Estamos aqui, e este lugar  remoto. Necessitamos transporte e, bom, o fato de saber conduzir d a todos uma espcie de 
independncia, alm de outra habilidade. Devemos estar preparados para qualquer coisa.
      -Poderamos conseguir mais cavalos.
      O desejo que transmitia sua voz fez que Glenna lhe batesse no ombro.
      -Est fazendo muito bem. Embora possivelmente pudesse tentar ir um pouco mais de pressa.
      Hoyt pisou no acelerador levantando uma chuva de cascalho atrs do carro. Glenna respirou profundamente e gritou:
      -Freia! Freia! Freia!
      A caminhonete se deteve em meio de outra chuva de cascalho.
      -Aqui tem outra palavra para seu vocabulrio -disse Glenna afavelmente-. Freada.
      -Mas disse que fosse mais de pressa. Com isso.
      Hoyt assinalou o pedal do acelerador.
      -Sim. Bom. De acordo. -Glenna encheu de ar os pulmes-. Esta  o caracol e esta a lebre. Tratemos de encontrar um animal intermedirio. Digamos, um co. Um 
bonito e saudvel perdigueiro de cabelo dourado.
      -Os ces caam s lebres -assinalou Hoyt, e fez que ela pusesse-se a rir-. Isso est bem. Estava triste. Sentia falta de seu sorriso.
      -Obsequiarei-o com um grande sorriso com todos os dentes se acabarmos esta lio ss e salvos. Agora daremos um salto importante e entraremos na estrada. -Esticou 
a mo e aferrou o cristal que tinha pendurado do espelho retrovisor quando subiram  caminhonete-. Esperemos que isto funcione.
      Hoyt o fez melhor do que ela esperava, o que significava que ningum tinha ficado estropiado ou ferido de alguma outra maneira. Seu corao realizou um rduo 
trabalho lhe saltando at a garganta e depois caindo pesadamente at o estmago, mas a caminhonete se manteve na estrada... em geral.
      Gostava de ver como tomava as curvas; com o cenho franzido, o olhar intenso, seus dedos longos obstinados ao volante como se fosse uma corda de segurana em 
um mar aoitado por uma tormenta.
      As sebes naturais se fechavam sobre eles, tneis verdes salpicados pelas manchas vermelhas das fcsias, logo o mundo voltou a abrir-se por volta dos campos 
ondulados e agora os pontos eram ovelhas brancas ou vacas que pastavam ociosamente.
      A garota da cidade que havia nela estava encantada. Era outro tempo, pensou, em outro mundo, ela poderia ter encontrado muitas coisas que amar nesse lugar. 
O jogo de luzes e sombras na erva, os campos desdobrados como tecidos verdes, o sbito brilho da gua, os montes de pedras das antigas runas.
      Era bom, decidiu, olhar para o bosque, alm da casa, observar e amar o mundo que eles estavam lutando por salvar.
      Quando Hoyt reduziu a velocidade, ela o olhou.
      -Tem que manter a velocidade. Pode ser to perigoso ir muito depressa como muito lento. Algo que, pensando-o bem, pode aplicar-se praticamente a todas as coisas.
      -Quero me deter.
      -Pois tem que faz-lo na borda... no lado da estrada. Ponha a luz de alerta, como te ensinei antes, e v freando devagar. -Glenna olhou a estrada. A borda 
era estreita, mas no havia trfico-. Coloca a alavanca de mudanas em ponto morto. No centro. Assim. E bem... o que? -perguntou quando Hoyt abriu a porta de seu 
lado.
      Glenna desabotoou o cinto de segurana, agarrou as chaves -e tambm sua cmara- e seguiu Hoyt. Mas ele j se encontrava na metade do caminho atravs do campo, 
avanando depressa para o que ficava de uma antiga torre de pedra.
      -Se queria estirar as pernas ou esvaziar a bexiga, s tinha que dizer -comeou ela com um ligeiro aborrecimento quando conseguiu o alcanar.
      O vento brincava com seu cabelo, afastando-lhe do rosto. Quando lhe tocou o brao, sentiu que seus msculos estavam tensos.
      -O que aconteceu?
      -Conheo este lugar. Aqui vivia gente. Havia crianas. A maior de minhas irms se casou com o segundo filho desta famlia. Seu nome era Fearghus. Eles cultivaram 
estas terras. Eles... eles caminharam por estas terras. Viveram aqui.
      Hoyt se dirigiu para o que devia ter sido um pequeno torreo. O teto tinha desaparecido, quo mesmo uma das paredes. O cho estava coberto de ervas, de flores 
brancas e de excrementos de ovelha.
      E o vento soprava atravs das runas como o canto dos fantasmas.
      -Eles tinham uma filha, uma jovem muito bonita. Nossas famlias esperavam que ns dois...
      Hoyt apoiou a mo contra a parede e a deixou ali.
      -Agora s ficam pedras -- disse com voz suave-. Runas.
      -Mas ainda esto aqui, Hoyt. Uma parte ainda est aqui. E voc recordando-os. O que estamos fazendo, o que temos que fazer, no significa acaso que eles tiveram 
a melhor possibilidade de viver uma vida longa e plena? De cultivar esta terra e caminhar por ela? De viver?
      -Eles vieram ao funeral de meu irmo. -deixou cair a mo-. No sei como me sentir.
      -No posso imaginar quo duro deve ser isto para voc cada dia, Hoyt. -Apoiou as mos em seu brao, esperando at que seus olhos a olharam-. Parte disso ainda 
segue em p, o que voc . E est com o que eu sou. Acredito que isso  importante. Acredito que precisamos encontrar esperana nisso. Fora nisso. Quer ficar s 
aqui durante um momento Posso o esperar na caminhonete.
      -No. Cada vez que desanimo, ou penso que no posso suportar o que me pediram que fizesse, voc est ali. -inclinou-se e arrancou uma das pequenas flores brancas-. 
Estas flores tambm cresciam em minha poca. - A fez girar e depois a lanou ao ar-. Levaremos a esperana conosco.
      -Sim, faremos -- disse ela, e levantou a cmara-.  um lugar que pede a gritos uma foto. E a luz  magnfica.
      Glenna se afastou para procurar o melhor ngulo. Daria de presente a Hoyt uma das fotos, decidiu. Algo dela para que o levasse com ele. E faria uma cpia da 
mesma foto para coloc-la em seu loft.
      Imaginou contemplando a imagem enquanto ela fazia o prprio com sua cpia. Cada um deles recordando esse momento em que ambos estavam ali, em uma tarde de 
vero, com flores silvestres agitando-se em meio de um tapete de erva.
      Mas essa idia lhe provocou mais dor que consolo, de modo que voltou a cmara para ele.
      -S tem que me olhar - disse-. No tem que sorrir. De fato... -Apertou o obturador-. Bem, muito bem.
      Sentiu-se inspirada e baixou a cmara.
      -Ativarei o automtico e tirarei uma foto dos dois juntos.
      Procurou um lugar onde poder colocar a cmara e desejou ter trazido um trip.
      -Bom, teremos que recorrer a algumas coisas. -Fixou o enquadramento. Homem e pedra e campo-. Ar permanece imvel e atende minha vontade. Slido agora debaixo 
de minha mo, fixo como uma pedra sobre a terra. Mantm ali o que peo de ti. Enquanto o fao, que assim seja.
      Glenna colocou a cmara na bandeja de ar e ps em funcionamento o automtico. Logo correu a reunir-se com o Hoyt.
      -S tem que olhar  cmara. -Deslizou o brao ao redor de sua cintura, encantada quando ele imitou seu gesto-. E pode sorrir um pouco... um, dois...
      Glenna viu que a luz da cmara piscava.
      -J est. Para a posteridade.
      Ele a acompanhou quando foi recolher a cmara.
      -Como sabe que aspecto ter quando a tirar dessa caixa?
      -No sei cem por cento. Acredito que poderia dizer que se trata de outro tipo de esperana.
      Ela deu uma olhada s runas.
      -Necessita mais tempo?
      -No. -Tempo, pensou ele, nunca haveria suficiente tempo-. Deveramos retornar. Temos outros trabalhos que fazer.
      -Amava-a? -perguntou Glenna enquanto atravessavam o campo, de retorno  caminhonete.
      -A quem?
      -A essa garota.  filha da famlia que vivia aqui.
      -No, no a amava. Para minha me foi uma grande decepo, mas no para a garota, acredito. Eu no procurava uma mulher desse modo. Para me casar e formar 
uma famlia. Parecia-me... Parecia-me que meu dom, que meu trabalho, exigiam solido. As mulheres requerem tempo e ateno.
      -Assim . Teoricamente, elas tambm o proporcionam.
      -Eu queria estar sozinho. Durante toda minha vida havia sentido que no tinha suficiente, solido e silncio. E agora, agora temo ter muito de ambos.
      -Isso depender de voc. -Glenna se deteve para olhar as runas pela ltima vez-. O que dir a eles quando retornar?
      Inclusive o simples feito de pronunciar essas palavras destroava o corao.
      -No sei. -Hoyt a agarrou pela mo, de modo que ambos permaneceram juntos contemplando o que era, imaginando o que tinha sido-. No sei. O que dir a sua gente 
quando tudo isto tenha acabado?
      -Acredito que provavelmente no lhes direi nada. Deixarei que pensem, como disse quando os chamei antes de partir, que decidi viajar impulsivamente a Europa. 
Por que teriam que viver com o medo do que ns sabemos? -disse Glenna quando ele a olhou-. Sabemos que o que brinca de correr por a ao cair a noite  real, agora 
sabemos, e  uma carga muito pesada. De modo que direi que os amo e nada mais.
      -No  essa outra classe de solido?
      -Em todo caso, uma que posso dirigir.
      Esta vez ela se colocou atrs do volante. Quando Hoyt se instalou no assento do acompanhante deu um olhar s runas.
      E pensou que, sem Glenna, a solido poderia trag-lo por completo.
            
            
            
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 17
      
      A idia de retornar a seu mundo o atormentava. A idia de morrer neste. Desde no voltar a ver nunca mais seu lar. E tambm a de viver ali durante o resto 
de sua vida sem a mulher que tinha dado um novo sentido  mesma.
      Se uma guerra ia lavrar-se com lana e espada, outra j tinha lugar em seu interior, golpeando com fora um corao que ele jamais imaginou que pudesse sentir 
tanto desejo. 
      Observou Glenna da janela da torre enquanto esta tirava fotos do Larkin e Moira praticando boxe ou fazendo-os posar em posturas menos belicosas.
      Suas feridas tinham curado o suficiente para que j no se movesse com rigidez ou se cansasse com facilidade. Mas ele recordaria sempre o aspecto que tinha 
estendida sobre a erva e sangrando.
      Sua maneira de vestir j no lhe resultava estranha, e sim adequada e prpria do que Glenna era. A forma em que ela se movia, embainhada em umas calas negras 
e uma camisa branca, com o cabelo vermelho e rebelde preso na nuca, era para ele a essncia da graa.
      No rosto de Glenna tinha encontrado beleza e vida. Em sua mente, inteligncia e curiosidade. E em seu corao, compaixo e coragem.
      Compreendeu que nela havia tudo o que ele desejava, sem sentir sequer que nada lhe faltasse.
      No tinha nenhum direito sobre Glenna,  claro. Eles no tinham nenhum direito um sobre o outro mais  frente do tempo que durasse a tarefa que lhes tinham 
encomendado. Se conseguissem sair com vida, se os mundos sobrevivessem, ele retornaria ao dele enquanto que Glenna permaneceria no dela.
      Nem sequer o amor podia abranger mil anos.
      Amor. O corao lhe doa ante essa palavra, de modo que levou a mo ao peito. Aquilo era o amor ento. O vazio no estmago, a queimadura. A luz e a sombra.
      No s pele clida e murmrios  luz das velas, e sim dor e conscincia  luz do dia. Nas profundidades da noite, sentir tanto por uma pessoa que eclipsava 
todo o resto.
      E era aterrador.
      Ele no era um covarde, recordou-se Hoyt. Era um feiticeiro de nascimento e um guerreiro pelas circunstncias. Ele havia sustentado o raio na palma da mo 
e convocado o vento para lan-lo. Tinha matado demnios e, por duas vezes, enfrentou  rainha destes.
      Podia fazer frente ao amor,  claro. O amor no podia estropi-lo nem mat-lo, tampouco o despojar de seu poder. Que tipo de covardia era ento a que fazia 
que um homem se encolhesse ante ele?
      Saiu da sala da torre e desceu depressa a escada. Ao passar junto  porta de seu irmo ouviu msica, uma melodia suave e triste. Sabia que era a msica da 
aflio.
      E soube tambm que seu irmo estava inquieto, tambm o estariam outros da espcie de Cian. A hora do crepsculo estava perto.
      Moveu-se rapidamente atravs da casa, entrou na cozinha, onde havia algo fervendo a fogo lento, e saiu pela parte de trs.
      Larkin estava se divertindo transformando-se em um lobo dourado enquanto Glenna mostrava seu jbilo ante o prodgio e se movia a seu redor com a pequena mquina 
das fotografias. A cmara, recordou-se.
      Larkin voltou a recuperar sua forma humana e, brandindo uma espada, assumiu uma postura arrogante.
      -Tinha melhor aparncia como lobo -disse Moira.
      Larkin elevou a espada fingindo um ataque e correu atrs dela. Seus gritos e risadas eram to opostos  msica que estava escutando seu irmo, que Hoyt s 
pde ficar ali, maravilhado.
      Ainda havia risadas no mundo. Ainda havia tempo, e necessidade de brincar e divertir-se. Ainda havia luz apesar da escurido que se aproximava.
      -Glenna.
      Ela se voltou com o brilho do jbilo ainda nos olhos.
      -OH, perfeito! No se mova. A mesmo, com a casa atrs de voc.
      -Quero que...
      -Cristo... Logo ficarei sem luz. Sim, sim, justo assim. Distante e retrado.  maravilhoso! Eu gostaria que ainda houvesse tempo para que fosse procurar sua 
capa. Foi concebido para levar uma capa.
      Ela mudou de ngulo, agachou-se, disparou vrias vezes com a cmara.
      -No, no me olhe. Olhe mais  frente, por cima de minha cabea, pensa em algo profundo. Olhe para as rvores.
      -No importa para onde olhe, s vejo voc.
      Ela baixou a cmara um momento e o prazer lhe ruborizou as faces.
      -Est tentando me distrair. D-me esse olhar Hoyt, s um instante. Olhando para as rvores, o feiticeiro srio.
      -Quero falar contigo.
      -Dois minutos. -Glenna mudou de ngulo, disparou duas ou trs fotos mais e se ergueu ao mesmo tempo em que examinava as armas que havia em cima da mesa.
      -Glenna, voltaria comigo?
      -Em dois minutos -respondeu ela, duvidando entre a espada de dois fios e a adaga-. De todos os modos devo ir  cozinha para dar uma olhada  sopa.
      -No estou falando de voltar para a maldita cozinha. Vir comigo?
      Glenna elevou a vista, levantando automaticamente a cmara, enquadrando o rosto de Hoyt e capturando a intensidade de sua expresso. Uma boa comida, pensou, 
outra boa noite e estaria preparada para treinar a toda  manh seguinte.
      -Aonde?
      -A casa. A minha casa.
      -O que? -Ela baixou a cmara e sentiu que o corao lhe dava um tombo dentro do peito-. O que?
      -Quando tudo isto tenha acabado. -Hoyt manteve os olhos fixos nos de Glenna enquanto cortava a distncia que os separava-. Vir comigo? Estar comigo? Pertencer-me?
      -Voltar contigo? Ao sculo doze?
      -Sim.
      Ela deixou a cmera lentamente sobre a mesa.
      -Por que me quer?
      -Porque  quo nico vem meus olhos, porque voc  tudo o que quero. Acredito que se tivesse que viver cinco minutos em um mundo no que voc no estivesse, 
seria para mim uma eternidade. E no posso fazer frente  eternidade sem ver seu rosto. -Acariciou-lhe a face com as pontas dos dedos-. Sem escutar sua voz, sem 
a tocar. Acredito que se fui enviado aqui para liderar esta guerra, tambm foi para que a encontrasse. No s para que lutasse a meu lado mas tambm para que me 
abrisse, Glenna.
      Ele agarrou as mos dela entre as suas e as levou aos lbios.
      -Em meio de todo este medo e aflio e perda, vejo voc.
      Enquanto Hoyt falava, Glenna no afastava o olhar dele, procurando. Quando se acabaram as palavras, apoiou a mo sobre o corao do homem.
      -H tantas coisas aqui dentro -disse brandamente-. Tantas coisas, e me sinto muito afortunada de formar parte delas. Irei contigo. Irei contigo aonde for.
      A alegria dessa confirmao se estendeu dentro dele e o alagou de calor enquanto seus dedos voltavam a acariciar suas faces.
      -Significaria renunciar a seu mundo, a tudo o que conhece. Por que o faria?
      -Porque tambm eu pensei o que seria viver cinco minutos sem voc, e inclusive isso  uma eternidade. Porque te amo. -Glenna viu como os olhos dele mudavam-. 
Essas so as palavras mais poderosas em qualquer magia. Amo-te. Com esse conjuro j te perteno.
      -Uma vez que o expressaste, est vivo. Nada pode mat-lo jamais. -Agora Hoyt agarrou seu rosto entre as mos-. Aceitaria-me se eu ficasse aqui contigo?
      -Mas voc disse...
      -Aceitaria-me, Glenna?
      -Sim,  claro que sim.
      -Ento quando tudo isto tenha acabado, veremos qual  nosso mundo. Quando queira que seja, em qualquer lugar que seja, eu te amarei ali. A voc. -Aproximou 
seus lbios aos dela-. E s a voc.
      -Hoyt. -Enlaou-o com seus braos-. Se tivermos isto podemos fazer qualquer coisa.
      -Ainda no o disse.
      Ela ps-se a rir e lhe cobriu as faces de beijos.
      -Estiveste bastante perto.
      -Espera. -Ele a afastou uns centmetros. Fixou aqueles olhos azul intensos nos dela-. Te amo -disse.
      Um raio de sol chegou do cu e os banhou com sua luz, rodeando-os com um crculo branco.
      -Ento j est -murmurou ele-. Nesta vida e em todas as que viro, sou teu e voc  minha. Tudo o que sou, Glenna.
      -Tudo o que serei. Prometo-lhe isso -respondeu ela. Aproximou-se dele e apertou sua face contra a sua-. Acontea o que acontecer, isto  nosso.
      Ela jogou a cabea ligeiramente para trs para que seus lbios pudessem encontrar-se.
      -Sabia que seria voc -disse brandamente- do mesmo momento que entrei em seu sonho.
      Abraaram-se no crculo de luz, estreitaram-se com fora enquanto o sol os envolvia com seu calor. Quando a luz se debilitou e a penumbra comeou a filtrar-se 
no dia, recolheram o resto das armas e as levaram para casa.
      Cian os estava observando da janela de seu quarto. O amor tinha brilhado ao redor deles com uma luz que lhe tinha queimado a pele e secado os olhos.
      E tinha estremecido um corao que no tinha pulsado fazia quase mil anos.
      De modo, pensou, que seu irmo tinha cado ante o nico golpe contra o qual no havia escudo algum. Agora eles viveriam suas curtas e dolorosas vidas dentro 
dessa luz.
      Talvez merecesse a pena.
      Logo retrocedeu para as sombras de seu quarto e sua fria escurido.
            
            
            
      Quando desceu j era completamente noite e ela estava sozinha na cozinha. Cantando frente  pia, conforme observou Cian, com uma voz feliz e ausente. O tipo 
de voz, decidiu, de uma pessoa romntica diria que surgia de seus lbios com pequenos coraes rosados junto com a melodia.
      Ela estava carregando o lava-loua... uma tarefa domstica. E a cozinha cheirava a ervas e flores. Levava o cabelo recolhido em uma cauda e seus quadris se 
moviam ao ritmo da cano.
      Teria tido ele uma mulher como ela se tivesse vivido? -perguntou-se. Uma mulher que cantaria na cozinha, ou que permanecesse sob a luz olhando-o com uma expresso 
de amor no rosto?
      Cian tinha tido muitas mulheres,  claro. Centenas delas. E algumas o tinham amado... para sua perdio, sups. Mas se seus rostos tinham expressado esse amor, 
agora esses rostos no eram nada mais que uma mancha imprecisa para ele.
      E o amor era uma opo que tinha eliminado de sua vida.
      Ou havia dito a si mesmo que assim era. Mas o fato era que tinha amado king, como um pai ama a um filho, ou um irmo a um irmo. A pequena rainha tinha tido 
razo nisso, e maldita fosse por isso.
      Ele tinha entregado seu amor e sua confiana a um humano e, tal como acontece com os humanos, tudo isso tinha morrido com ele.
      Pensando nisso, olhava Glenna colocar os pratos em seu lugar depois de hav-los secado. Outra coisa que os humanos tinham o costume de fazer era sacrificar-se 
por outros seres humanos.
      Era, ou tinha sido, um trao que o tinha intrigado com freqncia. Dadas suas circunstncias, era mais fcil entender seu hbito totalmente contraposto... 
matar-se uns aos outros.
      Nesse momento, Glenna se voltou e se sobressaltou. O prato que sustentava entre as mos caiu ao cho e se fez pedao contra os ladrilhos.
      -Deus. Sinto muito. Assustaste-me.
      Ela se moveu depressa e bruscamente, notou ele, para ser uma mulher com sua graa natural. Agarrou a vassoura e a p do armrio e comeou a varrer as partes 
do prato.
      Cian no lhe tinha falado -tampouco a nenhum de outros-, desde a noite da morte de King. Tinha-os deixado que treinassem sozinhos ou fizessem o que lhes desse 
vontade.
      -No o ouvi chegar. Os outros j terminaram de jantar. E... partiram para cima a treinar um pouco. Eu sa com Hoyt ao redor de uma hora. Lies de conduzir. 
Pensei... -Derrubou as partes do prato no balde do lixo e se voltou-. OH, Deus, diga qualquer coisa.
      -Embora consigam sobreviver, pertencem a dois mundos diferentes. Como pensam resolv-lo?
      -Hoyt falou contigo?
      -No tinha necessidade de faz-lo. Tenho olhos.
      -No sei como faremos para resolv-lo. -Deixou a vassoura em seu lugar-. Encontraremos uma maneira. Importa-se?
      -Nem um mnimo. Simplesmente me produz curiosidade. -Agarrou uma garrafa da bancada e estudou sua etiqueta-. Vivi entre vocs durante uma quantidade de tempo 
considervel. Sem interesse pelo que faziam teria morrido de aborrecimento faz sculos.
      Ela relaxou.
      -Nos amar nos deixa mais forte. Isso ao menos acredito, e precisamos ser mais fortes. At agora digamos que no o temos feito muito bem. 
      Cian desarrolhou a garrafa e se serviu um pouco de vinho em um copo.
      -No, no o tm feito precisamente bem.
      -Cian - chamou ela quando ele se voltou para partir-. Sei que me culpa pelo que aconteceu com King. Tem todo o direito a faz-lo, me culpar e me odiar por 
isso, mas se no encontrarmos uma maneira de trabalhar juntos, de encaixar, King no ser o nico de ns que morrer. S ter sido o primeiro.
      -Eu adiantei-me a ele por algumas centenas de anos.
      Inclinou o copo para ela a modo de saudao e depois partiu levando a garrafa.
      -Bom, foi intil -murmurou Glenna e se voltou para acabar de lavar os pratos.
      Cian no deixaria de odi-la, pensou, e provavelmente tambm deveria odiar Hoyt porque Hoyt a amava. Sua equipe estava fraturada inclusive antes de converter-se 
em uma unidade.
      Se tivessem tempo, muito tempo, ela o deixaria correr, e esperaria a que o ressentimento de Cian esfriasse, e que comeasse a desaparecer. Mas eles no podiam 
permitir o luxo de perder um segundo mais do precioso e escasso perodo que lhes tinham outorgado. Tinha que encontrar a maneira de solucionar esse problema.
      Secou as mos e deixou o pano sobre a bancada.
      Nesse momento, ouviu-se um golpe fora, na porta traseira da casa, como se algo pesado tivesse cado ao cho. Retrocedeu instintivamente e procurou a espada 
que estava apoiada na bancada e uma das estacas de madeira que havia sobre ela.
      -Eles no podem entrar -sussurrou para si, e inclusive o sussurro a sobressaltou -. Mas e se querem me espiar enquanto ordeno a cozinha?
      Desejou que Hoyt e ela tivessem tido mais sorte criando um conjuro para estabelecer uma rea protegida ao redor da casa.
      No obstante, no podia permitir que a atemorizassem, no o faria.
      Obviamente, no tinha a menor inteno de abrir outra vez a porta e manter um bate-papo com algo que queria lhe cortar o pescoo, mas ento ouviu como se algum 
estivesse arranhando ligeiramente a porta. E um gemido. E a mo que aferrava o punho da espada se molhou com seu suor.
      -Me ajude. Por favor.
      A voz era muito dbil, apenas audvel atravs da madeira. Mas lhe pareceu...
      -Me deixe entrar. Glenna? Glenna? Pelo amor de Deus, me deixe entrar antes que cheguem.
      -King?
      Deixou cair a espada ao cho quando correu para a porta. Entretanto manteve a estaca firmemente obstinada na mo.
      "J me enganastes uma vez", pensou ela, e se manteve fora do alcance enquanto abria a porta.
      King estava estendido sobre as lajes de pedra diante da porta, com as roupas rasgadas e cobertas de sangue. Havia mais sangue seco em um lado do rosto e sua 
respirao era uma brisa leve.
      "Esta vivo", foi o nico que pde pensar.
      Comeou a agachar-se para arrast-lo para dentro da casa, mas Cian estava j junto a ela. Afastou-a e se inclinou para King, apoiando uma mo sobre a maltratada 
face de seu amigo.
      -Temos que entrar na casa. Depressa, Cian! Tenho algumas coisas que podem ajud-lo.
      -Esto perto. Seguem-me. -Procurou tocar a mo de Cian -. No pensei que conseguiria.
      -Mas o tem feito. Vem, entremos na casa. -Agarrou King por debaixo dos braos e o arrastou para a cozinha -. Como conseguiu escapar?
      -No sei. -King ficou estendido no cho, com os olhos fechados -. Consegui cair sem bater nas rochas. Pensei que me afogaria no mar, mas... consegui sair da 
gua. Doa-me todo o corpo. Perdi os sentidos durante no sei quanto tempo. Caminhei. Caminhava todo o dia. Escondia-me ao chegar a noite. Eles apareciam com a escurido.
      -Me deixe ver o que posso fazer por ele -disse Glenna.
      -Fecha a porta - ordenou Cian.
      -Todos o faziam. Todos estavam... sedentos.
      -Sim, sei. -Cian lhe agarrou a mo e olhou aos olhos -. Sei.
      -Comearemos com isto. -Glenna mesclou algo e o agitou em uma taa -. Cian se pudesse ir procurar os outros. Hoyt e Moira poderiam me ajudar. Temos que levar 
King a sua cama e o pr cmodo.
      Glenna se inclinou sobre ele enquanto falava e a cruz que tinha pendurada no pescoo se balanou para o rosto de King.
      O enorme negro vaiou como uma serpente, descobriu as presas e retrocedeu.
      -Nunca me disse o que se sentia - disse a Cian.
      -As palavras no podem descrev-lo.  necessrio experiment-lo pessoalmente.
      -No. -Glenna s podia sacudir a cabea -. OH, Deus, no.
      -Poderia me haver convertido nisto h muito tempo, mas me alegra que no o fizesse. Alegra-me que tenha sido agora, quando estou em minha melhor forma.
      King caminhava em crculos enquanto falava, bloqueando a porta da cozinha.
      -Eles primeiro me feriram. Lilith conhece maneiras assombrosas de causar dor. Sabe que ante ela no tem nenhuma possibilidade. 
      -Sinto muito -murmurou Glenna -. Sinto muito.
      -No deve senti-lo. Ela me disse que podia me ter. Comer-me ou transformar-me. Deixou a minha escolha.
      -Mas voc no quer me fazer dano, King -disse Glenna.
      -OH, sim,  claro que quer sim -a contradisse Cian -. Quer que sinta dor quase tanto quanto deseja sentir seu sangue em sua garganta. Est feito assim. Ela 
j tinha lhe entregue o dom antes que o lanassem pelo escarpado?
      -No. Mas entretanto estava ferido, muito ferido gravemente. Mal podia me ter em p. Quando me lanaram ao vazio me tinham segurado com uma corda ao redor 
da cintura. Se conseguisse sobreviver, ela me concederia o dom. E sobrevivi. Lilith o levar de volta.
      -Sim, sei que o far.
      Glenna olhou a um e a outro. Estava presa entre ambos. Ele sabia, agora o via claro. Cian sabia o que King era antes de entr-lo na casa.
      -No faa isto. Como pode fazer isto? A seu prprio irmo?
      -Eu no posso o ter - disse King a Cian ignorando Glenna -. E voc tampouco. Lilith quer Hoyt para ela. Quer beber o feiticeiro. Com seu sangue ascender inclusive 
mais alto. Todos os mundos que existam sero nossos.
      A espada estava muito longe e ela j no tinha a estaca em seu poder. No tinha nada.
      -Temos que levar a Lilith Hoyt e  outra mulher, vivos. Esta e o moo so nossos se os quisermos.
      -Faz muito tempo que no bebo sangue humano. -Cian estendeu a mo e passou um dedo pelo pescoo de Glenna -. Mas eu diria que esta tem que ser embriagadora.
      King umedeceu os lbios.
      -Podemos compartilh-la.
      -Sim, por que no? -Cian intensificou a presso sobre o pescoo de Glenna, e quando ela comeou a debater-se, quando comeou a respirar com dificuldade, ps-se 
a rir -. OH, sim, grita pedindo ajuda. Chama os outros para que venham a lhe salvar. Isso nos economizar ter que subir.
      -Assim sendo apodream no inferno. Lamento o que te aconteceu -disse a King quando comeou a aproximar-se -eu sinto pela parte que eu tenha podido ter nisso, 
mas no lhe porei isso fcil.
      Glenna utilizou Cian como ponto de apoio, elevou as pernas e as lanou para frente. Alcanou King no peito e conseguiu que retrocedesse uns passos, entretanto, 
ele ps-se a rir e avanou novamente para ela.
      -Eles os deixam fugir pelas cavernas. Para que assim possamos ca-los. Eu gosto quando fogem. Quando gritam.
      -Eu no gritarei.
      Glenna se defendeu com os cotovelos e as pernas.
      Ouviu rpidas pegadas que se aproximavam da cozinha e s atinou a pensar "No!", de modo que depois de tudo, gritou enquanto continuava lutando e lanando 
chutes.
        -A cruz. No posso passar alm da fodida cruz. Golpeia-a para que perca o sentido! -exigiu King -. Tire-a. Estou faminto.
        -Eu me encarrego.
        Cian apartou Glenna de um tranco no momento em que os outros entravam na cozinha e, olhando King fixamente nos olhos, afundou no corao de seu amigo a estaca 
que levava oculta  costas.
        - o nico que podia fazer por voc - disse e lanou a estaca a um lado.
        -King. King. No. -Moira caiu de joelhos junto ao monte de p. Logo apoiou as mos sobre ele e falou com voz entrecortada pelas lgrimas -: Permitam que 
o que ele era, sua alma e seu corao, sejam bem-vindos novamente em algum mundo. O demnio que o levou est morto. Permitam que tenha luz para encontrar o caminho 
de volta.
      -No poder conseguir que um homem se levante de uma pilha de cinzas.
      Moira elevou a vista para Cian.
      -No, mas possivelmente possa liberar sua alma para que possa renascer. Voc no matou seu amigo, Cian.
      -No. Lilith o fez.
      -Eu acreditava... -Glenna seguia tremendo enquanto Hoyt a ajudava a levantar do cho.
      -Sei o que acreditou. Por que no iria faz-lo?
      -Porque teria que ter acreditado em voc. Eu disse que no fomos uma unidade, mas no me dava conta de que eu era to culpado disso como todos outros. No 
confiei em voc. Pensei que me mataria, e entretanto escolheu me salvar.
      -Equivoca-se. Escolhi salvar a ele.
      -Cian. -Glenna se aproximou -. Eu provoquei isto. No posso...
      -No, voc no fez nada. Voc no o matou, voc no o converteu no que era agora. Lilith o fez. E depois o enviou aqui para que morresse outra vez. King era 
novo e ainda no acostumado a sua pele. Alm disso, estava ferido. Ele no teria podido com todos ns e ela sabia.
      -Lilith sabia o que voc faria. -Hoyt se aproximou de seu irmo e apoiou uma mo sobre seu ombro -. E o que isso te custaria.
      -Ela no podia perder. De modo que devia pensar, no o mato, ele se encarrega ao menos de um e eles... possivelmente todos se eu o ajudasse. Mas se eu reagisse 
de outro modo o destruiria, mas como... OH, isso me custa muito, realmente muito.
      -A morte de um amigo -disse Larkin -  uma morte muito dura. Todos a sentimos.
      -E eu acredito. -Baixou a vista para onde Moira ainda estava ajoelhada no cho -. Mas veio a mim primeiro porque ele primeiro foi meu. No tem feito isto por 
vocs -disse a Glenna - Lilith o tem feito por mim. Eu poderia haver culpado voc, e o fiz, se ela s o tivesse matado. Mas agora, com o que ocorreu, no se trata 
de voc. Trata-se de Lilith e de mim.
      Cian recolheu a estaca que tinha empregado para matar King e examinou a ponta mortal.
      -E quando chegar o momento, quando a enfrentarmos, Lilith  minha. Se qualquer um de vocs de um passo para atirar o golpe mortal, eu o deterei. De modo que 
vem, Lilith calculou mal. Deve-me pelo que fez hoje e a matarei por isso.
           
            
            
      Glenna treinou formando par com Larkin, espada contra espada. Cian tinha juntado Moira com Hoyt, e retrocedia ou se movia ao redor deles enquanto entrechocavam 
as folhas de ao. Lanava insultos, algo que Glenna interpretou que era sua forma de estimul-los.
      O brao ainda lhe doa e tinha sensvel a rea das costelas onde a tinham golpeado, mas enquanto o suor corria pelas costas e entrava nos olhos, continuou 
lutando e lanando golpes. A dor e o esforo a ajudavam a bloquear a lembrana de King na cozinha, avanando para ela com as presas descobertas.
      -Mantm os braos levantados - gritou Cian -. Se no for capaz de sustentar corretamente uma espada no durar nem cinco minutos. E voc Larkin, deixa de danar 
com ela, pelo amor de Deus, isto no  uma fodida discoteca.
      -Glenna ainda no est totalmente curada de suas feridas -replicou Larkin -. E que demnios  uma discoteca?
      -Preciso parar -disse Moira, baixando a espada e enxugando o suor da testa com o dorso da mo livre -. Descansar um momento.
      -Pois no o far. -Cian se voltou para ela -. Acaso acha que faz um favor a Glenna pedindo um descanso? Acredita que eles acessaro um fodido tempo morto porque 
sua amiga precisa recuperar o flego?
      -Estou bem. No  necessrio que lhe grite. -Glenna fez um esforo para recuperar-se, para devolver um pouco de fora a suas pernas -. Estou bem. E voc deixa 
de retroceder -disse a Larkin -. No necessito que me mimem.
      -Sim, ela necessita que a cuidem. -Hoyt fez um gesto para que Larkin se afastasse -.  muito cedo para que treine com esta intensidade.
      -Isso no deve diz-lo voc -assinalou Cian.
      -Pois o estou dizendo. Est exausta e dolorida. J  suficiente.
      -E eu disse que estou bem; posso falar por mim mesma. Que  o que seu irmo assinalou, embora adore comportar-se como um bode. No necessito nem quero que 
fale por mim.
      -Ento ter que ir se acostumando a isso, porque o farei sempre que o necessite.
      -Eu sei o que necessito e quando o necessito.
      -Vocs dois poderiam conceber matar o inimigo com seu bate-papo -disse Cian secamente.
      Glenna perdeu a pacincia e apontou Cian com sua espada.
      -Venha. Venha ento, voc e eu. Voc no retroceder.
      -No. -Cian elevou a espada para ela -. No o farei.
      -Eu disse que j  suficiente.
      Hoyt colocou a folha de sua espada entre ambos e sua fria enviou uma labareda de fogo sobre o ao.
      -Quem de vocs quer se encarregar do trabalho?
      Agora o tom de Cian era suave, e seus olhos se obscureceram com um perigoso prazer quando Hoyt se voltou para ele.
      -Isto ser interessante -comentou Larkin, mas sua prima se interps entre eles.
      -Esperem -disse -. Espere um momento. Estamos alterados, todos ns. Esgotados e alm disso super excitados, como cavalos depois de um comprido galope. No 
tem nenhum sentido que nos causemos dano mutuamente. Se no tomar um descanso, ao menos abramos as portas para que entre um pouco de ar.
      -Quer que abramos as portas? -Cian elevou a cabea, subitamente cordial -. Um pouco de ar fresco  o que querem? Pois ento isso  o que teremos.
      Dirigiu-se para as portas do terrao e as abriu de par em par. Depois, em um abrir e fechar de olhos, perdeu-se na escurido.
      -Entrem, por favor -disse, e arrastou consigo dois vampiros atravs das portas. - Aqui h um monte de comida. -Foi at a mesa enquanto os dois vampiros tiravam 
suas espadas. Na ponta da sua trespassou uma das mas que havia em uma bacia. Depois se apoiou contra a parede enquanto lhe dava uma dentada.
      -Vejamos o que podem fazer com estes dois -sugeriu -. So dois contra um, depois de tudo.  possvel que tenham uma oportunidade de sobreviver.
      Hoyt girou sobre si mesmo colocando Glenna detrs dele. Larkin j se estava movendo com a espada na mo. Seu oponente bloqueou a estocada com facilidade e 
atirou um golpe que enviou Larkin voando ao outro lado da sala.
      Ento se voltou e atacou a Moira. O primeiro golpe alcanou totalmente sua espada e a fora a derrubou, fazendo que se deslizasse pelo cho. Moira procurou 
desesperadamente sua estaca enquanto aquela coisa voava pelo ar para ela.
      Glenna enterrou seu medo e tirou sua fria. Disparou seu poder -o primeiro aprendido, o ltimo perdido - e fez aparecer o fogo. O vampiro ardeu no ar.
      -Bom tiro, ruiva -comentou Cian e viu seu irmo lutando por sua vida.
      O ajude. Ajude-me -pediu Glenna.
      -Por que no o ajuda voc?
      -Esto muito perto um do outro para usar o fogo.
      -Prova com isto.
      Cian lhe lanou uma estaca e continuou mordiscando a ma.
      Ela no pensou. No podia pensar, enquanto corria para eles, enquanto cravava a estaca de madeira nas costas do vampiro que tinha Hoyt de joelhos.
      No o alcanou no corao.
      O vampiro lanou um uivo, mas nesse grito parecia haver mais prazer que dor. Girou-se e levantou a espada. Larkin e Moira carregaram contra ele, mas Glenna 
se viu morta. Estavam muito longe e ela no tinha nada com que defender-se.
      Ento Hoyt lhe cortou o pescoo com a espada. O sangue salpicou o rosto de Glenna antes que o vampiro se convertesse em cinzas.
      -Bastante dramtico, mas eficaz no geral. -Cian limpou as mos -. Agora formem pares. A hora do recreio terminou.
      -Voc sabia que esses dois vampiros estavam a fora. -A mo da Moira tremia, com a estaca ainda entre os dedos -. Voc sabia.
      - claro que sabia. E se voc utilizasse o crebro, ou ao menos alguns de seus sentidos, tambm o haveria sentido.
      -Teria deixado que nos matassem.
      -Para ser mais exatos, vocs teriam deixado que os matassem. Vocs. -Fez um gesto para Moira -. Voc ficou ali imvel, deixando que o medo a empapasse, perfumou-a, 
e voc -agora tocou o turno a Larkin -, voc atacou sem usar a cabea, por isso esteve a ponto de perd-la. Quanto -disse a Hoyt -proteger s mulheres pode ser um 
gesto prprio de cavalheiros, mas com essa atitude ambos morrero... com sua honra intacta,  claro. Enquanto que a ruiva, ao menos a princpio usou a cabea, e 
o poder de seus fodidos deuses lhe concederam, mas em seguida caiu em pedaos e esperou mansamente que chegasse a morte.
      Cian avanou dois passos.
      -De modo que trabalharemos seus pontos dbeis. Que  legio.
      -Eu j tive suficiente. -A voz da Glenna era pouco mais que um sussurro -. Suficiente de sangue e de morte, suficiente por uma noite. Suficiente.
      Deixou cair a estaca e abandonou a sala.
      -Deixa que parta. -Cian agitou uma mo ao ver que Hoyt se voltava para segui-la -. Pelo amor de Deus, se tivesse um grama de crebro se daria conta de que 
ela quer estar sozinha... E alm disso um silncio potente e dramtico como o de Glenna merece ser respeitado. Deixemos que o tenha.
      -Cian tem razo. -Moira falou depressa -. Embora me doa diz-lo, ela agora necessita silncio. -aproximou-se para recolher a espada que o vampiro lhe tinha 
feito saltar da mo -. Pontos dbeis. -Assentiu, e enfrentou Cian -. Muito bem. Ensina-me.
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 18
      
      Quando entrou no quarto, Hoyt esperava encontr-la na cama. Tinha esperado que ela estivesse dormindo, de modo que ele pudesse trabalhar em suas feridas.
      Mas Glenna estava junto  janela, na escurido.
      -No acenda a luz -disse sem voltar-se-. Cian tinha razo, h ainda mais deles a fora. Se prestar ateno pode senti-los. Movem-se como sombras, mas h movimento... 
melhor uma sensao de movimento. Depois partiram, acredito. Ao buraco onde permanecem enterrados durante o dia.
      -Deveria descansar.
      -Sei que o diz por que est preocupado por mim e porque agora estou bastante calma como para no lhe cortar a cabea por isso. Sei que minha atuao no foi 
muito boa ali em cima. E realmente no me importa.
      -Est cansada, quo mesmo eu. Quero me lavar e quero dormir.
      -Bem. Tem seu prprio quarto. E o que tem feito foi inapropriado -continuou Glenna antes que ele pudesse responder. Agora se voltou. Seu rosto parecia muito 
plido na escurido, branco contra o robe escuro que usava-. No estou to tranqila como acreditava. No tinha nenhum direito, nenhum direito, a se colocar diante 
de mim quando entraram os vampiros.
      -Tenho todo o direito do mundo. O amor me d esse direito. E inclusive sem isso, se um homem no proteger uma mulher do perigo...
      -No siga falando. -Ela elevou a mo com a palma para fora, como se quisesse bloquear suas palavras-. Esta no  uma questo de homens e mulheres. Trata-se 
de seres humanos. Os segundos que empregou em pensar em mim, em preocupar-se por mim poderiam lhe ter custado a vida. E no podemos desperdi-la, nenhum dos dois. 
Nenhum de ns. Se no confiar em que possa defender a mim mesma, que todos ns podemos, no estamos indo a nenhuma parte.
      O fato de que suas palavras tivessem sentido no importava absolutamente no que a ele concernia. Ainda podia ver como aquele monstro saltava sobre ela.
      -E onde estaria neste momento se eu no tivesse destrudo essa criatura?
      -Isso  diferente. Essa  uma questo diferente.
      Agora Glenna se aproximou dele, de modo que Hoyt pde cheirar seu perfume, as loes que passava na pele. To absolutamente feminino.
      -Isto  uma tolice e uma perda de tempo.
      -Isto no  nenhuma tolice para mim, de modo que me escute bem. Lutar cotovelo com cotovelo com seus companheiros e os proteger  uma coisa, um pouco realmente 
vital. Todos temos que ser capazes de contar com o outro. Mas me afastar de uma batalha  completamente diferente. Tem que entender e aceitar a diferena.
      -Como poderia faz-lo quando se trata de voc, Glenna? Se a perdesse...
      -Hoyt. -Ela o agarrou de ambos os braos com fora, uma espcie de impaciente consolo. -Qualquer um de ns ou todos podemos morrer nesta guerra. Estou lutando 
para entend-lo e aceit-lo. Mas se voc morrer, no quero viver o resto de minha vida com a responsabilidade de saber que foi por mim. No o farei.
      Glenna se sentou na beira da cama.
      -Esta noite matei. J sei o que se sente ao acabar com algo. Usar meu poder para faz-lo, algo que jamais pensei que faria. Que precisaria fazer. -Levantou 
as mos para examin-las-. O tenho feito para salvar outro ser humano e ainda assim me pesa. Sei que se o tivesse feito me valendo de uma espada ou de uma estaca 
o aceitaria mais facilmente. Mas utilizei a magia para destruir.
      Glenna elevou o rosto para ele e em seus olhos havia um enorme pesar.
      -Este dom sempre foi to luminoso e agora nele h escurido. Tenho que entender e aceitar isso tambm. E tem que deixar que o faa.
      -Eu aceito seu poder, Glenna, e tudo o que pode e quer fazer com esse poder. E acredito que todos ns estaramos melhor assistidos por esse poder se trabalhasse 
s nos conjuros.
      -E lhes deixar o trabalho sangrento? Longe da linha de frente, a salvo do perigo, revolvendo meu caldeiro?
      -Esta noite estive a ponto de perd-la duas vezes. De modo que far o que lhe digo.
      Glenna demorou um momento encontrar sua voz.
      -Bom, isso jamais. Esta noite enfrentei duas vezes  morte e consegui sobreviver.
      -Amanh seguiremos falando disto.
      -OH, no, OH, no, no o faremos.
      Glenna agitou a mo e a porta do banheiro se fechou com estrpito um segundo antes que Hoyt chegasse a ela.
      Voltou-se a beira de sua pacincia.
      -No me lance seu poder em cima.
      -E voc no me lance sua virilidade. E alm isso a porta no saiu como eu pretendia. -Respirou profundamente porque sentia que a risada lhe tremulava no fundo 
da garganta junto com seu aborrecimento. -Hoyt, eu no farei o que voc me ordena, e espero que tente entend-lo. Est assustado por mim, e o entendo, porque eu 
tambm estava assustada por mim. E por voc, por todos ns. Mas temos que superar.
      -Como? -perguntou ele -. Como se faz isso? Este amor  novo para mim, esta necessidade e este terror que o acompanha. Quando fomos convocados para este trabalho, 
pensei que seria o mais difcil que nunca tinha feito na vida, mas estava equivocado. Te amar  mais difcil ainda, te amar e saber que poderia te perder. 
      Durante toda sua vida, pensou Glenna, tinha esperado que algum a amasse desse modo. Que ser humano no o esperava? 
      -Eu no sabia que pudesse sentir algo assim por ningum replicou ela. Esta sensao tambm  nova para mim, difcil, alarmante e nova. E eu gostaria de poder 
dizer que no me perder. Eu gostaria de poder diz-lo. Mas sei que quanto mais forte seja, mais possibilidades tenho de seguir viva. Quanto mais fortes sejamos 
todos ns, mais probabilidades temos de sobreviver. De ganhar.
      Glenna se levantou da cama.
      Esta noite vi King, um homem ao que tinha chegado a apreciar. Vi o que tinham feito com ele. Essa coisa em que o tinham convertido queria meu sangue, minha 
morte, teria se recreado nela. Ver isso, saber isso, di alm do concebvel. Era um amigo. Converteu-se rapidamente em nosso amigo.
      Sua voz tremia, de modo que teve que dar a volta e retornar  janela e  escurido.
      -Havia uma parte de mim -prosseguiu ela-, inclusive enquanto lutava contra ele para me salvar, que via o que ele tinha sido, o homem que tinha cozinhado comigo, 
que tinha se sentado a meu lado e que riu comigo. No podia usar meus poderes contra ele, no podia tir-los dentro de mim para faz-lo. Se Cian no houvesse... 
-Agora se voltou, erguida e plida-. No voltarei a ser dbil. No voltarei a duvidar uma segunda vez. Tem que confiar que o farei.
      -Voc me gritou ento que fugisse. Diria que isso no foi ficar diante de mim na batalha?
      Glenna abriu a boca para dizer algo e voltou a fech-la. Esclareceu a garganta.
      -Nesse momento acreditei que era o que devia fazer. Est bem, est bem, mensagem recebida e aceita. Ambos trabalharemos nisso. E tenho algumas idias sobre 
o armamento que poderia nos resultar teis. Mas antes que acabemos com isto e vamos para cama, quero que esclareamos outro ponto.
      -No me surpreende absolutamente.
      -Que brigue com seu irmo por mim no  algo que aprecie ou considere adulador.
      -No se tratava somente de voc.
      -Sei. Mas eu fui o catalisador. E tambm falarei com Moira sobre este assunto. Sua idia de afastar a ateno de Cian de ns desencadeou tudo.
      -Foi uma loucura por parte de meu irmo fazer que essas coisas entrassem na casa. Seu prprio temperamento e sua arrogncia poderiam nos haver custado vrias 
vidas.
      -No. -Ela falou com tom tranqilo e com absoluta convico-. Esteve muito acertado ao faz-lo.
      Hoyt a olhou sobressaltado.
      -Como pode dizer isso? Como pode o defender?
      -Cian nos deu uma lio grande e luminosa, algo que no seremos capazes de esquecer. Nem sempre saberemos quando aparecero essas coisas, por isso temos que 
estar preparados para matar ou morrer cada minuto, cada dia. E realmente no o estvamos. Inclusive depois do episdio de King, no o estvamos. Se tivesse havido 
mais desses monstros, se as foras tivessem estado mais equilibradas, poderia ter sido uma histria completamente diferente.
      -Cian ficou a um lado, no fez nada.
      -Sim o fez. Outra questo. Cian  o mais forte de ns e o mais preparado nestas circunstncias. De ns depende que trabalhemos para reduzir essa diferena. 
Tenho algumas idias, ao menos para ns dois. -Glenna se aproximou dele, ficou nas pontas dos ps para roar sua face com os lbios-. Adiante, v lavar se. Quero 
deixar este assunto para amanh. Quero dormir contigo.
            
            
            
      Essa noite sonhou com a deusa, sonhou que caminhava atravs de um mundo de jardins, onde os pssaros eram to brilhantes como as flores, e as flores pareciam 
diamantes.
      De um alto escarpado negro, a gua da cor da safira lquida se precipitava sobre um lago transparente como o cristal onde nadavam peixes dourados e vermelhos.
      O ar era quente e estava cheio de fragrncias.
      Alm dos jardins se estendia uma praia prateada onde a gua turquesa lambia brandamente a margem como um amante. Havia crianas que construam castelos de 
areia ou brincavam entre a espuma das ondas. Suas risadas eram transportadas pelo ar como o canto dos pssaros.
      Da praia se elevavam escadas de um branco intenso com diamantes vermelhos aos lados. No alto havia casas pintadas de cor pastel, bordeadas por mais flores, 
com rvores cobertas de brotos.
      Ela podia escutar a msica que chegava da elevada colina, as harpas e flautas que cantavam de alegria.
      -Onde estamos?
      -H muitos mundos - disse Morrigan enquanto caminhavam-. Este  s um deles. Pensei que devia ver que luta por algo mais que o seu, ou o dele, ou o mundo de 
seus amigos.
      - formoso. Parece... feliz.
      -Alguns mundos o so, outros no. Alguns exigem uma vida dura, cheia de dor e esforo. Mas segue sendo a vida. Este mundo  velho -prosseguiu a deusa, e suas 
roupas se agitaram quando abriu os braos-. Esta beleza, esta paz, ganharam-se atravs da dor e o esforo.
      -Podia deter o que se aproxima. Deter Lilith.
      Morrigan se voltou para a Glenna com seu cabelo brilhante ondeando ao vento.
      -Fiz o que pude para det-la. Escolhi voc.
      -No  suficiente. J perdemos um dos nossos. Era um bom homem.
      -Muitos o so.
      - assim como age o destino? Os supremos poderes? De um modo to frio?
      -Os supremos poderes levam a risada a essas crianas, trazem o sol e as flores. Amor e prazeres. E, sim, tambm dor e morte. Assim  como deve ser.
      -Por qu?
      Morrigan se voltou para ela com um sorriso nos lbios.
      -Do contrrio, tudo significaria muito pouco.  uma moa dotada. Mas o dom tem um peso.
      -Utilizei esse dom para causar destruio. Durante toda minha vida acreditei, ensinaram-me, soube que o que tinha, o que era, nunca podia fazer mal. Mas o 
utilizei para caus-lo.
      Morrigan acariciou o cabelo de Glenna.
      -Este  o peso e deve levar. Encomendaram-lhe que golpeie o mal com ele.
      -J no voltar a ser o mesmo -disse Glenna olhando por volta do mar.
      -No, no ser o mesmo. E ainda no est preparada. Nenhum de vocs est. Ainda no so uma unidade.
      -Perdemos King.
      -Ele no est perdido. S se mudou a um mundo diferente.
      -Ns no somos deuses, ns sofremos pela perda de um amigo, pela crueldade que isso significa.
      -Haver mais morte mais sofrimento.
      Glenna fechou os olhos. Era mais duro, muito mais duro, falar da morte quando estava contemplando semelhante beleza.
      -Hoje temos boas notcias. Quero retornar.
      -Sim, deveria estar ali. Ela trar sangue e outro tipo de poder.
      -Quem o trar? -O medo fez Glenna retroceder-. Lilith? Vem?
      -Olhe para ali. -Morrigan assinalou o oeste-. Quando aparecer o raio.
      O cu ficou negro e o raio saiu do cu para alcanar o corao do mar.
            
            
            
      Quando Glenna gemeu e se voltou na cama, os braos do Hoyt a envolveram.
      -Est escuro.
      -Logo amanhecer.
      Roou seu cabelo com os lbios.
      -Aproxima-se uma tormenta. E Lilith vem com ela.
      -Tiveste um sonho?
      -Morrigan me levou. -Glenna se apertou contra seu corpo. Hoyt estava quente. Era real-. A um lugar lindo. Perfeito e formoso. Depois chegou a escurido e o 
raio golpeou a gua. Pude os ouvir grunhindo na escurido.
      -Agora est aqui. A salvo.
      -Nenhum de ns est. -Sua boca se elevou e se uniu a dele com desespero-. Hoyt.
      Colocou-se em cima dele, bela e fragrante. A pele branca perlada, contra as sombras. Agarrou suas mos e as apertou contra seus seios. Sentiu que seus dedos 
se fechavam em torno dela.
      Reais e quentes.
      Quando seus batimentos do corao se aceleraram, as chamas das velas comearam a tremular. Na lareira o fogo se avivou.
      -H poder em ns. -inclinou-se sobre ele e seus lbios percorreram seu rosto, seu pescoo-. Olha-o, sente-o.  o que conseguimos juntos.
      A vida era no nico em que ela podia pensar. Ali estava a vida, quente e humana. Ali havia um poder que podia rechaar os dedos gelados da morte.
      Glenna voltou a erguer-se, fazendo que Hoyt entrasse nela, forte e profundo. Depois jogou o corpo para trs enquanto a excitao a percorria como um rio de 
vinho.
      Ele a abraou, atraindo a de um modo que seus lbios chegassem aos seus seios, de modo que pudesse saborear os batimentos de seu corao. A vida, pensou ele 
tambm. Ali estava a vida.
      -Tudo o que sou. -Quase sem flego, ele se deleitou com ela. -Isto  mais. Desde o primeiro momento, para sempre.
      Ela agarrou seu rosto entre as mos e se olhou em seus olhos.
      -Em qualquer mundo. Em todos eles.
      Hoyt se derramou atravs dela, to depressa, to quente, que ela lanou um grito.
      O amanhecer chegou em silncio enquanto sua paixo rugia.
      
      - o fogo - disse Glenna.
      Estavam na torre, sentados diante de umas xcaras de caf e de uns pes-doces. Ela tinha trancado a porta e aplicado um conjuro para assegurar-se que nada 
nem ningum pudessem entrar at que ela tivesse acabado.
      - excitante.
      Hoyt ainda tinha os olhos sonolentos e o corpo relaxado.
      O sexo, pensou Glenna, podia obrar milagres. Ela tambm se sentia estupendamente bem.
      -O sexo no meio da noite, quando estamos meio dormidos, est de acordo contigo, mas no estou falando desse tipo de fogo. Ou no exclusivamente. O fogo  uma 
arma, uma arma poderosa, contra o que estamos lutando.
      -Voc matou uma dessas criaturas ontem  noite com ele. -Hoyt se serviu mais caf. Deu-se conta de que estava desenvolvendo uma notvel predileo por essa 
beberagem-. Eficaz e rpida, mas tambm...
      -Um tanto imprevisvel,  verdade. Se a mira est desviada ou se um de ns se encontra muito perto... ou tropea, ou  empurrado, no meio da trajetria, poderia 
resultar extremamente trgico. Mas... -Glenna fez tamborilar os dedos contra a xcara -. Aprendamos a control-lo, a canaliz-lo. Isso  o que fazemos depois de 
tudo. Praticar, praticar. E mais ainda, podemos utiliz-lo para melhorar as outras armas. Como fez voc ontem  noite, com o fogo na espada.
      -Perdo?
      -O fogo que apareceu em sua espada quando enfrentou Cian. -Ela arqueou as sobrancelhas ao ver a expresso desconcertada de Hoyt-. No o chamou, simplesmente 
veio. Paixo... ira, nesse caso. Paixo quando estamos fazendo amor. Ontem  noite uma chama percorreu a folha de sua espada por um instante, convertendo-a em uma 
espada flamejante.
      Glenna se levantou da mesa e comeou a passear pela sala.
      -No fomos capazes de fazer nada para criar uma rea de proteo ao redor da casa.
      -Ainda devemos encontrar a maneira de faz-lo.
      -No ser fcil, j que temos um vampiro vivendo na casa. No podemos criar um conjuro para repelir os vampiros sem repelir tambm Cian. Mas sim, com o tempo, 
se tivermos esse tempo, poderemos encontrar a maneira de consegui-lo. Enquanto isso, o fogo no s  eficaz, mas tambm  belamente simblico. E pode apostar seu 
magnfico trazeiro que farei que nossos inimigos temam os deuses.
      -O fogo requer uma grande concentrao. E isso  um pouco difcil quando est lutando por sua vida.
      -Trabalharemos juntos nisso at que no seja to difcil. -Voc queria que eu trabalhasse mais com a magia e, neste caso, estou desejando faz-lo.  hora de 
nos provemos de um arsenal importante.
      Glenna voltou a sentar-se  mesa.
      -Quando chegar o momento de levar esta guerra a Geall, iremos bem providos.
            
            
            
      Glenna dedicou o dia a essa obrigao, com Hoyt e sem ele. Enterrou-se em seus prprios livros e nos que tinha pegado da biblioteca de Cian.
      Quando o sol se ocultou, acendeu velas para trabalhar com luz e ignorou os golpes de Cian na porta. Fez ouvidos surdos a seus insultos e seus gritos de que 
era a fodida hora de treinar.
      Ela estava treinando.
      E sairia da sala quando estivesse completamente preparada.
            
            
            
      A mulher era jovem e fresca. E estava muito, muito, muito sozinha.
      Lora vigiava das sombras, encantada com sua sorte. E pensar que havia se sentido molesta quando Lilith a tinha enviado acompanhada de um trio de soldados de 
infantaria a uma simples misso de explorao. Ela teria querido atacar um dos pubs dos subrbios, divertir um momento, dar um festim. Quanto esperava Lilith que 
permanecessem nas cavernas, ocultos, caindo sobre algum turista ocasional? 
      A maior diverso que tinha tido em semanas tinha sido amassar aquela bruxa, e levar o homem negro mesmo ante os narizes daquela aborrecida brigada sagrada. 
      Desejou que tivessem estabelecido sua base de operaes em qualquer parte menos naquele horrvel lugar. Em Paris ou Praga. Em um lugar onde houvesse tanta 
gente que ela pudesse as arrancar como se fossem ameixas de uma rvore. Um lugar cheio de sons e batimentos do corao, e do aroma da carne.
      Juraria que naquele estpido pas havia mais vaca e ovelhas que pessoas.
      Era aborrecido.
      Mas agora se apresentou uma interessante possibilidade.
      To bonita. To desafortunada.
      Seria uma boa candidata para uma transformao, e tambm um rpido lanche. Seria divertido ter uma nova companheira, especialmente uma mulher. Uma a que pudesse 
treinar e com a que pudesse brincar.
      Um brinquedo novo, decidiu, para combater seu aborrecimento infinito; ao menos at que comeasse a verdadeira diverso.
      Aonde, perguntou-se, teria ido aquela preciosidade em seu pequeno carro depois do anoitecer? Tinha sido uma autntica m sorte que tivesse uma espetada naquela 
tranqila estrada rural.
      Um bonito casaco, tambm, pensou Lora enquanto observava como a mulher tirava do porta-malas o macaco e o pneu de estepe. Ambas eram quase da mesma altura, 
e Lora podia ter tanto o casaco como o que havia debaixo do mesmo.
      Todo aquele sangue maravilhoso e clido.
      -Tragam-me isso.
      Fez um sinal aos trs vampiros que a acompanhavam.
      -Lilith disse que no devamos nos alimentar at...
      Ela se voltou com as presas brilhando  luz da lua e os olhos vermelhos, e o vampiro que uma vez tinha sido um homem de cento e vinte quilos de msculo quando 
estava vivo retrocedeu rapidamente.
      -Est me questionando?
      -No.
      Ela, depois de tudo, estava ali... e ele podia cheirar sua fome. Lilith no.
      -Tragam-me -repetiu isso Lora, lhe golpeando o peito com um dedo e depois sacudindo esse dedo burlonamente ante seus narizes-. E nada de prov-la. Quero-a 
viva. J  hora de que tenha uma nova companheira de jogos. -Seus lbios se moveram sobre as presas fazendo biquinho -. E tratem de no danificar o casaco. Eu gosto.
      Os trs saram de entre as sombras em direo  estrada, trs homens que tinham sido normais e comuns em vida.
      Eles cheiravam um humano. E uma mulher.
      Sua fome, sempre insatisfeita, despertou... e somente o medo s represlias de Lora impediu que atacassem como uma manada de lobos.
      A mulher elevou a vista quando se aproximaram do carro. Sorriu amigavelmente enquanto ficava de p junto  roda traseira e passava a mo pelo cabelo escuro 
e curto, deixando expostos o pescoo e a garganta sob a escassa luz.
      -Esperava que algum viesse me ajudar.
      -Pois deve ser sua noite de sorte -disse com um sorriso o vampiro que Lora tinha advertido.
      -Eu diria que sim. De noite e em uma estrada deserta como esta em meio a lugar nenhum. V!  para alarmar-se um pouco.
      -E ainda pode ficar pior.
      Os trs se desdobraram formando um tringulo para encurral-la com o carro a suas costas. Ela retrocedeu um passo abrindo muito os olhos, e os trs emitiram 
um leve grunhido.
      -OH, Deus. Vo fazer-me dano? No tenho muito dinheiro, mas...
      -No  dinheiro o que procuramos, mas tambm levaremos isso.
      Ela ainda tinha na mo a chave de rodas e, quando o levantou, que estava mais perto dela ps-se a rir.
      -Atrs. No se aproximem de mim.
      -O metal no  um grande problema para ns.
      O vampiro se lanou sobre ela com as mos estendidas para seu pescoo. E imediatamente explodiu em uma nuvem de p.
      -No, mas o extremo afiado disto .
      A mulher sacudiu ligeiramente a estaca que tinha mantido oculta nas costas.
      Lanou-se para frente e afastou outro deles lhe atirando um violento chute no estmago, bloqueando um golpe com o antebrao e depois lhe cravando a estaca. 
Deixou que o ltimo viesse por ela, permitiu que o impulso de sua fria e sua fome o lanassem para frente. Fez girar a chave de rodas e lhe atirou um golpe violento 
em pleno rosto. Caiu em cima dele quando aterrissou no pavimento.
      -Parece que, depois de tudo, o metal sim  um problema para vocs -disse-. Mas acabaremos agora com isso.
      Cravou-lhe a estaca no corao e se levantou. Tirou o p do casaco.
      -Fodidos vampiros.
      Ps-se a andar de retorno ao carro, logo se deteve e elevou a cabea como um co que fareja o ar.
      Abriu as pernas e aferrou com fora a estaca e a chave de rodas.
      -No quer sair e brincar um momento? -gritou-. Posso te cheirar. Esses trs no me deram trabalho e estou acelerada.
      O aroma comeou a dissipar-se. Um momento depois, o ar voltava a estar limpo. A mulher ficou vigiando e esperando, depois deu de ombros e guardou a estaca 
na bainha que levava no cinturo. Quando terminou de trocar o pneu, elevou a vista para o cu.
      As nuvens tinham oculto a lua e, no oeste, ouviram-se os primeiros troves.
      -Aproxima-se uma tormenta - murmurou.
            
            
            
      Na sala de treinamento, Hoyt caiu pesadamente sobre suas costas. Sentiu que se sacudiam todos os ossos do corpo. Larkin se lanou sobre ele e depois apoiou 
a estaca sem ponta sobre o corao de Hoyt.
      -Esta noite j o matei seis vezes. No est em forma.
      Larkin amaldioou baixo ao sentir o ao em sua garganta.
      Moira afastou a espada e logo se inclinou para olh-lo de cima abaixo e sorrir.
      -Hoyt estaria convertido em p, isso seguro, mas voc estaria sangrando sobre o que ficasse dele.
      -Bom, se for se aproximar de um homem por trs...
      -Eles o faro - recordou Cian, oferecendo a Moira um de seus estranhos gestos de aprovao-. E mais de um. Matas um e segue adiante. Fodidamente depressa.
      Colocou as mos sobre a cabea de Moira e fingiu que a retorcia.
      -Agora os trs esto mortos porque perdestes muito tempo falando. Tm que fazer frente a mltiplos adversrios, seja com uma espada, uma estaca ou com as mos 
nuas.
      Hoyt se levantou e sacudiu o p.
      -Por que no nos faz uma demonstrao?
      Cian arqueou as sobrancelhas ante o irritante desafio.
      -De acordo. Todos vs, me ataquem. Tentarei no lhes fazer mais dano do necessrio.
      -Est fanfarronando. E, alm disso, est perdendo tempo falando, no acha?
      Larkin se escondeu adotando uma postura de combate.
      -Neste caso no seria nada mais que confirmar o bvio. -Agarrou a estaca sem ponta e a lanou a Moira-. O que tm que fazer  antecipar os movimentos de cada 
um, e tambm meus. Logo... Vejo que decidiu se unir  festa.
      -Estive trabalhando em algo. Fiz alguns progressos. -Glenna tocou o punho da adaga que levava presa  cintura-. Precisava me afastar durante um momento disto. 
Qual  o exerccio que esto praticando?
      -Vamos chutar o trazeiro de Cian - disse Larkin.
      -OH, eu tambm jogo. Armas?
      -A sua escolha. -Cian fez um gesto para a adaga-. Parece que j tem a sua.
      -No, no  para isto. -aproximou-se da mesa e escolheu outra das estacas sem ponta-. Regra?
      Por resposta, Cian lanou um golpe e enviou Larkin cambaleando at que caiu sobre uma das almofadas.
      -Ganhar. Essa  a nica regra.
      Quando Hoyt o atacou, Cian aproveitou o impulso do golpe para elev-lo no ar. Logo se voltou e usou o corpo de Hoyt para golpear Moira, derrubando a ambos.
      -Ter que antecipar-se ao inimigo -repetiu e lanou um chute quase com indiferena para enviar Larkin pelo ar.
      Glenna agarrou uma cruz e a elevou diante dele enquanto avanava.
      -Ah,  muito experta. -Os olhos de Cian ficaram vermelhos nas bordas. Fora da casa se ouviram os primeiros troves-. Escudos e armas pem o inimigo em retirada. 
Exceto... -Golpeou o antebrao de Glenna com o seu e fez saltar a cruz de sua mo. Mas quando se deu a volta para lhe tirar a estaca, Glenna se agachou, passando 
por debaixo dele.
      -Foi um movimento muito inteligente. -Cian assentiu aprovando a ao de Glenna e, por um momento, seu rosto ficou iluminado pela luz de um relmpago contra 
o cristal-. Ela utiliza sua cabea, seus instintos, ao menos quando as apostas so muito baixas- acrescentou tornando a rir.
      Agora todos o rodearam, um movimento que Cian considerou como um progresso em sua estratgia. No eram uma equipe, ainda no eram uma mquina azeitada, mas 
era um passo.
      Enquanto se aproximavam, pde ver a necessidade de atacar nos olhos de Larkin.
      Cian escolheu o que ele considerava o elo mais dbil, girou sobre si mesmo e usando s uma mo levantou Moira do cho. Quando a empurrou, Larkin se moveu instintivamente 
para agarr-la. Quo nico Cian teve que fazer foi lhe dar a Larkin um chute e mandar a ambos ao cho em uma confuso de braos e pernas.
      Logo se voltou para bloquear o golpe arrojado por seu irmo e agarrou Hoyt pela camisa. O violento empurro mandou Hoyt tartamudeando para trs, dando a Cian 
o tempo que necessitava para tirar a estaca de Glenna.
      Sujeitou-a de costas contra ele e lhe rodeou o pescoo com o brao.
      -E agora o que? -perguntou ao resto deles-. Tenho sua garota. Retiram-se e me deixam isso? Atacam-me e arriscam a que a parta pela metade?  um dilema.
      -Ou deixam que eu cuide de mim mesma?
      Glenna agarrou a corrente de seu pescoo e fez girar a cruz para o pescoo de Cian.
      Este a soltou imediatamente e se elevou at o teto. Permaneceu pendurado ali um instante antes de cair brandamente sobre seus ps.
      -No est mau. Mas entretanto, os quatro ainda tm que me derrubar. E se tivesse que...
      Produziu-se um estalo de luz quando sua mo,  velocidade do raio, deteve a estaca a escassos centmetros de seu corao. O extremo estava afiado com uma ponta 
mortal.
      -Ns chamaramos isto fazer armadilhas -disse Cian brandamente.
      -Afastam-se dele.
      Todos se voltaram para a mulher que tinha entrado pelas portas do terrao enquanto outro raio rasgava o cu atrs dela. Levava um casaco de couro negro at 
os joelhos, o cabelo escuro e curto, e tinha uma testa larga e uns enormes olhos de um azul intenso.
      Deixou cair ao cho o grande saco que levava e, com outra estaca em uma mo e uma faca de duplo fio na outra, aproximou-se do crculo de luz.
      -Quem demnios  voc? -perguntou Larkin.
      -Murphy. Blair Murphy. E esta noite lhes salvarei a vida. Como merda deixaram que uma dessas coisas entrasse na casa?
      -D a casualidade de que  minha -respondeu Cian-.Esta  minha casa.
      -Genial. Seus herdeiros muito em breve estaro celebrando. Eu disse que se afastem dele -disse ela enquanto Hoyt e Larkin se colocavam diante de Cian.
      -Eu seria seu herdeiro, uma vez que ele  meu irmo.
      - um de ns -acrescentou Larkin.
      -No. Na realidade no o .
      -Mas sim o . -Moira elevou as mos para mostrar que estavam vazias e se aproximou lentamente  intrusa-. No podemos permitir que lhe faa mal.
      -Quando entrei me deu a impresso de que estavam fazendo um trabalho muito pobre tentando lhe ferir.
      -Estvamos praticando. Ele foi escolhido para que nos ajude.
      -Um vampiro ajudando os humanos? -Seus grandes olhos azuis se entrecerraram com um gesto de interesse e o que podia ter sido uma amostra de humor-. Bom, sempre 
se aprende algo novo.
      Blair baixou lentamente a estaca.
      Cian deixou a um lado seus escudos.
      -O que est fazendo aqui? Como chegou?
      -Como? Aer Lingus. O que? Matar a todos os que possa de sua espcie. A presente companhia temporalmente excluda.
      -Como conhece os de sua espcie? -perguntou Larkin.
      - uma longa histria. -Fez uma pausa para examinar a sala e arqueou as sobrancelhas com uma expresso pensativa ao ver a proviso de armas. -Um bom esconderijo. 
H algo no machado de batalha que me esquenta o corao.
      -Morrigan. Morrigan disse que ela chegaria com o raio. -Glenna tocou o brao de Hoyt e logo se aproximou do Blair. -Morrigan a enviou.
      -Ela disse que haveria cinco de vocs. Mas no mencionou nenhum vampiro na equipe. -Um momento depois embainhou a faca e assegurou a estaca no cinturo. -Mas 
ela  uma deusa para vocs. Tocava-lhe mostrar-se crtica. Escutem, tive uma viagem muita comprida. -Agarrou seu saco e o pendurou do ombro-.Tm algo de comer por 
aqui?
            
            
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 19
      
      -Temos um monte de perguntas que fazer.
      Blair assentiu olhando Glenna enquanto provava o guisado.
      -Arrumado que sim, e eu tambm. Isto est muito bom. -serviu-se um pouco mais-. Obrigado e minhas felicitaes ao chef e tudo isso.
      -No h de que. Comearei com as perguntas, parece-lhes bem? -Glenna esquadrinhou os olhos de seus companheiros-. De onde vem?
      -Ultimamente? Chicago.
      -O Chicago daqui e agora?
      Um sorriso apareceu na boca grande de Blair. Agarrou a fornada de po que Glenna tinha colocado na mesa e a partiu em duas com umas unhas pintadas de rosa 
intenso-. Assim . Nos Estados Unidos, planeta Terra. Voc?
      -Nova Iorque. Esta  Moira, e seu primo Larkin. Eles so de Geall.
      -Anda j! -Blair os estudou enquanto comia-. Sempre pensei que isso era um mito.
      -No parece especialmente surpreendida pelo fato de que no o seja.
      -J no h muitas coisas que me surpreendam, e menos depois da visita da deusa. Muito forte.
      -Ele  Hoyt. Um feiticeiro da Irlanda. Da Irlanda do sculo doze.
      Blair o observou enquanto Glenna agarrava a mo de Hoyt por detrs de suas costas e seus dedos se entrelaavam.
      -Vocs dois so casal?
      -Poderia dizer-se que sim.
      Blair levantou sua taa e bebeu um pouco de vinho.
      -Isso significa levar a novas alturas a preferncia pelos homens mais velhos, mas quem pode te culpar?
      -Seu anfitrio  seu irmo, Cian, que foi convertido em vampiro faz muito tempo.
      -Sculo doze? -Blair se apoiou no respaldo da cadeira e o olhou longamente, com todo o interesse mas nada da diverso que tinha mostrado quando estudou Hoyt. 
-Tem quase mil anos? Nunca tinha conhecido um vampiro que durasse tanto tempo. O mais velho com o que me topei tinha pouco menos de quinhentos.
      -Uma boa vida -disse Cian.
      -Sim,  claro que sim.
      -Ele no bebe sangue humano - explicou Larkin. E, j que estavam na cozinha, procurou um prato e se serviu uma generosa poro de guisado. -Luta conosco. Somos 
um exrcito.
      -Um exrcito? Caramba com os delrios de grandeza. E voc o que ? -perguntou a Glenna.
      -Uma bruxa.
      -De modo que temos uma bruxa, um feiticeiro, um par de refugiados de Geall, e um vampiro. Ah exrcito!
      -Uma bruxa poderosa. -Hoyt falou pela primeira vez-. Uma estudiosa de notvel habilidade e coragem, um homem que pode trocar de forma e um vampiro que faz 
muitos sculos que foi transformado no que  pela rainha dos vampiros.
      -Lilith? -Blair deixou a colher no prato-. Ela foi quem o transformou em um vampiro?
      Cian se apoiou na bancada e cruzou os tornozelos.
      -Ento era jovem e estpido.
      -E teve realmente muito m sorte.
      -E voc que ? -perguntou Larkin.
      -Eu? Caadora de vampiros. -Agarrou a colher para continuar comendo-. Passei a maior parte de minha vida seguindo a pista dos de sua espcie para convert-los 
em p.
      Glenna inclinou a cabea.
      -O que como Buffy?9
      Blair ps-se a rir e engoliu outra colherada de guisado.
      -No. Primeiro, no sou a nica, s a melhor.
      -Ou seja, que h mais como voc.
      Nesse ponto, Larkin decidiu que tambm podia beber uma taa de vinho.
      - uma coisa de famlia e o foi durante sculos. No todos ns, mas em cada gerao aparecem um ou dois. Meu pai  um deles, e minha tia. Seu tio tambm o 
era... e assim sucessivamente. Agora tenho dois primos trabalhando nisto. Lavramos a batalha.
      -E Morrigan a enviou aqui -disse Glenna-. S voc.
      -Teria que dizer que sim, uma vez que sou quo nica est aqui. Muito bem, as coisas foram um tanto estranhas nas ltimas semanas. Mais atividade que o habitual 
por parte dos vampiros, como se estivessem formando um exrcito. E tive esses sonhos. Os sonhos prodigiosos vm com o pacote, mas agora os tenho cada vez que fecho 
os olhos. E s vezes, tambm quando estou completamente acordada.  inquietante.
      -Lilith? -perguntou Glenna.
      -Ela se dedicou a fazer algumas aparies... vises poderamos dizer. At ento eu pensava que ela formava parte de outro mito. Em qualquer caso, no sonho 
eu pensava que estava aqui, na Irlanda. Tinha esse aspecto ao menos. Eu j tinha estado antes na Irlanda, outra tradio familiar. Mas nos sonhos estou em um terreno 
elevado. Uma paisagem deserta, uma terra dura, profundos abismos, rochas traioeiras.
      -O Vale do Silncio - interrompeu Moira.
      -Assim  como o chamou ela. Morrigan. Disse que me necessitavam. -Blair vacilou um momento e olhou a seu redor-. Provavelmente no tenha que lhes dar todos 
os detalhes posto que todos esto aqui. Uma grande batalha, um possvel Apocalipse. Uma rainha vampira que est reunindo um exrcito para acabar com a humanidade. 
Haveria cinco pessoas me esperando. Teramos at o Samhain para nos preparar. No  muito tempo se tivermos em conta, j sabem... deusa, eternidade. Mas assim  
como se expuseram as coisas.
      -E ento decidiu vir-disse Glenna-. Assim como assim?
      -No fez voc o mesmo? -Blair deu de ombros-. Eu nasci para isto. Sonhei com esse lugar at onde sou capaz de recordar. Eu de p nessa elevao contemplando 
a batalha. A lua, a nvoa, os gritos. Sempre soube que acabaria neste lugar. -Sempre sups que morreria ali-. S esperava contar com um pouco mais de apoio.
      -Em trs semanas liquidamos mais de uma dzia deles -disse Larkin com certo chateio.
      -Me alegro por vocs. Eu no levo a conta dos vampiros que carreguei desde que matei o primeiro faz treze anos. Mas esta noite matei trs na estrada, quando 
vinha para aqui.
      -Trs? -Larkin levantou a colher-. Voc sozinha?
      -Havia outro. ficou escondido entre as rvores. Ir em sua busca no me pareceu uma maneira inteligente de seguir com vida, que  a primeira regra do manual 
da famlia. Talvez houvesse mais deles, mas s consegui perceber o cheiro de um. Tm mais estacionados no permetro da casa. Tive que escapulir entre eles para poder 
entrar.
      Empurrou o prato vazio.
      -Isso estava realmente bom. Obrigado outra vez.
      -No h de que outra vez. -Glenna levou o prato  pia-. Hoyt, podemos falar um momento? Perdoe-nos, s ser um minuto.
      Glenna o levou fora da cozinha, para a parte dianteira da casa.
      -Hoyt, ela ...
      -O guerreiro - acabou ele a frase-. Ela  a ltima dos seis.
      -O guerreiro nunca foi King. -levou os dedos aos lbios ao mesmo tempo em que se voltava-. Ele nunca foi parte dos seis e o que lhe aconteceu...
      -Passou. -Hoyt apoiou as mos sobre seus ombros e a fez voltar o rosto para ele-. Isso no se pode mudar. Ela  o guerreiro e completa o crculo.
      -Temos que confiar nela. No sei como comear a faz-lo. Quase mata seu irmo antes sequer de incomodar-se em nos saudar.
      -E s temos sua palavra de que  quem diz ser.
      -Bom, evidentemente no  um vampiro. Entrou diretamente na casa. E, alm disso, Cian a teria descoberto.
      -Os vampiros podem ter serventes humanos.
      -E como podemos sab-lo? Acreditam no que nos disse s por uma questo de f? Se ela for a quem diz ser, ento  a ltima de ns.
      -Temos que estar seguros.
      -No  como comprovar seu documento de identidade.
      Hoyt meneou a cabea, sem preocupar-se em averiguar o que tinha querido dizer Glenna.
      -Temos que submet-la a uma prova. Vamos, na torre. Riscaremos o crculo e nos asseguraremos.
            
            
            
      Quando estiveram reunidos na sala da torre, Blair olhou a seu redor.
      -Um lugar estreito. Eu gosto dos espaos maiores. Querer manter-se a distncia -advertiu a Cian. - Poderia lhe cravar a estaca, s como uma reao instintiva.
      -Pode tent-lo.
      Ela acariciou a estaca que tinha no cinturo. No polegar direito levava um anel, uma fita acanalada de prata.
      -E bem, do que vai tudo isto?
      -No recebemos nenhum sinal de que vinha -comeou Glenna-. No voc especificamente.
      -Pensam que sou um cavalo da Tria?
      - uma possibilidade que no podemos descartar sem ter uma prova.
      -No -conveio Blair-, seria uma estupidez de sua parte que s confiassem em minha palavra. E, de fato, sinto-me melhor sabendo que no so estpidos. O que 
querem de mim? Minha licena de caa vampiros?
      -Realmente tem...?
      -No. -Blair apoiou firmemente os ps, como um guerreiro que se prepara para uma batalha-. Mas se esto pensando em praticar algum tipo de bruxaria que inclua 
meu sangue ou algum outro fluido corporal, no esto de sorte. Por a no passo.
      -Nada disso. Bom, bruxaria sim, mas nada que requeira sangue. Ns cinco estamos unidos. Por f, por necessidade. E alguns, sim, por sangue. Ns somos o crculo. 
Ns somos os escolhidos. Se voc no  o ltimo elo do crculo, saberemos.
      -E se no for assim?
      -No podemos te fazer dano. -Hoyt apoiou a mo sobre o ombro de Glenna-. Vai contra tudo o que somos usar o poder contra um ser humano.
      Blair deu uma olhada  pesada espada de dois fios que estava apoiada contra a parede da torre.
      -H algo no regulamento a respeito dos objetos afiados e bicudos?
      -No lhe faremos mal. Se for uma servente de Lilith, simplesmente a faremos prisioneira.
      Ela sorriu, levantando primeiro um lado da boca, e depois o outro.
      -Boa sorte com isso. De acordo, vamos l. Como j disse, se tivessem engolido tudo sem sequer um humm, eu estaria mais preocupada com o lugar onde me coloquei. 
Vocs ao redor deste crculo branco e eu dentro dele?
      -Sabe de bruxaria? -perguntou Glenna.
      -Algo.
      Blair entrou no crculo.
      -Um de ns em cada ponta -disse Glenna- para formar um pentgono. Hoyt se encarregar do registro.
      -Registro?
      -De sua mente. -disse Glenna tranqilizando a Blair.
      -Ali tenho tambm algumas coisas particulares -Blair moveu os ombros com um gesto de desconforto e olhou Hoyt franzindo o cenho -. Devo pensar em voc como 
meu bruxo pessoal?
      -No sou um bruxo. Irei mais de pressa e no sentir nenhuma molstia se abrir a isso. -Levantou ambas as mos e acendeu as velas. -. Glenna?
      -Este  o crculo da luz e o conhecimento, formado por mentes semelhantes e coraes semelhantes. Dentro deste crculo de luz e conhecimento no se causar 
nenhuma dor. Procuramos unir para saber, dentro deste crculo s cabe a verdade. Com mente a mente no destino, que assim seja.
      O ar se agitou e as chamas das velas se elevaram como se fossem flechas. Hoyt estendeu as mos para Blair.
      -Nenhum dano, nenhuma dor. S pensamentos dentro de pensamentos. Sua mente a minha mente, sua mente as nossas mentes.
      Os olhos do Blair se afundaram profundamente nos de Hoyt. Ele tinha algo que batia as asas em sua cabea. Depois se voltaram negros e ele pde ver.
      Todos eles puderam ver.
      Uma menina lutando contra um monstro que a dobrava em tamanho. Havia sangue em seu rosto e tinha a camisa rasgada. Todos podiam ouvir sua respirao agitada. 
Havia um homem a um lado e observava o combate.
      A menina caiu ao cho derrubada por um poderoso reverso e se levantou de um salto. Voltou a cair. Quando essa coisa se lanou sobre ela, rodou sobre a terra 
e lhe cravou uma estaca nas costas lhe atravessando o corao.
      -Muito lenta -disse o homem-. Descuidada, inclusive para tratar-se de uma primeira morte. Precisar faz-lo melhor.
      Ela no disse nada, mas a mente dentro de sua mente pensou "O farei melhor. Farei-o melhor que ningum"
      Agora era maior e lutava junto ao homem. Com ferocidade, grosseiramente. Eram cinco contra dois, mas o combate acabou logo. E, uma vez que tudo teve terminado, 
o homem meneou a cabea.
      -Mais controle, menos paixo. A paixo a matar.
      Ela estava nua na cama com um homem jovem, movendo-se junto a ele sob a tnue luz de um abajur. Ela sorriu enquanto arqueava o corpo debaixo do dele e mordiscava 
seus lbios. Um diamante brilhava intensamente em seu dedo. Sua mente estava cheia de paixo, de amor, de felicidade.
      E tambm de desespero e tristeza enquanto permanecia sentada na escurido, sozinha, chorando, com o corao feito pedaos. Seu dedo estava nu.
      Agora estava no topo da colina, sobre o campo de batalha, com a deusa como uma sombra branca a seu lado.
      -Voc foi a primeira em ser chamada, e a ltima - disse Morrigan-. Eles a esto esperando. Os mundos esto em suas mos. Toma o deles e luta.
      Ela pensou "estive dirigindo meus passos por volta disto durante toda minha vida. Ser o final de tudo?"
      Hoyt baixou as mos e a trouxe lentamente de volta enquanto fechava o crculo. Os olhos de Blair se esclareceram e piscou vrias vezes.
      -E bem? Superei a prova?
      Glenna lhe sorriu, logo se aproximou da mesa e agarrou uma das cruzes de prata.
      -Isto agora  seu.
      Blair agarrou a cruz e a olhou.
      - bonita. Uma formosa amostra de artesanato e avalio o gesto. Mas tenho a minha. -tirou uma correia de debaixo da camisa-. Tambm  um objeto de famlia. 
Como uma relquia herdada.
      - formosa mas se voc...
      -Espera. -Hoyt agarrou a cruz e a examinou na palma da mo-. De onde a tiraste? De onde vem?
      -J disse,  uma relquia familiar. Temos sete destas cruzes. Foram passando de gerao em gerao.
      Quando Hoyt voltou a olh-la aos olhos, ela os entrecerrou.
      -Qual  o problema?
      -A deusa me entregou sete cruzes na noite em que me disse que devia vir aqui. Pedi proteo para minha famlia, a famlia que ela me ordenou abandonar e deixar 
atrs. E esta  uma das cruzes que recebi aquela noite.
      -Isso ocorreu quando, faz novecentos anos? No significa que...
      - de Nola. -Hoyt olhou Cian-. Posso senti-lo. Esta  a cruz de Nola.
      -Nola?
      -Nossa irm. A menor. -Sua voz se quebrou enquanto Cian se aproximava para dar uma olhada  cruz-. E aqui, na parte de atrs, gravei seu nome. Ela disse que 
voltaria a v-la. E, pelos deuses,  verdade. Ela est nesta mulher. Sangue com sangue. Nosso sangue.
      -No h nenhuma dvida? -perguntou Cian.
      -Eu mesmo a coloquei ao redor do pescoo. Olha-a, Cian.
      -Sim. Bom.
      Cian apartou a vista e retornou junto  janela.
      -Forjada no fogo dos deuses, entregue pela mo de um feiticeiro. -Blair respirou profundamente-. Uma lenda familiar. Meu segundo nome  Nola. Blair Nola Murphy.
      -Hoyt. -Glenna lhe tocou o brao-, ela  sua famlia.
      -Suponho que voc deve ser meu tio, transferido mil vezes ou de qualquer maneira que isso funcione. -Olhou Cian-. E no tem graa? Estou aparentada com um 
vampiro.
       manh seguinte, sob um sol dbil e vacilante, Glenna se encontrava com Hoyt no cemitrio familiar. A tormenta tinha empapado a erva e as gotas de chuva seguiam 
caindo das ptalas das rosas que subiam sobre a tumba de sua me.
      -No sei como o confortar.
      Agarrou-lhe a mo.
      -Est aqui, comigo. Nunca pensei que necessitaria que algum estivesse comigo, no da maneira em que a necessito. Tudo est acontecendo to depressa, tudo 
isto. Perdas e encontros, descobrimentos, perguntas. Vida e morte.
      -Me fale de sua irm. De Nola.
      -Era uma menina inteligente e bela, e dotada. Tinha a viso. Amava os animais e acredito que tinha uma afinidade especial com eles. Antes de partir, a galgo 
fmea de meu pai tinha tido crias. Nola passava as horas no estbulo, brincando com os cachorrinhos. E enquanto o mundo girava, ela se converteu em uma mulher e 
teve filhos.
      Voltou-se e apoiou a testa com a da Glenna.
      -Vejo Nola nesta mulher, esta guerreira que agora est conosco. E dentro de mim hoje est se lavrando outra guerra.
      -Trar Blair aqui?
      -Seria justo que o fizesse.
      -Sempre faz o que  justo. -Elevou a cabea de modo que seus lbios se roaram-. Por isso te amo.
      -Se nos casssemos...
      Glenna retrocedeu bruscamente
      -Nos casar?
      -Estou seguro de que isso no mudou ao longo dos sculos. Um homem e uma mulher se amam, pronunciam votos, fazem promessas. Matrimnio ou compromisso, um lao 
que nos una.
      -Sei o que  o matrimnio.
      -E isso a incomoda?
      -No me incomoda, e no sorria dessa maneira, como se eu fosse encantadoramente estpida. S me d um minuto. -Olhou por cima das lpides para as brilhantes 
colinas que se elevavam ao longe-. Sim, as pessoas ainda se casam se o desejam. Algumas vivem juntas sem passar por esse ritual.
      -Voc e eu, Glenna Ward, somos criaturas de ritual.
      Olhou-o e sentiu mariposas no estmago.
      -Sim, somos.
      -Se nos casssemos, viveria aqui comigo?
      Glenna deu outro sobressalto.
      -Aqui? Neste lugar, neste mundo?
      -Neste lugar, neste mundo.
      -Mas... no quer retornar? No precisa voltar?
      -No acredito que possa retornar. Magicamente, sim, acredito que  possvel -explicou antes que ela pudesse responder-, mas no acredito que possa retornar 
ao que era. Ao que era meu lar. No sabendo quando morrer minha famlia. Sabendo que Cian est aqui... essa outra metade de mim mesmo. No acredito que pudesse 
voltar sabendo que iria comigo mas desejaria o que deixaste aqui.
      -Disse que iria contigo.
      -Sem duvidar -conveio ele-. Entretanto, duvidaste ante o rito do matrimnio.
      -Pegou-me despreparada. E, na realidade, no me pediu - disse isso com certo chateio. -Foi bem como uma hiptese.
      -Se nos casssemos -disse ele pela terceira vez e o tom de sua voz fez que ela combatesse seu aborrecimento-, viveria aqui comigo?
      -Na Irlanda?
      -Sim, aqui. E neste lugar. Seria como se combinssemos nossos mundos, nossas necessidades. Eu pediria a Cian que nos permitisse viver na casa, cuidar dela. 
A casa necessita gente, uma famlia, o filhos que teremos juntos.
      -A passos agigantados -murmurou ela.
      Logo se tomou um momento para tranqilizar-se, para buscar a si mesma. Seu tempo, seu lugar, pensou. Sim, era um compromisso amoroso, podia ser -seria- uma 
combinao de espritos.
      -Sempre fui uma pessoa segura, inclusive quando era menina. Sabia o que queria, trabalhava para consegui-lo, depois o valorizava uma vez que o tinha. Durante 
toda minha vida tentei no dar nada por certo, ou no muito. Minha famlia, meu dom, meu estilo de vida.
      Estendeu a mo e passou levemente os dedos sobre uma das rosas de sua me. Beleza simples. Vida milagrosa.
      -Mas me dei conta de que dava o mundo por certo. Que acreditava que sempre seria como era... e que seguiria rodando sem minha ajuda. Agora aprendi algo diferente, 
e isso me deu outra coisa pela qual trabalhar, outra coisa que valorizar.
      - uma maneira de dizer que este no  o momento de falar de matrimnio e de filhos?
      -No.  uma maneira de dizer que compreendo que as pequenas coisas, e as grandes, as coisas normais, a vida, s se voltam mais importantes quando tudo est 
em jogo. De modo que... Hoyt o Feiticeiro -o beijou em uma face e depois na outra-, se nos casssemos, eu viveria aqui contigo, e cuidaria desta casa contigo, e 
teria filhos contigo. E trabalharia duramente para valorizar todo isso.
      Hoyt a olhou e elevou uma mo com a palma para ela e a aproximou dele. O beijo os uniu, cheio de promessas e possibilidades. Esperanoso. Quando lhe rodeou 
com os braos, Glenna soube que tinha encontrado a parte mais forte de seu destino.
            
      -Agora temos algo mais pelo que lutar. -Hoyt apoiou o rosto em seu cabelo-. Mais pelo que ser.
      -Ento o seremos. Vem comigo. Mostrarei-lhe no que estou trabalhando.
      Glenna o levou perto da casa, onde tinham colocado alvos para a prtica com arco. O rudo de uns cascos fez que levantasse a vista bem a tempo de ver Larkin 
que entrava cavalgando no bosque.
      -Eu gostaria que no cavalgasse pelo bosque. H muitas sombras.
      -Duvido que eles pudessem o agarrar se estivessem esperando entre as rvores. Mas se voc o pedisse -acrescentou Hoyt acariciando o cabelo de Glenna- estou 
seguro de que Larkin cavalgaria s pelos campos.
      Glenna arqueou as sobrancelhas em um gesto de desconcerto.
      -Se eu o pedisse?
      -Se Larkin soubesse que estava preocupada, faria-o por voc. Est agradecido pelo que tem feito por ele. Alimentaste-o -disse Hoyt quando ela franziu o cenho.
      -OH, no tenho dvida de que Larkin adora comer.
      Glenna olhou para a casa. Moira, imaginou estava dedicada a sua sesso matinal com seus livros, e Cian estaria dormindo. Quanto a Blair, levaria um tempo antes 
que Glenna soubesse qual era a rotina da recm chegada.
      -Acredito que teremos lasanha para o jantar. No se preocupe. -Glenna lhe aplaudiu a mo-. Voc gostar... e me ocorre que eu j estou cuidando a casa e s 
pessoas que vive nela. Nunca me considerei uma pessoa particularmente domstica. E agora.
      Tirou a adaga e se deu conta de que passava com absoluta facilidade da arte culinria s armas.
      As coisas que se chega a aprender.
      -Ontem trabalhei nela.
      -Na adaga -aventurou Hoyt.
      -Em encantar a adaga. Pensei que seria melhor comear por uma arma pequena e, finalmente, chegar a uma espada. Falamos de fazer algo com respeito s armas, 
mas entre uma coisa e outra, na realidade no pusemos mos  obra. Ento pensei nisto.
      Hoyt agarrou a adaga e passou um dedo pelo fio.
      -Encant-la de que modo?
      -Pensa no fogo. -Hoyt a olhou-. No, literalmente -disse ela ao mesmo tempo em que retrocedia um passo-. Pensa no fogo. Visualiza-o quando deslizar os dedos 
sobre a folha.
      Hoyt fez girar a adaga na mo e logo a empunhou como se fosse combater com ela. Imaginou o fogo. Viu-o cobrindo o ao. Mas a folha permaneceu fria.
      -E devo pronunciar algumas palavras? -perguntou ele.
      -No, s tem que desej-lo, tem que v-lo. Tenta outra vez.
      Hoyt se concentrou porm no conseguiu nada.
      -Muito bem, possivelmente s funcione comigo... por agora. Posso melhor-lo.
      Agarrou a adaga de mos do Hoyt, visualizou a imagem e apontou a adaga para o alvo.
      S se produziu um pequeno chiado.
      -Maldita seja, ontem funcionava. -Examinou atentamente a arma para assegurar-se que tinha pego a adaga correta. -  esta, gravei um pentgono no punho, v?
      -Sim, vejo. Possivelmente o encantamento seja limitado. gaste-se.
      -No vejo como. Teria que ter quebrado o feitio e no o fiz. Dediquei um monte de tempo e energia a isto, de modo que...
      -O que ocorre? -Blair saiu da casa com uma mo metida no bolso dianteiro de seu jeans e a outra sustentando uma xcara de caf fumegante. No quadril levava 
uma faca em uma capa e brincos brilhando nas orelhas-. Praticam o lanamento de facas?
      -No. Bom dia.
      Blair arqueou uma sobrancelha ante o tom irritado de Glenna.
      -Para alguns de ns em qualquer caso. Bonita adaga.
      -No funciona.
      -Vejamos. -Blair agarrou a adaga de mos da Glenna e a sopesou. E, enquanto bebia um gole de caf, lanou-a para o alvo. A arma se cravou no alvo. -. Funciona 
para mim.
      -Genial, de modo que a adaga tem um extremo bicudo e voc tem uma excelente pontaria. -Glenna foi at o alvo e extraiu a adaga-. O que aconteceu com a magia?
      -Me informe.  s uma faca, uma bonita faca. Com ela pode apunhalar, cortar e picar. Cumpre com seu trabalho. Comea a depender da magia e fica descuidada. 
Logo algum crava em voc esse extremo bicudo.
      -Voc leva a magia nas veias -disse Hoyt assinalando-a-. Teria que mostrar respeito por ela.
      -No disse o contrrio. S que me sinto mais cmoda com os instrumentos afiados que com o vodu.
      -O vodu  algo completamente diferente -replicou Glenna-. S porque saiba como lanar uma faca no significa que no necessite o que Hoyt e eu podemos oferecer.
      -Sem nimo de ofender... srio. Mas primeiro conto comigo. E se no poder lutar com essa faca, ser melhor que deixe o combate para os que sim podem faz-lo.
      -Acaso credita que no posso acertar esse estpido alvo?
      Blair bebeu outro gole de caf.
      -No sei. Pode faz-lo?
      Aulada pelo insulto, Glenna se voltou e lanou a faca enquanto mil maldies cruzavam por sua cabea.
      A adaga se cravou no crculo exterior e comeou a arder.
      -Excelente. Quero dizer que sua pontaria  uma merda, mas o espetculo de fogo foi genial. -assinalou o alvo com a xcara -. Entretanto,  provvel que necessitemos 
um alvo novo.
      -Estava de saco cheio -murmurou Glenna. - Ira. -Voltou seu rosto excitado para Hoyt-. Adrenalina. Antes no estvamos furiosos. Eu estava feliz. Foi ela a 
que me fez ficar zangada.
      -Sempre me alegra poder dar uma mo.
      - um bom encantamento, uma arma muito boa -disse Hoyt apoiando uma mo no ombro de Glenna enquanto o alvo seguia ardendo-. Quanto tempo duraro as chamas?
      -OH, espera!
      Glenna se afastou uns passos e se concentrou. Uma vez acalmada visualizou o fogo em sua mente. As chamas se converteram em fumaa.
      -Preciso aperfeio-lo, obviamente, mas... -aproximou-se novamente do alvo e tocou com cuidado o punho da faca. Estava quente, mas no muito para no poder 
agarr-lo-. Isto podia nos dar uma vantagem real.
      -Fodidamente certo -conveio Blair-. Sinto o que disse sobre o vodu.
      -Aceito. -Glenna guardou a adaga em sua capa-. Vou pedir um favor, Blair.
      -Dispara.
      -Hoyt e eu temos que trabalhar nisto, mas mais tarde. Enquanto isso, poderia me ensinar a lanar uma faca como voc?
      -Talvez no como eu. -Blair sorriu-. Mas posso te ensinar a lan-lo melhor do que o faz agora, que  como se estivesse espantando pombas.
      -H algo mais -disse Hoyt-. Cian se faz cargo do treinamento depois que o sol se pr.
      -Um vampiro treinando humanos para matar vampiros. -Blair meneou a cabea-. Nisso h uma espcie de lgica estranha. Muito bem, e?
      -Tambm costumamos treinar durante o dia... duas horas. Fora, se houver sol.
      -Isso pude ver ontem  noite, necessitam todo o treinamento que possam conseguir. E no tomem como um insulto -acrescentou Blair-. Eu tambm treino duas horas 
cada dia.
      -Quem se encarregava do treinamento durante o dia... perdemo-lo. Lilith.
      - duro. Sinto muito, sempre  duro.
      -Acredito que voc seria a melhor para se encarregar agora do treinamento diurno.
      -Lhes dar ordens, lhes fazer suar? -O prazer se desenhou em seu rosto-. Soa divertido. S recorda que foram vocs que me pediram isso quando comearem a me 
odiar. Por certo, onde esto os outros? No terei que desperdiar a luz do dia.
      -Imagino que Moira deva estar na biblioteca -disse Glenna-. Larkin saiu a cavalgar faz um momento. Quanto a Cian...
      -Essa parte j conheo. Muito bem, irei explorar pelos arredores, um reconhecimento do terreno. Comearemos a festa quando retornar.
      -As rvores so frondosas. -Glenna assinalou com a cabea para a curva do bosque-. No deveria entrar muito, nem sequer de dia.
      -No se preocupe.
            
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 20
      
      Blair gostava dos bosques. Gostava de como cheiravam, o aspecto das rvores de grossos troncos, o jogo de luzes e sombras que, para ela, formavam uma espcie 
de msica visual. O cho do bosque estava coberto com as folhas que tinham cado durante os incontveis anos, e com o verde legendrio do musgo. O arroio que discorria 
lanando brilhos atravs dele no fazia nada a no ser aumentar essa qualidade mgica do lugar.
      A bruxa e o feiticeiro, refletiu. Estavam to cheios de amor, to resplandecente e novo, eles quase brilhavam com ele.
      Se isso era uma vantagem ou uma desvantagem, era algo que devia esperar para ver.
      Mas havia algo que sim sabia. Queria que Glenna fizesse dela uma lanadora de facas de fogo.
      A bruxa estava bem. Tinha um cabelo bonito, e um sentido urbano do estilo que se podiam ver inclusive quando levava uma cala e uma camisa simples. E era uma 
tipa muito inteligente, sim, Blair sabia julgar s pessoas. A noite anterior, tinha deixado de fazer suas coisas para mostrar-se hospitaleira. Tinha preparado o 
jantar e arrumado o quarto que tinha disposto para Blair.
      Era muito mais do que ela estava acostumada. E era muito agradvel.
      O feiticeiro parecia ser um tipo muito intenso. Observava muito e falava pouco. Ela podia respeitar isso. Do mesmo modo que podia, e o fazia, respeitar o poder 
que ele levava como uma segunda pele.
      Quanto ao vampiro, Blair ainda se mantinha  expectativa. Podia ser um aliado ou um inimigo formidvel e, at a data, ela jamais tinha considerado um vampiro 
como um aliado. No obstante, tinha visto algo em seu rosto quando seu irmo tinha falado de Nola. Dor.
      A outra mulher era calada como um camundongo. Atenta, isso sim, e um pouco branda. No tinha se decidido a respeito de Blair mais do que Blair o tinha feito 
a respeito dela. 
      E o tipo? Larkin. Srio e atraente. Tinha uma constituio s e atltica que certamente lhe conferia vantagem no combate. Transbordante de energia tambm, 
pensou. Essa habilidade para mudar de forma podia resultar muito benfica, se  que era realmente bom para isso. Teria que pedir que fizesse uma demonstrao.
      Havia muito que pr em forma em muito pouco tempo. Ela teria que ser mais que competente se algum deles queria sair com vida daquela misso.
      Mas no momento, era agradvel dar um passeio matutino entre as rvores, escutando o canto da gua e contemplando a dana da luz.
      Rodeou uma grande rocha e estirou a cabea para ver o que estava encolhido, dormindo a sua sombra.
      -Esta  sua chamada para que desperte -disse e apertou o gatilho do arco que levava consigo.
      O vampiro mal teve tempo de abrir os olhos.
      Extraiu a flecha e voltou a montar o arco.
      Acabou com outros trs, pondo em fuga um quarto que se afastou a toda velocidade pelo atalho, esquivando os finos raios de sol. No dispondo de um disparo 
limpo e no querendo desperdiar uma flecha, Blair se lanou atrs dele.
      O cavalo apareceu no atalho, uma besta negra e reluzente, com um deus dourado em seu lombo. Larkin deu um golpe com sua espada e decapitou o vampiro que fugia.
      -Bom trabalho! -gritou ela.
      Larkin se aproximou a trote com seu cavalo atravs dos raios de luz.
      -O que est fazendo aqui?
      -Matando vampiros,E voc?
      -O cavalo precisava correr um pouco. No deveria estar aqui fora sozinha, to longe da casa.
      -Voc est.
      -Eles no podem agarr-lo. -Deu umas palmadas no pescoo de Vlad-. Ele  o vento. E bem, quantos viu?
      -Os quatro que matei e com o teu cinco. Provavelmente haja mais.
      -Outros quatro voc disse? Pelo visto esteve ocupada. Quer seguir caando-os agora?
      Larkin sim queria seguir a caada, mas ela no estava segura. Trabalhar com um companheiro desconhecido era uma boa maneira de morrer, embora esse companheiro 
exibisse uma habilidade feroz com a espada.
      -Isso deve bastar por agora. Um deles, ao menos, retornar junto a sua mame e a informar que os estamos tirando de seus ninhos durante o dia. Isso a foder.
      -Foder?
      -Chatear.
      -Ah, sim, entendo.
      -De qualquer modo necessitamos um pouco de treinamento para que eu possa ver do que  feito.
      -O que voc possa ver?
      -Sou seu novo sargento. -Ela pde ver que Larkin no estava precisamente entusiasmado com a notcia. Quem o poderia culpar? Mas elevou uma mo. -Pode me levar, 
vaqueiro?
      Larkin se inclinou e, com um aperto de mos e antebraos, Blair subiu no lombo do cavalo, atrs dele.
      -A que velocidade se move este tipo? -perguntou ela. 
      -Ser melhor que se segure e com fora.
      Larkin tocou ligeiramente os flancos do cavalo e este saiu voando.
            
            
            
      Glenna esfregou o polegar e o indicador sobre o caldeiro para acrescentar outro pingo de enxofre  mistura.
      -Um pouco cada vez - disse a Hoyt com ar ausente-. No queremos nos exceder na quantidade e acabar...
      Glenna recuou para trs quando o lquido lanou um brilho.
      -Cuidado com o cabelo - advertiu Hoyt.
      Ela agarrou umas forquilhas e prendeu o cabelo no cocuruto e perguntou:
      -Como vai isso?
      Dentro do recipiente de metal, a adaga continuava ardendo.
      -O fogo ainda  instvel. Temos que dom-lo ou nos queimaremos junto aos vampiros - respondeu Hoyt.
      -Funcionar.
      Glenna agarrou uma espada e a colocou dentro do lquido. Deu um passo atrs, estendeu as mos dentro da fumaa e comeou a entoar um cntico.
      Hoyt deixou o que estava fazendo para observ-la, para contemplar a beleza que a alagava com a magia. Como tinha sido sua vida antes que Glenna entrasse nela? 
Com ningum com quem poder compartilhar completamente o que ele era, nem sequer com Cian? Com ningum que olhasse nos olhos de um modo que fizesse que se acelerasse 
o corao?
      As chamas lambiam a borda do caldeiro, deslizavam-se sobre a folha da espada e ela permaneceu onde estava, no meio da fumaa e as chamas. Sua voz era como 
uma msica, seu poder como uma dana.
      Quando se extinguiram finalmente, Glenna retirou a espada com umas pinas e a deixou a um lado para que repousasse e esfriasse.
       -Cada uma deve ser feita em separado. Sei que isto nos levar tempo, dias, mas ao final... O que? -perguntou Glenna quando o surpreendeu olhando-a fixamente-. 
Acaso tenho macacos mgicos no rosto?
      -No.  linda. Quando se casar comigo?
      Ela piscou surpreendida.
      -Pensava que depois, quando tudo tivesse acabado.
      -No, no quero esperar. Cada dia que passa  um dia menos, e cada dia  precioso. Quero que nos casemos aqui, nesta casa. Dentro de pouco viajaremos a Geall 
e ento... Teria que ser aqui, Glenna, no lar que construiremos entre os dois.
      - claro, teria que ser aqui. Sei que sua famlia no pode estar presente exceto Cian e Blair. E tampouco a minha. Mas quando tudo isto tenha acabado, Hoyt, 
quando todo mundo esteja a salvo outra vez, eu gostaria de celebrar outro ritual aqui, e ento eu gostaria que minha famlia acompanhasse.
      -Um compromisso agora e uma cerimnia matrimonial depois. Parece-te bem?
      -Perfeito. Eu... Agora? Como agora? No estou preparada. Tenho que... fazer algumas coisas primeiro. Necessito um vestido.
      -Pensei que preferiria sua nudez ritual.
      -Muito gracioso. S uns dias. Digamos na prxima lua cheia.
      -Ao final do primeiro ms. -Hoyt assentiu-. Parece-me bem. Quero que... o que so esses gritos?
      Ambos se aproximaram da janela para ver Blair e Larkin em pose de boxe. Moira os observava com os punhos apoiados nos quadris.
      -Falando de rituais -comentou Glenna-. Parece que a parte de cabeadas do treinamento diria comeou sem ns. Ser melhor que desamos.
            
            
            
      -Ela  lenta e torpe, e a lentido e a estupidez conseguiro que a matem.
      -Ela no  nada disso -replicou Larkin a Blair bruscamente-. Seus pontos fortes se encontram em seu arco e em sua mente.
      -Genial, ento pode matar um vampiro com o pensamento. Conte-me como funciona isso. Quanto ao arco, sim, tem vista de guia, mas nem sempre pode matar a distncia.
      -Eu posso falar por mim mesma, Larkin. E voc... -Moira agitou um dedo diante do rosto de Blair. -No me preocupa que me falem como se no tivesse crebro.
      -No tenho nenhum problema com seu crebro, mas sim tenho um muito grave com a forma em que dirige a espada. Luta como uma mulher.
      - que isso  o que sou.
      -No durante o treinamento, no durante a batalha. Ento  um soldado e ao inimigo importa um caralho por onde mija.
      -King estava fazendo que aperfeioasse seus pontos fortes.
      -King est morto.
      Produziu-se um momento de absoluto silncio que poderia ser cortado com o machado de Cian. Depois Blair suspirou. Isso, reconheceu, tinha sido desnecessariamente 
duro.
      -Olhe o que aconteceu com seu amigo foi algo terrvel. Estou fodidamente segura de que no quero que acontea comigo. E se no querer que ocorra a voc, dever 
trabalhar em seus pontos dbeis... e tem muitos. Pode se dedicar a seus pontos fortes em suas horas livres.
      Blair firmou os ps no cho quando Hoyt e Glenna se uniram a eles.
      -Voc me ps ao cargo disto? -perguntou Blair.
      -Assim  -confirmou Hoyt.
      -E ns no temos nada que dizer a respeito? -A fria esticou as feies de Larkin-. Absolutamente nada?
      -No, no tm nada que dizer. Ela  a melhor para este trabalho.
      -Porque ela  de seu sangue.
      Blair caminhou ao redor de Larkin.
      -Porque posso te sentar de trazeiro no cho em cinco segundos.
      -Est segura disso?
      Larkin brilhou com uma luz trmula e se transformou em um lobo, que se agachou e lanou um grunhido.
      -Excelente -disse Blair com um sussurro, o aborrecimento atenuado pela pura admirao.
      -OH, Larkin, quer parar com isso?
      Moira, obviamente impaciente, deu-lhe uma palmada.
      -S estava zangado porque foste dura comigo. Realmente no tem nenhum motivo para se mostrar to insultante. D a casualidade de que concordo contigo em que 
devo trabalhar meus pontos dbeis. -Cian havia dito o mesmo recordou Moira -. Estou desejando comear, mas no o farei se me maltrata todo o tempo enquanto estou 
fazendo-o.
      -Pode agarrar mais moscas com mel que com vinagre? -perguntou Blair-. Sempre me perguntei por que merda quereria algum agarrar moscas. Olhe, voc e eu podemos 
nos pintar as unhas dos ps e falar de meninos quando no estivermos praticando. Mas enquanto a estou treinando, eu sou a puta, porque quero que viva. Di-te quando 
faz isso? -perguntou a Larkin quando ele voltou para sua forma humana-. Trocar os ossos e os rgos e tudo isso?
      -Algumas vezes. -No recordava que ningum nunca tivesse feito essa pergunta. Sua ira se dissipou to rapidamente como tinha aparecido-. Mas  divertido, de 
modo que no me importa muito.
      Passou o brao ao redor dos ombros de Moira e lhe esfregou o brao enquanto falava com Hoyt e com Moira.
      -Sua garota aqui liquidou quatro deles no bosque. Eu matei outro.
      -Esta manh? Cinco? -Glenna olhou Blair-. Estavam muito perto da casa?
      -Bastante perto. -Blair olhou para o bosque-. Eram sentinelas, suponho, e no muito bons. Surpreendi-os dormindo. Lilith se inteirar do que passou. E a notcia 
no a por muito contente.
      
      
      
      No era uma questo de matar o mensageiro; no, ao menos, na milenar opinio de Lilith. Era uma questo de mat-lo da maneira mais dolorosa possvel.
      O jovem vampiro que estupidamente tinha retornado ao ninho depois da incurso de Blair aquela manh, estava assando agora, de barriga para baixo, a fogo lento. 
O aroma no era particularmente agradvel, mas Lilith entendia que o comando exigia alguns sacrifcios.
      Caminhou ao redor de sua vtima cuidando de manter a borda de seu vestido vermelho afastado das chamas.
      -Por que no repassamos outra vez? -Sua voz era melodiosa, como a de uma professora devota que falasse com seu aluno preferido-. Esse humano, a mulher, acabou 
com todas as sentinelas exceto contigo.
      -O homem. -A dor convertia as palavras em ofegos guturais-. O cavalo.
      -Sim, sim. Sigo me esquecendo do homem e do cavalo. -Fez uma breve pausa para examinar os anis que levava-. O que chegou depois que ela se carregou de quantos, 
quatro de vs?
      Lilith se agachou, uma aranha de assombrosa beleza, para olhar o vampiro nos olhos vermelhos que giravam em suas rbitas.
      -E essa mulher foi capaz de fazer isso por que...? Espera, espera, agora recordo. Por que estavam dormindo?
      -Eles estavam dormindo. Os outros. Eu estava em meu posto, majestade. Juro.
      -Em seu posto e, entretanto, essa mulher humana est viva. E segue com vida por que... este detalhe  correto?Porque voc fugiu?
      -Retornei aqui... para informar do que tinha ocorrido. -As gotas de suor caam sobre o fogo e chispavam-. Os outros fugiram. Eles puseram-se a correr. Eu vim 
a voc.
      -Assim . -Tocou-lhe burlonamente o nariz com cada palavra e logo se levantou-. Suponho que devia recompensar sua lealdade.
      -Piedade. Majestade, piedade.
      Lilith se voltou fazendo ranger a seda de seu vestido e sorriu ao menino que estava sentado com as pernas cruzadas no cho da caverna, arrancando sistematicamente 
as cabeas de uma pilha de figuras de Star Wars.
      -Davey, se quebrar todos seus brinquedos, com o que brincaria?
      Davey franziu os lbios enquanto decapitava Anakin Skywalker.
      -So muito aborrecidos.
      -Sim, sei. -Passou a mo sobre o cabelo loiro do menino-. E esteve encerrado muito tempo, no ?
      -Podemos sair fora agora? -Davey deu um salto e seus olhos se abriram como pratos ante a perspectiva de um prazer prometido. -Podemos sair para brincar? Por 
favor!
      -Ainda no. E agora no se zangue. -Elevou-lhe o queixo para lhe beijar os lbios-. O que lhe parece, meu doce menino, se lhe der de presente um flamejante 
brinquedo?
      Com as bochechas redondas rosadas pela ira, o menino partiu Han Solo pela metade.
      -Estou cansado de brinquedos.
      -Mas este ser novo. Algo que nunca teve antes.
      Lilith voltou a cabea e, com seus dedos ainda no queixo do menino, fez-lhe girar o rosto at que ambos olharam o vampiro sobre o fogo.
      E nesse instante, ao ver seus olhos, o vampiro comeou a lutar e revolver-se. E a chorar.
      -Para mim? -perguntou Davey com os olhos brilhantes.
      -Tudo para voc, meu pequeno. Mas deve prometer a mame que no se aproximar muito do fogo. No quero que se queime, querido.
      Beijou seus pequenos dedos antes de levantar-se.
      -Majestade, imploro-lhe isso! Majestade, voltei para avis-la.
      -Eu no gosto do fracasso. Seja um bom menino, Davey. OH, e no estrague seu jantar.
      Fez um sinal a Lora, que permanecia em silencio junto  porta.
      Os gritos comearam antes mesmo de que tivessem fechado a porta atrs delas. Com chave.
      -A Caadora -comeou a dizer Lora-. Tinha que ser ela. Nenhuma das outras mulheres tem habilidade para...
      Um simples olhar de Lilith foi suficiente para silenci-la.
      -No lhe dei permisso para que fale. Meu afeto para voc  o nico que a separa neste momento dessa fogueira. E meus afetos chegam s at onde chegam.
      Lora inclinou a cabea em sinal de respeito e seguiu Lilith  cmara contgua.
      -Perdeu trs de meus bons homens. O que pode dizer a isso?
      -No tenho desculpa.
      Lilith assentiu ligeiramente e comeou a passear pela sala, agarrando ociosamente um colar de rubis de um cofre. Os espelhos eram quo nico sentia falta na 
vida. Ela desejava ver-se refletida em um cristal at depois de dois milnios. Ser cortejada por sua beleza. Ao longo dos sculos, tinha contratado -e comeu- inumerveis 
feiticeiros, bruxas e magos para consegui-lo.
      Era seu maior fracasso.
      - astuta ao no me oferecer nenhuma. Sou uma mulher paciente, Lora voc sabe. Esperei mais de mil anos para o que se avizinha. Mas no permitirei que me insulte. 
Desgosta-me profundamente que essa gente nos elimine como se fssemos moscas.
      Deixou-se cair em uma poltrona e fez tamborilar suas longas unhas vermelhas sobre os braos da mesma.
      -Fala, ento. Fale-me desta nova mulher. Dessa Caadora.
      -Como profetizaram os videntes, minha senhora. O guerreiro de antigo sangue. Um dos caadores que assediaram nossa espcie durante centenas de anos.
      -E como sabe que  uma deles?
      -Essa mulher era muito rpida para ser uma simples humana. Muito forte. Aquela noite, ela soube o que eles eram antes que se aproximassem, e estava preparada. 
Chegou para completar seu grupo. A primeira etapa concluiu.
      -Meus sbios disseram que o homem negro era seu guerreiro.
      -Equivocaram-se.
      -Ento, que valor tm? -Lilith levantou o colar com o qual ainda brincava enquanto passeava pela sala. -Como posso governar se estou rodeada de incompetentes? 
Quero o que me corresponde. Quero sangue e morte e um maravilhoso caos.  acaso pedir muito que aqueles que me servem se mostrem precisos em seus detalhes? 
      Lora levava quase quatrocentos anos ao lado de Lilith. Amiga, amante, servente. Estava segura de que ningum conhecia a rainha melhor que ela. Serviu um pouco 
de vinho em uma taa e a ofereceu a Lilith.
      -Lilith - disse amavelmente, lhe oferecendo a taa e um beijo-, no perdemos nada importante.
      -Prestgio.
      -No, nem sequer isso. Eles acreditam que s importa o que conseguiram nas ltimas semanas. E est bem que assim seja, porque isso far que se confiem em excesso. 
E matamos o menino de Cian, no ?
      - verdade. - Lilith franziu os lbios um momento e depois bebeu um gole do vinho -Isso esteve bem.
      -E o fato de o haver enviado  casa s demonstrou sua inteligncia e sua fora. Deixemos que acabem com dzias de soldados de infantaria. Ns comeremos seu 
corao.
      - um consolo para mim, Lora. -Lilith acariciou a mo de Lora enquanto bebia um pouco mais de vinho. -E tem razo,  claro, tem razo. Sinto-me decepcionada, 
admito. Eu queria deixar incompleto seu nmero, frustrar a profecia.
      -Mas  melhor desta maneira, no ? E ser ainda mais doce quando tivermos pego todos eles.
      -Melhor, sim, melhor. E, entretanto... acredito que precisamos fazer uma demonstrao de fora. Isso melhoraria meu estado de nimo, e tambm minha moral. 
Tenho uma idia. Meditarei a respeito disso. -Olhou o vinho que girava dentro da taa-, Um dia, muito em breve, este ser o sangue desse feiticeiro. E o beberei 
em uma taa de prata acompanhada de bombons entre cada gole. Tudo o que ele  estar em mim, e tudo o que sou far que at os deuses ponham-se a tremer. Agora v, 
preciso riscar meus planos.
      Quando Lora se levantou para dirigir-se  porta, Lilith golpeou ligeiramente a taa com as unhas.
      -Ah, todo este irritante assunto me deu fome. Pode me enviar algum para comer?
      -Agora mesmo.
      -Se assegure de que esteja fresco.
      Quando ficou a ss. Lilith fechou os olhos e comeou a urdir seu plano. Enquanto o fazia, os alaridos que chegavam da cmara contgua ricocheteavam contra 
as paredes da caverna.
      Seus lbios se curvaram. Quem podia estar triste, pensou, com a risada de um menino soando no ar?
      
      
      
      Moira estava sentada na cama de Glenna com as pernas cruzadas, e a observava enquanto ela trabalhava com a pequena mquina mgica que chamava computador porttil. 
Moira estava desesperada por lhe pr as mos em cima. Dentro daquele instrumento havia verdadeiros mundos de conhecimentos e, at o momento, s tinha podido lhe 
dar uma olhada.
      Glenna tinha prometido que lhe daria umas lies, mas nesse instante parecia to concentrada no que estava fazendo... e s tinha uma hora livre.
      De modo que esclareceu a garganta.
      -O que lhe parece este? -perguntou Glenna assinalando a imagem de uma mulher que levava um comprido vestido branco.
      Inclinando a cabea para poder ver melhor, Moira estudou a tela.
      - encantadora. Perguntava-me...
      -No, no refiro a modelo e sim ao vestido, -Glenna se voltou para ela. -Necessito um vestido.
      -OH, aconteceu algo ao seu?
      -No. -Com um pequeno sorriso, Glenna brincou com o colar que levava ao pescoo-. Necessito um vestido muito especial. Um vestido de casamento. Moira, Hoyt 
e eu vamos nos casar. Comprometer-nos. Decidimos pelo compromisso, e mais tarde celebraremos uma cerimnia matrimonial. Depois.
      -Est prometida a Hoyt? No sabia.
      -Simplesmente aconteceu. Sei que pode parecer precipitado, e o momento no ...
      -OH, mas se  maravilhoso! -Moira se levantou de um salto e, num estalo de entusiasmo, abraou Glenna. -Sinto-me to feliz por vocs. Por todos ns.
      -Obrigado. Por todos ns?
      -Os casamentos so luminosos, no so? Brilhantes, felizes e humanos. OH, como eu gostaria de estar em casa para fazer que preparassem um festim. No pode 
cozinhar seu prprio banquete de casamento e eu ainda no sou muito boa com os foges.
      -Por agora no nos preocuparemos disso. Sim, os casamentos so brilhantes... e felizes e humanos. E eu sou bastante humana para desejar o vestido perfeito.
      -Sim,  claro. Por que teria que desejar menos?
      Glenna deixou escapar um comprido suspiro de felicidade.
      -Graas a Deus. Estive me sentindo um tanto deprimida. Devia me dar conta de que o que precisava era outra garota. Quer me ajudar? Escolhi alguns e preciso 
reduzir a lista.
      -Eu adoraria. -Moira tocou brandamente o lado da tela-. Mas... Como faz para tirar o vestido desta caixa?
      -J chegaremos a isso. Terei que tomar alguns atalhos, mas mais tarde a ensinarei a comprar online  maneira convencional. Quero algo, acredito, deste estilo.
      Enquanto ambas estavam contemplando a tela, Blair golpeou o batente da porta.
      -Sinto muito. Tem um minuto, Glenna? Queria falar contigo sobre os pedidos e os fornecimentos. Imaginei que voc seria a encarregada. Eh, bonito brinquedo.
      -Um de meus favoritos. Cian e eu somos os nicos que estamos conectados, de modo que se precisa usar...
      -Trouxe o meu, mas agradeo isso. De compras? Neimans -disse quando esteve bastante perto para ver a tela-. Uma roupa muito elegante para a guerra.
      -Hoyt e eu vamos nos casar.
      -Est brincando? Isso  genial. -Sacudiu Glenna com um golpe amistoso no ombro-. Felicidades. E quando  o grande dia?
      -Amanh a noite. 
      Quando Blair se limitou a pestanejar, Glenna se apressou a acrescentar.
      -Sei o que deve parecer, mas...
      -Acredito que  fantstico. Acredito que  excelente. A vida no pode deter-se. No podemos permitir que o faa. No podemos permitir que eles a detenham, 
disso se trata tudo isto. Alm disso, acredito que  maravilhoso, verdadeiramente maravilhoso, que vocs dois tenham podido encontrar o que estavam procurando quando 
tudo  to extremo.  uma das coisas pelas quais estamos lutando, no  assim?
      -Sim. Sim, .
      -Vestido de noiva?
      -Um possvel vestido de noiva. Blair, obrigado.
      Blair apoiou a mo no ombro de Glenna em um gesto que bem poderia ter sido de mulher a mulher ou de soldado a soldado. Glenna sups que agora era o mesmo.
      -Estive lutando durante treze anos. Sei melhor que ningum que se necessita algo real, necessitam-se coisas que realmente importem, e que a esquentem por dentro, 
ou perde a misso. Deixarei que volte para o que estava fazendo.
      -Quer nos ajudar na compra?
      -Srio? -Blair deu uns passos de baile-. Os vampiros so viciados em chupar o sangue? Pois claro que quero. Uma coisa, no  minha inteno a desanimar mas 
como conseguir ter o vestido para amanh a noite?
      -Tenho meus meios. E ser melhor que ponha j mos  obra. Importaria-se de fechar a porta? No quero que Hoyt entre quando estiver provando os vestidos.
      -Provando-os... Claro.
      Blair obedeceu enquanto Glenna colocava vrios cristais em cima e ao redor do computador. Logo acendeu umas velas, retrocedeu uns passos e estendeu os braos 
a ambos os lados.
      -Me deusa, peo sua graa para trazer este vestido aqui. Atravs do ar, dali at aqui, na luz at minha vista, um smbolo de meu destino. Que assim seja.
      Com um sbito resplendor, os jeans e a camiseta da Glenna foram substitudos pelo vestido branco.
      -Uau! Um tipo de roubo completamente novo.
      -No o estou roubando. -Glenna olhou Blair com o cenho franzido-. Jamais utilizaria meus poderes para isso. S o provarei e, quando encontrar o que estou procurando, 
tenho outro conjuro para compr-lo.  s para economizar tempo, algo que no tenho.
      -No se zangue. S estava brincando. -Em certo modo-. Isso tambm funcionaria com as armas se necessitarmos mais?
      -Suponho que sim.
      - bom sab-lo. Em qualquer caso  um vestido lindo.
      - encantador -conveio Moira-. Simplesmente encantador.
      Glenna se voltou e estudou sua imagem refletida no antigo espelho de corpo inteiro.
      -Graas a Deus que Cian no tirou todos os espelhos da casa.  lindo, no ? Eu adoro o modelo, mas...
      -No  o vestido que voc quer. -Blair acabou a frase por ela e se sentou na cama, junto  Moira para contemplar o espetculo.
      -Por que o diz? -perguntou Glenna.
      -Esse vestido no a ilumina. Essa luz, nas vsceras, no corao, que se estende at a ponta dos dedos. Pe o vestido de noiva, olha-se no espelho e sabe. Os 
outros so s uma prova.
      De modo que tinha chegado to longe, pensou Glenna, recordando a viso de Blair e o anel de compromisso em seu dedo. E a imagem dela chorando na escurido, 
o dedo nu.
      Ia fazer um comentrio e depois se calou. Um assunto sensvel como esse requeria algo mais que camaradagem. Necessitava uma amizade genuna e ainda no tinham 
chegado a esse ponto.
      -Tem razo, este no  o vestido que estou procurando. Selecionei outros quantos, de modo que agora provaremos o nmero dois.
      Deu no alvo no terceiro e, em efeito, sentiu o brilho da luz. Ouviu-o no comprido e ofegante suspiro de Moira.
      -J temos um ganhador. -Blair fez girar o dedo. -De a volta. OH, sim, esse  o seu.
      Era um vestido romntico e singelo, pensou Glenna. O que ela queria. A longa saia tinha um leve rodado, e a suave linha do decote estava emoldurada por duas 
fitas finas que deixavam os ombros nus e depois baixavam sobre as omoplatas para realar as costas.
      - to exatamente adequado... -Deu uma olhada de novo ao preo e deu um suspiro-. Bom, suponho que estourar o carto de crdito no  algo muito grave tendo 
em conta o iminente Apocalipse.
      -Desfruta do presente -conveio Blair-. Pensa usar vu, grinalda?
      -Os compromissos tradicionais celtas requerem um vu, mas neste caso... S um buqu de flores, acredito.
      -Muito melhor. Sutil, mundano, romntico e sexy todo um. Fecha a compra.
      -Moira? -Glenna se voltou para ela e viu que tinha os olhos midos e sonhadores-. Vejo que tambm conto com sua aprovao.
      -Acredito que ser a mais linda das noivas.
      -Bem, esta foi uma diverso sria. -Blair se levantou da cama. -E estou de acordo com a perita... est deslumbrante. Mas ter que ir acabando. -Assinalou seu 
relgio. -As duas devem descer para treinar. Vamos praticar luta corpo a corpo. Por que no vem comigo agora? -disse a Moira. -Podemos ir comeando.
      -Eu irei em uns minutos  - disse Glenna, e logo se voltou para estudar de novo sua imagem no espelho.
      Da compra de um vestido de noiva ao combate, pensou. Sua vida se converteu em uma viagem muito estranha.
            
            
            
      Hoyt ouviu msica dentro do quarto de Cian pouco antes do crepsculo e se decidiu a bater na porta. Recordou que tinha havido um tempo em que no lhe teria 
ocorrido chamar, em que no teria sido necessrio pedir permisso para entrar no quarto de seu irmo.
      Um tempo, pensou, no que no teria tido necessidade de lhe perguntar se podia viver com sua esposa em sua prpria casa.
      Os ferrolhos se abriram. Cian levava umas calas folgadas e tinha uma expresso sonolenta quando abriu a porta.
      - um pouco cedo para mim, para receber visitas, quero dizer.
      -Tenho que falar contigo em particular.
      -Algo que,  claro, no pode esperar a minha convenincia. Adiante ento.
      Hoyt entrou em um quarto escuro como a boca de um lobo.
      -Temos que falar na escurido?
      -Eu posso ver bastante bem. -Cian, no obstante, acendeu um abajur baixo que havia junto a uma grande cama. O edredom brilhava como se fosse uma jia sob aquela 
luz e os lenis tinham o brilho da seda. Seu irmo se aproximou de uma pequena geladeira e tirou uma bolsa de plstico com sangue. -Ainda no tomei o caf da manh. 
-Colocou a bolsa dentro do micro-ondas que havia em cima da mesa. -O que  o que quer?
      -Quando tudo isto tiver acabado, o que pensa fazer?
      -O que goste, como sempre.
      -Viver aqui?
      -Acredito que no -respondeu Cian com meio sorriso, e agarrou um copo de cristal de uma estante.
      -Amanh a noite... Glenna e eu pensamos nos comprometer.
      No movimento de Cian se produziu uma leve vacilao e logo deixou o copo.
      -Isso  muito interessante. Suponho que devo o felicitar. E,  claro, pensa lev-la de volta, apresent-la  famlia. Mame, papai, esta  minha prometida. 
Uma pequena bruxa que encontrei alguns sculos no futuro.
      -Cian.
      -Sinto muito. O absurdo deste assunto me diverte. -Tirou a bolsa de sangue do micro-ondas e derrubou o contedo quente no copo. -. Bem, de todos os modos, 
slinte!
      -No posso retornar.
      Depois do primeiro gole, do primeiro e longo olhar por cima da borda, Cian baixou o recipiente.
      -Isto fica cada vez mais interessante.
      -J no  meu lugar, sabendo o que agora sei. Esperando que chegue o dia em que sei que eles morrero. Se voc pudesse retornar, faria-o?
      Cian olhou o copo com o cenho franzido e depois se sentou.
      -No. Por milhares de razes. Mas essa seria uma delas. Mas aparte disso, voc trouxe esta guerra at mim. E agora encontra tempo para se comprometer?
      -Quando aparece a ameaa do fim dos dias, as necessidades humanas no se detm. S se voltam mais intensas aparentemente.
      -Isso  verdade. Vi-o centenas de vezes. E tambm que as noivas de guerra nem sempre so esposas de confiana.
      -Isso vai por mim e pela Glenna?
      -Sem dvida assim . -Elevou o copo e bebeu um pouco mais de sangue. -Bom, seja como for, boa sorte a ambos.
      -Queremos viver aqui, nesta casa.
      -Em minha casa?
      -Na casa que era nossa. Deixando a um lado meus direitos, e nosso parentesco, voc  um homem de negcios. Paga um administrador quando no est aqui. Poder 
economizar esse gasto. Glenna e eu nos encarregaremos de cuidar a casa e as terras sem que lhe custe um centavo.
      -E como pensam ganhar a vida? Nestes dias no h muita demanda de feiticeiros. Espera j o tenho. -Cian ps-se a rir e acabou de beber o contedo do copo. 
-Poderia conseguir uma fodida fortuna na televiso, ou pela internet. Consegue uma linha novecentos e um lugar na Web, e em frente. Embora no seja seu estilo.
      -Encontrarei meu caminho.
      Cian afastou o copo e olhou para as sombras.
      -Espero que o faa, desde que sobreviva,  claro. No tenho nenhum problema em que fiquem nesta casa.
      -Agradeo-lhe.
      Cian deu de ombros.
      -A vida que escolheu,  uma muito complicada.
      -E tenho inteno de viv-la. Deixarei-o para que se vista.
      "Uma vida complicada", pensou Cian novamente quando esteve sozinho. E o surpreendia e o chateava que pudesse invej-la.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo 21
      
      Glenna imaginava que a maioria das noivas ficavam um pouco estressadas e muito ocupadas no dia de seu casamento. Mas a maioria delas no tinham que inserir 
o treinamento com a espada e os conjuros entre seus tratamentos faciais e a visita a manicure.
      Ao menos, o ritmo imposto pelas circunstncias reduzia o tempo para o estado de nervos que nunca imaginou que teria. Entre a preocupao pelos acertos florais, 
uma iluminao romntica e a forma mais adequada de decapitar um vampiro, no ficava tempo para sofrer um ataque de ansiedade.
      -Prova com isto. -Blair comeou a brandir a arma, depois obviamente trocou de parecer ao ver que Glenna ficava boquiaberta. -Um machado de combate. Mais pesado 
que uma espada, algo que acredito ir melhor. Tem bastante fora na parte superior do corpo, mas poderia fazer mais dano com isto que com uma espada. Tem que se 
acostumar a seu peso e equilbrio. Vai ver.
      Blair voltou sobre seus passos e agarrou sua prpria espada.
      -Bloqueie meu golpe com o machado.
      -No estou acostumada a us-lo. Poderia fazer um mau movimento e a ferir.
      -Me acredite, no me ferir. Bloqueia!
      Blair atacou com a espada e Glenna, mais por instinto que por obedincia, bloqueou o golpe com o machado fazendo ressonar os metais.
      -Ver, eu agora poderia te atravessar alegremente a espada enquanto voc tentava dar a volta.
      - muito pesado. -se queixou Glenna.
      -No . Tem que separar as mos para agarrar melhor o cabo. Muito bem, assim, e deve se manter de frente depois do primeiro golpe. O machado tem que cair sobre 
a espada, fazendo que volte para mim. Devagar. Um. -disse e lanou o golpe, - dois. Outra vez, segue avanando para mim. Quer responder a meus golpes,  claro, mas 
o que tem que fazer  me desequilibrar, me obrigar a responder os seus, me obrigar a seguir seus movimentos. Pensa nisso como em uma dana de baile em que no s 
quer ser a que dirige os movimentos mas tambm matar seu par.
      Blair levantou uma mo e retrocedeu.
      -Me permita que mostre isso. Eh, Larkin, v o feixe de boneco de prticas. -Blair lhe lanou sua espada, com o punho para frente, e depois agarrou o machado 
de combate-. Tome o com calma - disse-. No  mais que uma demonstrao.
      Larkin assentiu.
      -Ataca.
      Quando este avanou para ela, Blair contou os passos em voz alta.
      -Golpe, golpe, giro. Ataque, bloqueio, golpe. Larkin  bom, v? -disse, dirigindo-se a Glenna. -De modo que ele me empurra enquanto eu o empurro. E quando 
for necessrio pode improvisar. Giro, golpe, golpe, giro.Cortar!
      Blair tirou a faca que levava presa  cintura e a agitou a poucos centmetros do estmago do Larkin.
      -Quando seus intestinos estejam se derramando, voc...
      E retrocedeu para esquivar o tapa do que parecia uma enorme garra de urso.
      -Uau! -Colocou a cabea do machado no cho, e se apoiou no cabo. S o brao de Larkin tinha mudado de forma-. Pode fazer isso? Trocar s algumas parte de seu 
corpo?
      -Se o desejar.
      -Aposto que em Geall as garotas esto loucas por voc.
      A Larkin levou um momento -Blair j tinha dado a volta para retornar junto  Glenna, - mas logo estalou em uma gargalhada encantada.
      -Isso  verdade -confirmou-. Mas no pelo que est insinuando. Prefiro minha prpria forma para esse tipo de entretenimento.
      -Estou segura disso. Glenna, segue praticando com Larkin, eu trabalharei um momento com a pequena.
      -No me chame assim -disse Moira em tom cortante.
      -Relaxe. No quis dizer nada ofensivo.
      Moira abriu a boca para dizer algo e logo meneou a cabea.
      -Sinto muito. Isso no esteve bem.
      -King a chamava assim -explicou Glenna.
      -OH. Entendo. Moira, treinamento de resistncia. Vamos sacudir um pouco.
      -Lamento ter falado dessa maneira.
      -Escuta, todos vamos ficar de saco cheio uns com os outros antes que isto tenha terminado. A mim no  fcil ferir... nem literalmente nem em sentido figurado. 
Moira, ter que se endurecer. Pesos de dois quilos. Quando tiver acabado contigo estar em forma.
      Moira entrecerrou os olhos.
      -J disse que sinto ter falado como o tenho feito, mas no penso permitir que me corte?
      -No, no me entendeu, trata-se s de uma expresso. Significa... -mas qualquer outro termo que pudesse ocorrer a Blair resultaria igualmente confuso. Em vez 
de falar, dobrou um brao e flexionou o bceps.
      -Ah. -Um sorriso danou nos olhos de Moira. -Isso eu gostaria. Muito bem, ento pode me pr em forma.
      As duas trabalharam durante toda a manh. Quando Blair fez uma pequena pausa para beber um pouco de gua de uma garrafa fez um gesto a Glenna com a cabea.
      -Est progredindo. Aulas de bal?
      -Oito anos. Nunca pensei que realizaria as piruetas com um machado de combate, mas a vida est cheia de surpresas.
      -Pode fazer um triplo?
      -At agora no.
      -Olhe.
      Blair, sem soltar a garrafa, fez girar o corpo trs vezes e logo estendeu a perna para um lado, elevando-a at um ngulo de quarenta e cinco graus.
      -Esse tipo de impulso carrega um chute de potncia. Precisa dar um golpe slido para repelir um desses monstros. Tem que praticar. J o tem dentro. -Blair 
deu outro giro-. Onde est o noivo?
      -Hoyt? Na torre. Ainda h muitas coisas pendentes. To importantes como as que estamos fazendo aqui, Blair -acrescentou ao perceber sua desaprovao.
      -Talvez. Muito bem, talvez. Desde que apaream com mais coisas como essa adaga flamejante.
      -Encantamos vrias armas com fogo. -Glenna se dirigiu a outra rea da sala, agarrou uma das espadas e retornou onde estava Blair. -Fizemos uma marca nas que 
esto encantadas.V?
      Na folha da espada, perto do punho, havia uma pequena chama gravada no ao.
      -Muito bonita. Srio. Posso prov-la?
      -Ser melhor faz-lo l fora.
      -Bem observado. De qualquer modo, tinha pensado fazer um descanso de uma hora de todos os modos. Comer algo. Arcos e flechas, menino e garotas.
      -Irei contigo -disse Glenna-. No caso de.
      Blair saiu pelas portas do terrao e desceu ao jardim. Uma vez ali se fixou no boneco de prticas que Larkin tinha pendurado em um poste. Terei que reconhecer 
que o tipo tinha senso de humor. Tinha-lhe desenhado presas na cara cheia e um corao vermelho brilhante no peito.
      Seria divertido provar no boneco a espada flamejante... e desperdiar um bom material. No tinha sentido queimar o boneco vampiro.
      De modo que se colocou em posio de combate, o brao dobrado atrs da cabea e a espada apontando para frente.
      - importante que o controle - explicou Glenna-. Que projete o fogo quando o necessitar. Se s est dando golpes com a espada, poderia se queimar voc ou alguns 
de ns.
      -No se preocupe.
      Glenna comeou a dizer algo, mas logo deu de ombros. No havia nada nem ningum a quem Blair pudesse prejudicar nesse momento com o fogo, s o ar.
      Logo a observou enquanto comeava a mover-se, lentamente, com a fluidez da gua, a espada como uma extenso de seu brao. Sim, uma espcie de bal, pensou, 
um bal mortal. E, no obstante, preciso. A folha brilhou quando o sol incidiu em seu fio, mas permaneceu fria. Justo quando Glenna pensava que Blair necessitava 
que lhe desse algumas instrues sobre como dirigir a espada, ela fez um movimento e as chamas brotaram da folha.
      -Est torrado. Deus, amo esta coisa. Faria-me uma com algumas de minhas armas pessoais?
      - claro. -Glenna arqueou as sobrancelhas enquanto Blair movia a espada no ar e o fogo se extinguia-. Aprende depressa.
      -Sim, assim . -Blair franziu o cenho enquanto examinava o cu-. Esto-se formando nuvens pelo oeste. Parece-me que teremos mais chuva.
      -Menos mal que planejei um casamento sob o teto.
      -Menos mal. Agora vamos comer algo.
            
            
            
      Hoyt no desceu da torre at bem entrada a tarde e, para ento Glenna tinha se permitido tomar uma pausa para ela. No queria fazer um conjuro rpido para 
parecer esplndida. Queria mimar-se um pouco.
      Necessitava flores para a coroa que levaria na cabea e para o buque. Ela mesma tinha preparado o creme facial usando diversas ervas, e agora a estava aplicando 
generosamente enquanto contemplava o cu da janela de seu quarto.
      As nuvens comeavam a mover-se. Se quisesse recolher algumas flores teria que faz-lo antes que o sol desaparecesse e comeasse a chover. Mas quando abriu 
a porta para sair para busc-las, encontrou-se a Moira e Larkin. Este fez um som estranho enquanto seus olhos se abriam como pratos, lhe recordando a massa verde 
que levava posta no rosto.
      - uma coisa que as mulheres usam, nada mais. Vou com atraso. Ainda no tenho as flores para o cabelo.
      -Ns... Bom. -Moira tirou a mo de detrs das costas e lhe ofereceu uma coroa de pequenas rosas brancas com uma fita vermelha tranada entre elas. -Espero 
que voc goste, que seja o que queria. Sei que levar vermelho  tradicional em um compromisso. Larkin e eu queramos te fazer um presente, e no tnhamos nada, de 
modo que confeccionamos isto. Mas se voc preferia...
      -OH,  perfeito.  absolutamente lindo. OH, obrigado!
      Abraou Moira com fora e depois brindou Larkin com um sorriso luminoso.
      -Pensei que no seria to difcil conseguir que me beijasse -disse ele-, mas neste momento...
      -No se preocupe. O agarrarei mais tarde.
      -Tambm lhe trouxemos isto. -E entregou um ramalhete de rosas multicoloridas unido com mais fita vermelha. -Para que o leve, disse Moira.
      -OH, Deus, esta  a coisa mais doce do mundo. -As lgrimas escorregavam sobre o creme verde-. Pensava que seria muito duro sem ter minha famlia aqui. Mas, 
depois de tudo, tenho uma famlia. Obrigado, graas aos dois.
      Tomou um banho, perfumou o cabelo com essncias e hidratou a pele com creme. As velas brancas ardiam no quarto enquanto ela celebrava o ritual feminino de 
preparar-se para um homem. Para suas bodas, e para sua noite de npcias.
       Levava posta s o robe, e roando com as pontas dos dedos a saia do vestido pendurado fora do armrio, quando algum bateu na porta.
       -Entre. A menos que seja Hoyt.
       -No sou Hoyt.
       Um momento depois Blair entrou no quarto levando uma garrafa de champanha dentro de um balde de gelo. Atrs dela entrou Moira com trs taas altas e finas.
       -Com lassa felicitaes de nosso anfitrio -disse Blair. -Devo dizer que  um vampiro com muita classe.  um champanha de primeira.
      -Cian enviou o champanha?
      -Sim. E eu desarrolharei a garrafa antes que a ajudemos a se vestir.
      -Tenho uma festa de despedida. OH, vocs deveriam ter vestidos adequados. Teria que ter pensado nisso.
      -Ns estamos bem.  sua noite.
      -Nunca bebi champanha -disse Moira-. Blair diz que eu gostarei.
      -Garanto-lhe isso. -Blair piscou um olho a Glenna e logo fez saltar a cortia da garrafa-. Como certo, tenho algo para voc. No  muito considerando que no 
tenho seu estilo com as compras pela internet. -Colocou a mo no bolso. -Tampouco tinha uma caixa.
      Blair ps um pequeno broche na mo de Glenna.
      - um claddaugh. Um smbolo tradicional irlands. Amizade, amor, lealdade. Teria procurado a torradeira ou a saladeira, mas tinha o tempo justo. E no sabia 
em que lojas tinham aberto a lista de bodas.
      Outro crculo, pensou Glenna. Outro smbolo.
      - lindo. Obrigado. -voltou-se e colocou o broche na fita vermelha pendurada no buqu de flores-. Assim levarei meus presentes comigo.
      -Eu adoro o romantismo. Especialmente quando vai acompanhado de champanha. -Blair serviu trs taas e as repartiu-. Pela noiva.
      -E sua felicidade -acrescentou Moira.
      -E pela continuidade representada pelo que fazemos esta noite. Pela promessa de futuro que representa. Procurarei derramar todas essas lgrimas antes de me 
maquiar -disse Glenna.
      - um bom plano -conveio Blair.
      -Sei que o que encontrei com Hoyt  bom,  meu. Sei que o que nos estamos prometendo esta noite  bom,  nosso. Mas as ter aqui comigo, isso tambm  bom. 
E especial, Quero que saibam que  muito especial para mim poder compartilhar este momento com vocs.
      Chocaram levemente as taas, beberam e Moira fechou os olhos.
      -Blair tinha razo. Eu gosto.
      -Disse-lhe isso. Muito bem, Moira, agora vejamos como luz uma noiva.
      Fora da casa, a chuva caa torrencialmente e a nvoa cobria os campos. Mas dentro da casa havia velas acesas e perfume de flores no ar.
      Glenna se separou do espelho.
      -E bem?
      -Parece um sonho -afirmou Moira-. Como uma deusa em um sonho.
      -Tremem-me os joelhos -disse Glenna-. Aposto que s deusas no acontece.
      -Inspire duas vezes. Agora Moira e eu desceremos para nos assegurar de que tudo esteja preparado. Inclusive o cara afortunado. Vai deix-lo mudo.
      -Por que ia Glenna a...?
      -Sabe, querida? -disse Blair a Moira enquanto ambas se dirigiam  porta-, toma as coisas muito ao p da letra. Enquanto est enterrada entre seus livros poderia 
estudar um pouco o jargo contemporneo. -Abriu a porta e se deteve em seco ao ver Cian-. Este  territrio feminino.
      -Eu gostaria de falar um momento com mi... futura cunhada.
      -Est bem, Blair -disse Glenna-. Entre, Cian.
      Cian entrou no quarto, olhou Blair por cima do ombro e em seguida lhe fechou a porta no nariz. Depois se voltou e dedico a Glenna um longo olhar.
      -Ah, ah,  como uma viso. Realmente, a sorte de meu irmo cresce a passos largos.
      -Provavelmente pense que isto  uma loucura.
      -Engana-se. Embora seja uma coisa que eu considere particularmente humana, no  algo que eu qualificaria de loucura. Face  abundncia das mesmas.
      -Amo seu irmo.
      -Sim, at um cego seria capaz de v-lo.
      -Obrigado pelo champanha. Por pensar nisso.
      -Foi um prazer. Hoyt est preparado para voc.
      -OH, Deus. -levou a mo ao estmago para tranqilizar-se. -Espero que sim.
      Cian sorriu ante esse comentrio e se aproximou dela.
      -Quero te dar uma coisa. Um presente de bodas. Pensei em que voc o tenha j que, ao menos por agora, suponho que ser voc quem se encarregar da papelada.
      -Papelada?
      Cian entregou uma pequena carteira de couro. Depois de abri-la, Glenna o olhou desconcertada.
      -No entendo.
      -Deveria estar bastante claro.  a escritura desta casa, da terra,  sua.
      -OH, mas no podemos aceit-la. Quando Hoyt perguntou se podamos ficar aqui, ele s pretendia...
      -Glenna, eu s fao grandes gestos cada vrias dcadas, se me assaltar o capricho. Toma-o quando lhe oferecem isso. Esta casa significa para Hoyt muito mais 
do que nunca significar para mim.
      Glenna tinha um n na garganta, de modo que teve que esperar uns segundos para poder falar.
      -Sei o que significa para mim. E significar muito mais para ele. Eu gostaria que voc desse estes documentos a Hoyt.
      -Agarra-os.
      Foi tudo o que Cian disse, e logo se voltou para a porta.
      -Cian -Glenna deixou a carteira a um lado e agarrou seu buqu de flores-. Acompanha-me at l em abaixo? Entrega-me a Hoyt?
      Cian duvidou um instante e logo abriu a porta e lhe tendeu a mo.
      Quando comearam a descer, Glenna ouviu msica.
      -Suas damas de honra estiveram muito ocupadas. Esperava-o da pequena rainha... h muito sentimento nela. Mas na Guerreira me surpreendeu.
      -Estou tremendo? Sinto como se me tremesse todo o corpo.
      -No. -Cian colocou a mo da Glenna debaixo de seu brao-. Est firme como uma rocha.
      Quando entraram no salo cheio de velas e flores, e viu Hoyt de p diante das chamas douradas da lareira, sentiu-se completamente relaxada.
      Foram um para o outro atravs do salo.
      -Estive te esperando -sussurrou Hoyt.
      -E eu a ti -disse ela.
      Ela agarrou sua mo e examinou o salo. Estava cheio de flores, seguindo a tradio. O crculo estava formado e as velas estavam acesas, exceto as que eles 
acenderiam durante a cerimnia. A vara de salgueiro repousava em cima da mesa que fazia s vezes de altar.
      -Tenho-te feito isto.
      Hoyt lhe mostrou um grosso anel de prata profusamente gravado.
      -Uma s mente -disse ela, e tirou do polegar o anel que tinha feito para ele.
      Ambos caminharam para o altar de mos dadas. Acenderam as velas tocando os pavios com os dedos. Depois de deslizar os anis na vara de salgueiro, voltaram-se 
para olhar os outros.
      -Pedimos que sejam nossas testemunhas neste rito sagrado -comeou Hoyt.
      -Que sejam nossa famlia enquanto nos convertemos em um.
      -Que este lugar seja consagrado aos deuses. Estamos todos aqui reunidos em um ritual de amor...
      -Criaturas do Ar, nos acompanhem neste momento e com seus dedos judiciosos estreitem com fora os vnculos entre ns.
      Glenna olhou fixamente Hoyt enquanto pronunciava estas palavras.
      -Criaturas do Fogo, nos acompanhem neste momento.
      E ambos continuaram com a gua, com a Terra, com a deusa bem-aventurada e o deus risonho. O rosto de Glenna estava radiante enquanto pronunciava as palavras 
sagradas, enquanto acendiam o incenso e depois a vela vermelha. Beberam vinho e pulverizaram sal.
      Hoyt e ela sustentaram a vara com os brilhantes anis entre eles.
      A luz se voltou mais clida, mais brilhante enquanto falavam um ao outro, os anis cintilaram intensamente sob suas mos.
      - meu desejo me converter em uma com este homem.
      Glenna deslizou o anel da vara no dedo de Hoyt.
      - meu desejo me converter em um com esta mulher.
      Hoyt imitou o gesto de Glenna.
      Ambos agarraram a corda que havia em cima do altar e a colocaram sobre suas mos unidas.
      -E assim fica selada esta unio -disseram-. Depois, enquanto a deusa, o deus e os antigos...
      Um grito procedente do exterior da casa partiu o momento como uma pedra que rompe um cristal.
      Blair correu a uma janela e abriu a cortina. Inclusive seus nervos se esticaram ao ver o rosto do vampiro a escassos centmetros atrs do cristal. Mas no 
foi isso o que lhe gelou o sangue nas veias, e sim o que viu atrs do monstro.
      Blair olhou os outros por cima do ombro e disse:
      -Merda.
      Havia ao menos cinqenta deles, provavelmente mais ainda no bosque ou escondidos perto da casa. Na erva, a poucos metros do edifcio, havia trs jaulas ocupadas 
por outras tantas pessoas golpeadas e cheias de sangue... e que agora gritavam com desespero enquanto eram arrastadas fora delas.
      Glenna se aproximou da janela para ver o que ocorria e logo procurou a mo de Hoyt. -A garota loira. Ela  a que veio  porta. Quando King...
      -Lora -disse Cian-. Uma das favoritas de Lilith. Em uma ocasio tive... um incidente com ela. -ps-se a rir ao ver que Lora hasteava uma bandeira branca-. 
E se acreditam nisso, tenho todo tipo de pontes para atacar.
      -H gente ali fora -acrescentou Moira-. Pessoas feridas.
      -Armas -comeou a dizer Blair.
      -Convm esperar e ver o melhor uso que podemos lhes dar. -Cian se separou da janela e foi para a porta principal. O vento e a chuva entraram quando a abriu-. 
Lora -chamou com familiaridade-. V est encharcada. Convidaria voc e a seus amigos que entrassem na casa, mas ainda conservo minha prudncia e minhas regras.
      -Cian, passou muito tempo. Por certo, voc gostou de meu presente? No tive tempo de embrulh-lo.
      -Est-se atribuindo o mrito do trabalho de Lilith? Isso  muito triste. E deveria lhe dizer que pagar caro o que fez.
      -Pode dizer-lhe voc mesmo. Voc e seus humanos tm dez minutos para se renderem.
      -OH! Os dez minutos completos?
      -Em dez minutos mataremos o primeiro destes. -Agarrou pelo cabelo um dos prisioneiros-.  bonita, no ? S tem dezesseis anos. Bastante velha para saber que 
no deve caminhar sozinha pelas estradas escuras.
      -Por favor. -A garota ps-se a chorar e o sangue que tinha no pescoo mostrava s claras que um dos monstros j a tinha provado-. Por favor, Deus.
      -Sempre esto chamando Deus. -Com uma gargalhada, Lora lanou de bruos  garota sobre a erva molhada pela chuva-. Mas ele nunca vai  chamada. Dez minutos.
      -Fecha a porta -disse Blair atrs dele-. Fecha-a. Muito bem, agora me d um minuto. Um minuto para pensar.
      -Eles os mataro ns faamos o que faamos -observou Cian-. No so mais que iscas.
      -Essa no  a questo -interveio Glenna-. Temos que fazer algo.
      -Lutaremos.
      Larkin agarrou uma das espadas que tinham deixado em um porta guarda-chuvas junto  porta.
      -Espera um momento - ordenou Blair.
      -No nos renderemos, no ante eles.
      -Ns lutamos conveio Hoyt-. Mas no segundo seus termos. Glenna, os grilhes.
      -Sim, posso fazer isso. Estou segura de que posso faz-lo.
      -Necessitamos mais armas da sala de cima -disse Hoyt.
      -Eu disse que esperem. -Blair colheu com fora o brao-. Tiveram um par de escaramuas com os vampiros, e isso no lhes serve como preparao. No vamos sair 
a fora para que nos cortem como pedaos de carne. Pode livr-los dos grilhes?
      Glenna suspirou.
      -Sim.
      -Bem. Moira, voc acima com os arcos. Cian,  provvel que tenham guardas ao redor da casa. Escolhe uma porta e comea a falar com eles to tranqilamente 
quanto puder. Hoyt contigo.
      -Espera.
      -Sei como fazer isto -disse a Glenna-. Est preparada para usar o machado?
      -Acredito que logo averiguaremos.
      -V busc-lo. Ficar l em cima, com Moira. Eles tambm tero arqueiros, e podem ver fodidamente melhor que ns na escurido. Larkin, voc e eu levaremos a 
cabo uma manobra de diverso. Moira, no comece a disparar at que tenha recebido o sinal.
      -Que sinal?
      -Reconhecer. Uma coisa mais. Esses trs prisioneiros a fora, j esto mortos. Quo nico podemos fazer  uma declarao de intenes. Devemos aceitar que 
as possibilidades so de escassas a nulas, quando falamos de salvar algum deles.
      -Mas devemos tentar -insistiu Moira.
      -Sim, bom, para isso estamos aqui. Vamos l.
      - essa uma de suas espadas encantadas? -perguntou Cian a Hoyt quando se aproximava da porta oeste.
      -Sim.
      -Ento trata de mant-la bem afastada de mim.
      Levou um dedo aos lbios e abriu a porta com muito cuidado. De momento no se ouviu nenhum som, nenhum movimento, exceto chuva. Em seguida Cian abandonou a 
casa, uma mancha escura na escurido.
      Quando Hoyt saiu para segui-lo viu que rompia o pescoo de dois monstros e decapitava um terceiro.
      -A sua esquerda -disse Cian.
      Hoyt se voltou para enfrentar seu inimigo com ao e com fogo.
      No piso superior, Glenna estava ajoelhada e cantava dentro do crculo que tinha esboado no cho. A prata ao redor de seu pescoo e em seu dedo aumentava a 
intensidade de seu brilho com cada pulsar. Moira estava escondida junto  porta aberta da sala, com uma aljava de flechas as costas e um arco entre as mos.
      Moira olhou Glenna por cima do ombro.
      -Os grilhes.
      -No, isso era para outra coisa. Comearei o conjuro agora.
      -Para que...  OH. -Moira voltou a olhar para a escurido mas agora, graas a Glenna, com a viso de um gato-. OH, sim,  perfeito. Tm arqueiros escondidos 
entre as rvores. S vejo seis deles. Posso acabar com os seis.
      -No saia. No saia fora at que eu tenha acabado aqui.
      Glenna se esforou por esclarecer sua mente, apaziguar seu corao e convocar a magia.
      Da escurido saiu um cavalo dourado como se fosse a representao da vingana. E o cavaleiro que o montava empunhava a morte.a tocha, golpeando trs vampiros 
que estalaram em chamas e acabaram com outros dois ao ser alcanados pelo fogo. Logo lanou a tocha, levando a destruio atravs do ar, e tirou uma espada flamejante.
      -Agora  o momento, Glenna! - Moira lanou a primeira flecha-. Agora!
      -Sim, j o tenho -respondeu ela.
      Depois Glenna agarrou o machado de combate e uma faca na corrida.
      As flechas de Moira j voavam pelo ar quando as duas saram correndo da casa, sob a chuva. E as criaturas que as estavam esperando saram atrs delas.
      Glenna no pensava, s atuava, s sentia. Ela deixava que seu corpo realizasse essa dana de vida e morte, golpeando, bloqueando, investindo. O fogo se agitava 
sobre as folhas de ao enquanto as fazia girar no ar.
            Ouviam-se gritos, uns gritos verdadeiramente horrveis. Grito dos humanos, dos vampiros, como podia sab-lo? Pde cheirar o sangue, provou-o; sabia que 
parte dele era seu. Seu corao pulsava como se fosse um tambor de guerra dentro de seu peito, de modo que mal reparou na flecha que passou lhe roando a cabea 
enquanto lanava um jorro de fogo contra o vampiro que saltava sobre ela.
      -Alcanaram Larkin. Est ferido.
      Ao ouvir os gritos de Moira, Glenna se voltou e viu a flecha cravada em uma das patas dianteiras do cavalo. Mas ainda assim seguia correndo como uma exalao 
com Blair semeando a destruio de seu lombo.
      Ento viu Hoyt lutando valentemente contra presas e espadas em seu intento de chegar onde estava um dos prisioneiros.
      -Tenho que ir ajud-lo. Moira, h muito deles ali.
      -V. Eu me encarrego destes. Reduzirei a desvantagem, prometo-lhe isso.
      Glenna atacou com fria enquanto proferia um grito para distrair alguns dos vampiros que rodeavam Hoyt e Cian.
      Ela pensou que s seria um borro nebuloso, s loucura precipitando-se sobre ela e atravs dela. Mas era claro em todos e cada um dos detalhes. Os rostos, 
os sons, os aromas, a sensao do sangue morno e a chuva fria que banhava seu corpo. Os olhos vermelhos, a fome terrvel nos monstros. E o resplendor e os gritos 
espantosos quando o fogo os envolvia.
      Viu que Cian rompia o extremo de uma flecha que tinha cravada na coxa e a afundava no corao de um inimigo. Viu que o anel que tinha colocado no dedo de Hoyt 
ardia como uma pequena fogueira quando liquidou dois vampiros de um s golpe.
      -Leva-os para dentro da casa - gritou Hoyt-. Tenta lev-los para casa.
      Glenna rodou sobre a erva encharcada para a garota que Lora tinha torturado. Quase esperava encontr-la morta. Em troca, encontrou-a viva e exibindo as presas 
com um sorriso malvado.
      -OH, Deus.
      -Acaso no ouviste o que disse ela? Deus nunca responde.
      A garota golpeou Glenna e a lanou de costas. Depois jogou a cabea para trs com a alegria da morte iminente de sua presa. A espada de Blair a separou do 
corpo.
      -Surpreenderia-a -replicou Glenna.
      -Dentro! -gritou Blair-. Retornemos para casa. J est bem como fodida declarao de intenes.
      Estendeu o brao para ajudar Glenna a montar no lombo do cavalo.
      Abandonaram o campo de batalha coberto de chamas e p.
      -A quantos matamos? -perguntou Larkin enquanto se derrubava no cho. O sangue corria por sua perna formando uma pequena poa.
      -Ao menos trinta... Uma percentagem fodidamente boa.  muito veloz, Menino de Ouro. -Blair o olhou diretamente nos olhos-. Tem uma pequena ferida.
      -No esteve mau.  s... -Larkin no gritou quando lhe arrancou a flecha. No ficava flego para gritar. Quando o recuperou, quo nico pde proferir foi uma 
tremula catarata de insultos.
      -Agora voc -disse Blair a Cian, assinalando a flecha quebrada que sobressaa de sua coxa direita.
      Cian se limitou a agarrar o extremo da flecha e extra-la de sua perna.
      -Obrigado de qualquer modo.
      -Irei procurar algumas coisas. Est sangrando disse Glenna a Blair.
      -Todos estamos um pouco maltratados -respondeu esta-. Mas no estamos mortos. Bom -brindou a Cian um sorriso arrogante- a maioria de ns.
      -Nunca se cansa, no ? -disse Cian e foi em busca do brandy.
      -Os que estavam nas jaulas no eram seres humanos.
      Moira sustentava o ombro onde lhe tinha roado a ponta de uma flecha.
      -No. Embora no pude descobrir daqui. Havia muitos deles para que pudesse discernir os cheiros. Foi uma jogada inteligente. -Blair assentiu, um reconhecimento 
sombrio-. Uma boa maneira de lutar contra ns sem desperdiar seu fornecimento de comida. Essa puta tem crebro.
      -No conseguimos liquidar Lora. -Com a respirao ainda agitada pelo esforo, Hoyt se relaxou lentamente. Tinha um corte no lado e outro no brao-. Consegui 
v-la quando abramos passagem para retornar para casa. No pudemos acabar com ela.
      -Ela ser minha. Minha amiga especial. -Blair franziu os lbios quando Cian lhe ofereceu uma taa de brandy-. Obrigado.
      De p entre eles e com os joelhos trmulos, Glenna avaliou a situao.
      -Blair ajuda Larkin a tirar a tnica. Preciso ver a ferida. Moira,  muito grave sua ferida?
      -Na verdade no  mais que um arranho.
      -Ento v l em cima procurar umas mantas e algumas toalhas. Hoyt. -Glenna se aproximou dele, ajoelhou-se agarrou suas mos e ocultou o rosto entre elas. No 
importava quanto desejasse cair em pedaos, no era o momento. Ainda no era o momento-. Senti-o junto a mim. Senti-o junto a mim constantemente.
      -Sei. Estava comigo. A ghr.
      Elevou-lhe a cabea e a beijou nos lbios.
      -No senti medo, no enquanto tudo estava acontecendo. No podia pensar em sentir medo. Ento cheguei onde estava essa garota, essa adolescente e vi o que 
era. No podia nem sequer me mover.
      -J terminou. Por esta noite tudo terminou. E demonstramos que somos dignos rivais para eles. -voltou a beij-la, um beijo comprido e profundo-. Esteve magnfica.
      Glenna apoiou uma mo sobre a ferida que ele tinha no lado.
      -Eu diria que todos estivemos magnficos. E demonstramos que podemos fazer algo mais que nos manter firmes e no ceder terreno. Agora somos uma unidade.
      -O crculo est fechado.
      Ela deixou escapar um comprido suspiro.
      -Bom, no foi a cerimnia de compromisso matrimonial que eu tinha esperado. -Fez um esforo para sorrir-. Mas ao menos ns... No, no, maldita seja, no o 
fizemos. No acabamos a cerimnia. Deixem tudo. -passou a mo pelo cabelo molhado-. No permitirei que esses monstros estraguem isto. -Colheu com fora a mo de 
Hoyt quando Moira voltou a aparecer trazendo mantas e toalhas-. Esto me escutando? Ainda so as testemunhas da cerimnia.
      -Entendemos -disse Blair enquanto limpava a ferida de Larkin.
      -Sua cabea est sangrando. -Cian passou a Moira um pano molhado-. Adiante -disse a Glenna.
      -Mas, Glenna, seu vestido.
      Glenna sorriu a Moira.
      -No tem importncia. Agora, isto  o que importa. -Apertou a mo do Hoyt e o olhou fixamente aos olhos-. Enquanto a deusa e o Deus e os antigos...
      A voz de Hoyt se uniu a dela.
      -So testemunhas deste rito. Agora declaramos que somos marido e mulher.
      Hoyt se inclinou e agarrou o rosto de Glenna entre suas mos.
      -Amarei-a mais  frente do fim dos tempos.
      Agora, pensou ela, agora o crculo estava realmente fechado, poderoso e brilhante.
      E a luz se voltou mais clida, um banho de ouro quando seus lbios se uniram, seus lbios se fundiram na esperana, na promessa, e no amor.
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
      -De modo que -disse o ancio- uma vez celebrado o compromisso, eles cuidaram suas feridas e comearam a cura. E brindaram pelo amor, pela autntica magia, 
que tinha sado da escurido e a morte. Enquanto fora a chuva seguia caindo, dentro da casa os valentes descansavam e se preparavam para a seguinte batalha. 
      O ancio se apoiou no respaldo da poltrona e agarrou a xcara de ch quente que um criado tinha deixado junto a ele.
      -Essa  por hoje toda a histria.
      Os protestos das crianas foram imediatos e apaixonados. Mas o ancio se limitou a sorrir e menear a cabea.
      -Amanh haver mais, prometo-lhes isso, porque a histria ainda no terminou. S acaba de comear. Mas agora o sol se ps e vocs devem se deitar. Acaso no 
aprenderam desde o comeo da histria que devemos guardar a luz como se fosse um tesouro? Venha, marchem. Quando tiver acabado meu ch, irei v-los.
      Sozinho, bebeu seu ch enquanto contemplava o fogo que ardia na lareira. E pensou na histria que contaria as crianas no dia seguinte.
            
            
      
      
      
      
 Fim.
      
      
      
      Glossrio de termos, personagens e lugares irlandeses:
      
     A chroi (ah-REE), termo carinhoso galico que significa "meu corao", "amado de meu corao", "querido meu".
     A ghr (ah-GHRA), termo carinhoso galico que significa, "meu amor", "querido".
     A str (ah-STOR), termo carinhoso galico que significa "querido meu".
     Aideen (Ae-DEEN), jovem prima de Moira.
     Alice McKenna, descendente de Cian e Hoyt Mac Cionaoith.
     An Ciar (Ahn-CLAR), o atual condado de Clare.
     Baile dos Deuses, o Baile, lugar de onde o crculo dos seis passam do mundo real ao mundo fantstico de Geall.
     Ballycloon (b-lu-klun).
     Blair Nola Bridgit Murphy, um dos membros do crculo dos seis, a "guerreira"; uma assassina de vampiros, descendente da Nola Mac Cionaoith (a irm mais nova 
de Cian e Hoyt).
     Burren, uma regio rochosa de pedra calcria no condado de Clare, com covas e correntes de gua subterrneas.
     Cara (caru), termo galico para "amigo, parente".
     Ceara, uma das mulheres da aldeia.
     Cian (KEI-an) Mac Cionaoith / McKenna, irmo gmeo de Hoyt, um vampiro, Lorde de Oiche, um dos membros do crculo dos seis, "o que se perdeu".
     Cirio, o amante humano de Lilith.
     Ciunas (CYOON-s), termo galico para "silncio"; a batalha se livra no Vale de Ciunas, o Vale do Silncio.
     Claddaugh, o smbolo celta do amor, a amizade e a lealdade.
     Conn, cachorrinho de Larkin quando este era pequeno.
     Davey, o filho de Lilith, a rainha dos vampiros, um menino vampiro.
     Deirdre (DAIR-dhra) Riddock, me de Larkin.
     Dervil (DAR-vel), uma das mulheres da aldeia.
     Eire (AIR-reh), termo galico para "a Irlanda".
     Eogan (O-en), marido de Ceara.
     Eoin (OAN), cunhado de Hoyt.
     Eternity, nome do clube noturno de Cian na cidade de Nova Iorque.
     Faerie Falls, lugar imaginrio em Geall.
     Failte-a Geall (FALL-che ah GY-ao), expresso galica que significa "Bem-vindo a Geall".
     Fearghus (FARE-gus), cunhado de Hoyt.
     Gaillimh (GALL-yuv), a atual cidade de Galway, capital da Irlanda ocidental.
     Geall (GY-alI), em galico significa "promessa"; a terra de onde procedem Moira e Larkin; a cidade em que um dia reinar Moira.
     Glenna Ward, um dos membros do crculo dos seis a "bruxa"; vive na atual cidade de Nova Iorque.
     Hoyt Mac Cionaoith / McKenna (Mac KHEE-nee), um dos membros do crculo dos seis, o "feiticeiro".
     Isleen (Is-leen), uma donzela do castelo de Geall.
     Jarl (Yarl), o amo de Lilith, o vampiro que a converteu em vampira.
     Jeremy Hilton, ex-noivo de Blair Murphy.
     King, nome do melhor amigo de Cian, a quem este protegeu quando era um menino; o gerente do Eternity.
     Larkin Riddock, um dos membros do crculo dos seis, "o shifter"; primo de Moira, rainha de Geall.
     Lilith, a rainha dos vampiros, alis a rainha dos demnios; lder da guerra contra a humanidade; amante de Cian, a vampira que converteu a este em vampiro.
     Lora, uma vampira; a amante de Lilith.
     Lucius, o vampiro masculino amante de Lora.
     Mac Dar, sobrenome; parte de um dos ttulos de Larkin.
     Malvin, aldeo, soldado no exrcito de Geall.
     Manhattan, distrito da cidade de Nova Iorque, onde vivem Cian McKenna e Glenna Ward.
     Mathair (maahir), termo galico para "me".
     Michael Thomas McKenna, descendente de Cian e Hoyt Mac Cionaoith.
     Mick Murphy, irmo pequeno de Blair Murphy.
     Midir (mije-deer), mago vampiro do Lilith, a rainha dos vampiros.
     Miurnin (tambm miurneach [mournukh]), palavra carinhosa galica para "amor/querido/querida".
     Moira (MWA-ra), um dos membros do crculo dos seis, a "erudita"; princesa e futura rainha de Geall.
     Morrigan (Mo-ree-ghan), deusa da Batalha.
     Niall (nile), um membro do guarda de Geall.
     Nola Mac Cionaoith, irm mais nova de Cian e Hoyt.
     Ogham (-gem) (tambm ogam), alfabeto irlands dos sculos V e VI.
     Oiche (EE-heh), termo galico para "noite".
     Oran (Ou-ren), filho menor de Riddock, irmo pequeno de Larkin.
     Phelan (FA-len), cunhado de Larkin.
     Poo do Bridget, cemitrio do condado de Clare, chamado assim por Santa Bridget.
     Prncipe Riddock, pai de Larkin, regente de Geall, tio materno de Moira.
     Regio de Chiarrai (kee-U-ree), o atual condado de Kerry, situado no extremo sul-ocidental da Irlanda, chamado s vezes "o Reino".
     Penhascos de Mohr (tambm Moher), nome dado s runas dos fortes do sul da Irlanda; sobre um penhasco prximo a Hag's Head "Moher O'Ruan".
     Samhain (SAM-em), final do vero (festival celta); a batalha tem lugar durante a festividade do Samhain, a celebrao do final do vero.
     Sean (Shawn) Murphy, pai de Blair Murphy, um caador de vampiros.
     Shop Street, centro cultural de Galway. 
     Sinann (shih-NAWN), irm do Larkin. 
     Slinte (slawn-che), termo galico que significa "sade!". 
     Sldn agat (shlahn u-gut), termo galico que significa "adeus" e que se diz  pessoa que fica. 
     Sldn leat (shlahn ly-aht), termo galico que significa "adeus" e que se diz  pessoa que se vai.
     Tuatha de Danaan (TOO-aha dai DON-nan), deuses galeses.
     Tynan (Ti-nin), guardio do castelo de Geall.
     Vlad, cavalo de Cian.
      
      
      PRXIMO...
      
      
      O Baile dos Deuses
       
      A combinao de elementos sobrenaturais com a incerteza e o romance, que faz Nora Roberts converteu  segunda novela de sua Trilogia do Crculo na mais vendida 
segundo o New York Time 
      
      
      Larkin olhou onde a terra tinha sido queimada, e pisoteada. Olhou os rastros que seus prprios ps tinham deixado na terra encharcada quando ele tinha galopado 
na batalha sob a forma de um cavalo. E ele olhou  mulher que o tinha montado, esfaqueando a destruio com uma espada flamejante.
      
      Blair Murphy sempre trabalhava sozinha. Destinada a ser um caador de demnios em um mundo que no acreditava em tais coisas, s vivia para a matana. Mas 
agora, ela  um dos guerreiros do crculo de seis, escolhido pela deusa Morrigan para derrotar a vampiresa Lilith e suas hostes. Aprender confiar em outros foi difcil, 
j que Blair nunca se permitiu tal luxo. Mas ela se encontra atrada por um homem, Larkin.
      
      Aprender a confiar em outros foi difcil, j que Blair nunca se permitiu tal luxo. Mas ela se viu deslumbrada por Larkin, um homem que mudava de formas. Como 
um cavalo, ele  orgulhoso e elegante, como um drago, maravilhosamente feroz; e como um homem... Bem, Blair havia visto muitos tipos macios, mas nenhum to belo 
e encantador como este nobre homem do passado.
      
      Em dois meses, o crculo de seis enfrentar Lilith e seu exrcito em Geall. Completar o treinamento e conseguir fora suficiente para lutar, atravs de uma 
viagem no tempo do crculo ao mundo de Larkin, onde Blair deve escolher entre a luta de sua atrao esmagadora por ele ou arriscar tudo por um amor que nunca poder 
ser...
      
      
1 Deusa da terra e inferno relacionada com atos de bruxaria.
2 Alfabeto que utilizavam os antigos habitantes da Irlanda, no guarda relao com o que  empregado aqui. O sistema de escritura de usavam, conhecido como ogham, 
teve vigncia do sculo III at o sculo VI d. C. Foi encontrado inscries deste alfabeto na Irlanda e Gales gravadas em pedras. 
3 Original em Espanhol.
4 Ave passeriforme de uns 15 cm de longitude, com corpo rechonchudo, plumagem parda no dorso e pescoo e peito vermelhos, que habita a Europa, sia e frica. 
5 Religio neopag, um movimento religioso que pode-se encontrar em diversos pases. Criada em 1954 por um funcionrio pblico britnico chamado Gerald Gardner, 
depois que foi abolida a Lei de Bruxaria britnica. Afirmava que esta religio ,da qual era um principiante, era uma relquia moderna de uma antiga pratica relacionada 
com a bruxaria que havia existido em segredo durante milhares de anos e originou o paganismo e pr-cristianismo da Europa. 
6 Na mitologia irlandesa, a deusa Airmed era uma dos Tuatha D Danann. Junto com seu pai Dian Cecht e seu irmo Miach, curava os feridos na segunda Batalha de Magh 
Tuiredh. Ela recorria e organizava erva que cresciam na tumba de Miach, e por essa razo era associada a herbolarios.junto com seu pai e irmo, era uma das feiticeiras 
cujo conjuro, entoado sobre o poo de Sline, era capaz de ressuscitar os mortos.
7 Grandes armazns famosos da cidade de Nova York. 
8 Katas: artes marciais
9 Buffy a caadora de vampiros. Filme escrito e produzido em 1992 por Joss Whedon.
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Trilogia do Crculo I                                                                                                                                            
Cruz de Morrigan



                                                                                                                                                                 
Nora Roberts
